Disgusting
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Nathan andava pelas ruas, tinha saído do seu apartamento à algumas horas, as pessoas lançavam-lhe olhares tortos e continuavam a caminhar. Ele tinha o cabelo desarrumado, a roupa desalinhada e os olhos vermelhos pelo choro.
Ele avançava sem ver por onde andava, a sua mente ainda estava entorpecida pela descoberta de um verdadeiro pai que lhe foi sempre escondido, por ter morto alguém, mesmo que Oswald não pudesse ser considerado alguém — ele era um monstro, nada mais — mas não se arrependia, e pela morte da sua mãe.
Levantou a mão e voltou a acariciar a lua do seu colar, “Nathan, meu amor, tem de ser forte, eu amo-te mais que tudo…”, forte, Nathan tinha de ser forte, não podia desistir!
Fechou os olhos e inspirou profundamente. Tinha de ir ter com o pai, tinha de lhe contar o que acontecera, talvez o homem o aceitasse como filho, mas Nathan tinha medo… Ele tinha 21 anos, o que quer dizer, que nesses 21 anos, o seu pai podia ter tido filhos, feito uma família, e Nathan não queria chegar lá e estragar tudo com a sua presença…
Retirou o cartão com o nome, “Layton Garret”, do bolso do casaco e olhou para o endereço, e por alguns momentos não fez nada, só olhou… Até que mudou de direção e decidiu começar a avançar. Era na outra cidade, iria demorar um dia se conseguisse algum transporte, senão, teria de caminhar por dois dias, o que ele não sentia vontade nenhuma de fazer…
— Eu vou conseguir! – murmurou, decidindo ignorar as preocupações.
Nathan passou por uma lanchonete e sentiu um cheiro delicioso partir dela e o seu estomago apertar com fome, afinal não comera nada desde o almoço e já era tarde na noite. Tirou a sua carteira e viu que só tinha dinheiro para um pão, se quisesse apanhar um táxi para a próxima cidade. Suspirou e adentrou na lanchonete, olhando para os pães e doces que estavam na vitrine.
Acabou por pedir o mais barato, mas mesmo assim não deixou de “babar” para todos os bolos que lá estavam.
Quando estava prestes a sair da lanchonete, sentiu uma forte dor no fundo das costas e no seu ventre, junto com um solavanco no seu estomago. Correu para o WC da lanchonete e acabou por vomitar o que não tinha no estomago. Gemeu e limpou a boca, olhando para o que acabara de comprar, perdendo totalmente a fome.
Guardou o pão na sua mochila e saiu rapidamente da lanchonete, quando o cheiro antes gostoso, se tornou repulsivo.
Desceu a rua, agarrado ao ventre que ainda doía, “O que se passa?”, “Porque doí?”, “Um shifter não fica doente…”, “Será que ele me quebrou ao ponto de nem as minha capacidades shifter me corarem? Não, isso é impossível!”, todos esses pensamentos cruzavam a sua cabeça, que já começava a desenvolver uma certa dor, não sabia o que se passava, mas tentava procurar respostas.
“Será que…” Nathan olhou para o seu ventre e sacudiu a cabeça. “Não, é impossível, afinal ele é um homem…”, sacudiu a cabeça e fez sinal a um táxi que passava na rua.
Entrou e deu a direção ao condutor, que franziu o cenho mas não disse nada, apenas assentiu e começou a dirigir.
Nathan encostou-se ao banco e encolheu-se, parecendo mais pequeno do que era, observou as luzes que passavam pela janela e as pessoas que corriam de um lado para o outro, sorrindo e falando alegremente com amigos ou familiares. De noite a cidade ficava sempre diferente e alegre, o que o tornava mais triste, porque todos estavam felizes, ninguém tinha um monstro como padrasto, ninguém vira a sua mãe morrer, ninguém estava sozinho… Ele não queria, mas acabou por deixar uma lágrima solitária escorrer pelas suas faces, enquanto uma fina garoa começava a cair sobre a vida noturna da cidade. O pequeno sorriu tristemente, parecia que até o céu tinha pena dele, e exprimia a tristeza que o consumia no seu lugar, molhando todos e deixando um leve vazio para trás.
Nathan fechou os olhos e acabou por adormecer ao som da chuva nos vidros do carro.
***
— Menino! Ei, menino! Acorde! – O taxista sacudia Nathan, que ainda dormia.
O pequeno gemeu levemente e abriu os olhos violetas, ainda turvos, e fixou-os no condutor, sem entender bem o que se passava.
— Oh deus! Que bom que já acordou! Sabe que eu tenho trabalho a fazer? Não é o único a precisar de caronas! – o motorista reclamou – Vamos garoto! Se apresse! São 20 dollars! – o homem olhou-o severamente quando Nathan assentiu lentamente.
O pequeno suspirou e pagou ao homem, saindo do táxi que partiu rapidamente, derrapando na estrada molhada . Nathan olhou para o céu com o esgar, a chuva ainda caía e a sua cabeça e ventre doíam cada vez mais. Começou a tremer de frio, e abraçou-se com força, olhando em frente ficou boquiaberto.
Na sua frente, estava um enorme edifício moderno, todas as suas paredes exteriores estava cobertas de vidro, o que formava um enorme espelho. Toda a área em volta do prédio, estava iluminada e movimentada, e Nathan podia ver uma fila enorme para a entrada do prédio, onde estavam pessoas vertidas para a noite, todas debaixo de uma enorme cobertura enquanto aguardavam a sua vez para entrar no prédio. Nathan conseguiu captar que algumas das pessoas que estavam na fila e perto do prédio, não eram totalmente humanas, talvez seres como ele…
Nathan fungou e passou pelo lado das filas, sendo parado por um homem mal encarado, que aparentava ser segurança do local e exalava um cheiro que Nathan não consegui identificar, mas que não era humano.
—Me desculpe, mas o senhor vai ter de esperar na fila como todos os outros. – O homem disse monotonamente, como se situações como aquela fossem ocorrentes.
— Mas eu tenho de entrar! – Nathan exclamou.
— Desculpe, mas terá de esperar na fila. – O homem repetiu.
Nathan estremeceu quando outra onda de dor o passou e soltou um leve gemido, enquanto algumas pessoas na fila olhavam para ele com desdém e outras cochichavam algo sobre, “Algum vagabundo que quer entrar na festa”.
— Por favor, eu tenho de me encontrar com Layton! — Ele pediu e alguns dos “espectadores” do seu debate olharam-no com mais atenção, e o guarda olhou para ele com algum interesse, logo mascarado pelo profissionalismo.
—O que alguém como você teria a tratar com o senhor Garret? – O guarda arqueou uma sobrancelha com desdém.
Nathan grunhiu em desgosto.
— Por favor, eu tenho mesmo de o ver! – Nathan avançou para a entrada. – Ela disse-me para vir aqui!
O guarda agarrou os braços dele e impediu-o de passar. Algumas das pessoas sussurraram admiradas com o “garoto insolente” que parecia queria entrar de qualquer maneira.
— Desculpe, cachorro, mas não me interessa o que lhe disseram, o senhor Garret não tem nada a ver com um moleque qualquer todo molhado e com cheiro de sangue. – O guarda sussurrou violentamente. – Volte para o seu buraco e não apareça novamente aqui!
Nathan estremeceu, o guarda não era definitivamente humano e suspeitava que seja o que ele fosse, não deveria gostar de shifters.
— Por favor… — choramingou enquanto a dor voltava mais forte que nunca, tanto física como emocional, e os seus olhos turvaram .
O guarda apertou o braços de Nathan mais fortemente, e parecia pronto a dizer mais alguma coisa quando outro pequeno homem loiro apareceu por trás dele e poisou uma pequena mão no seu braço.
— Albert, o que se passa aqui? – O loiro perguntou levemente – Dá pra sentir esta desordem lá dentro… — disse calmamente.
Albert largou Nathan e olhou nervosamente para o loiro que acabara de chegar.
— Scott. – cuspiu e inclinou a cabeça, a contra gosto, em sinal de respeito – Este “senhor” diz que quer falar com o Senhor Garret. – explicou, referindo-se a Nathan com certo desprezo.
Nathan não compreendia o porquê do outro parecer nutrir tal “desgosto” por ele quando nem se conheciam, talvez fosse alguma coisa da espécie dele, mas a mãe de Nathan nunca lhe disse muito além do essencial sobre as suas origens paranormais.
O pequeno de olhos lilás voltou a gemer levemente e levou as mãos ao ventre, atraindo a atenção do loiro, Scott, que o olhou com alguma curiosidade.
— O que quereria com o meu companheiro? – ele perguntou ao pequeno que respirava pesadamente.
— Ela… A minha mãe disse que eu tinha de vir aqui… — Nathan respondeu com a voz baixa.
— E você é… – Scott divagou, procurando descobrir o nome do pequeno.
Nathan olhou para Scott e perguntou-se se ele não iria fazer o mesmo que o outro, afinal, conseguia sentir alguns traços de um cheiro semelhante ao de Albert nele, mas mais doce.
— Nathan… -murmurou enquanto outra onda de agonia o percorria, fazendo-o estremecer e gemer fracamente.
Os olhos de Scott arregalaram-se, ele lembrava-se de Garret ter recebido recentemente um pedido de uma conhecida dele, que dizia ter tido um filho Garret, fruto de um caso passado, e que precisava da sua ajuda. Pelo que sabia, o filho do seu companheiro chamava-se Nathan, então, muito provavelmente, este era o menino... Quando o ouviu gemer, aproximou-se e tocou-lhe na testa.
— Você está a arder em febre! – exclamou e pegou no braço do menino, puxando-o para dentro do grande edifício, e ignorando o que um insatisfeito Albert grunhia na porta sobre “submissos que começavam a pensar ter poder”.
Nada lhe dizia que aquele era mesmo o filho do seu companheiro, mas não deixaria aquele menino na porta quando parecia tão doente. Nathan voltou a gemer e olhou para Scott num pedido de ajuda.
—Acho que é ele, é bastante parecido com o que era quando mais novo… Mas de qualquer forma, o traga, ele precisa de ajuda, quando estiver com ele vou conseguir descobrir logo isso. — O companheiro de Scott, Layton, falou na mente do loiro através da ligação que companheiros verdadeiros tinham.
Scott concordou e entrou com o menino no elevador, levando-o para o seu apartamento, que ficava na cobertura do grande edifício.
— Vamos, estamos quase lá… — Scott murmurava docemente enquanto Nathan se encolhia ainda mais, com ambas as mãos no ventre, e soltava constantes gemidos de agonia.
Nathan escutava Scott ao longe, e sabia que este o estava a tentar ajudar, mas a sua dor e medo do que estava a acontecer deixavam a sua mente confusa num turbilhão de questões. “O que se passa? O que se passa?” perguntava-se, sem esperar uma resposta real. A sua cabeça pesava e parecia que pequenas agulhas eram espetadas diretamente no seu cérebro, e o seu ventre agonizava como se quisesse expulsar qualquer coisa enquanto o enjoo crescia.
— Scott! – uma voz chamou quando as portas do elevador se abriram, dando acesso direto para a entrada do apartamento. – O que se passa? – aquela voz estranhamente reconfortante parecia preocupada.
— Eu não sei! Ele estava na entrada e queria falar com Layton, trouxe-o porque parecia estar muito mal… — Scott explicava enquanto ajudava Nathan a entrar na casa.
Nathan abriu levemente os olhos e inspirou profundamente quando se deparou com um ser de brilhantes olhos verdes e cabelos castanhos. Sentiu o seu corpo formigar e esqueceu brevemente a sua dor quando se perdeu nas profundezas daqueles olhos, e o seu animal ficava em alerta enquanto arranhava e dava voltas inquietas. O seu ultimo pensamento antes da dor voltar com força e o fazer desmaiar foi, “companheiro…”, enquanto era amparado pelo homem que o olhou com aquecidos olhos verdes.
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