Disgusting
10 Capítulo 10
Frio e húmido.
O chão era de pedra e só havia uma janela pela qual não entrava quase luz nenhuma, deixando um corpo pequeno que estremecia no meio do chão cercado por escuridão total. Cabelos loiros como o ouro estavam sujos e emaranhados, escondendo belos olhos azuis que olhavam em todas as direções cheios de medo e pavor. O corpo estava nu e marcado por hematomas e cortes em toda a pele de porcelana que se agarrava aos ossos. Um corpo sem vida que se esqueceu do próprio nome e do significado da palavra felicidade.
"O mestre está a caminho...", "hoje vou ser bom, talvez me deixe comer um pouco de pão... " eram alguns dos pensamentos que passavam pela sua mente quebrada. O instinto governava os seus atos e a sua mente vagueava, tentando alcançar o vínculo quebrado que o ligava àquele que, anos atrás, achou que o amaria para sempre...
Sentia que o outro se aproximava cada vez mais, e o seu coração saltou uma batida com o medo que lhe gelou o sangue. Era quase impossível acreditar que houve um tempo em que o seu coração saltava batidas felizes, inchado com o amor que sentia pelo seu companheiro, mas agora tudo isso fora substituído por puro terror.
Encolheu-se, abraçando as suas pernas e tentando se aquecer do frio que reinava naquele quarto e parecia segui-lo para onde fosse. Frio que não o abandonava nem quando o seu mestre permitia que dormisse na sua grandiosa cama confortável.
Ouviu passos pesados no corredor, e quando estes pararam em frente à porta de madeira que o separava do resto do mundo, abriu os olhos que nem percebera que fechara, olhando em frente cegamente. A porta foi aberta e olhos gelados focaram-se nos seus. Agora que estavam tão próximos, o pequeno ser conseguiu sentir o desgosto e raiva que parecia emanar do outro em ondas quase palpáveis. Os olhos que costumavam ser de um azul claro e glacial ferviam com o ódio, tornando se num azul escuro que faziam o pequeno loiro tremer.
Os dois ficaram mergulhados num silêncio pesado, com um pensando em como poderia possivelmente escapar, e o outro formando planos negros e enfurecidos. O homem que acabara de chegar ao quarto que aparentava ser uma prisão deve ter decidido o que queria fazer, porque os seus lábios curvaram-se num sorriso doentio e deu um passo em direção ao que tentou rastejar para mais longe.
— Hum... meu lobo... — o homem suspirou chegando mais perto do pequeno ser que se afastava cada vez mais, sangrando das feridas antigas nos joelhos e mãos — Onde pensa que vai? Estou precisando da minha dose de companheiro! — resmungou ajoelhando-se em frente ao outro, quando o loiro chegou à parede e não tinha mais para onde ir.
— Mestre… — o pequeno choramingou.
O Mestre aproximou-se do ser frágil, cheirando e lambendo o seu pescoço. Uma grande mão agarrou os cabelos loiros, arrancando uns quantos devido à violência, e puxou a cabeça do menor contra a parede para poder morder e chupar o pescoço frágil, que mais tarde ficaria marcado em tons de roxo e de vermelho. A outra mão deslisou pelo torço marcado, arranhando e cobrindo as marcas antigas com novas linhas vermelhas, até que chegou à cintura magra, saltando para o pénis flácido, que prontamente apertou, ignorando o gemido doloroso que o loiro, tonto da pancada contra a parede, soltou.
— Hoje vi umas coisas que me chatearam, e me deixaram com muita fome… — queixou-se enquanto o outro choramingava. – Por isso tive que vir ter com o meu escravo, vai me ajudar não vai? – perguntou, como se testasse o outro
— S… Sim mestre… — o loiro respondeu por entre lábios partidos e olhos cheios de lágrimas por derramar – Eu sou seu… Hoje fui um bom menino… — murmurou enquanto envolvia os braços em torno do pescoço do maior. – Me deixe saciá-lo… Preciso…
O Mestre arrastou os dentes pelo pescoço do outro, passando pela mandibula e deixando marcas, até pairar com a sua boca em cima da do loiro, olhando fixamente para os olhos âmbar que o fixavam cegamente.
—Vocês shifters são umas pequenas putinhas necessitadas não são? Ou serão só os lobos? – Mestre divagou com a voz carregada de ódio.
O loiro prendeu a respiração, sabendo que tinha feito qualquer coisa de errado, e suprimiu um gemido de dor quando Mestre mordeu o seu lábio, arrancando sangue.
— Nunca podem deixa as suas mãos para si mesmos pois não? – Mestre gritou.
O corpo frágil foi virado de forma rude. A cara ensanguentada com o sangue que saía do lábio mordido foi prensada contra a parede, sendo segurada pela mão que se recusava a largar os cabelos. Um barulho metálico ecoou no quarto e as mãos do lobo foram bruscamente puxadas para as suas costas e amarradas por um cinto que antes estava nas calças, agora abertas, do Mestre.
— Mas você é só meu não é? O meu escravo que faz tudo o que eu digo! – exclamou com uma voz quase maníaca. – Vai saciar a minha fome!
Como se para provar que o que disse era verdade, Mestre espetou o seu pénis contra a entrada do shifter, entrando de uma só vez, sem preparação nem lubrificação. O loiro abriu a boca num grito mudo enquanto a sua cabeça era puxada para trás e lágrimas dolorosas escorregavam pelas suas bochechas ocas.
—Hum… gema para mim vadia… — Mestre sussurrou, começando a mexer os quadris num passo rápido e brutal, sem dar tempo ao outro para se adaptar à espessura que o enchia. – Gema! – ordenou, quando o outro não fez barulho.
Sangue desceu pelo pescoço do loiro quando Mestre mordeu a sua orelha, fazendo com que o pequeno choramingasse pela dor que sentia em todo o seu corpo e no seu coração.
— Se sente tão bem apertado à minha volta… — Mestre gemeu empurrando o outro mais contra a parede e espetando os dedos na sua cintura, fazendo com que o pequeno chorasse mais.
Pensamentos perdidos voavam na cabeça do loiro, queria fugir e chorar, mas o seu lobo, por mais ferido que estivesse, não conseguia se afastar do seu companheiro destinado, mesmo que Mestre o tenha traído tantas vezes e desejasse outro homem, a lealdade do seu lobo não se quebrava... A única maneira de fugir seria acabando com a sua própria vida… pensou sombriamente.
— Shhh… Não pense em nada… — Mestre murmurou, acalmando o seu ritmo dos seu quadris, passando a um ritmo quase amoroso, e acariciando os cabelos dourados – Você é meu, só meu… — sussurrou enquanto beijava os seus ombros e pescoço amorosamente. – Meu Allen, nunca me vai abandonar pois não?
O loiro estremeceu, deixando-se aquecer pelas palavras do seu mestre. Allen. Mestre usara o seu nome… Ele o chamou de Allen! Isso só poderia significar que Mestre ainda o amava certo? Que ele se importava com ele e com a sua ligação de companheiro.
—Sim, sim… seu, só seu! – Allen respondeu – Também te amo Mestre! Por favor… — implorou, sendo interrompido pelas mãos que se apertaram em volta do seu pescoço, impedindo-o de respirar.
— Hum vadia, achou que alguém amaria o seu corpo que só pensa em sexo? – Mestre gritou, voltando ao ritmo violento – Vocês lobos acham que podem ter todos os que querem na sua cama! – Mestre bateu na cara de Allen e voltou a puxar os seus cabelos. – Você é como aquela nova vadia que levou o meu verdadeiro companheiro de mim! E agora eu tenho que me alimentar de você, um impostor!
Allen sentiu o seu coração quebrar em mil pedaços e o seu lobo choramingar quando o seu companheiro negou a sua ligação. Ele se detestava por ainda se sentir assim, depois de tudo o que Mestre lhe tinha feito nos últimos 3 anos, mas o seu coração não ligava ao que a sua mente lhe dizia, e Allen continuava a ter esperanças sempre que o seu companheiro era um bocado mais carinhoso, mesmo que sempre o machucasse logo depois.
— Oh sim…. Meu companheiro… — Mestre gemeu, batendo os seus quadris com mais força contra a coxas frágeis de Allen – Hum… Enganado… Ele está sendo enganado…. – murmurou, mordendo logo a seguir no ombro de Allen. – Dimitri…
Liquido quente encheu o buraco de Allen, preenchendo-o com repugnância. Mestre continuava pensando em Dimitri, achando que o outro homem era o seu companheiro em vez de Allen… Mestre afastou-se do corpo usado que estava à sua frente, e liberou as mãos de Allen, metendo o cinto de novo nas suas calças.
— Ah, você em fim serviu para alguma coisa! – exclamou, batendo com o pé nas costelas do pequeno fazendo com que este batesse contra o chão. – Me sinto muito mais forte! E decidi que vou tratar do verme que está a cegar o meu verdadeiro companheiro, espere só um bocado que eu vou lhe trazer um companheiro de quarto boneca… Ele também é um lobo, talvez vocês dois possam fazer juntos coisas de vadias! – riu enquanto saía do quarto prisão, deixando o outro no chão sem olhar duas vezes para trás.
Allen ficou tremendo no chão. Fixando com olhos mortos o teto da sua prisão. “Parece que não fui um bom menino… Nem comida recebi…” pensou tristemente. O seu corpo tremia e uma ultima lágrima desceu pelo seu rosto.
— Albert…- foi a palavra que escapou dos seus lábios.
Mestre… Albert…
O seu companheiro… o seu primeiro amor… Aquele que o enganou e que abusou dele… Albert, o homem de prometeu o proteger de tudo, mas que foi o primeiro a o atacar logo que ficaram juntos.
Allen soltou um suspiro tremulo. Não podia fazer nada, só podia fechar os olhos e esperar que as suas feridas se curassem um pouco mais rápido. Fechar os olhos e tentar dormir, enquanto sentia sangue e sémen a escorrerem do seu buraco e molhar as suas coxas…
Albert…
***
Nathan acordou de repente. A lua ainda brilhava no céu, não se deviam ter passado nem 2 horas desde que adormeceram, mas um sentimento desconfortável começou a criar-se no seu coração.
Mãos quentes esfregaram o seu corpo, fazendo-o arrepiar-se com os toques fantasma que ainda sentia, o seu ser ainda a vibrar pela conexão formada com o seu companheiro mais cedo.
—O que se passa? — Dimitri sussurrou na orelha de Nathan, fazendo-o tremer ainda mais.
O incubo acordara com o desconforto de Nathan, mesmo sendo companheiros, o vinculo ainda não era muito forte e só conseguiam sentir fortes emoções e quando estavam perto um do outro, o que deixava Dimitri aborrecido, porque não conseguia saber a causa do desconforto de Nathan, para poder acabar com ela e deixar o seu pequeno feliz.
—Não consigo dormir… — respondeu tentando ignorar a sensação — Acho que preciso do meu copo de água nocturno. — brincou sentando-se na cama.
—Eu vou consigo — Dimitri puxou os lençóis, fazendo Nathan passear os olhos pelo seu belo corpo beijado pelo luar. — Nathan?
O pequeno mestiço sentiu a sua face aquecer com a vergonha de ser apanhado "no ato".
—Hum… Deixe estar. — riu desviando o olhar — Eu posso ir sozinho. — sorriu docemente vendo o olhar cansado de Dimitri
—Eu posso ir…
Dimitri tentou insistir, mas Nathan saltou da cama e empurrou-o para baixo, fazendo-o voltar a deitar-se. O pequeno riu e deu um selinho nos lábios do seu companheiro.
—Vou só até à cozinha e volto rapidinho! Dê-me 10 minutos e vou estar de volta na cama ao seu lado! — sorriu olhando profundamente para os olhos verdes de Dimitri, tentando passar-lhe a sua segurança — Sabe que eu não sou de vidro, já passei quase 18 anos indo buscar copos de água sozinho, mais um não me vai matar! — brincou passando a mão no peito do maior. — Para alem do mais, o que é que me poderia acontecer no trajecto entre o quarto e a cozinha? — riu — Fique e durma mais um pouco, posso ver que precisa….
—Okay… — Dimitri acenou agarrando uma almofada e esfregando a sua cara na mesma — Mas seja rápido, não vou conseguir dormir bem sem o seu corpo contra o meu… — insinuou passando a mão na cintura de Nathan
—Sim senhor. — Nathan riu afastando-se da cama e indo em direcção à porta. — Eu volto rapidinho! — exclamou saindo do quarto.
Enquanto a porta se fechava, Nathan ouviu Dimitri rir e resmungar numa voz cansada qualquer coisa sobre manter promessas, o que o fez voltar a rir.
O pequeno chegou à cozinha e pegou num copo de agua, olhando pela janela para os carros que passavam na rua a baixo nas primeiras horas da madrugada. Aquela sensação de mal estar que não o deixava dormir voltou e ele apertou o copo, tentando perceber de onde vinha aquele sentimento.
Tomou respirações profundas e tentou acalmar-se tocando no colar que a sua mãe lhe tinha dado. Mas tudo o que os seus dedos tocaram foi a pele do seu pescoço… O colar tinha desaparecido.
Nathan tinha a certeza que tinha o colar antes de Layton o levar para a piscina, era impossível que o colar tivesse desaparecido!
—Onde… — sussurrou, tentando lembrar-se da ultima vez que sentira o colar contra o oco da sua garganta.
Na cobertura… Quando foi com Layton para a cobertura, Nathan tinha o seu colar. Será que o perdeu quando aquilo aconteceu?
Olhando na direcção do quarto onde Dimitri o esperava, e esfregando o seu pescoço, Nathan suspirou e começou a andar em direcção à cobertura, ignorando aquela voz no fundo da sua mente que lhe dizia para voltar para os braços do seu companheiro e esperar pela luz do sol para procurar o seu colar.
Parou em frente às portas que se abriam para a pequena "floresta" que era a cobertura do edifício. Respirou fundo e abriu a porta, decidido a encontrar a ultima ligação que tinha com a sua mãe.
Quase voltou correndo para a cama e para o seu companheiro. Sobras estendiam-se por entre todas as árvores e plantas do enorme jardim. A luz ocasional da lua, que conseguia escapar às nuvens, era reflectida pela piscina, enviando feixes de luz dançantes pela floresta. Folhas mexiam-se com o vento e criavam uma sinfonia sinistra e cativante, fazendo com que o pequeno lobo quisesse ficar mais um pouco para ouvir todas as notas de tal melodia, mas ao mesmo tempo, todos os seus pelos do seu corpo se levantavam e arrepios corriam a sua espinha, como se fosse a corsa inocente que é caçada pelo lobo mau.
Olhou em volta, tentando absorver todas as sombras e encontrar a pequena lua ametista que procurava. Querendo fazer nada mais do que sair daquele lugar que estava a começar a assustá-lo. O seu lado mais selvagem estava inquieto, sentia que o seu lobo andava em círculos, desconfortável, dizendo-lhe que alguém o observava. Mas Nathan não queria deixar a paranóia tomar controlo das suas acções, era tão tarde.. Era impossível que alguém estivesse ali com ele, ele mesmo só ali tinha ido porque não encontrava o seu colar!
—Sozinho…. Estou sozinho, não está aqui mais ninguém… É só a sua imaginação…. — murmurou, tentando acalmar-se.
Foi nesse momento que viu qualquer coisa a brilhar no chão, perto da piscina. Correu até lá e deixou-se cair de joelhos no chão, agarrando o fio no chão. Quando o pegou sorriu assim que viu a pequena lua da cor dos seus olhos que brilhava sob a luz do luar. Colocou o colar em volta do seu pescoço e afagou a lua com o seu polegar, sentindo uma sensação de serenidade tomar conta do seu corpo e um leve sorriso premiar os seus lábios. Deixou escapar a respiração que nem percebera que tinha prendido e começou a se levantar. Foi nesse momento que ouviu um ramo estalar nas suas costas. Quando se virou, viu olhos azuis gelados e penetrantes, carregados de ódio e raiva, e um sorriso de escarnio, logo a seguir, sentiu uma dor na parte de trás da sua cabeça.
— Dimitri…— foi o último pensamento que cruzou a sua mente, tentando alcançar o seu companheiro, antes e o mundo ficar negro á sua volta e apagar completamente.
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