Disgusting

11 Capítulo 11


Nathan gemeu. Uma dor excruciante atravessou o seu corpo como um terremoto, tendo como epicentro o seu crânio, mas alastrando-se até à ponta dos seus dedos. Abriu os olhos, mas tudo o que via era escuridão. Piscou os olhos, tentando que estes se adaptassem à sala pouco iluminada.

A primeira coisa que fez, foi olhar para si mesmo, tentou se mexer, mas a dor era tanta que o movimento não resultou em nada mais do que lágrimas e gemidos. Do que conseguia ver, tinha o corpo coberto de manchas roxas e vermelhas, estremeceu engolindo o choro e tentou observar o local onde estava.

Sobressaltou de leve quando olhos sem vida se fixaram nas suas ametistas. Nathan sentiu o seu sangue gelar e o seu coração apertar. Não, não sentia medo. Muito longe disso... Os olhos azuis opacos, que um dia deviam ter sido tão belos e brilhantes, não transmitiam emoção nenhuma. Como se o pequeno jovem que estava do outro lado da sala escura tivesse perdido todo o seu interesse na vida, como se o seu coração tivesse sido partido tantas vezes que os pedaços já não encaixavam uns nos outros.

Nathan abriu a boca para dizer qualquer coisa. Mas o que poderia dizer? Conseguia ver no olhar do outro, o mesmo que via não há muito tempo quando se olhava no espelho. Uma alma quebrada e sem esperança, querendo ser amada, mas sabendo que tal coisa nunca poderia acontecer... Agora era diferente, conheceu o seu companheiro, e sabia que tinha pessoas à sua espera e que deviam estar, neste preciso momento, à sua procura. Companheiro... Companheiro!

Companheiros tinham uma ligação especial! Como o seu pai e Scott! Estava acasalado com Dimitri, devia ser capaz de comunicar mentalmente com o seu companheiro, ou pelo menos, de lhe dar uma indicação de onde poderia estar. Com essa ideia em mente, Nathan fechou os olhos e concentrou-se na ligação que sentia com o seu companheiro. Conseguia sentir Dimitri como se o homem estivesse ao seu lado, mas quando tentou chegar mais perto, sentiu como se uma barreira o bloqueasse e o empurrasse de volta, como quando se estica um elástico e se larga um dos lados. Uma forte dor atravessou a sua cabeça e bile subiu à sua garganta.

A porta que separava a sala do resto do mundo abriu-se, revelando uma figura alta. Com uma expressão cheia de malicia e desdém, a figura aproximou-se até que Nathan conseguiu ver que era Albert.

— Albert.... – Nathan murmurou em dúvida. O que é que Albert estava a fazer ali?

O incubo agachou-se em frente em mestiço e agarrou no seu queixo, apertando até lágrimas se juntarem nos cantos dos olhos do outro, que reprimiu um grito de dor.

— Hum... – Albert sorriu – Estou a ver que o nosso convidado acordou! – Exclamou enquanto empurrava a cabeça de Nathan contra a parede em que este se apoiava. – Não queria deixar a minha cadela muito tempo sozinha, ela começa a ficar aborrecida sabe? Ah! Imagino que não foram apresentados... Esta, – inclinou a cabeça na direção do corpo encolhido no outro canto da sala –, é a minha cadela, chama-se Allen. Vê querido, eu trouxe-lhe companhia, como prometi! – olhou para Allen com um largo sorriso. – Ele insiste que somos companheiros, parece que não aceita que o meu verdadeiro companheiro é Dimitri. Falando nisso.... – O olhar gélido voltou-se para Nathan outra vez. – Parece que você também não...

Nathan viu que o outro tremia sobre o escrutínio de Albert, e quando a atenção voltou para sim, estremeceu. O pânico inundou-o quando foi fixo pelo ódio e loucura que pareciam consumir o interior de Albert. Numa tentativa desesperada voltou a tentar alcançar a mente do seu companheiro, mas a dor resultante fê-lo choramingar inconscientemente.

— Ahah – ouviu Albert rir — Tentou contactar Dimitri? – desdenhou, largando finalmente a sua mandibula, para se poder levantar – Não, não. A sua mente perversa não vai tocar na de Dimitri! – repreendeu como se falasse com uma criança – A minha boneca aqui, que está destinada a passar toda a sua vida a me servir, criou uma espécie de veneno... Sabe? Ele também é um lobo, e vocês lobos, têm uma hipersensibilidade extrema na ligação com os seus companheiros... E o pobre, não aguentava me ver a seduzir outros homens! – disse fazendo gestos exagerados – E então, como ele não aguentava mais estar ligado a mim quando eu estava com outros , e era cobarde demais para acabar com a sua miséria, – Albert secou uma lágrima imaginária – criou uma droga que consegue quebrar a nossa ligação durante algum tempo. E adivinhe o que eu lhe dei enquanto estava dormindo? Bingo! – Albert bateu palmas – Ah! Só tenho de o avisar sobre uma coisa... Eu nunca perguntei nada sobre essa droga, por isso não sei quais são os efeitos que ela pode ter em quem a toma. Mas posso lhe dizer com toda a certeza, que o meu doce Dimitri não vai sentir nada! – cantarolou enquanto saía da sala.

***

Dimitri acordou num sobressalto. Não sabia quando tinha adormecido... Sentou-se na cama e bocejou notando na ausência de calor ao seu lado. Pousou a mão na cama e sentiu que os lençóis estavam frios, o que significava que o seu companheiro já tinha saído há algum tempo. Franziu o cenho achando isto estranho, mas pensou que não era nada, ele podia simplesmente ter ido ao banheiro, mas... Onde estava Nathan quando Dimitri adormeceu? Estava consigo na cama?

Lembrava-se de falar com o seu pequeno companheiro e de estar à sua espera quando este foi buscar água para beber. Quando achou que estava a demorar demasiado para um simples como de água, levantou-se e saiu do quarto, indo em direção à cozinha.

"– Dimitri! – virou-se quando ouviu o seu nome ser chamado.

Viu Albert no fundo do corredor, sorrindo e acenando enquanto se aproximava.

— O que está a fazer aqui? – Albert perguntou quando estava próximo, talvez próximo demais.

— Estava á procura do meu companheiro... – viu um brilho estranho nos olhos do outro, quando mencionou a palavra "companheiro", mas ignorou pensando que era um jogo da luz da lua. – Não o viu em lado nenhum.

O lábio superior de Albert estremeceu numa leve expressão de escárnio que rapidamente foi substituída por uma expressão de preocupação absoluta que fez Dimitri se sentir nauseado.

— Oh querido.... – Albert poisou a mão no bicep nu de Dimitri – Eu vi o ve, – parou repentinamente de falar, abanando a cabeça levemente e esfregando a mão no braço de Dimitri, que sentiu um pelos se eriçarem – Quero dizer, eu vi Nathan descer para a entrada do clube... Ele disse que precisava de ar. – mentiu.

Dimitri sentiu os seus músculos enrijecer e o sangue escapar da sua cabeça, ficando levemente tonto. Ele não podia deixar o seu companheiro sozinho! E se alguma coisa lhe acontecesse? Sentiu um aperto no peito e o seu coração a bater freneticamente. Tinha de o proteger, alguma coisa podia dar errado.

Começou-se a virar para as escadas, mas a mão que estava no seu braço fechou-se, como se garras o prendessem.

— Não se preocupe querido, é só a entrada do clube, ele não se vai perder. – Albert riu, passando a mão no peito de Dimitri.

Dimitri olhou para a mão no seu peito com o cenho franzido, sentindo os seus pensamentos um bocado perdidos. Albert sempre foi alguém muito táctil, mas desde que Dimitri o rejeitou, este ficava só pelos toques no braço, o encostar de ombros ocasional.... Íncubos eram criaturas que precisavam de toque, mesmo entre amigos e conhecidos, mas quando sabiam que alguém estava acasalado, evitavam o toque por respeito aos companheiros.

— Albert – Dimitri rosnou agarrando na mão que esfregava o seu peito e a afastando. – Eu sei que pode ser recente, mas agradecia que não fosse tão amigável comigo, sabe que eu encontrei o meu companheiro.

Albert olhou para baixo, deixando os braços caírem e fechando as mãos em punhos. Sentiu o ódio e o noje pelo verme que tinha contaminado o seu Dimitri ferver dentro do seu ser. Mas, levantou a cara e sorriu docemente.

— Eu percebo, me desculpe. – corou – Sabe como eu sou, vou tentar ter mais cuidado!

— Hum – Dimitri bufou, olhando de lado para o outro, com desconfiança – Agora vou buscar o meu companheiro. – deu um passo, mas sentiu uma onda de tontura que o fez se agarrar à parede, enquanto Albert olhava para ele preocupado.

— Dimitri! Parece cansado! Por favor vá para o seu quarto, eu vou avisar Nathan que você está à sua procura! – ofereceu.

— Mas... – Dimitri tentou protestar, mas sentiu o seu corpo começar a pesar toneladas, como se não dormisse há dias.

— Shhhh. Deixe-me ajudar!

Albert começou a empurrar Dimitri em direção ao seu quarto, encostando-o á porta.

— Não diga mais nada! Entre no quarto e deite-se! Eu vou atrás de Nathan. – Albert disse com uma expressão que o cérebro confuso de Dimitri não conseguiu decifrar.

Dimitri sentiu-se assentir, sem conseguir verdadeiramente pensar ou controlar os seus movimentos. Viu-se abrir a porta do quarto como se não controlasse o seu próprio corpo, e atirou-se na cama. Ouviu a porta fechar, mas não viu a expressão de pura malícia que Albert ostentava enquanto partia. A última coisa que se lembra é de sentir o seu braço coçar e ser derrotado pelo sono."

Dimitri agarrou o seu braço. Albert, é verdade, ele encontrou Albert! Ele deve ter ido buscar Nathan, e o pequeno simplesmente acordou mais cedo e saiu da cama, certo?

Mas... Quanto mais repetia os eventos da noite anterior na sua cabeça, mais sentia que alguma coisa estava errada. Depois de Albert lhe ter tocado no braço, alguma coisa acontecei consigo. Como se não fosse ele mesmo... Dimitri deveria ter ido encontrar o seu companheiro, não se deitar e dormir como se nada tivesse acontecido, sem ter certeza que o seu companheiro estava bem!

Apertou o seu braço, sentindo comichão.

Fez algo que, por mais estranho que pareça, não fez ontem. Eram acasalados, agora tinham uma ligação mental, quando soube que Nathan não estava na cozinha, devia ter logo tentado contactar o seu companheiro pelo vínculo que partilham! Estendeu a sua mente em direção à presença de Nathan, mas deparou-se com uma parede.... Era mais como uma névoa que não o deixava alcançar o seu companheiro, só o deixava sentir dor e medo.

Sentiu o seu estomago afundar e o seu coração apertar. Tinha acontecido alguma coisa. E suspeitava que Albert tinha uma mão nisso.

Dimitri respirou fundo e levantou-se, se tinha acontecido alguma coisa ao seu companheiro... O mundo ia sofrer, ninguém toca no seu companheiro sem pagar um preço.

***

— Como assim ele desapareceu? – Layton vociferou.

A primeira coisa que Dimitri fez quando percebeu que algo não estava certo, foi reunir Layton e Scott na enfermaria. O seu braço não lhe dava descanso, estava completamente vermelho. Tinha que descobrir se Albert lhe tinha feito alguma coisa, ele era um dos seus suspeitos. Ele sabia que o outro sempre teve uma fixação por si, e analisando a noite anterior, o seu comportamento tinha sido um quanto suspeito.

— Desapareceu Lay! O que é que quer que lhe diga? Acha que estou feliz? – Dimitri não aguentava, o seu companheiro tinha desaparecido, o seu braço estava-o matando e Layton decidiu que o melhor a fazer era gritar.

— Acabei de encontrar o meu filho, e você simplesmente me diz que não sabe dele e que a vossa conexão está carregada de dor? – Layton começou a andar pelo quarto.

— Sim! E ele é o meu companheiro! Acha que eu não me sinto como você?

Scott puxou a camisa de Layton e deu-lhe um abraço, o que fez o seu companheiro finalmente parar e respirar fundo.

— E agora? Tem alguma ideia do que se passou? – Layton olhou para o seu amigo.

— Talvez, primeiro preciso de ter a certeza que ele não está em nenhum lugar deste edifício. E preciso que o Doc acabe de analisar o que se passa no meu braço, ficou assim ontem à noite, depois de me encontrar com uma certa pessoa.... – Dimitri explicou com o olhar escuro.

— Eu vou tratar da busca. – Scott afastou-se de Layton fungando e limpando os olhos, mas com um olhar decidido.

— Pegue Oliver e Vincent consigo. – Layton aconselhou, apertando a mão do seu companheiro antes de o deixar ir.

Quando Scott saiu pela porta da enfermaria, o médico entrou com folhas na mão e uma expressão de desgosto na cara.

— Acabei de analisar as amostras que tirei do seu braço. – disse olhando para Dimitri, e cumprimentando Layton com um aceno.

— O que é? – Dimitri perguntou, coçando levemente o deu braço.

— É melhor não mexer no seu braço por agora. – o médico sentou-se num banco perto de Dimitri, pegando numa pomada que começou a espalhar no braço. – Isto, é a sua reação a Nematomorpha. É uma droga que circula imenso no mercado negro. O nome da droga é o mesmo que o nome de um parasita que ataca os louva-a-deus. O parasita controla o inseto, fazendo com que este entre na água e se afogue por "vontade própria". A droga tem um efeito muito parecido, uma pessoa que seja infetada vai fazer o que outra pessoa lhe disser sem questionar. Basta entrar em contacto com a droga sem estar protegido e fica contaminado. – acabou de explicar enquanto aplicava a pomada. – O que lhe estou a meter agora, vai aliviar a sua reação. A droga já não está a fazer efeito, por isso não tem que se preocupar, pelos meus cálculos, deve ter entrado em contacto com a droga durante esta noite... Com a sua capacidade de regeneração, e a ajuda da pomada, deve estar de volta ao normal daqui a uma hora.

Dimitri assentiu apertando o maxilar. Segundo o que o médico disse, não havia dúvidas que tinha sido Albert quem o contaminou.

— Ontem à noite encontrei Albert no corredor enquanto procurava pelo meu companheiro. – Dimitri ouviu Layton grunhir – Ele tocou no meu braço e comecei-me a sentir fora de controlo. É possível que tenha sido ele? – olhou para o médico, que assentiu.

Mal Dimitri acabou de falar, a porta abriu-se e Scott entrou com Oliver e Vincent, o responsável da segurança do clã e do clube.

— Não o encontramos em lugar nenhum. – Scott murmurou. – Encontrei o seu colar na cobertura... – o incubo mostrou o colar entre as suas mãos, entregando-o a Dimitri, que o agarrou como se fosse o seu bem mais precioso. Ele sabia como o colar era importante para Nathan – E .... – olhou para Vincent, acenando com a cabeça.

— Um dos seguranças não apareceu para o turno de hoje. – Vincent começou seriamente.

—Albert? – Layton questionou, ao qual Vincent acenou.

— Eu sabia que o devia ter expulso já há algum tempo.... – Layton grunhiu.

— Foi ele! – Dimitri rosnou levantando-se – Temos que descobrir imediatamente para onde é que ele levou o meu companheiro!

Dimitri saiu determinado da enfermaria, sendo seguido pelos dois casais. O pequeno era companheiro de Dimitri, e filho de Layton e Scott, para além de que, do que os membros do clã puderam ver, Nathan era uma joia... Um menino que sofrera demasiado e mesmo assim tentava encontrar a sua felicidade. Nathan More já era parte do clã. E o clã é família, e a família une-se e luta por tudo e por nada quando é necessário. Eles iam recuperar o pequeno.