Disfarces
8 Capítulo 8
Shadam recebeu o encargo de realizar compras necessárias para a pensão num mercadinho relativamente próximo. No caminho de volta, viu um carro parar perto dele. O motorista abaixou o vidro e chamou para pedir informação. Quando ele se aproximou, um rapaz ao lado do motorista estava com um revólver apontado e atirou. O coronel foi rápido, colocou a sacola de compras na frente, abaixou-se, rolou no chão, levantou-se depois e correu, desviando-se dos disparos. Voltou para casa e apresentou aos donos os produtos que permaneceram inteiros.
“Infelizmente, alguns ficaram estragados. Eu volto depois lá pra comprar o que falta.”
“O que aconteceu?” Ritsuko perguntou.
“Fui atacado...por um estranho num carro.”
“Não se preocupe com isso. Vá se recuperar do susto.”
Gara estava lavando a louça e pôde ouvir algo da conversa. Terminou a tarefa e dirigiu-se ao quarto.
“Que foi, Shadam?”
“Eu estava voltando do mercado quando um motorista me parou. Fingiu que pediu informação. Mas tinha um homem armado ao lado dele, que atirou na minha direção.”
“Ele te feriu?”
“Não, escapei. Mas não me sai da cabeça que pode ser...”
“Gorma?”
“Isso.”
“Você não prefere que eu vá contigo da próxima vez?”
“Fica tranquila, a gente resolve isso depois.”
A tenente ofereceu-se para comprar o que faltava da lista do mercado. Ela saiu à tarde, algumas horas após o almoço. Michio encontrou Shadam na varanda.
“Esta mesa precisa de reparos. Se você souber fazer...”
“Pode deixar.”
“Está precisando de reforço entre as peças de madeira. Depois eu volto para ver. Tenho um compromisso agora.”
Shadam percebeu que seria necessário colocar pregos a mais. Perguntou a Ritsuko onde havia.
“Ah, esse meu marido...Ele ficou de comprar os pregos, mas esqueceu. Faz um tempo já.”
“Não tem problema. Eu vou.”
O coronel caminhava rumo a uma loja de ferramentas, olhando para os lados, às vezes, para se certificar de que não estava sendo seguido. Também suspeitava dos carros. Pouco a pouco, foi envolvido por uma multidão que passava a comprimir-lhe na calçada. Ficou meio tonto pelo movimento desordenado das pessoas. No meio do caminho, sobrou aproximadamente uma dúzia delas, que sempre o acompanhavam. Estava começando a estranhar, quando as pessoas revelaram sua identidade de Cotpotros e o agarraram. Tentou se soltar, mas eles o seguravam com mais violência e o agrediam. Não adiantava pedir ajuda, pois os demais cidadãos corriam de medo das criaturas estranhas. Os soldados-garçons desapareceram de lá, levando-o embora.
Apareceram num galpão. Lá estava um homem em uma vestimenta preta com capuz, segurando uma foice, exatamente como na ocasião em que tentaram sacrificar Lin e algumas crianças. O local estava decorado com velas. Havia também Cotpotros munidos de fuzis. Ele ainda estava detido por soldados, quando ouviu uma voz ecoar.
“Shadam!”
“É o Imperador!” Exclamou para si. Depois gritou: “O que você quer com isso?”
“Você traiu os Gorma. Matou um dos nossos. Deixou-se levar pelo veneno dos humanos. Sua sentença é a morte!” Gorma XV riu maleficamente. “Sua luta pela sobrevivência vai ser televisionada e projetada para os membros da nossa tribo. Que sirva de exemplo para que ninguém se atreva a cometer o tão grave delito da traição.”
Os Cotpotros lançaram-no ao chão. Ele assumiu sua forma Gorma, o uniforme militar, e retirou do bolso seu punhal. Enfrentou o encapuzado, que revelou ser Tako Kanchou. Este o acertou com a foice algumas vezes e imobilizou-o com seus tentáculos, tentando estrangulá-lo. O coronel lançou lasers nele pelos olhos e soltou-se. Tako envolveu-o numa tinta que drenava seu Youryoku aos poucos. Ele sentia-se enfraquecer, mas avançou no inimigo e cravou-lhe o punhal no lado. O monstro sentiu uma certa dor, que o fez recuar, mas permaneceu de pé, e chutou o coronel no estômago. Antes ajoelhado, com o impacto, caiu desmaiado no chão.
Gara já tinha voltado para casa quando estranhou a ausência prolongada de seu parceiro. Perguntou a Ritsuko. Foi à cidade, preocupada, com uma suspeita insistente. Levou uma foto dele e perguntava aos que encontrava pelo caminho se o haviam visto. Percorreu várias ruas. Buscava não se desesperar, mas o passar do tempo só piorava a situação.
Tako aproximou-se de Shadam, que não esboçava reação. Pensou já estar morto, pegou uma espada e ia dar o golpe final, quando ele fincou o punhal no pé do monstro e desviou-se da arma. Levantou-se, formou uma esfera de energia e jogou-a contra Tako. Aproveitou que ele estava cambaleante, roubou sua espada e cravou nele. O inimigo explodiu, e as manchas de tinta desapareceram. Shadam notou rapidamente que os Cotpotros apontaram os fuzis em direção a ele. Tinham ordem para matá-lo de qualquer jeito. O coronel desapareceu de lá. Surgiu no quarto da pensão, retornando à forma humana. Deitou-se, esperando as dores passarem.
Zydos viu a luta e seu desfecho. Depois, recebeu ordem de acompanhar Yamori Shachou em novo ataque aos humanos. Encontrou Gara pelo caminho e a reconheceu. Puxou-a para um beco sem saída.
“Você tá procurando Shadam?”
“Ele desapareceu faz tempo e eu não tenho ideia de onde...” Falou com a voz embargada.
“Eu o vi, e ele já deve ter voltado para onde quer que vocês estejam agora.”
“Onde ele estava?”
“Nas mãos dos Gorma.”
O nervosismo dela aumentou e sua respiração ficou pesada.
“Ele escapou por um triz. O Imperador tem ordem para matá-lo. Vocês vão precisar de muito cuidado agora.”
Ela o abraçou. Por algum motivo, ele precisava permanecer lá. Se abandonasse, talvez sofresse o mesmo.
A tenente voltou para a pensão. Entrou no quarto e viu-o na cama. Correu para perto dele. Pegou uma caixinha de primeiros-socorros no armário e fez os curativos. Sentou-se ao lado dele na cama. Pousou a mão sobre seu ombro e aproximou-o de si.
“Eu tinha que...comprar pregos para a mesa do Sr. Sasaki.” ele falou, meio sem assunto.
“Não tem problema. Eu vou contigo amanhã. Mas não precisa ter pressa. Recupere-se.”
Pausa.
“Os Gorma me capturaram hoje.” Ele retomou. “Eu estou marcado pra morrer.”
Ela respirou fundo. “Eu vou passar a ir contigo quando você tiver que sair. Não vou te deixar sozinho.”
“Gara, eu vou morrer. Mais cedo ou mais tarde, eles vão me capturar de novo, e não vai ter volta. Você vai continuar a ter uma vida normal aqui--”
“Não. Não tem como, Shadam.” Ela pegou a mão dele e a beijou. Entrelaçaram os dedos. “Eu vou morrer contigo, se for preciso.”
“Você não precisa--”
“Mas eu quero!”
Momento de silêncio. Ele sentou-se na cama para poder conversar melhor.
“Você gosta de mim, não é?” ele perguntou.
“Eu te amo.”
“Eu já imaginava.”
“E você?”
Demorou a responder. Convenceu-se, enfim, de que nada mais devia aos Gorma, ou que não tinha de temê-los.
“Eu aprendi a gostar de você. Deve ter sido a convivência.” Sentiu que não era exatamente o que queria dizer, mas tinha dificuldade de confessar. Puxou-a de leve pelo braço e a beijou.
“É isso.” Ele disse.
Sabiam que teriam de usar disfarces diante dos humanos, mas não mais diante do outro.
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