Disenchanted Lullaby
1 Prólogo
Notas iniciais
Espero que gostem (ou não)
Os antigos e cinzentos prédios de Londres passavam por ele apenas como manchas. A chuva caía fina e rápida, ele via apenas as gotas deslizarem rapidamente pela janela do carro.
A viagem do cemitério até Baker Street não durava mais do que trinta minutos, porém parecia que já estava naquele táxi por duas horas ou mais.
John encarava a janela tentando visualizar a paisagem borrada, Sra. Hudson estava ao seu lado, com um lencinho em mãos que previamente havia enxugado suas lágrimas.
Os dois vestiam negro da cabeça aos pés e durante o tempo que ficaram no táxi, não compartilharam sequer uma palavra. Sra. Hudson por vezes tentava abafar o choro e John continuava sério, tentando fazer a sua mente esvaziar-se por completo, mas aquilo não estava adiantando nem um pouco.
Depois de alguns minutos de uma viagem silenciosa e agonizante, o táxi parou. Sra. Hudson saiu e abriu seu guarda-chuva.
– Tem certeza que não quer entrar? – Perguntou ela, curvando-se sobre a porta do carro.
– Já lhe falei, Sra. Hudson. Não posso voltar para o apartamento agora. – Falou John, tentando manter o normal tom de voz.
Não aguentaria entrar naquele lugar agora, toda aquela sua tentativa de se mostrar pouco abalado iria falhar. Todo o apartamento ainda estava “cheio de Sherlock”.
– E onde passará a noite? – Perguntou a senhora.
– Eu... Não sei. – Respondeu John em um suspiro.
E essa era a verdade. Não fazia ideia para onde iria. Ele revirou a mente atrás de algum amigo com quem pudesse passar a noite, mas no momento nenhum veio à mente. Ele ainda tinha amigos fora Sherlock? Talvez fosse melhor pagar algum hotel.
Sra. Hudson apenas esboçou um leve sorriso, um pouco triste.
– Não irá arrumar pelo menos uma mala? – Disse ela, no tom amigável de sempre.
John deu um pequeno sorriso desconfortável. Ela tinha razão, afinal, não iria passar alguns dias fora apenas com as roupas do corpo, não é?
– Está bem. – Finalmente assentiu.
Pagou o motorista e saiu do táxi. Segurando o guarda-chuva para os dois, acompanhou a simpática senhora até a entrada.
Ela virou a chave e abriu a porta de madeira. John recolheu o guarda-chuva molhado e o apoiou na parede atrás da porta. Estava terminando de tirar o casaco quando ouviu um som familiar.
Imediatamente levantou a cabeça, tentando concentrar-se naquele som repentino e por um momento achou que estava ficando maluco.
Era uma música suave, baixa, que ia lentamente tomando os ouvidos do médico. Um som de violino, um pouco desafinado. E conhecia muito bem aquela melodia, era uma das preferidas de seu amigo e John já perdera as contas de quantas vezes Sherlock tocou aquela bendita música no meio da madrugada, tirando-o de seu sono.
– Sra. Hudson... – Disse John em um sussurro desconcertado. Não tirava os olhos surpresos da direção que a música vinha. – Você... – Piscou duas vezes. – Você está ouvindo isso?
A senhora concentrou-se um pouco e tentou captar o som.
– Ouvir o quê, John? – Perguntou, confusa.
– O violino! Não está escutando?! – John deixou um largo sorriso escapar.
– Mas...
O médico sequer esperou a senhora completar a frase e subiu as escadas rapidamente.
– Eu sabia. Eu sabia! – Repetia John para ninguém em especial. – Ele não poderia estar morto! Não poderia!
Os sapatos estalavam nos degraus de madeira, subiu dois lances de escada o mais rápido que pôde e empurrou a porta fortemente.
– Sher...!
O seu sorriso desapareceu tão rápido como a música que escutou. O apartamento continuava vazio, com a mesma bagunça que seu colega de quarto havia deixado. Olhou para os lados com alguma esperança de encontra-lo com seu violino.
Mas ele continuava morto.
Por um tempo apenas ficou ali, olhando para o vazio, com a respiração descompassada.
– Querido... – Ouviu Sr. Hudson falar enquanto subia as escadas com dificuldade. – Eu sinto muitíssimo. — Aproximou-se de John e apoiou a mão magra sobre seu ombro. – Você só precisa de descanso. Irei preparar um chá. Quer?
Ele demorou um pouco para responder, ainda tentava manter os pensamentos no lugar.
– Anh... Sim. Obrigado. – Disse John, com a voz fraca.
Sra. Hudson desceu as escadas para ferver um bule de chá, ela sempre acreditou que uma boa xícara de chá poderia curar qualquer problema.
John manteve-se imóvel, correndo os olhos por todos os elementos do flat. O 221B tinha as cinzas que restaram da pessoa mais incrível que o Dr. Watson conheceu. Todas as manias daquela figura misteriosa que, mesmo depois de mais de um ano de convivência, John nunca conseguiu entender completamente.
Deu passos silenciosos pelo apartamento, tentando desviar-se dos papéis de telegrama e jornais velhos que Sherlock apenas jogava no chão ao terminar de ler. O lugar estava mal iluminado como sempre, feixes de luz fracos saíam das janelas entreabertas e das luminárias empoeiradas. Tudo estava lá, como se nada tivesse mudado: O sofá velho, com as molas escapando que Sherlock muitas vezes se deitava, enquanto dava ordens para seu colega de quarto como se fosse o seu chefe. O smiley desenhado em tinta amarela na parede, com marcas de tiro feitas durante os momentos de tédio do detetive e o crânio em cima da lareira, com qual Holmes conversava normalmente.
Watson caminhou até a cozinha, sobre a mesa de madeira havia algumas caixas de papelão, lotadas com todo o equipamento científico do laboratório particular de Sherlock. Sra. Hudson resolveu os guardar, talvez para doá-los para uma escola em seguida. E se abrisse a geladeira, certamente iria se deparar com um cadáver congelado.
Voltou à sala e deixou o corpo cair sobre uma poltrona. Suspirou melancolicamente. A cena de Sherlock caindo ainda estava nítida em sua mente, a imagem do corpo ensanguentado do amigo sobre o chão o assombrava todas as noites.
Talvez tão surreal como a imagem de Holmes morto era a notícia que ele era uma fraude. John não conseguia acreditar em nenhuma das duas.
Certa vez Sherlock falou que se a Sra. Hudson deixasse Baker Street, a Inglaterra cairia. Mas não falou nada sobre o que aconteceria se ele mesmo deixasse o lugar.
Fitou a mesa entupida de papéis, a mesma bagunça que sempre foi. E no meio daquela bagunça, ainda estava seu notebook. Levantou e o pegou, voltando a se sentar em seguida. Colocou o laptop sobre as pernas e o ligou.
Digitou o endereço do blog dos dois e hesitou por um momento antes de apertar enter. Estava decidido a deletar o blog, sem seu parceiro, qual era o sentido de mantê-lo?
Mas antes deu uma olhada rápida pelos comentários. Lia as condolências dos leitores, muitos pareciam ter ficado bastante chocados com a notícia, e deu um pequeno sorriso ao descobrir que não era o único a acreditar em Sherlock.
Decidiu navegar rapidamente pelas postagens antigas. E finalmente percebeu que Holmes tinha razão: Os nomes dos casos eram ridículos.
Bateu os olhos em um pequeno post, intitulado apenas como “Caixa de Papelão”. Aquele caso não foi sequer um dos mais difíceis, mas com certeza fez com que os dois se aproximassem de um jeito totalmente diferente.
Os poucos dias que estiveram no caso passaram pela mente de John e ele encontrou-se novamente tomado por um sorriso rebelde.
Fitou o chão com o carpete vermelho e sujo e suspirou.
– Sherlock. – Ele falou, a voz tremule, com a esperança que o detetive ainda estava ali ao seu lado. – Eu acredito em você. Sempre acreditei. – Contraiu os lábios e continuou, era incrivelmente difícil colocar aquilo para fora. – Eu não irei mais reclamar sobre você. Sobre seus hábitos estranhos e palavras rudes. Juro que não direi mais nada sobre isso. Mas por favor...
Apertou os olhos, tentando impedir que as lágrimas caíssem.
– Por favor... — Respirou fundo. – Volte logo.
Notas finais
Obrigada por ler -v- Até o próximo capítulo (ou não)
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