Discrição
1 Capítulo Único
Discrição
A festa começou com tudo o que tinha direito. Mabel ia recendo os convidados, cumprimentando pessoalmente um a um, não importando se eram humanos ou não.
A candidatura tinha valido a pena no final.
Prefeita Pines. Ah, soa bem. Muito bem.
Não tinha sido fácil. Os outros candidatos também tinham boas propostas e ela nem era nativa da cidade – e, em Gravity Falls, isso era importante para um cargo público.
Mas ela conseguira. O slogan da campanha, escrito pela mesma, realmente havia funcionado.
“ É, eu meio que quase destruí a cidade uma vez, mas eu a salvei várias vezes também, não foi? ”
A votação foi unânime.
As pessoas gostavam dela, e ela, da cidade. As criaturas residentes dos bosques a respeitavam. Exceto pelos unicórnios.
Esses votaram por medo mesmo.
***
— DICURSO! DICURSO! DICURSO!
O coro, que começou inocentemente com um dos gnomos que se acabam na bacia de ponche, foi crescendo, expandindo, ecoando por cada parede da prefeitura.
Quando deu por si, Mabel havia sido escoltada pela sua equipe até o palco da festa.
Os músicos interromperam a melodia. Todos ficaram quietos. Agora, tudo o que queriam era ouvir sua representante, em seu momento de glória.
Mabel Pines, em todo seu resplendor, congelou.
Na verdade, estava inerte em pensamento há um bom tempo. Esperava por dois convidado desde que a festa tinha começado, e nada.
Onde eles estão a essa hora?
Caramba, eles vai se atrasar justo hoje? Tá de brincadeira?
O eco do coro agora viajava, trazendo – a de volta a realidade da situação.
Estava lá, na frente de todos. Parentes, amigos, monstros, coisas, monstros que muito se pareciam com coisas.
Ela tinha que falar algo. Mas nada saía. A mulher que desde a 2° série sempre tinha uma reposta na ponta da língua, estava inerte pela falta de sua âncora.
Olhou para si por um momento. Estava com um longo vestido azul, uma meia calça que agora apertava, e um colar com sigilos mágicos de proteção abençoados não só por padres, mas por membros religiosos budistas, judeus, adoradores de Catchullu, e até pelos membros da sociedade ateia mais próxima.
Mas nada a defenderia daquele momento.
Eis que duas presenças adentraram pelo salão, e ainda que ao fundo, encaravam Mabel olhos nos olhos.
Dipper Pines, ou melhor, xerife Pines, estava muito atrasado. Teve questões com os vândalos residentes a resolver e, quando adolescentes queriam ser irritantes, eles conseguiam. Era horas a fio de telefonemas e de papelada.
Ao seu lado, Jillian Pines fitava a mãe com uma mescla de orgulho e escárnio. Eram raras as ocasiões em que a menina de 10 anos via a mãe perder a fala, então pode – se dizer que ela estava aproveitando o momento.
Mabel olhava ora para um, ora para outro.
O olhar para a filha era um pouco austero, pela combinação de vestido de festa e botas militares que a menina havia optado.
O olhar para o irmão era de súplica, pois não sabia o que dizer.
Dipper a encarou e fez um gesto. Ela sabia o que ele queria dizer. O gesto com as mãos para cima significava cabeça em pé, você consegue.
Era tudo de que a irmã precisava.
Ela respirou fundo e fez o discurso de uma vida, com direito a citações em outras línguas e um breve momento para ofender os unicórnios – com um argumento que os duocórnios eram bem mais divertidos.
***
Já era por volta de uma da manhã agora.
Mabel abordou o irmão e pediu sua atenção por um momento. O levou até a sua sala, afirmando sendo algo de muita importância, que deveria ser considerado o quanto antes.
Ela entrou, atirando o salto em cima do sofá. Dipper jogou o chapéu que carregava consigo na mesma direção.
— Nunca achei que ele ficaria bem em você mesmo.
— Faz parte do uniforme. Então o que você precisa?
Ela abriu os braços, satisfeita, apontado para todas as direções.
— E aí, impressionado? Eu consegui. Venci. “Prefeita Pines” cai bem, ou não cai?
— Nada mal para uma quarentona, solteira, com uma filha para criar.
Nossa, quando quer provocar, ele acerta no alvo.
Felizmente, ela já sabia a muito como responder as disparidades do irmão.
Abriu um sorriso, aproximando – se devagar.
— Primeiro: nada mal? Eu fui épica no palco.
— Conheço uma menina de 10 anos que discordaria de você.
Ela se aproximou ainda mais e, puxando o pescoço de Dipper pela gravata, roubou um beijo apaixonado.
— Segundo: A Jill não é minha filha, é nossa filha.
Ele adorava esse jogo. Adorava, porque sabia como terminaria.
— Terceiro, bom...
Ela tomou distância, sentado – se em cima da mesa.
— Essa meia calça está me matando desde o início da festa. Quer me ajudar a tirar?
Dipper se aproximou, mas antes de tocá – la, ela esticou a perna frente à ele.
— Com a boca. Por favor, xerife Pines.
Ele gostou da iniciativa. Voltou mais alguns passos, só para garantir que a porta estava trancada.
As pessoas não poderiam ver o que estava para ocorrer.
Ouvir? Tudo bem. Ver, jamais.
***
Já eram quase seis da manhã, quando, ainda em cima da mesa, Mabel o mordeu de leve na orelha esquerda.
— Lembrei de um quarto motivo.
— É mesmo?
— É. Eu não estou solteira. Nunca estive, nem no ensino médio, nem na faculdade, nem agora. Eu amo meu irmão babaca, não sabia?
Eles irromperam em mais um beijo apaixonado. A prefeitura abriria somente às nove. Eles ainda tinham muito tempo para testar a acústica do local.
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