Notas iniciais
Boa leitura! Xoxo

Tinha acabado de chegar do meu treino diário quando minha mãe veio falar comigo. Eu estava cansada da semana, e ainda tinha que acabar a coluna, meus pés estavam um poucos doloridos por causa dos patins. Minha mãe era um ótima pessoa, ela era linda, carinhosa, tinha uma conversa boa, porém de todas as qualidades a que se sobressaia era a sua generosidade, ela não se importava em pagar mais que o normal para a senhora que limpava nossa casa, nem quando levava comida para os menos favorecidos. Nós éramos três. Nada mal, já tínhamos sido quatro, mas meu pai tinha conseguido comprar a terceira casta para a nossa família, agora ele era professor de física em uma faculdade famosa, ele não era uma má pessoa, mas era muito sério e pensava bastante em dinheiro, era muito rigoroso, não admitia notas baixas na escola, nem atraso com o trabalho. Eu escrevia uma coluna semanal para o jornal de Kent, meu pai diz que quando eu tiver uns dezenove anos eu posso pegar uma diária. Ele sempre me inscreve em competições, de redações, ele sabe que eu gosto de escrever, mas ele também não sabe que eu escrevo livros, eu já ganhei vários prêmios, quando eu escrevia me sentia completamente livre, poderia fazer o que eu quisesse, e coisas totalmente impossíveis. Me sentia ainda mais livre quando eu patinava, no gelo. Era minha paixão, eu tinha aprendido aos seis anos no lago congelado na fazenda de meu avô, minha tia Sara quem me ensinou, e hoje eu participava de vários campeonatos, meu pai disse que se eu continuasse assim, algum dia eu poderia ser uma dois.

Aqui em Kent fazia muito frio, e ainda por cima estava no inverno, então eu estava entupida de cachecóis de lã, e um gorro vermelho estava sobre meus cabelos castanhos claros, mais voltado para um mel. Mas assim que entrei em casa senti o calor do aquecedor ligado, tirei minhas botas e encostei o pé no chão gelado, tirei o cachecol que envolvia meu pescoço, tirei a toca e coloquei no gancho do lado da porta, e fui para o banheiro. Vi meu reflexo no espelho, como era muito no norte do pais aqui não costumava ter sol para eu me bronzear, ao passo que eu era toda branquinha, e minha minha bochecha estava corada pelo frio que fazia naquele fim de tarde, assim como meu cabelo (que estava com uma piranha meio solto meio preso, eu usava minha franja para o lado esquerdo) a cor dos meus olhos eram verdes muito vivos(não sei como, já que ninguém aqui em casa tem olhos assim), minha boca estava vermelha por conta do frio, eu usava uma blusa vermelha, e uma calça preta, me afastei um pouco do espelho para olhar meu corpo. Eu sou magra, meu busto é normal, só que "mais para" grande, e minhas pernas são finas, não secas, finas. Nunca tive problema com meu corpo, minhas pernas longas e finas eram ótimas para patinar. Lavei as mãos e o rosto. Assim que eu sai do banheiro e minha mãe me esperava. Seus olhos castanhos (escuros) brilhavam de ansiedade, ela segurava um envelope grosso.

–Filha, posso falar com você um instantinho?- ela perguntou já indo para o sofá

–Pode, claro- me sentei na poltrona confortável na frente dela fiquei olhando para a carta curiosa.

–Lucy, querida, hoje eu recebemos uma carta, sobre a seleção- antes que eu pudesse falar ela continuou- você tem dezessete anos, e pode participar! E então o que você diz?

Droga. Eu não sei, por um lado é uma ótima oportunidade para eu me inspirar (tem alguns personagens que eu preciso para minha historia), e conhecer pessoas novas, mas por outro, eu não quero ficar perto de tanta gente, imagina um monte de garotas, de todos os tipos, cada uma com sua personalidade lutando por um homem, e ter que aguentar elas falando sobre alguém que elas "amam", e além de tudo não quero ficar perto de um homem. Eu sempre evitava as meninas da escola afim de não ficar ouvindo uma paixão nova a cada mês, e por isso não era muito popular, e eu escrevia sobre meninas assim as vezes, escrevia para me refugiar, no mundo em que eu criava onde tudo era perfeito, ou acabava perfeito, em que a protagonista tinha a coragem que eu não tinha, mas sofria as mesmas perdas que eu, só quando acabo e releio eu percebo como minha vida influenciou a minha escrita, e como eu gostaria de ser como essa personagem. Era o meu mundo. Só que eu não sabia como falar isso para a minha mãe.

– Tudo bem se eu te responder amanha?- Antes de responder precisava de um tempo sozinha.

–Claro filha, só não se esqueça, esta bem? -Ok, ok...- falei indo para o meu quarto.

Assim que cheguei deitei em minha cama e fiquei olhando para o teto. Resolvi tomar um banho. Senti meus músculos relaxarem aos poucos, a água batia em cheio nos meus ombros, ela estava bem quente, e tentei não pensar em nada, esfreguei a esponja contra a minha pele afim de tirar o cansaço do dia, e fiquei de baixo da água um tempão, enxuguei meu corpo, coloquei meu pijama (uma calça de moletom, e um blusa de mangas compridas com vários flocos de neve estampado) e pulei para de baixo dos cobertores.

Quando não aguentava mais de fome desci para comer, cheguei lá em baixo e não tinha ninguém, estranhei no começo mas depois percebi que minha mãe devia ter ido buscar meu irmão (Daniel, cinco anos) na escola, e meu pai ainda não devia ter voltado do trabalho. Estava com preguiça de mais para preparar alguma coisa, então fui na geladeira e peguei uma maçã. Adorava frutas, se você quer saber. Comecei a andar em círculos na sala de estar subi para o meu quarto de novo, fui até o baú no pé da minha cama e olhei para as pastas e caixas em que eu guardava minhas historias, peguei a pasta do jornal e fui até a minha escrivaninha e acabei os últimos parágrafos da coluna e coloquei em um envelope e coloquei no correio, meu pai fazia eu acabar o trabalho com dois dias de antecedência, mas as vezes eu tinha várias matérias arquivadas. Estava fazendo de tudo para me manter ocupada e não pensar naquela carta maldita, será que eu poderia ir para o palácio e ver tanta gente? Será que o príncipe é um nojento? Eu realmente não sei, mas o palácio deve ser lindo, e a irmãzinha do príncipe é uma fofa, ela tem seis anos e é ruiva como sua mãe, tem olhos azuis como sua mãe, só que o dela era meio acinzentado, os dois eram assim, ela era muito parecida com sua mãe, a rainha América, era bem baixinha e devia ser bem mimada, o príncipe Charles tinha cabelos loiros, só que meio castanho, e devia ter um metro e setenta e cinco, e seu rosto era mais parecido com a mãe dele, a rainha América. Ele é o fantástico garoto lindo loiro de olhos azuis. Acho que vou preencher, duvido que eu seja sorteada, mas com o restinho de dúvida eu resolvi falar disso só amanha. Fui para o meu quarto estudar um pouco, esse é o meu ultimo ano na escola e eu quero uma boa faculdade, um bom histórico escolar, as provas estavam chegando, mas na verdade eu só queria matar tempo. Tinha acabado de estudar geografia, e ia começar matemática, quando a porta se abriu e meu pai- meu pai!- entrou no quarto.

–Oi filha, como vai? -Oi pai, vou bem, hoje o treino foi ótimo, e na escola normal- falei sem mencionar a carta.

–Que bom, sua mãe me falou da carta que recebemos sobre a seleção, você já se inscreveu?

–Eu ainda não pensei muito nisso...

–Mas você vai, não vai? Quer dizer é uma ótima oportunidade para você, e para a gente, pense só, um dia você poderá ser a rainha! E você seria uma ótima rainha, você tem todas as qualidade para uma, é generosa, tem talento, tem compaixão, eu sei que você adimira de mais a rainha America! E ela nem queria ser, mas se convenceu que é uma boa ideia, você não vai precisar mudar quem você para ser uma rainha, pode explorar suas qualidades para isso!

Ele não falou do fato de que eu vou ter que ter um casamento arranjado para ser uma "grande" rainha, mas são bons argumentos, mas ninguém garante que eu vou ser sorteada! E na verdade eu duvido que eu seja. Então por que não?

–Ok, eu preencho amanha, tudo bem? O que que tem para comer?

–Não sei, a Lilian já deve estar chegando, ela foi pegar o Dan na escola, quando ela chegar ela prepara alguma coisa, ok?

–Pai, eu já acabei de estudar, hoje foi o último treino antes do natal, e amanha é o último da escola, tudo bem se eu for descansar um pouco? Só enquanto a mãe não chega...

–Claro que sim, afinal recebi muitos elogios de você essa última semana, tanto na escola e no trabalho, você tem sua vaga garantida na universidade! E agora tem as ferias de natal... Não é mais que o merecido! Antes disso posso dar uma olhadinha na sua coluna? Só para conferir...

–Ah pai não vai dar-Falei fingindo pena.

–Por que não, Lucy? Não me diga que você perdeu!

–Não, não, eu já enviei!-Falei com orgulho.

–Ótimo! Até mais tarde- ele fechou a porta feliz ter me convencido. Bocejei ainda com fome, fui para a cama e fiquei pensando como devia ser o palácio.

Estava quente. O calor me cegava e a fumaça me sufocava, minhas mãos estavam queimadas, via pessoas desmaiarem e caírem no fogo, de longe ouvia uma sirene soar, mas parecia ser a quilômetros de distancia, rasguei a barra da minha blusa de trabalho e tampei meu nariz para não inalar mais fuligem, tomei coragem e comecei a cambalear em direção do alarme, cada vez que eu me aproximava do som, menos ele ficava nítido, ia aos tropeços procurando a saída, cada vez que eu tropeçava tinha mais dificuldade para me reerguer, quando eu finalmente cai de vez, talvez eu até tenha batido no chão, mas a sensação de descer continuava a mesma. Ia afundando no chão e o fogo me cobria, a dor e a agonia vieram de uma maneira que nunca pensei que poderia existir, tentei chamar ajuda mas não saiu nada além de um som indefinido e rouco que se formava bem no fundo da minha garganta, quando senti que meu coração estava perto de ser queimado por completo, sem nenhuma volta...

Acordei assustada e suada, antes de perceber que estava na minha cama, me debati ofegante até entender onde eu me encontrava. Fiquei olhando para o nada até me acalmar, respirei fundo algumas vezes e olhei para o relógio. Uma e meia da manha, eles devem ter me chamado algumas vezes para o jantar, mas quando viram que eu estava dormindo me deixaram descansar.

Coloquei um roupão e fui para a sacada tomar um pouco de ar, senti o ar frio e sorri assim que empurrei a porta de correr, o frio tocou minha pele e pisei no chão gelado, e de alguma maneira isso me esquentou, o frio era uma sensação familiar e natural para mim. Tinha um pouco de neve acumulada na barra da sacada, de modo que eu peguei um pouco e coloquei na minha nuca, fiz um coque frouxo com os fios suados do meu cabelo e olhei para o horizonte.

Fazia muito tempo que eu tinha pesadelos assim, e quando eu estava cansada ou estressada por algum motivo eles pioravam. Assim que os sonhos maus começaram eles eram tão fortes que eu tinha até medo de dormir, as vezes só tinha fleshes das chamas, ou do cheiro de álcool me prensando contra a parede, as vezes eu acordava e começava a chorar, a muito tempo, hoje é difícil eu chorar, acho que com o longo da vida a gente acaba amadurecendo.

Suspirei e olhei para o céu, ele estava magnifico, todas as estrelas pareciam brilhar mais essa noite, minha tia Sara dizia que as pessoas que amamos nunca nos abandonam de verdade, elas ficam nas estrelas nos observando e cuidando de nós. Ela fazia uma trancinha bem fininha e solitária no meio do meu cabelo "para você sempre lembrar de mim" ela falava, toquei de leve na trancinha que eu conservava. Suspirei de novo e entrei.

Perdi totalmente a fome, e o sono, nunca falei dos meus problemas para ninguém, não ia suportar os olhares de pena, ter que ir ao neurologista para ele tentar descobrir a origem de meus pesadelos e fobias, não precisava dele, não precisava de ninguém para me falar o que eu já sabia, nem falar para uma psicóloga os meus problemas, pense só uma pessoa que não tem a menos intimidade contigo tentando resolver seus problemas. O que ela ia fazer? Me consolar? Me dar um remédio? Falar como o mundo é bonito? Falar de sofrimentos maiores que o meu? Não queria saber, já tinha meu consolo e meu remédio, e ia usa-lo agora! Talvez a seleção ajude nisso! Eu posso finalmente me livrar destas correntes que me prendem a este mundo e posso recomeçar! Fui até o fim da cama, abri o baú e vi alem do horizonte, vi meu mundo particular onde tem dramas de superação, romances incompreendidos, guerras, vilas mágicas, coisas impossíveis como fadas, sereias e um "felizes para sempre" com o amor verdadeiro.

Notas finais
Obrigada por ler ♥ E feliz ano novo!