Dirty White

1 Carmim sobre Cândido


Notas iniciais
Hã... eu tive essa ideia faz tempo, mas só consegui vencer a preguiça para digitá-lo hoje.
Boa leitura.

Eu te odeio.

Sim, simples e rápido. Como começar esta carta de outra maneira? É o que sinto. Você nunca mereceu nada além do meu ódio e desprezo por tudo o que fez. Me roubou tudo o que eu tinha: minha família, meus amigos, minha dignidade. Minha inocência. E eu mal tinha entrado na adolescência quando me tomou como sua propriedade.

Sabe, por um tempo eu até me senti atraído por você. Pelo meu algoz, olhe que loucura. Mas antes disso veio o nojo. A negação. Depois, a apatia. A rebeldia. (E seus consequentes castigos.) Até que chegou a insanidade.

Você é um filho da puta insano, e parece que absorvi isto aos poucos. Ao final, não foi apenas gozo no rosto que recebi. Nem esse seu cheiro que se impregnou em mim como uma doença. Como um vício. Porque me apeguei à sua presença, mais do que a você mesmo.

À sua voz áspera a me ameaçar quando o desrespeitava. Ao seu toque bruto, rude. Até mesmo nesse fedor repulsivo de cigarros que você sempre emana.

Não tente encontrar um sentido no que digo, porque não existe. Afinal, disse que te odiava, mas agora estou falando sobre o que me atrai em você.

A cada vez que era arrastado até aquele tormento transfigurado em aposento, eu me perguntava como podia me sentir atraído. Afinal, nunca fez questão nem de me dar prazer. Sem preparação, sem lubrificação. Acho que é assim que as coisas funcionam, não é? Aprendi na prática.

Sempre foi doloroso; muitas vezes sangrava. Mas disto você sabe bem, seu sádico de merda. Nem para curar as feridas! Apenas as esperava cicatrizar para abri-las de novo. Ou nem isso.

Mas isto não interessa. Na verdade, acho que estou fugindo da verdade. Porque ela é demais para aceitar. Ainda não aceitei, completamente. E de quem acha que é a culpa por tanta dispersão de pensamentos? Não consigo me concentrar em nada depois do que fiz! Do que eu mesmo fiz!

Quer saber o que eu fiz? Lembra-se de Minako? Sim, sua outra escrava. A moça que trouxe algum tempo depois de me sequestrar. (Não sei precisar quantos dias ou meses; você nunca se preocupou em nos manter cientes de qualquer medida de tempo.)

Eu a matei.

Minako era boa. Sempre chorava quando eu sofria. Sempre oferecia um sorriso amigo, pois estava na mesma condição. Mas eu sentia inveja quando era ela a tragada para a sua sala. Eu sei que você que a estuprava por trás para garantir que seria doloroso. Sei que ela implorava por não, mas na minha mente doente ela sempre gostou.

Era uma prostituta, que vivia falando da vida de antes. Do namorado que tanto amava. Como se algum dia pudessem voltar. E eu sentia raiva dessa ingenuidade. Não porque era descrente, mas porque me traziam esperança. Mas esperança só fazia com que as feridas doessem mais.

Sim, ela era uma maldita masoquista porque gostava de sofrer. Só isso pode explicar o fato de que sofria por mim, um desconhecido. (E não me diga que ela era uma boa pessoa. Não faça com que eu me sinta mais desprezível do que já estou sentindo no momento.)

Mas eu acabei com o sofrimento dela. Com o sorriso dela. Digo de novo: eu a matei. Por ciúmes de você. Malditos ciúmes de um cretino que nem se importa com minha existência. Uma morte patética, um assassino patético.

Não quero lembrar de como fiz, e também não quero te dizer. Imagine. Gaste uns míseros segundos da sua vida miserável para mentalizar um homicídio cruel e covarde. Porque o que importa é que eu fui o algoz dela. Eu, somente eu.

Como eu sou repugnante. Talvez agora eu te mereça. Talvez-

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Manchas negras e rubras são visíveis neste trecho do papel. Digitais de ambas as cores carimbam as margens. Algumas palavras riscadas, outras grosseiramente apagadas. Pequenos pingos de líquido dilataram-se e deformaram a folha.

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Há tanto a dizer, mas eu estou cansado. Cansado de tudo, sobretudo de você. Foi tudo escrito na pressa, no desespero. Porque não quero te dedicar nada, muito menos o meu esmero. Mas há pessoas que merecem minhas palavras, minhas explicações. E quero que envie a elas esta carta. Para poupá-las um pouco da dor.

O nome que recebi, Shiro, não vêm apenas dos meus cabelos claros. Papai e mamãe queriam um filho puro, e o encontravam em mim. E eu destruí tudo. Você destruiu tudo. Tive meu corpo sujo com sêmen, para agora sujá-lo com sangue.

Não sei pelo que eles passaram quando perderam este filho, desaparecido, mas hoje ele não existe mais. Espero que diminua um milésimo do sofrimento deles ao saber que eles ainda têm a chance de ter um herdeiro verdadeiramente puro. Porque, como eu descobri ao mergulhar no inferno, eu nunca fui o que eles quiseram.

Mas há uma esperança a eles. Como todos os milagres, é tortuoso e incompreendido. Nunca mais terão que sofrer com a dúvida e a ansiedade por desejar de volta a criança ingênua e sorridente ao lar. Não mais temerão pelo que ela sofre nas mãos de um maníaco. Nem sofrerão com a verdadeira face desta coisinha diabólica, adquirida aos poucos num ambiente hostil e desagradável.

Não, dou a eles o melhor presente que um filho imundo, mas arrependido pode dar. O único presente que posso lhes dar, na verdade. Porque não serei mais vítima do seu desejo pecaminoso. Não alimentarei mais fantasias imorais por um monstro. Não serei de novo um assassino degenerado.

Nunca mais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!