Dirty Hippie?
1 dirty hippie?
Notas iniciais
"Menos uma dessas hippies sujas." Foi o que meu pai disse ao ver o noticiário da morte de Janis Joplin na televisão. Eu apenas mordo os lábios para aguentar até o final do café da manhã. Eu aguentei. Tive que aguentar. Tive que engolir meu nojo de opiniões como aquela, tive que engolir eu mesma junto com o bacon naquela manhã.
Subo as escadas correndo quando posso. Chego ao meu quarto e deixo as lágrimas caírem. Janis Joplin era como um exemplo para mim, era a quem eu recorria quando precisava renovar as minhas forças, ou me entender, a minha pessoa preferida. E agora ela está morta. Ouvindo a voz dela, mesmo cheia de tristeza e sofrimento, não consigo imaginá-la sem vida. Ela era ao mesmo tempo tão cheia de tristeza e tão cheia de vida... A voz dela me envolvia, sua força, mesmo em um volume baixo (para que meus pais não ouvissem do andar debaixo).
Pego o pôster dela que salvei de ser queimado na igreja que meu pai me obrigava a ir. Eu o abraço. Será que ela morreu por se sentir solitária? Por sentir que ninguém a entendia de verdade? Ao pensar nisso, sinto vontade de abraçá-la, de dizer que a entendia, pelo menos em parte. Eu ia para os manifestos do movimento hippie escondida, mas isso não fazia com que as palavras do meu pai doessem menos. O fato de ninguém saber que a vida de Janis Joplin significava tanto para mim não diminuía em nada a dor que sinto pela morte dela.
Abro a janela do quarto e saio da casa por ali. Quando meus pés tocam o chão, eu corro. Corro como nunca antes. Sinto o vento em meus cabelos e em meu rosto, e sentia o gosto da liberdade em meus lábios. Eu sabia que aquela liberdade acabaria logo, que eu teria que voltar para casa. Mas, quando você passa a vida inteira não podendo ser quem é, se puder fazer isso por alguns minutos já é como se você estivesse no paraíso.
Eu tinha passado tanto tempo sendo obrigada a prender a mim mesma em uma jaula, que eu não sabia o que fazer com a minha liberdade. Eu só queria chegar em algum lugar longe da minha casa, daquele lugar que eu deveria chamar de lar.
"Little Girl Blue" era praticamente a trilha sonora do meu caminho. Eu não parava de correr, me sentindo cada vez maior. Eu sempre me senti muito pequena. Nunca consegui enxergar a diferença que eu fazia nos movimentos hippies, e ao assistir ao noticiário naquela manhã, enquanto ouvia meu pai falar aquelas coisas, me senti ainda menor. Me senti pequena demais por não ter conseguido salvar a pessoa mais importante para mim. Me senti pequena demais por não ter sido capaz de dizer para ela que me importava e que eu entendia — se eu tivesse tido essa oportunidade, talvez ela ainda estivesse aqui. Me senti pequena demais, já que nem meu próprio pai conseguia ver quem eu realmente era. Me senti pequena demais por não conseguir me rebelar, de fato. Me senti pequena demais por ter que fazer as coisas escondido, sendo que depois eu voltaria para o lugar onde enchiam a cabeça das pessoas de besteiras.
Mas, correndo pelas ruas, eu me senti grande pela primeira vez em muito tempo. Eu me senti grande o suficiente para fazer o que eu quisesse, para ser livre. Mesmo que eu não pudesse trazer Janis Joplin de volta, eu poderia descobrir quem eu era tendo a ajuda do que eu lembrava dela. Eu poderia honrar a morte de Janis Joplin participando do movimento que eu queria sem esconder isso. Dizendo como eu penso, sem me esconder.
Fecho os olhos rapidamente, sentindo o vento bater neles. Lágrimas de alegria saíam dos meus olhos. Descobrir quem eu era, e mostrar para o mundo. Soava bom.
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