Dinastia de Cinza
4 Vazamentos
O escândalo não diminuiu após o jantar de noivado; ele apenas mudou de forma, como fumaça que se infiltra pelas frestas quando portas são fechadas com força demais. Na manhã seguinte, os portais financeiros já analisavam a “união estratégica” entre Swan e Cullen com gráficos otimistas, enquanto blogs mais agressivos insistiam em reviver cada detalhe do passado dos noivos, explorando fotografias antigas, vídeos de festas escolares e qualquer indício que pudesse contradizer a narrativa cuidadosamente construída. Em meio a essa tempestade controlada, Edward Cullen mantinha sua rotina com precisão quase obsessiva, chegando ao escritório antes das oito, como se disciplina fosse capaz de neutralizar rumores.
A sala de reuniões do conglomerado Cullen estava silenciosa quando ele entrou, mas havia alguém esperando por ele que não fazia parte da equipe jurídica.
Rosalie Hale não precisava de apresentação em nenhum ambiente corporativo que frequentasse. Secretária executiva oficialmente, braço direito informalmente, presença constante na vida profissional — e ocasionalmente pessoal — de Edward. Alta, impecável, dona de uma beleza quase agressiva, Rosalie não era o tipo de mulher que aceitava papéis secundários, mesmo quando fingia aceitá-los.
Ela estava sentada na ponta da mesa, cruzando as pernas com calma estudada.
— Parabéns pelo noivado — disse, o tom neutro demais.
Edward fechou a porta atrás de si.
— Isso não é permanente.
— Nada é — ela respondeu, levantando-se lentamente. — Mas as manchetes são.
Ele aproximou-se, mas não o suficiente para tocar.
— Você sabia que isso poderia acontecer.
Ela sorriu de lado.
— Eu sabia que você escolheria poder antes de qualquer outra coisa. O que não sabia é que envolveria… ela.
O nome não foi dito. Não precisava.
— Bella faz parte do acordo — ele respondeu.
— Bella sempre fez parte da sua competição — Rosalie corrigiu.
O silêncio que se seguiu foi mais revelador do que qualquer confissão. Rosalie conhecia Edward o suficiente para saber que o desprezo que ele demonstrava por Bella nunca fora indiferença. Era desafio. E desafio o excitava.
— Você está com ciúmes? — ele perguntou, com um traço de arrogância calculada.
Rosalie deu um passo à frente, aproximando-se apenas o suficiente para que a tensão fosse evidente.
— Eu não sou ciumenta. Eu sou prática. E homens noivos não costumam manter secretárias em agendas privadas.
Ele segurou o queixo dela brevemente, gesto rápido, quase automático.
— Eu não costumo seguir regras que não escrevi.
Mas naquela manhã, pela primeira vez, Rosalie não sorriu.
Do outro lado da cidade, Bella estava sentada no apartamento dos Swan, observando a mãe atravessar a sala com um vestido caro demais para uma terça-feira comum. Renée Swan parecia estranhamente satisfeita com o caos controlado, como se cada manchete fosse combustível para sua própria relevância social.
— Você viu a matéria nova? — Renée perguntou, segurando o tablet. — Estão sugerindo que seu noivo ainda mantém “relações próximas” com a equipe executiva.
Bella ergueu os olhos lentamente.
— Se estiver falando da secretária dele, não me interessa.
Renée inclinou a cabeça, avaliando-a.
— Não me diga que você está apaixonada.
Bella levantou-se abruptamente.
— Eu não estou apaixonada. Estou em um acordo.
— Acordos também machucam — Renée respondeu com frieza surpreendente. — Especialmente quando a outra parte não joga limpo.
Bella aproximou-se da mãe, o olhar duro.
— Você nunca jogou limpo.
Renée riu, baixa.
— Eu sobrevivi. E você também vai. Mas cuidado, querida… homens como Edward não gostam de dividir território.
Bella sustentou o olhar.
— Eu não divido. Eu domino.
Enquanto isso, na cobertura Cullen, Emmett assistia a uma reportagem esportiva que mencionava seu nome entre estatísticas e elogios, mas sua atenção estava no celular, onde uma mensagem anônima havia acabado de chegar com uma fotografia anexada. A imagem era recente demais para ser coincidência: Edward e Rosalie entrando juntos em um restaurante dias antes do anúncio do noivado.
Emmett não era ingênuo.
Mas também não era cruel.
Ele encontrou o irmão no escritório naquela tarde, jogando a fotografia sobre a mesa sem cerimônia.
— Isso é antes ou depois do conto de fadas? — perguntou, o tom ainda calmo, mas firme.
Edward olhou a imagem por dois segundos antes de erguer o olhar.
— Não é da sua conta.
— Vai virar quando explodir na mídia — Emmett respondeu. — E vai machucar mais gente do que você imagina.
Edward levantou-se lentamente.
— Você não entende como isso funciona.
— Talvez eu entenda melhor do que você — Emmett retrucou. — Porque eu não transformo pessoas em peças.
O silêncio entre os irmãos foi denso.
— Era você que deveria casar com Bella — Edward disse de repente, o tom cortante. — Era você que o mercado queria. O atleta perfeito, o genro carismático.
Emmett não desviou o olhar.
— E você nunca superou isso.
Edward aproximou-se um passo.
— Eu assumi o que precisava ser assumido.
— Não — Emmett respondeu. — Você assumiu o que te daria mais poder.
A tensão foi interrompida pelo toque do telefone de Edward. Um número desconhecido. Ele atendeu.
A voz do outro lado era formal, direta.
— Senhor Cullen, aqui é do escritório do procurador federal. Precisamos agendar uma reunião urgente.
A investigação estava acelerando.
Quando Edward desligou, o olhar dele não era mais apenas arrogante — era calculista.
Naquela noite, Bella foi até a cobertura Cullen para uma reunião privada exigida pelos pais. Mas ao chegar, encontrou apenas Edward na sala principal, a cidade iluminada refletindo nos vidros atrás dele.
— Onde estão todos? — ela perguntou.
— Reunião adiada.
Ela estreitou os olhos.
— Você armou isso.
Ele caminhou lentamente em direção a ela.
— Precisamos conversar.
— Sobre sua secretária?
O sorriso dele foi sutil.
— Está com ciúmes?
Ela riu, incrédula.
— Eu não disputo sobras.
Ele aproximou-se mais, invadindo o espaço dela deliberadamente.
— Cuidado, Bella. Você nunca foi boa em fingir indiferença.
Ela sustentou o olhar, mas o ar entre eles já estava pesado.
— Se houver outro escândalo, eu não vou proteger você.
Ele tocou a cintura dela, firme.
— Você me protege porque precisa.
— Eu não preciso de você.
— Precisa sim — ele murmurou. — Porque se eu cair, você cai junto.
O silêncio entre eles foi interrompido apenas pelo som distante da cidade.
Ele aproximou o rosto do dela, a respiração quente demais contra a pele.
— Você ainda reage — disse, baixo.
Ela empurrou o peito dele com força suficiente para criar distância.
— Eu reajo porque você é insuportável.
Ele segurou o pulso dela, não com violência, mas com firmeza.
— Eu reajo porque você nunca esqueceu.
Por um segundo, perigoso demais, os dois ficaram imóveis, respirações misturadas, memórias cruzando o espaço invisível entre presente e passado.
Mas antes que qualquer limite fosse ultrapassado, o celular de Bella vibrou.
Uma nova notificação.
Um novo vazamento.
Uma matéria recém-publicada:
“FONTES INDICAM QUE INVESTIGAÇÃO PODE ENVOLVER TRANSFERÊNCIAS INTERNACIONAIS LIGADAS A FUNDAÇÕES DOS SWAN.”
Bella ergueu os olhos para Edward.
— Isso está saindo do controle.
Ele soltou o pulso dela lentamente.
— Não. Está ficando interessante.
E naquele momento, ficou claro que o maior perigo talvez não fosse o FBI.
Talvez fosse o fato de que Isabella Swan e Edward Cullen estavam começando a perceber que, quanto mais o mundo apertava o cerco ao redor deles, mais eram obrigados a confiar um no outro.
E confiança…
Era algo que nenhum dos dois sabia oferecer sem destruir primeiro.
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