Dinastia de Cinza
14 Sentimentos que gritam
O fim de semana na casa de praia terminou com sorrisos ensaiados e despedidas educadas demais para serem verdadeiras. Carlisle voltou para Washington com a expressão de quem calcula danos políticos até mesmo dentro da própria família. Esme levou consigo um silêncio preocupado. Edward e Bella permaneceram mais alguns dias, numa tentativa quase infantil de fingir que o mundo não estava à espreita. Mas o mundo sempre estava. E dentro daquela casa branca à beira-mar, onde o som das ondas deveria trazer paz, havia tensão suficiente para afogar qualquer serenidade.
Bella caminhava sozinha pela faixa de areia ao entardecer, deixando que a água fria tocasse seus pés. O vento bagunçava seus cabelos, e o céu começava a se pintar de tons dourados e rosados, como se o universo estivesse indeciso entre beleza e tempestade. Ela pensava em tudo: no bebê, nas manchetes, na declaração desesperada de Edward, na culpa que ele carregava, na própria exaustão de ser sempre forte. Amar Edward era como viver dentro de um incêndio controlado — quente, intenso, fascinante, mas sempre ameaçando sair do controle.
— Você tem mania de fugir quando está pensando demais — a voz de Emmett surgiu atrás dela, grave, quase suave demais para o homem que era conhecido por ser explosivo dentro de campo.
Bella não se virou imediatamente.
— E você tem mania de me encontrar.
Ele caminhou até ficar ao lado dela, as mãos nos bolsos do short, os pés também descalços. Por alguns segundos, ficaram apenas observando o mar. Não havia provocação. Não havia risos exagerados. Apenas presença.
— Eu devia me afastar — ele disse, finalmente. — Isso não está certo.
Bella soltou um suspiro lento.
— Então por que não se afasta?
Ele riu, mas não era uma risada divertida. Era amarga.
— Porque toda vez que você sorri para mim, eu esqueço que deveria.
Ela virou o rosto para encará-lo. O sol poente desenhava sombras no rosto dele, destacando a honestidade crua nos olhos. Com Emmett não havia jogos. Não havia estratégia. Ele sentia e dizia. Simples assim. E aquilo a desarmava de um jeito que Edward jamais conseguiria.
— Você está apaixonado por mim? — ela perguntou, sem rodeios.
Ele demorou um segundo.
— Estou tentando não estar.
O coração dela acelerou. Não por escândalo. Não por rebeldia. Mas porque havia algo profundamente sedutor em ser desejada de maneira tão transparente.
— Emmett…
— Não — ele interrompeu, aproximando-se um pouco mais. — Me deixa terminar. Eu sei que você ama meu irmão. Eu vejo isso quando você olha para ele, mesmo quando está com raiva. Mas eu também vejo como você fica quando está comigo. Você fica leve. E eu gosto de ser o homem que faz você esquecer o peso do mundo.
As palavras pairaram entre eles, densas. Bella sentiu o peito apertar.
— Você não tem medo das consequências?
— Tenho. Mas tenho mais medo de nunca saber como seria.
O vento soprou mais forte, levantando areia ao redor. O mundo parecia reduzido àquele pedaço de praia. Bella deu um passo à frente, diminuindo a distância. Não era um gesto impulsivo. Era consciente. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
— Você não devia — ela sussurrou.
— Eu sei.
E mesmo sabendo, ele tocou o rosto dela com cuidado, como se estivesse pedindo permissão sem palavras. Bella poderia ter recuado. Poderia ter lembrado do casamento, das promessas, do amor complicado que sentia por Edward. Mas, por um segundo egoísta e humano, ela queria sentir algo que não viesse acompanhado de culpa política ou chantagem emocional.
O beijo começou suave, quase hesitante. Não havia urgência desesperada. Havia curiosidade. Era diferente do beijo de Edward — menos avassalador, mais quente, mais protetor. Emmett a segurou pela cintura com firmeza, mas sem dominar. Era como se ele estivesse dizendo: eu estou aqui, mas você escolhe.
E ela escolheu não se afastar.
Por alguns segundos que pareceram eternos, o mundo desapareceu. O som do mar ficou distante. O peso do sobrenome Cullen deixou de existir. Havia apenas dois corpos se encontrando no limite entre amizade e algo perigosamente maior.
Quando o beijo terminou, Bella abriu os olhos devagar. O rosto de Emmett estava próximo demais, a respiração misturada à dela.
— Isso foi um erro — ela murmurou, mas a voz falhou.
— Foi — ele concordou. — E eu faria de novo.
Ela sentiu o impacto da sinceridade dele como um choque elétrico.
— Não podemos.
— Eu sei.
Mas ele não se afastou imediatamente. E o silêncio que se seguiu era carregado de uma tensão diferente de qualquer outra que ela já tivesse vivido. Não era guerra. Não era disputa. Era escolha.
— Você ama ele — Emmett disse, por fim, mais baixo.
Bella fechou os olhos por um segundo.
— Amo.
Ele assentiu, como se já soubesse.
— Então eu vou ser o idiota que fica do lado de fora. Mas não vou fingir que não senti isso.
O som de passos na areia fez Bella se afastar abruptamente. Edward caminhava na direção deles, expressão indecifrável, olhar escuro demais para ser casual. Ele havia visto? Havia sentido? Era impossível saber. Mas algo na postura dele indicava que a paz frágil daquele fim de semana tinha acabado.
— Interrompo alguma coisa? — Edward perguntou, a voz calma demais.
Bella sentiu o coração disparar. Emmett deu um passo atrás, postura firme, mas não defensiva.
— Só estávamos conversando.
Edward sustentou o olhar do irmão por segundos longos demais. Depois voltou-se para Bella.
— Podemos falar?
Ela assentiu, sentindo o gosto do beijo ainda nos lábios como um segredo que queimava.
Enquanto caminhava ao lado do marido em direção à casa, Bella sabia que algo tinha mudado. Não era apenas culpa. Não era apenas desejo. Era a consciência de que existia outra possibilidade. E, pela primeira vez desde que tudo começara, ela não tinha certeza se o amor que sentia por Edward seria suficiente para apagar o que acabara de acontecer sob aquele céu tingido de fogo.
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A notícia chegou em uma manhã silenciosa demais para o tamanho da explosão que carregava. Edward estava sentado na sala privada da casa de praia, o envelope sobre a mesa de madeira clara, as mãos apoiadas ao lado dele como se segurassem o próprio destino. Bella entrou ainda descalça, usando uma camisa dele que mal cobria as coxas, o cabelo preso de qualquer jeito. Ela percebeu imediatamente o peso no ar. Edward levantou o olhar devagar, e pela primeira vez em semanas não havia arrogância, nem controle absoluto — havia algo quase vulnerável.
— Saiu o resultado — ele disse, a voz firme por esforço.
Bella sentiu o estômago contrair.
— E?
Ele deslizou o papel na direção dela.
— Ele não é meu filho.
O silêncio que se seguiu não foi de alívio imediato. Foi de impacto. Bella leu as linhas técnicas, frias, definitivas. Exclusão de paternidade. Probabilidade zero. Ela deveria ter sentido apenas tranquilidade. Mas o que veio primeiro foi culpa. A imagem do beijo na praia atravessou sua mente como uma lâmina. Enquanto Edward carregava a dúvida, o escândalo, a culpa de não sentir nada pelo bebê, ela havia traído.
— Edward… — a voz dela saiu mais baixa.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Eu quase me odiei por não amar aquele menino. E ele nem era meu.
Bella se aproximou, tocando o rosto dele com delicadeza.
— Você não é o vilão dessa história.
Ele soltou uma risada amarga.
— A imprensa não vai ver assim.
E ele estava certo.
Horas depois, os portais internacionais explodiram. “HERDEIRO FALSO?” “ESCÂNDALO NA CASA BRANCA!” “FILHO ILEGÍTIMO NÃO É DE EDWARD CULLEN.” As imagens que antes mostravam Edward segurando o bebê agora eram usadas como símbolo de humilhação pública. Programas de televisão discutiam fraude, manipulação, ambição. Rosalie virou manchete em todos os continentes. Paparazzi cercaram hospitais, clínicas, antigos endereços. E, em menos de quarenta e oito horas, ela desapareceu. Sem coletiva. Sem defesa pública. Sem despedida. Apenas sumiu, como se nunca tivesse existido.
Na casa de praia, o clima deixou de ser leve. A amizade entre Bella e Alice, que sempre fora sólida como cristal, agora tinha rachaduras visíveis. Desde a conversa em que Alice pedira para Bella escolher qualquer homem do mundo menos um de seus irmãos, algo havia mudado. Elas ainda dividiam o mesmo espaço, mas não a mesma intimidade. Havia cautela nas palavras. Havia distância nos olhares.
Edward, inquieto, procurou Jasper na varanda naquela noite.
— Eu vi o jeito que ele olha para ela — Edward disse, a voz controlada demais. — Não é imaginação minha.
Jasper manteve-se encostado na madeira, observando o mar escuro.
— Não é.
— E ela?
— Ela está confusa. E magoada. E você ajudou a construir essa confusão.
Edward fechou o punho.
— Ele é meu irmão.
— E você é o marido dela. A pergunta é: você age como tal?
O que Edward não sabia era que Emmett estava atrás da porta parcialmente aberta, ouvindo cada palavra. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo próprio Emmett, que entrou sem pedir licença.
— Quer falar de mim, fala na minha cara.
Edward virou-se imediatamente.
— Está apaixonado por ela?
Emmett não hesitou.
— Estou.
O ar pareceu ficar pesado demais para respirar.
— Você perdeu o juízo — Edward disparou.
— Não. Eu só não trato ela como um troféu para desfilar em eventos diplomáticos — Emmett rebateu, a voz subindo. — Bella quer ser amada em voz alta. Quer ser escolhida sem cálculo político.
Edward deu um passo à frente, furioso.
— E você acha que pode oferecer isso? Você, que vive pulando de relacionamento em relacionamento?
— Pelo menos quando eu amo, eu não escondo.
Edward riu, cruel.
— Engraçado você falar de moral. Quer que eu conte para ela sobre você e a mãe dela?
O silêncio foi cortante.
— O quê? — a voz de Bella surgiu atrás deles.
Os três se viraram ao mesmo tempo. Ela estava parada no corredor, pálida, mas ereta.
— Do que ele está falando?
Emmett fechou os olhos por um segundo.
— Eu e Renée tivemos… um envolvimento. Antes. Já acabou.
Bella sentiu como se o chão tivesse cedido. Não era apenas o caso. Era o padrão. A repetição da história.
— Vocês são todos iguais — ela murmurou, a voz trêmula de raiva contida.
Ela virou-se e saiu da casa antes que qualquer um pudesse impedi-la.
A praia estava escura, iluminada apenas pela lua alta. Bella caminhava sem direção, sentindo a areia fria sob os pés. Ela não queria ser como os pais — frios, estratégicos, vivendo de aparências e alianças. Também não queria ser peça em uma guerra entre irmãos. Ela queria amor real. Simples. Sincero.
— Bella! — a voz de Alice veio atrás dela.
Alice aproximou-se com cuidado, diferente da mulher incisiva de dias atrás.
— Eu sei que você está magoada.
Bella riu, amarga.
— Eu estou cansada. Cansada de homens que competem por mim como se eu fosse prêmio. Cansada de segredos. Cansada de escândalos. Eu não quero ser igual ao meu pai e à minha mãe. Eu não quero viver em um casamento onde amor é moeda de troca. Eu queria ser como Esme e Carlisle… mesmo com tudo, eles ainda têm carinho. Eles ainda escolhem um ao outro.
Alice engoliu em seco.
— E o beijo?
Bella fechou os olhos.
— Eu sei que foi errado. Mas, por um segundo, foi simples. Não tinha política. Não tinha herança. Só sentimento.
Alice segurou as mãos dela.
— Você precisa decidir o que quer. Porque os dois estão sangrando por você.
Bella não respondeu. Apenas olhou para o mar, tentando encontrar respostas nas ondas.
Atrás delas, parado a alguns metros de distância, Emmett observava em silêncio. Ele não se aproximou. Não falou. Mas a expressão no rosto dele era clara: ele não estava disposto a desistir tão facilmente. E, pela primeira vez, a guerra não era apenas por poder ou sobrenome. Era por amor dito em voz alta.
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