Dinastia de Cinza

16 Segredos de uma dinastia


Os dias seguintes na casa de praia foram, inesperadamente, leves. Como se o universo tivesse decidido conceder uma trégua antes da próxima tempestade. Edward mudou. Não de maneira sutil — mudou de forma visível, quase juvenil. Havia um brilho novo em seus olhos, uma energia inquieta e empolgada que Bella nunca tinha visto com tanta clareza. Ele acordava antes dela, mas não para trabalhar; ficava observando-a dormir, a mão repousada com cuidado quase reverente sobre o ventre ainda plano. Quando Bella despertava, encontrava-o sorrindo como se guardasse um segredo precioso demais para dividir com o mundo.

— Eu ainda não acredito. — ele dizia todas as manhãs, inclinando-se para beijar a pele da barriga dela. — Nós vamos ter um bebê.

Bella ria, passando os dedos pelos cabelos dele.

— Você fala como se eu não estivesse aqui.

— Você está aqui. — ele murmurava contra a pele dela. — Mas isso… isso é a melhor parte de mim crescendo dentro de você.

Ele a acompanhava em caminhadas curtas pela areia, segurando sua mão com cuidado exagerado. Reclamava se ela ficava tempo demais em pé. Levava suco natural, pesquisava vitaminas, discutia nomes como se estivesse negociando acordos diplomáticos.

— Se for menina, eu escolho. — ele declarou certa tarde, sentado na varanda.

— E se for menino? — Bella provocou.

— Aí eu finjo que estou no controle, mas você escolhe do mesmo jeito.

Ela ria, e naquele riso havia paz. Havia amor. Havia a confirmação silenciosa de que, apesar do caos recente, eles ainda se escolhiam.

Mas nem todos conseguiam assistir àquela felicidade sem sentir algo se partir por dentro.

Emmett evitava olhar quando Edward ajoelhava diante de Bella para falar com o bebê. Evitava estar na mesma sala quando Edward encostava a testa na barriga dela, sorrindo como um homem que finalmente tinha encontrado algo que não podia perder. A cada gesto carinhoso, a cada beijo demorado na cozinha, a cada toque suave nas costas dela, algo em Emmett se tornava mais pesado.

Foi Alice quem o encontrou na varanda, numa noite silenciosa demais.

— Você está se torturando. — ela disse, cruzando os braços.

Emmett soltou um suspiro longo.

— Eu só estou… aqui.

— Não. Você está preso.

Ele a encarou.

— Eu não sei como sair disso.

Alice suavizou o olhar.

— Talvez a melhor coisa para todos seja você ir embora. Seguir sua vida. Criar distância. — Ela deu um passo mais perto. — Você acha que consegue assistir isso crescer todos os dias?

Ele olhou para dentro da casa, onde Edward e Bella riam de algo bobo.

— Não.

Alice assentiu, triste.

— Então não fique.

Ele não discutiu. Não brigou. Apenas aceitou.

Na manhã seguinte, antes que o sol surgisse por completo, Emmett foi embora. Sem despedidas. Sem bilhetes. Sem promessas. Apenas partiu.

A ausência foi notada no café da manhã.

— Onde está o Emmett? — Bella perguntou, olhando ao redor.

Alice manteve a expressão neutra demais.

— Ele precisou resolver algumas coisas.

Bella sentiu um aperto inexplicável no peito. Não era amor romântico — era perda. Era a falta de alguém que, apesar da confusão, sempre esteve ali. Ela saiu para a varanda e ficou olhando o horizonte por longos minutos, sentindo o peso da partida silenciosa.

Edward a abraçou por trás.

— Ele precisava de espaço.

Ela apenas assentiu, apoiando-se no marido. Mas a casa parecia maior demais sem o riso alto dele.

A paz durou pouco.

Charles Swan apareceu naquela tarde como uma tempestade vestida de terno caro e expressão desesperada. O carro oficial parou com pressa excessiva, e ele desceu antes mesmo que o motorista abrisse completamente a porta.

— Eu preciso falar com Edward. Agora. — disse, a voz tensa.

Bella sentiu o estômago revirar. Havia algo errado. Muito errado.

No escritório improvisado, a porta se fechou com força. O tom da conversa subiu rápido demais.

— O FBI está em cima de mim. — Charles disparou, andando de um lado para o outro. — Eles estão reabrindo contratos antigos. Investigando transferências. Eu preciso que você apague os rastros. De novo.

Edward estava imóvel atrás da mesa.

— Você me garantiu que isso estava limpo.

— Estava! — Charles explodiu. — Mas alguém vazou informações. Se eu cair, Edward… todos nós caímos. Inclusive você.

O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo.

— Que tipo de informações? — Edward perguntou, frio.

Charles hesitou apenas um segundo.

— Fundos desviados. Acordos paralelos. Apoio externo para campanhas. Nada que não possa ser… ajustado.

Edward passou a mão pelo rosto.

— Isso é federal, Charles.

— É família! — ele rebateu. — Você já apagou rastros antes. Faça de novo.

Quando saíram do escritório, o clima da casa tinha mudado completamente.

Dias depois, todos estavam de volta à Casa Branca. O ar parecia carregado de eletricidade invisível. Telefonemas sussurrados. Portas fechadas com pressa. Olhares trocados em silêncio.

Bella percebeu.

— Alice, o que está acontecendo? — perguntou, num corredor vazio.

Alice balançou a cabeça.

— Eu não sei. Mas eu sinto… que algo ruim está vindo.

Naquela madrugada, Bella sonhou com fogo. Com tiros. Com Edward caído entre chamas e fumaça. Ela acordou sobressaltada, o coração disparado, o corpo coberto de suor frio.

— Edward?

A cama estava vazia.

Ela vestiu o robe de seda, caminhando pelos corredores silenciosos da Casa Branca, os pés descalços quase não fazendo som no piso frio. A biblioteca estava iluminada.

Ela parou na porta.

Charles andava de um lado para o outro, nervoso. Carlisle estava sentado numa poltrona, as pernas balançando de forma frenética, algo incomum em sua postura sempre controlada. Edward estava diante de um computador que Bella nunca tinha visto antes, os dedos digitando rápido demais, o rosto suado, a mão passando repetidamente pelos cabelos.

Eles demoraram alguns segundos para notar a presença dela.

— O que está acontecendo? — Bella perguntou, a voz firme apesar do medo crescente.

Charles foi o primeiro a reagir.

— Bella, você não deveria estar aqui.

— Eu moro aqui. — ela retrucou. — E eu estou grávida. Eu tenho o direito de saber.

Carlisle levantou-se.

— Filha, você precisa evitar estresse.

— Não me tratem como se eu fosse frágil! — ela explodiu.

Charles respirou fundo.

— Ao amanhecer, você, Alice, Esme e Renée vão embarcar para a Europa.

Bella congelou.

— O quê?

— É temporário. — ele insistiu. — É pelo bem do bebê.

— Pelo bem do bebê ou pelo bem de vocês? — ela confrontou.

Ela virou-se para Edward.

— Me explica o que está acontecendo.

Edward se levantou, aproximando-se devagar.

— Vai ficar tudo bem.

— Isso não é uma explicação.

Ele segurou o rosto dela com cuidado.

— Confia em mim.

Havia medo nos olhos dele. E aquilo foi pior do que qualquer resposta.

Antes que o dia amanhecesse, as mulheres embarcaram no jatinho presidencial secundário. Sem malas. Sem planejamento. Apenas escoltadas por um grupo de seguranças fortemente armados, rostos sérios demais para uma simples viagem preventiva.

Bella olhou pela janela enquanto o avião decolava, sentindo o coração apertado.

Ela tinha a sensação clara de que não estava indo embora para se proteger.

Estava sendo afastada para não ver o que estava prestes a acontecer.