Dinastia de Cinza
19 Fantasmas Não Morrem, Eles Esperam...
O jato cortou o céu da madrugada como uma lâmina silenciosa. Edward não desviou os olhos da escuridão do lado de fora durante todo o voo de volta para Washington. Bella ficou na ilha com Charles e Renée — por recomendação médica, por segurança, por estratégia… ou talvez por prisão. Ele não sabia mais diferenciar. Só sabia que seu pai estava entre a vida e a morte, e que tudo aquilo tinha cheiro de acerto de contas antigo.
Quando atravessou o corredor branco do hospital em Washington, o ar parecia pesado demais para ser respirado. A UTI tinha iluminação fria, impiedosa. Carlisle estava imóvel, tubos conectados ao corpo, curativos no tórax, monitores marcando um ritmo frágil demais para um homem que sempre fora sinônimo de equilíbrio.
Edward parou diante do vidro.
Ele nunca tinha visto o pai vulnerável.
Nunca.
Esme se aproximou devagar, segurando o próprio choro com uma dignidade que só mulheres como ela sabiam sustentar. Alice vinha logo atrás, silenciosa, os olhos vermelhos, mas atentos.
— Ele vai acordar — Esme disse, quase como uma oração.
Edward não respondeu de imediato. Seus olhos percorriam cada detalhe do pai, cada marca, cada sinal de que aquela bala não era apenas física — era política.
— Isso não foi aleatório — ele murmurou. — Foi mensagem.
Alice cruzou os braços, inquieta.
— Você acha que foi alguém de dentro?
Edward respirou fundo.
— Não. Foi alguém que quer que a gente pense isso.
Esme fechou os olhos por um segundo.
— Seu pai sempre foi leal demais ao Charles. Eu dizia que amizade na política é diferente… mas ele nunca acreditou. — Ela olhou para o marido inconsciente. — Ele não era a favor das coisas que Charles fazia. Eu sei disso. Ele discutia. Ele tentava colocar limites.
Edward finalmente virou o rosto para a mãe.
— Ele não estava envolvido diretamente. Quem estava era eu.
Alice arregalou os olhos.
— Edward…
— Eu me envolvi mais que ele. Eu era quem apagava. Quem modificava. Quem criava as camadas de proteção. — Ele passou a mão pelos cabelos, exausto. — Meu pai só estava ali… para evitar que eu me afundasse sozinho.
Esme sentiu o peso da confissão.
— Ele sempre teve medo que você se perdesse no meio disso.
— Eu já me perdi.
O silêncio foi interrompido pelo som discreto de passos elegantes no corredor. Um homem alto, postura impecável, terno escuro sob medida, caminhava com tranquilidade perturbadora. O sorriso era sutil. Frio. Calculado.
Marcus Volturi.
Ele parou ao lado de Edward como se fosse apenas um velho conhecido oferecendo condolências.
— Trágico o que aconteceu com o amigo Carlisle — disse, a voz suave demais para ser sincera. — Washington anda perigosa ultimamente.
Edward virou lentamente o rosto para ele.
— O que você está fazendo aqui?
Marcus inclinou levemente a cabeça.
— Visitando meu… melhor amigo de infância.
Alice sentiu o estômago revirar.
Marcus ignorou a tensão e olhou através do vidro para Carlisle.
— Sempre foi o mais fraco de nós três. Bondoso demais para sobreviver nesse jogo.
Edward deu um passo à frente.
— Cuidado.
Marcus sorriu, ampliando o gesto com teatralidade mínima.
— Ainda acha que pode me intimidar, garoto? Você herdou a arrogância dos seus avós… mas não o instinto.
Esme segurou o braço do filho.
— Edward…
Marcus voltou os olhos para ela.
— Esme querida, sempre tão elegante. Sinto muito pelo seu marido. Espero que ele sobreviva… eu realmente odeio trabalhos mal executados.
O corredor congelou.
Edward sentiu o sangue ferver.
— Foi você.
Marcus abriu as mãos, fingindo surpresa.
— Provar isso seria… complicado.
E então, como se estivesse apenas cumprindo protocolo social, ele se aproximou da porta da UTI. Minutos depois, surpreendentemente autorizado a entrar como “amigo da família”, ele ficou sozinho com Carlisle.
O quarto estava silencioso, exceto pelo bip constante do monitor.
Carlisle abriu os olhos lentamente.
Reconheceu o rosto antes mesmo que o cérebro processasse a dor.
— Marcus…
O sorriso do visitante era antigo. Conhecido. Cruel.
— Achei que você fosse morrer antes de me ver novamente, amigo.
Carlisle tentou falar, mas a respiração era difícil.
Marcus aproximou-se da cama.
— Lembra quando éramos apenas três garotos ambiciosos? Você, eu e Charles… inseparáveis.
O passado veio como um soco.
Três adolescentes correndo pelos corredores do colégio interno. Três nomes promissores. Três futuros políticos sendo moldados em jantares familiares estratégicos.
Marcus Volturi era o mais brilhante. O mais ousado. O mais carismático.
E era apaixonado.
Renée Higginbotham.
Ela ria para ele nos corredores. Segurava sua mão escondido dos pais. Fazia planos ingênuos sobre o futuro.
Até que o futuro foi decidido sem eles.
Os Swan e os Higginbotham organizaram uma união política.
Renée seria prometida a Charles.
Marcus descobriu através de um convite formal antes mesmo de ouvir da boca dela.
Ele confrontou Charles naquela noite.
— Você sabia — Marcus acusou, os punhos cerrados.
— Não foi minha escolha — Charles respondeu.
— Mas você aceitou.
Carlisle estava ali. Assistindo. Em silêncio.
Marcus esperava que ele tomasse partido.
Não tomou.
Continuou amigo de Charles.
Continuou ao lado dele.
E naquele dia, algo morreu.
No presente, Marcus inclinou-se sobre Carlisle.
— Charles roubou a mulher que eu amava. Roubou a aliança política que era minha por direito. Roubou o poder que estava destinado ao meu nome. — Sua voz perdeu o tom suave. — E você ajudou.
Carlisle tentou responder.
— Eu… nunca…
— Você escolheu ficar do lado dele.
Marcus se endireitou.
— Eu passei anos construindo algo maior. Mais sujo. Mais eficiente. Você acha que Charles é corrupto? — Ele riu baixo. — Ele é amador.
Do lado de fora, Edward observava cada movimento através do vidro.
Marcus continuou.
— Eu tenho homens infiltrados na ilha. Desde o primeiro dia. Jardineiros. Seguranças. Funcionários. — Ele inclinou a cabeça. — A sua pobre nora está tão… vulnerável.
O coração de Carlisle disparou nos monitores.
— Não… toque… nela…
Marcus sorriu.
— Eu não quero matá-la. Ainda. Quero que Charles sinta o que é perder algo que ama.
E como se o destino quisesse acrescentar mais veneno à história, o telefone de Edward vibrou naquele exato momento.
Era Jasper.
A voz veio trêmula.
— Temos um problema.
Edward já sabia.
— Fala.
— Rosalie desapareceu da ala administrativa há alguns meses. Descobrimos transferências de informações sigilosas… todas para uma empresa ligada ao Volturi Group.
O nome caiu como uma bomba.
Rosalie.
A doce, impecável, sempre presente Rosalie.
Edward fechou os olhos por um segundo.
— Ela estava trabalhando para ele.
— Desde o início — Jasper confirmou.
Na ilha, naquele mesmo instante, um dos seguranças trocou um olhar rápido com outro homem junto ao portão principal.
O plano estava em andamento.
Marcus saiu do quarto da UTI com elegância intacta.
Passou por Edward sem pressa.
— Dê lembranças à sua esposa — disse, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Aproveite enquanto pode.
Edward não respondeu.
Mas algo dentro dele finalmente quebrou.
Aquilo não era mais defesa.
Não era mais apagar rastros.
Era guerra.
E Marcus Volturi tinha acabado de declarar.
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