Esme olhava para a grande folha em sua frente e sorriu. Há quanto tempo ela não pegava uma folha de desenho? Há um século! Respirou fundo e ficou satisfeita com o seu primeiro esboço de planta baixa. É claro que muitas coisas técnicas teve que pesquisar por que tinha esquecido, mas o que conseguiu fazer era mágica.

A brisa agradável do jardim do palácio de Belgravia quase levou os papéis da mesa, mas uma mão segurou tudo a tempo. Antony, seu neto mais novo, sentou-se ao lado dela e lhe entregou uma xícara de café com aquele jeito maroto que sempre tinha.

— Eu não acredito que eu estou vendo vovó! Você voltou a seu modo arquiteta?

A rainha sorriu orgulhosa. Ela chegou a ser arquiteta de verdade? Não teve tanta prática na profissão, mas sempre que podia desenhava alguma coisa ou outra apenas para não perder o jeito. Mas aquela vez era diferente. Aquela planta era para uma pessoa especial e isso a incentivava a caprichar ainda mais.

— Acho que sim!

— Cara isso ta muito bom!

— Obrigada, querido!

— Estou feliz que tenha tirado as teias de aranha desse seu talento nato. Mas por que agora?

— Melany e George estão querendo construir uma casa própria.

— Graças a Deus, ein? Fui lá esses dias e aquele “apertamento” que eles estavam... – falou sorrindo. – Não dá pra ter uma família num lugar pequeno como aquele.

— É sobre isso. Eles estão juntando um dinheiro há um tempo. Compraram um terreno e querem começar a construir aos poucos e adivinha a quem eles pediram para projetar a casa?

Antony bateu as mãos e riu.

— Ah! Que máximo! É por isso que amo Melany. Foi a melhor idéia que ela teve em anos. Espera que esse é um momento histórico. Tenho que tirar uma foto.

Antony correu para dentro do palácio como fazia quando tinha 5 anos de idade e era apenas um garoto levado. Voltou com uma câmera fotográfica profissional enorme. Ela se posicionou com um sorriso e flash! Seu neto registrou o momento com um clique.

— Outra só para garantir.

Ela se posicionou novamente e prestou bastante atenção na presteza de Antony em tentar capturar a foto perfeita. Um pouco de sua língua foi para fora entre os dentes e se inclinou de uma forma que não ficasse nem muito perto e nem muito longe. Flash novamente! Antony foi até ela novamente e mostrou-lhe as fotos que tinha tirado. Tinha que reconhecer que ele era bom. Além da música, a fotografia era outro talento dele.

— Fiquei meio insegura em aceitar o pedido de primeira, sabe? Já faz muito tempo que eu não tenho acesso as técnicas da construção de uma planta baixa. Mas é aquela coisa... Ela podia pedir a qualquer pessoa e sua prima e George são muito especiais para se recusar algo.

— E você achou que ela queria apenas lhe agradar fazendo essa homenagem. Quando vai reconhecer que é uma puta de uma desenhista e arquiteta?

Esme ignorou o palavrão e inclinou a cabeça com um sorriso modesto. Aquele pedido foi mais do que especial, mostrou pra ela a vocação que tinha e esquecido. Fez renascer aquela garota de vinte e poucos anos que tinha um sonho em fazer grandes obras arquitetônicas e tentava se superar cada vez mais em seus trabalhos. Foi bom se sentir mais jovem novamente.

— Eu tinha esquecido como fazer isso aqui. Foi excelente poder voltar no tempo e rever todas essas técnicas de criação. Eu sei que ela vai pedir para outro arquiteto avaliar e deve fazer isso, mas só em poder contribuir com o sonho dela já é mais do que gratificante.

— É isso é legal pra caramba! Eu devia ter tido essa idéia.

— Por que? Pensa em sair do cafofo e construir uma casa para morar com Ashley?

Antony deitou no banco e colocou as pernas pra cima enquanto coçava o queixo pensativo.

— Na verdade, eu e Ashley estamos bem como estamos.

Não imaginava que Antony poderia estar pensando realmente em formar uma família com Ashley. Estava muito confortável essa vida de “namorido”, sem muitas perspectivas para o futuro. Na verdade isso era o jeito de Antony responder os seus desacordos com o modo de se comportar da sociedade.

Fisicamente era idêntico a Edward, sem tirar nem pôr, mas totalmente diferente na personalidade. O oposto da sua irmã, Renesme, que sempre foi a responsável da família, assim como o pai puxava todos os problemas para si própria. Antony nunca gostou disso, de padrões especificamente, de se rotular e ter que seguir cartilhas prontas. Ser diferente era sua religião. Por isso se aproveitava disso para fazer e dizer tudo que fosse o contrário do que queriam dele.

Renesme dizia que ele vivia numa eterna adolescência e sempre se preocupava com o irmão até mais do que o necessário, principalmente após o falecimento de Bella. De certa forma, a neta tinha razão. Antony se aproveitava do fato de sua posição confortável dentro da realeza, sendo príncipe, mas não o herdeiro, para fazer suas vontades e sem se preocupar muito com as responsabilidades.

— E você não acha que depois do casamento de vocês, ela não tenha pensado em evoluir com você a esse ponto?

— Eu desejo ser feliz com ela da maneira que for, vó. Ashley tem o trabalho dela. Tem conseguido ser o rosto de várias marcas e revistas por aqui. Não sei se uma gravidez agora seria muito bem- vinda! Mas é aquela coisa, quero que ela decida a hora certa.

— Pensando assim, acho que é realmente importante poder deixá-la decidir.

— Detesto essa coisa de predestinado. Quantas pessoas de nossa família foram impedidas de sonharem e se planejarem para o futuro por que estavam presas a linha sucessória ao trono? Especialmente mulheres. Mamãe tinha um talento nato para a escrita. Eu ficava lendo os emails dela e achava um máximo e era por que era algo simples. Ela teria se dado bem como escritora, professora ou o que ela quisesse fazer no ramo da qual ela se formou se não tivesse sido obrigada a servir a “firma”.

— Isso era verdade. Bella tinha algo especial! As pessoas se apaixonavam por ela de uma forma impressionante. Ela passava qualquer recado de uma maneira que todos conseguiam entender e apoiar. Isso não é muito fácil, você conseguir a atenção e o respeito das pessoas.

— Você também vovó. Olha o talento que tem como arquiteta? Não admito que tenha sido desperdiçado.

— Tem que entender também que foram escolhas que fizemos e ninguém nos obrigou a isso. Tenho certeza que sua mãe não se arrependeu de ter se casado com o seu pai e de ter entrado para a realeza, assim como eu não me arrependi. O conhecimento, querido, é a única coisa que não podem tirar da gente e isso não será perdido.

— Mas não quero que Ashley tenha que escolher entre eu, o que eu represento e sua carreira. Não é justo.

— Não é. Acho que ela soube bem dosar as coisas.

— Isso por que pedi ao papai para que ela não tivesse obrigações com os trabalhos reais. Imagina vovó se você e mamãe tivessem tido essa oportunidade, como teria sido?

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 8

Sim, eu fui a primeira rainha de Belgonia a ter ensino superior completo. Tenho muito orgulho disso apesar de nunca ter exercido a minha função como arquiteta, após a formatura. Mas era um sonho que eu tinha e consegui realizar.

O meu relacionamento com Carlisle nunca prejudicou a minha faculdade. Não pensei também em relaxar os estudos por causa do meu relacionamento com ele. Digamos que no início dos anos 80 ainda muitas moças pensavam que o fim da linha era o casamento. Ouvi diversas amigas minhas na época literalmente brigando comigo por que eu aproveitava cada minuto de folga para estudar para as provas. Elas diziam:

— Você já está com um cara rico por que ainda se esforça desse jeito?

Pelo simples fato que eu não queria abrir mão de algo que lutei tanto para conseguir por causa de namoro. Sempre me orgulhei muito da minha mãe que tinha a sua carreira e continuou tendo mesmo após papai. Eu não queria ser diferente dela.

Pra não dizer que não exerci um pouco na carreira de arquitetura, fiz um ano de estágio numa empresa de arquitetura em 1980. Faltava ainda três semestres para a minha conclusão de curso, mas eu estava empolgadíssima para trabalhar na área. Sempre eu tinha trabalhado e estudado, porém, os trabalhos que tive não se encaixavam bem no meu sonho acadêmico. Então, quando me candidatei a vaga para o estágio remunerado na “Art Life” queria provar pra mim mesma que estava pronta.

O que eu tinha que fazer era basicamente criar um projeto arquitetônico que houvesse ao menos algo criativo e original. Não era algo realmente fácil. Afinal o que haveria de existir que fosse totalmente autoral? Passei dias pensando e revirando várias idéias. Não queria desistir. Art Life era uma empresa renomada de arquitetura, estar lá iria ser mais um passo para a realização do meu sonho.

— Simplesmente não tenho mais nenhuma idéia na cabeça! – afirmei certa noite depois de tanto tentar criar projetos que eu imaginava que iria me dar a vaga no estágio.

— Não diga isso. Apenas tem que pensar em algo que seja simples. Está tentando bolar algo impossível e isso sim não vai existir. – Carlisle falou para mim com aquele mesmo tom tranqüilo de sempre.

— Eu não agüento mais! – falei emburrada enquanto jogava as revistas de arquitetura para longe.

Abaixei a cabeça me sentindo completamente esgotada. Carlisle pegou uma das revistas e começou a folheá-las. Ela já sabia que enquanto eu estivesse com um humor dos diabos não deveria mexer comigo. Eu me admirava sempre de sua compostura calma e tranqüila mesmo sabendo que eu poderia explodir a qualquer instante.

— Não sei como eles conseguem deixar essas casas tão bonitas nessas revistas de arquitetura.

Mantive o silêncio.

— Se ao menos pudesse fazer uma reforma dessas na minha...

— Chamar o palácio de Belgravia de casa é quase um insulto. – falei entrando no plano dele para me distrair.

— Lar, então.

— Acho o palácio um belíssimo lugar! Quer dizer... Acredito que seja. Só aquela fachada espetacular do século XVIII, ornamentado nos mínimos detalhes... Perfeito!

— Por dentro também é muito belo. Cheio de arte e História, coisas que estão ali por gerações.

— Imagino. Deve ser um paraíso para qualquer arquiteto lá dentro.

— Eu vou te levar lá para você conhecer.

Paralisei um instante. Por mais que eu soubesse do drama que havia dentro daquele ambiente pelas histórias que Carlisle me contava, e que cada dia ficava pior a ponto dele preferir ficar quase que definitivamente em seu dormitório na faculdade para não ter que encontrar os pais, agora estava ele ali tranquilamente me falando que me levaria para conhecer o palácio, lugar onde eu não seria bem – vinda com certeza. Seria um sinal de mudança? Preferi não prolongar o assunto.

— E que tipo de mudança faria se pudesse?

— Sei lá... Deixaria mais a minha cara. Misturaria o novo com o velho ou algo assim. Você não sabe, mas no inverno o encanamento às vezes congela e não tem outro jeito a não ser tomar banho frio e nada podemos fazer quanto a isso.

— Mas existe um jeito e é até permitido que se façam algumas mudanças em prédios antigos sem mudar muito o estilo original.

E aí veio a idéia de milhões que me inspiraria no meu projeto para a Art Life. Levantei o dedo como se pedisse uma pausa para Carlisle e peguei uma folha de rascunho. Comecei a escrever sem parar para as idéias não saírem da minha cabeça. Em Belgravia tínhamos muitas situações parecidas com essa que ele me contara. A cidade se misturava entre a capital moderna cosmopolita com a antiga cidade projetada no século XVIII. Algumas ruas apertadas de calçamento. Prédios que tinham a instalação elétrica de 70 anos atrás e que se fossem modificadas teria que mudar a estrutura do prédio. Mas se não se modificasse o risco de incêndio seria enorme.

O caso que na época havia uma grande discussão a respeito da preservação do patrimônio histórico, que eu super concordei. Não é justo abandonar a nossa História e nem a nossa identidade para dar lugar ao novo. Porém, também não poderíamos viver do passado. Não havia uma lei que definia os limites de depravação ou não de um prédio antigo. Então, qualquer coisa que fosse feita virava uma grande briga.

Eu estava pronta para tentar me aventurar nessa discussão. Quando terminei de organizar os meus pensamentos e mostrei a folha para Carlisle. Foi tão bom ver as expressões dele mudando em seu rosto. Curiosidade, interesse, surpresa, felicidade. Essa última me rendeu um selinho demorado.

— Isso seria um sonho! – afirmou.

E foi. Depois que ele saiu passei a noite fazendo a planta de um apartamento adaptado a um prédio comercial antigo. Haviam muitos na nossa região comercial. Inclusive, bolei uma forma de ajustar a temperatura dele através de coisas simples, o tipo de portas e janelas, as de madeira são muito quente para o verão e altamente inflamáveis em caso de incêndio, e isso tinha ocorrido com uma freqüência bem assustadora anos antes. Além do que madeira significava árvores sendo desmatadas. Vidros e alumínio seriam a solução. E também bolei a posição de certos objetos que aproveitassem a mais a luz do sol em posições estratégicas. Finalizando com um teto que combinava com placas que absorvessem a luz do sol e plantas que deixavam o ambiente mais fresco. Tudo isso pra evitar ao máximo o uso de aquecedores e ar-condicionado. Pouparia energia e nem mexeria muito com a estrutura original dos prédios.

Foram esses os argumentos que usei para apresentar meu projeto para os donos da Art Life. Lembro de ficar nervosa, roer todas as minhas unhas, e ensaiar em frente ao espelho inúmeras vezes. Sabia que o meu futuro chefe era muito exigente e realmente foi. Os outros dois fundadores da empresa foram até simpáticos, mas ele me olhava com uma cara emburrada e fazia perguntas difíceis. Tentei ser humilde o suficiente admitindo que algumas coisas poderiam ser modificadas, mas o que deveria ser levado em conta era a comodidade do provável cliente e a defesa do patrimônio histórico.

Quando claramente não havia mais nada para ser dito. Todos pediram para eu aguardar ao lado enquanto conversavam. Eu era a última a me apresentar naquele dia. Assenti e sai direto para o bebedouro. Bebi uns três copos de água e tentei fazer com que as minhas pernas não tremessem mais. Vi o telefone fixo vermelho quase me chamando. Timidamente, fui até ele e pedi para usar. A secretária assentiu e liguei para Carlisle torcendo para que ele tivesse saído das aulas. Era engraçado que já estávamos num estágio tão avançado da nossa relação que antes ligaria direto pra casa pedindo conforto a minha mãe ou Lily, mas agora era a voz dele que queria ouvir.

— Acho que não vai ser dessa vez.

— O que? Seu projeto é perfeito! Apenas confia, meu amor! Você é braba!

— Deus te ouça!

— Senhorita Platt? – uma das donas da empresa me chamou.

— Tenho que ir. – falei pra Carlisle.

— Sorte!

— Obrigada. Eu te amo!

— Eu também te amo!

Desliguei o telefone e agradeci por ter me deixado usá-lo. Ouvir a voz tranqüila de Carlisle era como injetar uma dose de segurança necessária. Entrei na sala e me sentei na cadeira que eles me indicaram e aguardei eles falarem alguma coisa. O chefão me olhou sério novamente e foi logo sucinto:

— Você ganhou a vaga.

O outro bateu palmas e me deu um sorriso.

— Parabéns senhorita Platt! Seu projeto foi o mais útil e promissor que passou por aqui.

— Obrigada senhores e senhora. Será uma honra trabalhar aqui.

— Você foi bem. Mas quero que prove que é bem mais do que a namoradinha do príncipe.

Sorri sem graça. Fiquei pensando: será que tinham me dado a vaga apenas por eu ser a namorada de Carlisle? Ele teria se intrometido e pedido a vaga pra mim utilizando a sua influência? Não, isso não seria possível! O senhor Jonnata não seria tão exigente à toa. Mas é claro que essa seria a minha “sina” que eu levaria enquanto estivesse namorando com um príncipe. Mas eu jamais quis que as pessoas usassem isso para me darem mais do que eu merecia. Eu sempre quis provar que eu era bem mais do que eles pensavam que eu era.

O ano que passei estagiando na Art Life foi um dos mais importantes da minha vida. Trabalhei duro de verdade e a cada segundo quis mostrar que eu era muito capacitada para ajudar na criação de qualquer projeto arquitetônico que era me encarregado. Chegava cedo, saia só depois da conclusão do meu serviço, fazia questão de perguntar e aprender muito com as experiências do dia a dia. Até que quase no fim do meu período por lá recebi um elogio do homem que parecia não conhecer isso:

— Você realmente talentosa!

— Obrigada!

Sou muito grata a Jonnata Bursin. Se ainda estou recordando a nossa parceria de muitos anos atrás e dedicando um capítulo a falar dele é por que muito devo a ele. Sua exigência e cobrança acirrada foi muito importante para a formação da pessoa que eu sou, que pega o mínimo e tenta através disso fazer o seu melhor. Com ele aprendi que posso sempre ser ainda melhor como esperava que eu fosse, valorizasse o que eu possuía por dentro e não o que me faltava, como eu costumava fazer às vezes.

Outro agradecimento era pelo fato dele me ensinar abertamente uma lição valiosa: aprender a não me silenciar por causa de outras pessoas. Aquele comentário inicial sobre meu relacionamento pessoal me fez pensar muito. É claro que aquilo foi totalmente machista, mas a sociedade pensava o mesmo. Não importava o que fizesse ou era, sempre iriam validar Carlisle não a mim, pela importância do título dele e por ser homem, óbvio. Na época mais ainda, onde mulheres eram para estar em segundo plano. Mas eu não queria isso de jeito nenhum. Por isso nunca deixei que me invalidassem ou silenciassem.

Quando Carlisle me propôs em casamento, eu sabia que tinha sido colocada com as costas sobre o muro. Por que agora acima de tudo eu teria que abdicar da minha carreira e seguir o que eu mais pregava contra. Foi uma escolha difícil no final. A arquitetura era a minha vida também. Mas ainda sim, mesmo decidido me unir pelas escolhas do coração, sempre tentei tirar o melhor proveito daquilo. Me especializei em vários projetos que poderiam estar presentes na sociedade, estudei economia, que era algo que jamais pensei que iria me interessar, aprendi outras línguas. Tudo isso para que não ficasse em segundo plano. Sempre existe algo que nos faça engrandecer e crescer mesmo não sendo exatamente no que você pensou antes. Me encontrei sendo mãe, esposa, duquesa e depois rainha também por que eu queria dar o meu melhor para aquelas pessoas.

No fim, me orgulho da minha trajetória. Meu relacionamento com Carlisle nunca foi baseado em competição e nem de superioridade dele com relação a mim. Na verdade, muitas vezes ele via o quanto muitas vezes eu era inativada por muitos para favorecê-lo e eu via o quanto isso o irritava. Mas eu tinha aprendido a “pegar os limões e fazer uma limonada”. Aprender sobre tudo para falar e agir com coerência no meu trabalho dentro da “firma”. Fui ganhando a confiança das pessoas ao meu redor aos poucos. Fui regente desse país duas vezes e dei tudo de mim para que tudo desse certo.

Minha relação com Carlisle, no amor e no trabalho, sempre foi de igual para igual, não só de sintonia, mas de apoio um para o outro, nenhum lugar de desnível e foi assim até o fim de nossas vidas juntos.

** *

— Mas vou ter que te corrigir em um ponto. A arquitetura nunca saiu da minha vida. Só não trabalhei na área por completo como achei que seria quando entrei na faculdade.

— Não?

— Não. Você sabe quem projetou o apartamento no palácio que você morou a vida inteira?

— Você? Não! Passado aqui! – Antony riu com uma gargalhada estridente que Esme conhecia bem.

— Pode acreditar que sim. Há muito tempo atrás, eu concorri para uma vaga num escritório de arquitetura e o meu projeto de apresentação foi justamente aproveitar os prédios antigos de forma que se adéqüem a modernidade.

— Interessante. Hoje parece tão comum! Mas na época devia ser algo realmente visionário.

— Era um pouco. A discussão já existia há um tempo. Só peguei carona, mas enfim, foi uma inspiração pra mim quando me casei com o seu avô. A gente queria que a nossa família, que estava começando, tivesse um lar com a nossa cara e longe das sombras ao redor.

— Meio que um mini multiverso.

— Um pouco disso sim. Depois, eu segui com outras idéias, por exemplo, as placas solares daqui e lá do outro palácio, foi projetado por mim à instalação.

— Você sempre foi genial, vó! Eu admiro muito sua força e poder de liderança. O reinado do vovô não teria sido tão icônico sem sua presença ativa. Lembro bem de você colocando suas idéias em jogo e fazendo tudo acontecer.

— Obrigada, querido, mas tudo se baseia numa parceria. Eu não seria nada sem Carl e ele sem mim. Unimos forças e é assim que deve ser. Um conselho pra você e para Ashley. Ser feminista não significa abdicar do amor ou da perspectiva de formar uma família por que isso soaria machista e conservador.

— Você está querendo outros bisnetos, não é? O de Renesme que já já pinta por ai?

— Não estou brincando, meu bem. Uma hora a gente precisa não ter medo de crescer.

Esme bateu de olho para o neto e recebeu dele um olhar reflexivo. Sabia que tinha sido uma frase dura. Ela sabia que às vezes golpes mais pesados tinham que ser dados. Antony precisava encontrar um rumo em sua vida. Saber o que era realmente importante, assumir responsabilidades e se tornar o adulto que era. A rainha se preocupava muito com isso. Se pudesse pegar um pouquinho do senso exacerbado de dever de Renesme e distribuir igualmente com o irmão dando a ela a leveza que ele tinha seria perfeito.

— O que preciso fazer para me desculpar, então?

— Primeiro pensar no que eu disse e segundo, bem, tocar um pouquinho de violão pra mim.

— Sim para os dois, mas só se me fizer aquele cafuné gostoso. Estou com saudade do seu colo, vó.

Esme riu e levantou-se junto a ele, o abraçando. Nada que ele fizesse iria deixá-la com raiva. Sempre tinha sido assim. Lembrava dele assaltando a geladeira antes das refeições principais e ela ficar bastante brava, mas ele a olhava com aqueles olhos de culpa que a tirava de prumo. Ainda mais com a boquinha toda suja de chocolate. Antony era de uma leveza tão grande, com uma áurea tão doce que ninguém conseguia ficar realmente contra ele, nem mesmo Bella que costumava ser bem rigorosa com os filhos.

— Você sempre foi assim, não? Mendigando carinho como um gatinho manhoso.

— Fazer o que? Tenho uma vó com ótimas mãos para um aconchego e com um coração do tamanho do mundo.

— E eu tenho o neto mais manhoso de todos!

Os dois seguiram abraçados e sorrindo para dentro do grande palácio relembrando os tempos que não voltariam mais. COMENTEM BASTANTE!