Maio de 2044

Alec Volturi olhava para baixo pela pequena janela do avião e deu mais um suspiro. Ele já tinha perdido as contas de quantas vezes já fizera esse mesmo gesto. Lá de baixo já se podia ver os prédios de Belgravia. O seu destino estava cada vez mais próximo.

Essa viagem a Belgonia seria muito boa em outras épocas. Mas ele sabia que cada vez mais estava se encurralando na jaula que seu pai queria prendê-lo. Para todos os sentidos a estadia dele no pequeno país seria apenas uma visita de estado como todas as outras. Porém, não havia dúvida que o maior interesse por trás disso era arranjar o seu casamento com a princesa Renesme. Foram incontáveis vezes que o seu pai falara sobre o assunto e dizia sempre que era algo extremamente promissor! O quanto eles não ganhariam com aquela união? Os olhos dele brilhavam toda vez que se dirigia ao assunto com o filho. Nunca esqueceria a cara que ele fez quando recebeu a carta da Rainha Esme convidando Alec para uma visita a Belgonia. Parecia que o velho Aro tinha ganhado na loteria.

Alec era indiferente à ideia. Nunca pensou muito em se casar um dia. Mulheres, para ele, eram uma diversão espontânea e nada mais. Caius era quem tinha que se preocupar em se casar para continuar a sucessão a coroa. Ele estava muito confortável em ser à sombra do irmão e isso lhe sobrava tempo para fazer o que queria sem ser cobrado. Mas agora tudo estava pesando em seus ombros. Não aguentava ficar ouvindo o seu pai lhe dizer o tempo todo como ele deveria conquistar a princesa. Não era dessa forma que ele acreditava que tudo funcionava. Não queria ter que agir sob pressão.

O avião começou a pousar e Alec voltou a se concentrar na princesa Renesme. Ele se lembrava dela vagamente. Ambos já tinham se encontrado outras vezes. Na última vez que isso tinha acontecido, ele tinha uns dezesseis anos e ela era apenas uma pré-adolescente com cara de menininha. Esperava que pelo menos dessa vez, ela tivesse com um ar mais agradável.

Enquanto isso, a princesa aguardava o avião particular pousar no aeroporto. Ela e Tom seguiram para a pista de pouso. Estar na presença do seu segurança ainda era algo desagradável. Ele não voltara a falar com ela desde o beijo que ambos tinham trocado. Renesme tentou se desculpar e voltar a ter uma conversa amigável com ele, mas nada surtira efeito. A princesa sentia falta de estar com ele falando sobre amenidades, andando a cavalo e especialmente da sensação de paz e alegria que ele proporcionava a ela. Tudo tinha sido estragado e ela se ressentia muito por isso.

Alec desceu do avião e logo viu a pequena princesa o esperando ao lado do seu segurança. Com certeza, o tempo a favoreceu muito. Ela devia, como ele, estar beirando aos trinta agora e podia-se ver isso nas expressões dela. À medida que ele descia as escadas podia ver o seu intenso olhar em direção a ele. Era incrível como a primeira coisa que ele percebera fora aqueles expressivos olhos verdes a observá-lo. Pelo menos ela é bonita, pensou ele.

Renesme viu o príncipe Alec descendo do avião e tentou se lembrar da última vez que o vira. Tinha sido numa turnê que ela fizera com a sua família há muito tempo atrás. Ela só conseguia se lembrar de um adolescente bochechudo e bastante entediante ao seu gosto. Isso tinha ficado tão marcado na sua memória que poderia esquecer do rosto dele, mas não do quanto ele parecia excêntrico. Ela até resistira um pouco ao fato de ter recebido de sua avó a missão de recebê-lo e entretê-lo nessa visita que ele faria a Belgonia, mas não pudera declinar.

Ela estendeu a mão para que ele pudesse apertar, mas foi surpreendida com o gesto dele. Alec pegou a mão dela e a beijou tão delicadamente como se fosse uma flor. Tom observava o gesto com um certo desprezo. Com certeza esse príncipe não era galanteador ou se esforçava demais para ser.

— Seja bem-vindo Alec!

— É um prazer estar aqui, princesa!

— É um prazer em recebê-lo. Você está bem diferente da última vez que nos vimos.

Alec corou um pouco e Renesme achou esse ato até bonitinho. Ele esperava pelo menos que a princesa o achasse melhor do que estivera em tempos de adolescência. Sabia bem que naquela época não tinha nada de atrativos, e nem era muito agradável, esperava que isso tivesse sido completamente apagado da memória da princesa.

— Devo dizer o mesmo de você. – afirmou.

— Acredito, então, que podemos tentar mudar essas visões preconcebidas que temos um do outro durante a sua estadia.

— É o que mais eu quero.

Ambos seguiram para o carro e mantiveram-se em silêncio por um tempo. Tom observava que mesmo estando ambos calados, eles trocavam olhares de vez em quando. Renesme tentava encaixar as peças em sua cabeça. Não era estranho que houvesse sempre uma visita oficial de algum político ou membro de alguma família real a Belgonia. Isso fazia parte da diplomacia entre os países. Ela mesma já recebera alguns, mas a chegada de Alec com tão pouca pompa estava estranho. Ele viera sozinho com apenas um segurança e mais nada. Renesme estava apenas começando a achar de que seus avós intencionavam mesmo era unir os dois. Seria um casamento muito promissor, mas Renesme não via nenhum futuro nisso.

— Teremos um baile hoje para arrecadarmos fundos para os necessitados de Clarence. Foi uma sorte que tenha coincidido com a sua presença aqui hoje.

Alec franziu a testa e se segurou para não fazer uma careta. Odiava bailes e danças. Detestava ser obrigado a participar desses eventos frívolos.

— Na verdade, eu não gosto muito de bailes.

— Mas por que? – Renesme olhou para ele surpresa.

— Digamos que eu não sou tão ligado a música alta e danças. Prefiro outras atividades mais promissoras... Mas se é por uma causa tão nobre, acredito que terei o maior prazer em dançar com você.

Renesme deu um sorriso amarelo e respondeu:

— Oh sim! Vou reservar uma dança para você.

Ela sabia que nem todos gostavam mesmo de festas e badalações. Sua mãe mesmo era avessa a tudo isso. Mas preferir “atividades mais promissoras”? Renesme sentia um leve ar de prepotência nessas palavras. Pelo visto os dois não poderiam ser mais diferentes um do outro.

— Acredito que queira descansar um pouco da viagem, mas após isso, eu mesmo faço questão de levá-lo para um passeio a cavalo. Acho que podemos deixar a visita aos lugares turísticos para amanhã, quem sabe?

— Cavalos?

— Sim, cavalos. Temos ótimos campos para passeios aqui em Belgravia. É uma sorte termos algo assim numa cidade grande.

— Não podemos deixar a nossa visita por Belgravia para hoje? Eu não ando a cavalos. Eu tenho alergia ao pelo deles e, além disso, estou louco para conhecer os museus daqui e especialmente o parque ecológico.

— Ah, certo... Podemos fazer isso assim que tiver mais descansado.

Renesme olhou para a janela e pensou que esses três dias ao lado de Alec seriam longos demais para o seu próprio bem. Durante o percurso até o palácio, ambos permaneceram em silêncio. Renesme observou que o príncipe ao seu lado era um homem de poucas palavras, mas que tentava buscar algum assunto, porém por algum motivo nada saia de sua boca. Ele a olhava com um determinado interesse e ela até sentiu certa empatia pelo jeito dele. Não queria julgá-lo antes de conhecê-lo e acabou atribuindo essa falta de jeito dele a timidez.

Ela dirigiu o seu olhar para Tom pelo retrovisor do carro e viu que por um segundo ele a tinha observado e seu olhar não era de um guarda-costas. Renesme não entendia bem por que ele continuava a olhando daquela maneira se tinha ficado irritado com ela. Mas decidiu não ficar mais insistindo em encontrar respostas. Resolveu testá-lo só um pouco, pegou a mão de Alec e viu o rosto de Tom franzir. Aquilo era ciúme? Ou estava enganada mais uma vez?

— Alec, acho que você vai se sentir bastante a vontade no palácio. Posso apresentá-lo para você quando quiser.

— Eu adorarei.

Ambos sorriram e Renesme teve que admitir que Alec tinha lá sua beleza, apesar de parecer um tanto enfadonho. Ela observou o carro parar em frente ao palácio e fez questão de pegar o braço do príncipe e conduzi-lo até o lado de dentro, mas não antes de olhar para trás, onde Tom estava os observando.

— Tenho certeza que vamos ter ótimos momentos por esses dias.

— Com certeza!

Ele beijou a mão dela e subiu com o seu segurança para o andar de cima. Renesme olhou para Tom novamente e ele apenas deu as costas para ela. Então, seria assim? Ok! Pensou. Só não estaria disposta a ficar aguardando por alguma ação dele e nem tentando decifrá-lo. Seguiu com passos acelerados até o salão de baile e se jogou num estofado próximo a ela. Rosalie e Alice a olharam com desconfiança.

— Onde está a minha mãe?

— Ela foi dar uma olhada em alguns locais para a sede do espaço educativo que ela está querendo abrir com o pessoal da Multicores. Você sabe que ela anda bastante empenhada nesses projetos pela comunidade LGBQUIA+

— Eu sei...

Renesme deu um suspiro e Rosalie se aproximou da sua afilhada. Era bastante óbvio que algo estava errado com ela. A duquesa acariciou os cabelos amarronzados dela, igual como fazia quando ela era apenas uma garotinha.

— O que há de errado, ein?

— Alec... Estou desconfiando que a vovó o trouxe aqui apenas para tentar me juntar a ele.

Alice sorriu do outro lado do salão.

— Não duvide, querida. Muitas coisas mirabolantes podem sair daquela cabecinha.

— E não seria uma boa ideia tentar conhecê-lo melhor? – Rosalie bateu de olho para Renesme.

— Seria... Se ele não fosse tão... Sei lá! Durante todo o percurso até aqui, eu não consegui encontrar nada que pudesse termos em comum.

— Isso foi em apenas quinze minutos? Não seja tão precipitada, Ness. Pode ser que você venha a se enganar a respeito dele.

Renesme suspirou e pensou em Tom mais uma vez. Se Alec tivesse os gostos que seu segurança tinha, o papo que dele, aquele olhar misterioso, a sensação de segurança que ele passava... Seria tudo tão mais fácil!

— Só estou cansada de tentarem arrumar alguém para mim. Será que eu sou tão inútil a ponto de não conseguir escolher alguém ideal? Estou farta de quererem me empurrar para um casamento.

— Isso é o preço que temos que pagar por nascermos na família real. – afirmou Alice.

Renesme franziu o nariz, como se a sua tia Alice ou qualquer outro de sua família tivessem passado pelo menos por um pouco do que ela passava. Até onde sabia, todos eles tinham se casado com quem bem queriam. Restava, então, todos os pesares e obrigações para a princesa e nem ela entendia o porquê dessa “perseguição”.

Rosalie acariciou a mão de Renesme para acalentá-la um pouco. Sabia que toda essa pressão só iria atrapalhá-la. Aliais, odiava o fato de empurrarem tantas responsabilidades e expectativas para cima de sua afilhada. Não era justo alguém ter que ter tantas obrigações assim. Ela achava que algum momento Renesme poderia ter um colapso emocional ou se já não tiver no princípio disso.

— Tudo vai dar certo no final, querida. Não deixe que tudo que dizem a você te derrube e desamine.

— Mas do que eu já estou?

— Não fale assim. Temos um baile mais tarde e com certeza você vai ter uma ótima oportunidade de conhecer mais esse príncipe do cavalo branco ou qualquer um que queira.

— Ele não é o príncipe do cavalo branco. Na verdade, ele tem alergia ao pelo de cavalos.

Alice deu uma risada estridente fazendo que Rosalie e Renesme também rirem.

— Acho que ele é o príncipe ás versas então! – Alice declarou ainda rindo.

— Acho que sim. O príncipe Mecânico.

Algumas horas depois, Alec olhava para a princesa em sua frente e realmente achava que ela poderia ter tudo para conquistar alguém. Aquela voz fina a fazia muito doce. Mas por que não acendia nenhuma faísca nele? É claro que ele estava se sentindo pressionado. Ainda não podia esquecer a conversa que teve com o irmão, pouco antes de sair do palácio.

— Você é tão frouxo, cara! Mulher gosta de pegada. Se aproxime dela. Olhe bem nos seus olhos e depois quando perceber que ela está na rede a pegue!

— As coisas não são exatamente dessa forma...

— Claro que são! Toda mulher gosta de um romance. Se eu estivesse aí...

— Já tinha a conquistado. Eu sei disso. Talvez você devesse se casar com ela, então, Caius.

— Você sabe que eu não posso. Quantos problemas diplomáticos e políticos isso geraria! Eu teria que abdicar do meu título e direito de ser o futuro príncipe soberano de Volterra para me casar com ela e você sabe que jamais eu daria esse gostinho para o primo Antonius.

— Não creio que papai gostaria disso de forma alguma. Ele sempre diz que é meu destino me casar com Renesme. Ela não pareceu gostar muito de mim...

— Bom, é melhor que mude isso e rápido. Papai quer que o casamento aconteça o mais tardar ano que vem.

— Papai é um exagerado!

— Qual é Alec! Você não quer passar a vida toda lendo e pescando, não é?

— Seria mais divertido.

Para Alec, a vida tinha que ser vivida sem complicações. Casamento era algo falido e problemático demais para ele. Principalmente se levasse em conta o que presenciou com os seus pais. Não foram raras as vezes que viu Sulpicia aos prantos por sentir-se tão sozinha, mas ao mesmo tempo não entendia quando ela sorria como se nada tivesse acontecendo. Não queria esse futuro para ele e nem para a mulher que estava a sua frente. Lamentava muito que tudo tivesse que ser assim.

— Aqui é um dos maiores parque que temos em Belgravia. O Joquest é também um dos maiores da Europa continental! – declarou Renesme com certo orgulho.

— É tudo tão magnífico!

— E antigo também. Ele foi construído em 1864. Começou apenas como um jardim que o rei Guilherme presenteou a sua esposa, a rainha Edith, e depois se tornou isso tudo.

— Percebo mesmo que aqui há muitas árvores bicentenárias, mas há flores raras também. Essa aqui, por exemplo, é o Giglio Rosso, é uma flor muito significativa para a Itália.

— É mesmo? Não sabia.

— O cheiro dela é tão característico para mim. Minha mãe costumava muito usá-las quando ia para algum compromisso político com o meu pai.

— Por que não leva algumas para ela. Acho que a fará feliz.

Alec abaixou a cabeça e tentou não lembrar o que acontecera com a sua mãe. Não queria se descompor na frente de Renesme.

— Eu tenho certeza que ela adoraria. Mas ela não está mais aqui para recebê-las.

Renesme abaixou a cabeça e entendeu tudo. Uma grande pena dele abateu-se nela. Não queria ter que pensar estar na mesma situação que ele. A sua mãe era tudo pra ela. Queria de alguma forma tocá-lo para desculpar-se por fazê-lo lembrar de algo tão triste, mas conteve-se.

— Eu sinto muito. Me desculpe... Eu não sabia.

— Tudo bem. Já faz três anos, mas sempre é muito difícil lembrar.

— Eu imagino. Acho que eu enlouqueceria se minha mãe morresse.

— Não é fácil.

Alec continuou andando para olhar as outras plantas. A princesa se sentia uma estúpida por não ter tido o mínimo de coragem de pesquisar antes sobre a vida do seu visitante. Era um erro tão grave e se ressentia tanto disso!

— Você conhece muito sobre plantas. – tentou mudar de assunto. O clima tenso que se firmou a estava sufocando.

— Sim, eu sei alguma coisa... Na verdade, eu amo botânica. Por mim, eu viveria estudando sobre isso.

— Interessante... E também bem solitário.

— Isso é a coisa boa. Me dou melhor com as plantas do que com as pessoas.

— Tenho que dizer que penso o mesmo.

— Finalmente temos algo em comum, ein?

— É verdade. – Renesme sorriu com um leve rubor nas bochechas.

— E você? É verdade que luta karatê?

A princesa sorriu ainda mais com a cara que ele fez ao pronunciar a palavra “karatê”. Ela sabia o quanto as pessoas estranhavam esse fato de sua vida.

— Sim, mas faz um tempo que eu não luto.

— Mas por que quis praticar? Isso é tão...

— Masculino?

— Sim, de certa forma.

— Isso é tão machista! – falou Renesme com os braços em torno da cintura.

— Nada contra, tanto que não pratique em mim.

— Não me dê motivos. – falou Renesme sorrindo.

— Mas sabe mesmo lutar? – Alec perguntou desacreditado.

— Quer apostar?

E de surpresa ela pegou o braço dele e deu um giro. Alec não sabia se reclamava de dor ou de surpresa por ela ter feito esse golpe tão bem e tão rápido. Tom se aproximou deles e Renesme acenou para ele dizendo que não era nada.

— Ok, agora eu acredito. – Alec quase implorou.

Renesme o soltou e olhou para ele com desdém e Alec teve que sorrir sem jeito. Ela o soltou e ele ficou a observá-la por alguns instantes.

— Você é mesmo uma ótima lutadora de Karatê. – disse por fim.

— Não sou faixa preta à toa.

— Bom, não sei se eu ficava preocupado por perder o meu braço ou a minha preciosidade aqui...

— O que?

Do nada, Renesme sentiu um flash na sua frente e se surpreendeu com Alec e uma câmera, que parecia uma raridade, na sua frente e que tinha tirado uma foto sua.

— Como?

— Estamos quites agora. Você me mostrou uma grande habilidade sua e eu lhe mostrei uma minha.

A boca da princesa fez um “o” e quando sentiu que ele ia tirar outra foto, sorriu e escondeu o rosto enquanto andava para trás. Alec se aproximava dela devagar até conseguir alcançar o seu rosto. Guardou a câmera e com um braço, ele segurou o dela sem apertar muito e com a outra mão tirou os cabelos do rosto dela bem devagar. A medida que o rosto da princesa ia sendo libertado dos fios, ela observava o rosto de Alec bem perto. Ela notou que a rigidez em sua feição tinha se desfeito.

— Obrigado por me trazer aqui, Princesa. Eu estava precisando muito me distrair um pouco.

— Foi um prazer para mim também.

— Agora podemos ir ao museu?

Ela sorriu e abaixou o rosto levemente.

— Sim podemos.

Alec deu o braço e ela aceitou, seguiram os dois para o carro. Tom os olhava preocupado. Só conseguia pensar no que lhe disseram. Tinha que conquistá-la. Esse era o seu dever, mas não conseguia, tinha travado. Será que ele amolecera? Não queria nem pensar. Mas tinha que encontrar um jeito antes que ela se apaixonasse pelo príncipe interesseiro.

Já ao anoitecer, todas luzes do salão de baile do palácio foram iluminadas. Bella andava de um lado para o outro acompanhando a arrumação dos últimos detalhes para o baile. Ela não sabia por que se impressionava com o tamanho talento de sua cunhada para fazer grandes espetáculos. Das flores até o cardápio estava tudo muito perfeito! Tinha certeza que o baile seria um grande sucesso e arrecadaria muitos fundos para as causas filantrópicas que eles apoiavam.

Estava ela analisando o repertório da banda quando sentiu duas mãos fortes tocando a sua cintura e um calor próximo ao seu ouvido.

— Tem ideia de quanto está linda nesse vestido?

Bella virou-se e deu de cara com o seu marido. Acariciou o rosto dele e quase se perdeu naqueles olhos azuis profundos.

— Estamos em público, Edward, deixe o seu animo para mais tarde.

Ela bateu de olho para o marido e ele beijou levemente a sua testa.

— Que bela ideia que você teve, meu anjo. Um baile de máscaras para arrecadar fundos para os necessitados de Clarence. Não tem como não dá certo.

— Para outras causas também. Devo admitir que o crédito não foi só meu. Rosalie também foi bastante criativa.

— As duas foram brilhantes, então!

Os dois foram interrompidos pela chegada do fundador da Multicores. Edward não se surpreendeu com a presença dele ali. Sabia bem que Bella vinha apoiando a fundação mais do que nunca, embora ela própria nunca tenha chegado a conversar com ele diretamente sobre isso. Era uma grande pena saber que sua esposa não confiava o suficiente nele para contar sobre esses seus projetos.

— Elton! Que bom vê-lo aqui tão cedo! – saudou Bella com alegria. – Veja como tudo está lindo!

— Está mesmo, alteza. Tenho certeza que dará tudo certo esta noite.

— Vai sim. Deixe me apresentá-lo ao meu marido, o príncipe Edward.

— É um prazer. – Elton falou fazendo uma reverência e estendendo a mão.

— É um prazer também. – Edward respondeu apertando a mão de Elton.

Edward nada mais disse apenas ficou a observar. Elton sentia-se feliz com todo o apoio da duquesa para a sua fundação, sabia que pela primeira vez conseguiriam realizar grandes coisas para a comunidade. Porém de alguma forma não se sentia tão bem-vindo ali no palácio. Os funcionários olhavam estranho para ele e o príncipe em sua frente estava indiferente, isso o deixava desconfortável.

— Se me permitem, irei olhar o restante do salão. – falou Elton. – Mais uma vez obrigado alteza pelo seu apoio.

— Por nada.

Bella observou Elton se afastar ao mesmo tempo que sentia os olhares de Edward queimando nela.

— Está mesmo empenhada com a instituição, não é?

— Estou e não quero nenhum comentário negativo seu a respeito.

— Por que acha que vou dizer algo negativo a respeito?

— Eu sei que você não concorda com o que estou fazendo.

— Jamais iria conta a uma boa ação sua, meu amor. Queria que não fosse essa, por motivos que você bem sabe. Só peço que pense bem no que está fazendo para não se prejudicar depois.

— Eu sei o que estou fazendo e não estou fora dos protocolos. Estou arrecadando fundos por conta própria e não estou brigando com nenhum político. Portanto, sem represálias.

Edward abriu a boca para responder, mas Bella se afastou dele para receber os convidados que acabavam de chegar.

Alguns minutos depois, Alec se olhava para o espelho do quarto de hóspedes e pensava na princesa. A tarde que tivera junto com ela o pareceu promissor. Ela não era tão ruim quanto ele imaginava antes. Poderiam até dar certo, mas pensar nisso o fazia pensar que tudo estava errado. Tinha prometido a si mesmo que jamais seria nem um centímetro do que o pai era. Mas o que podia fazer? O seu papel de príncipe era colocar a política e o dever sempre em primeiro lugar. Não sabia o que aconteceria se não conquistasse a princesa nesses três dias.

Preferiu não parar para pensar, apenas pegou o copo e o encheu com uma boa dose de Whisky. Sabia que estava sendo um patife! Mas ele precisava desbloquear e se acalmar para o desafio que iria enfrentar.

Do outro lado do palácio, Renesme descia as escadas já sentindo a energia emanada do andar de baixo. O som alto da música vinda do salão já dava a ela um novo animo. Como gostava de bailes! Ela colocou a sua máscara no rosto e entrou no salão já movimentado. A ideia do baile de máscaras foi perfeito, assim andaria quase incógnita pelo salão por quase toda a noite. Parou na entrada para saborear o momento e a energia alegre embalada pelo som da banda que tocava. Quando sentiu que seria anunciada, ela pediu para que não o fizesse e seguiu para o entorno das pessoas.

Seguiu andando pelo salão e viu sua mãe acompanhada de seu padrinho e deu um enorme sorriso. Há um tempo que não o via e era um grande prazer em tê-lo presente.

— Querido padrinho Jacob, que bom vê-lo aqui!

— É muito bom estar aqui também. Faz tempo que não tenho a oportunidade de dançar um pouco.

— Seja sincero, Jake. – retruncou Bella. – Eu tive que praticamente te arrastar para cá hoje, se não fosse por Leah, você não estaria aqui agora. Alias, você e o papai são muito difíceis de tirar de casa.

Jacob revirou os olhos e Renesme riu. Se aproximou mais do padrinho e deu-lhe um abraço. Já sentindo saudade de todas vezes que ia ao sítio dele andar a cavalo e viver uma vida mais simples.

— Como vai Leah e os meninos? – perguntou.

— Estão todos ótimos! Ela está dançando com Billy agora mesmo e Harry está por ai com a nova namorada dele.

— É ótimo ver todos bem!

— É maravilhoso ver você também tão bonita e radiante. – disse Jacob analisando a afilhada.

— Radiante? Obrigada padrinho, mas acho que não vou concordar. – sorriram.

— Quando você vai nos visitar em Seraf? Está nos devendo essa.

— Estou mesmo e lamento. Eu irei assim que puder, prometo.

— Falando em Seraf e em fazenda... – iniciou Bella. – Tem que fazer uma doação gorda hoje, ein Jacob? Um fazendeiro tão importante quanto você é agora não pode deixar de nos ajudar.

— E quando eu deixei?

Bella certamente ficava radiante toda vez que lembrava que seu melhor amigo conseguira dar a volta por cima depois do grande desastre que houvera em sua vida há muitos anos atrás. O sítio de sua família foi destruído durante um alagamento. Jake perdera tudo na época, mas graças a sua grande força de vontade e uma boa ajuda do governo, fora reconquistando tudo de volta. Leah também tinha perdido sua casa e seu pai no desastre, os dois que tinham se conhecido por conta desse infortúnio, acabaram se casando e tendo dois filhos. Juntos construíram a fazenda “Boa Esperança”, que para eles significava um recomeço, o grande desafio de suas vidas. É claro que não poderiam jamais recuperar a vida de Billy ou Harry, mas tinham feito coisas que os seus pais jamais conseguiram. Bella tinha certeza que ambos, onde quer que estivessem, estariam orgulhosos de seus filhos.

Bella iria comentar alguma coisa com Jacob, quando fora interrompida pelo anuncio da chegada do príncipe Alec no salão. Renesme observava ele entrar com pompa e dentre os vários olhares, ele imediatamente procurou o dela e quando a achou veio logo em sua direção. Ele se aproximou e beijou a sua mão demoradamente.

— Se me permite... Devo dizer o quanto você está linda, princesa!

— Obrigada!

— Me permite a honra de ter uma dança com você?

Renesme olhou para o salão e viu que a música que todos dançavam no momento não era nada complicado, então seria apropriado para alguém que não gostava e provavelmente não sabia dançar. Ela pegou a mão dele e se deixou ser conduzida pelo príncipe até o meio do salão.

Os dois iniciaram os primeiros passos da dança enquanto eram observados por muitos. Jacob vivou-se para Bella e perguntou:

— Acho que esse príncipe parece estar bastante interessado na nossa garota.

— Não sei bem se é por vontade própria ou por interesse de terceiros.

— E não acha que de repente os dois poderiam se dar bem?

— Isso só a minha filha dirá. Mas como a conheço muito bem, acho improvável. Renesme tem um gosto para rapazes um tanto misteriosos. – Bella falou enquanto olhava para Tom que estava do outro lado do salão.

O segurança olhava para Renesme e Alec dançando com um misto de emoções. Estava claro para ele que esse principezinho tinha sido enviado para pedi-la em casamento e estava se esforçando para isso. Ele olhava para o jeito que Alec deslizava aos poucos a sua mão para as partes mais baixas do corpo da princesa e sentia o sangue começar a ferver com isso. Ao mesmo tempo lembrava de que sua missão era conquistá-la, a princípio queria apenas se aproveitar da confiança dela e conseguir o que deveria, mas agora... Tinha que admitir que estar ao lado de Renesme fazia falta para ele. Queria nesse momento estar dançando com ela e a fazendo sorrir. Queria ser melhor do que esse príncipe babaca que precisava tomar uns drinques para conquistar uma mulher.

Renesme podia sentir o cheiro de bebida vindo de Alec ao se aproximar dele. Entendia que muitos homens eram tímidos e precisavam de um pouco de álcool para terem mais coragem. Isso deu até um certo humor na situação. O perdoava com sinceridade, Alec ficava até mais divertido com um pouco de bebida na cabeça.

— Devo dizer que para quem disse que não gostava de dançar, você tem ritmo.

Alec sorriu e abaixou a cabeça, envergonhado.

— Acho que faz parte do pacote de ser príncipe.

— É um pacote bem grande, assim posso dizer.

— Com certeza. Mas não ligo muito pra isso. Ser príncipe faz parte do que eu sou e do que o meu país necessita de mim. Não há como mudar isso. Mesmo quando nos cansamos acabamos voltando para o mesmo lugar.

— É verdade. Sei bem o que está dizendo.

A princesa sentiu Alec tocar a sua mão e rodopiar o seu corpo.

— Mais cedo no museu, me disse que já esteve na Itália.

— Sim, eu morei um ano em Roma. Um lugar magnífico, sem dúvida!

— Com certeza. Deve conhecer Volterra. Vai ver que é um verdadeiro paraíso.

— Irei sim. Soube que lá tem museus maravilhosos. Eu gosto muito de arte e então vai ser ótimo conhecer algumas obras expostas por lá.

— Há muitos quadros lindos e várias exposições em Volterra. Faço questão em convidá-la para passar alguns dias.

— Agradecida. Irei sim em alguma oportunidade dessas.

A música parou de tocar e Renesme teve que segurar um pouco Alec para que ele não continuasse dançando. Começava a perceber que talvez o balançar da dança tenha bagunçado mais o estado dele. Quase sorriu ao imaginar uma coisa dessas. Ela se manteve com braço preso ao dele enquanto via sua mãe subir no palco para falar com o público presente no baile.

— Primeiro, eu gostaria de agradecer a presença de todos vocês aqui esta noite e por terem sido tão generosos com as nossas causas. Além de ajudar os necessitados das cidades mineradoras, também estendemos o nosso apoio para as campanhas filantrópicas da fundação Multicores. Que dentre muitas coisas, ajuda a comunidade LGBTQUIA+ a se reconhecerem como seres humanos que são e para combater o preconceito. Ao ajudá-los estamos dando uma chance de também fazer parte do nosso mundo. É um trabalho duro, sem dúvida! Tenho certeza, que assim como eu, muito de vocês estão cansados de ver tantas pessoas morrerem nas mãos de pessoas que não sabem respeitar e amar. Estamos cansados de ouvirmos pessoas que deveriam nos representar, dizer quem deve ter a chance de ser bem tratado. Vamos fazer desse ódio contra os seres humanos uma coisa do passado! Eu estou muito feliz em ver que estamos dando a partir de hoje o primeiro passo. Mais uma vez obrigada!

Todos bateram palmas e voltaram a dançar ao retorno da música. Bella ia descendo as escadas com uma sensação de orgulho do que estava fazendo, mas sentiu ser interrompida por Edward que pegava a sua mão e a levava para a sala ao lado.

Ela olhou bem para ele e podia prever exatamente o que ele iria dizer. O conhecia tão bem que podia lê-lo em todas as expressões de seu rosto. Ele fechou a porta da sala atrás deles e a olhou com uma cara fechada.

— Bella, já lhe disse que apoio qualquer coisa para o bem do nosso país que você venha a lutar. Mas agora mesmo você passou dos limites ao se referir a Donnalson.

— E quem disse que eu me referi a ele? Por acaso eu disse o nome dele?

— Não, mas está óbvio e você sabe bem disso. Eu quero que você pare de fazer essa briga toda com ele. Não quero que você venha a se prejudicar com alguma coisa que ele possa fazer. Além disso, estará prejudicando a todos nós, então, chega!

— Não! Desde que eu me casei com você, eu só balancei a cabeça para tudo que estava acontecendo por aqui. Eu me mantive fiel e obediente esses anos todos a você e a sua família e apoiando até coisas que eu não concordava. E o que eu ganhei com isso? Mas agora é diferente. Eu vou lutar pelo que eu acredito.

— Você sabe que precisamos fazer isso, Bella! Você não entrou nessa enganada. Temos que nos manter silenciosos e neutros pelo nosso próprio bem.

— Não necessariamente. Eu vejo as coisas sobre outro ponto de vista. Podemos sim fazer grandes coisas, só não podemos continuar nessa hipocrisia absurda!

— Bella, por favor...

— Por favor, digo eu. Eu sei o que eu estou fazendo, Edward, e não adianta tentar me convencer de algo que já está decidido.

Edward balançou a cabeça irritado. Tinha que fazer alguma coisa contra isso, mas não sabia ainda bem o que. Não queria ter que intervir gravemente nas decisões da esposa e desapontá-la lhe causava um grande pavor.

Bella sabia que com Edward tudo era como devia ser e isso a decepcionava. Ela vendo que ele não ia responder mais nada. Saiu da sala rapidamente, batendo a porta com uma força maior do que a necessária.

Renesme observou a mãe sair com toda rapidez e quis segui-la para saber o que tinha acontecido, mas foi interrompida por Alec. Ela deu um grande suspiro. Será que ele tinha bebido ainda mais? Só podia ser, pois ele segurou a cintura dela e começou a se aproximar devagar de seu rosto. Renesme o impediu colocando as mãos no peito dele.

— Não vamos começar com isso, Alec. Acho que temos um caminho longo a seguir.

Ele suspirou derrotado, percebendo o quanto tinha ido longe. Mesmo que as coisas começassem a ficar um tanto confusas em sua cabeça. Renesme nem queria pensar em toda essa situação que estava vivenciando. Era muito embaraçador!

— Tem razão. Acho que bebi um pouco de mais.

Antes que Renesme pudesse responder, ela viu Tom se aproximar de Alec e sussurrar algo perto dele. O príncipe assentiu e pegou a mão da princesa, beijando-a antes de se retirar. Ela observava Alec se afastar meio cambaleante e dirigiu a sua atenção para o seu segurança.

— O que disse ao príncipe?

— Que ele tinha uma ligação importante da Itália.

A princesa olhou bem para o homem em sua frente e sorriu.

— Por que eu não acredito nisso?

Ele sorriu e de repente ela sentiu todo aquele tremor novamente dentro de si. Por que ele estava fazendo isso? Não podiam as coisas ficarem como estavam? Seria difícil apagar aquela química toda.

— Não deveria mesmo por que não é verdade.

Renesme olhou para ele, inclinando a cabeça um pouco, à medida que se aproximava dele.

— Uma hora você me diz para ficar longe e eu realmente entendo isso... Mas depois... Chega tão perto ao ponto de eu...

— A ponto do que?

— De eu não conseguir me afastar de você.

— Então, não se afaste.

A princesa se aproximou ainda mais dele e chegou tão perto que podia sentir o calor da respiração dele. Ela observava cada expressão do rosto dele a procura de algum indício que ele estivesse mentindo ou brincando com ela, mas não encontrou nada disso. Então, retirou o ponto do ouvido dele e colocou uma máscara em seus olhos.

— Você quer dançar comigo?

— É uma honra, Renesme.

Ela se arrepiou só em ouvi-lo pronunciar o nome dela pela primeira vez. Ele pegou a mão dela e juntos foram para o meio do salão.