Renesme ouviu ao longe o som estridente de seu celular tocando insistentemente. Estendeu a mão e pegou o aparelho que tirara de seu sono. Nos últimos três dias não fazia outra cooisa a não ser chorar e ficar em seu quarto remoendo tudo que acontecera. Passava em sua cabeça do minuto em que pôs os olhos em Tom até o instante em que o vira pela última vez. Doia saber que havia sido enganada mais uma vez. Tinha sido tola, porém, analisando a situação, não conseguia ver dissimulação em susas últimas palavras e se sentia mal por isso. Por ainda dar um pouco de crédito a ele mesmo sem merecer. Mas era isso, Tinha sinceridade em seus olhos ou ele era um grande enganador? Qual havia sido o momento em que deixou de ser uma enganação? Será que houve esse momento? Queria mesmo era voltar no tempo e mudar tudo.

Olhou para o visor de seu celular que ainda tocava e só atendeu por ver que era Henry. Já tinha ignorado todas as outras.

— Oi...

— Ness, como você está?

— Como você acha?

— Foi corajoso aceitar o pedido de Alec depois de tudo que aconteceu. Olha estamos todos surpresos aqui na redação. Há tanta notícia circulando que nem ao menos sabemos o que devemos publicar primeiro. É a abertura do caso da tia Bella, a prisão de Tom, o seu noivado com Alec. Se eu estou elouquecendo com isso tudo imagina você.

— O que? Meu noivado com Alec? Que história é essa?

— Eu é que não estou entendendo nada agora. Como assim? Você está noiva e nem sabe?

Noiva? As palavras dançavam em sua cabeça. Como isso acontecera? Ela sabia que havia todo um esquema para uni-la a Alec nos bastidores, mas não imaginava que eles teriam coragem de concretizar algo tão importante sem consultá-la. Ainda mais no estado em que estava.

— Que besteira é essa? Eu não estou noiva de ninguém!

— Ness, odeio ser o anunciador de notícias ruins, mas é o que está rolando por ai. Saiu à informação que você e o príncipe Alec tinham ficado noivos. Tentamos segurar essa informação de todo o jeito por que não saiu nenhuma confirmação daí. Mas acabou saindo num site italiano de fofoca e daí não teve jeito.

— Merda! Deve ser uma loucura qualquer! Uma fake news. Esses dias eu não tive coragem nem de sair do meu quarto.

— Imagino. Sinto muito, prima.

— Obrigada Henry. Mas agora tenho que levantar, ver a luz do dia e tirar essa história a limpo.

Renesme desligou o telefone sem nem se despedir direito do primo e saiu em disparada para o escritório de seu pai. Não achava que ele teria coragem de fazer nada sem consultá-la. Devia ser apenas uma loucura qualquer de um desinformado querendo ganhar atenção.

Enquanto passava pelos corredores do palácio, via que todos a olhavam. Ela devia mesmo estar em um estado deplorável. Nunca se dera ao luxo de desabar de vez, nem mesmo quando sua mãe morrera. Tom sempre estava ali garantindo que ela estaria apresentável e bem. Tom! A sua mente pesou de novo. Como alguém que limpara suas lágrimas, cuidara dela, poderia a ter traído dessa forma?

Quis parar, mas essa tal história de noivado a fez criar coragem e sair da toca. Tinha que tirar tudo a limpo e garantir que nada iria sair do seu controle. Chegou na porta do escritório e a abriu, sem ao menos se preocupar se seu pai estaria em audiência com alguém. Não importava! Ele teria que ouvi-la.

Edward olhou espantado para a porta e viu a sua filha no pior estado possível. Com os olhos inchados, vermelhos, cheios de olheiras. Os cabelos despenteados, mas com uma força que ele não tinha visto ultimamente. Ela no mínimo havia descoberto sobre o noivado. Da maneira que ele não queria que tivesse acontecido. Maldita imprensa!

— Que história é essa de noivado? Me diga que tudo isso é um mal intendido e que tudo já está sendo resolvido.

— Filha, sente.

— Sentar por quê? Não me diga que...

— Sente.

Renesme inclinou a cabeça e estudou bem a expressão do pai. Ele estava sério e demais. Alguma coisa estúpida ele tinha feito, pois via arrependimento ali. Não poderia acreditar que se via numa situação tão absurda como essa. Estava noiva sem nem mesmo conhecer direito o noivo e ainda por cima sem ser consultada.

— Em algum momento vocês pensaram em conversar comigo?

— Era exatamente o que iamos fazer, mas coisas saíram do controle.

— As coisas saíram do controle? – Renesme já sentia as lágrimas se formarem. – Como você pôde fazer isso comigo? Não fizeram isso com você!

Edward se sentiu o pior dos homens. Fato! Lamentou profundamente ter se precipitado e ainda mais por não ter muita saída diante dessa situação complicada. Levantou-se e foi até a filha, mas um gesto de Renesme o deixou ainda pior, ela ficou de pé e mudou de lugar.

— Não pode estar tudo resolvido ainda. Ligue para lá agora e desmanche tudo. Eu não vou me casar com Alec e nem com ninguém.

— Você não pode fazer isso.

— Por quê? Eu ainda sou dona da minha vida e respondo por mim.

— As coisas não são bem assim. Não estamos em uma posição que dependa apenas de nossas decisões. Há semanas não se fala em outra coisa no paralamento a não ser o quão benéfico seria o seu casamento com Alec.

Renesme estava perplexica com que ouvia. Então era isso? Apenas um jogo político?

— Aro construiu um cerco bem formado. Há um ano ele vem construindo um projeto ambicioso, uma rede de turismo em New Visby que pode vir a ser um verdadeiro sucesso em relação ao turismo. Um paraíso fiscal alá Mônaco e isso vem causando dentre os políticos que preevem dinheiro fácil.

— Então estamos falando de dinheiro e não da minha felicidade.

— Eu pensei o mesmo, acredite. Eu fui contra até o momento que vi que não havia mais escapatória. Aro conquistou o parlamento a ponto deles combrarem à gente.

— Você poderia dizer não. Você ainda é o soberano.

— É, mas é uma briga muito grande para ser comprada. Estariamos ganhando mais um inimigo em potencial. Aro pode vir a ser um aliado contra Bono Donalson.

Renesme não conseguia escutar mais nada. Levantou-se e começou a dar voltas pela sala como se isso lhe trouxesse mais energia para compreender tudo que se passava. Sentia uma agonia no peito que a fazia querer desabar, desistir de tudo, chorar. Em que ponto perdera o controle do que estava acontcendo ao seu redor? Culpava Tom por isso também. Se não tivesse ficado tão alheia à realidade criada apenas por ela em sua mente teria sido mais ativa e revidado essa onda imersiva que Aro criara. Estava tão claro que ele queria apenas ter mais poder em suas mãos e estava fazendo de tudo para conseguir isso. Deu a corda e todos se enforcaram nela.

No fundo ainda tinha uma voz que a dizia para ter calma que deveria haver alguma solução. Mas a expressão de seu pai dizia que não. Era pura passividade e isso lhe deu ainda mais raiva. Sua mãe tinha mesmo razão ao dizer que Edward estava muito preso aos conselhos palacianos que nunca saiam do lugar, sempre com os mesmos protocolos, sempre no mesmo circulo vicioso.

— Nada disso me importa! Eu não vou me casar com Alec.

— Renesme, você sabe que além de sermos pessoas comuns também somos membros da realeza. Você está sendo chamada para cumprir a sua obrigação.

Renesme quase riu diante daquela afirmação.

— Quer saber? Mamãe tinha razão quando ela dizia que você é completamente manipulado por todo mundo nesse palácio. Quem foi o articulador disso tudo, ein?

— Renesme não comece a falar absurdos.

— Absurdo, não é? Absurdo foi à mamãe morrer de graça sem que você fizesse nada para protegê-la.

A princesa só sentiu o calor em sua bochecha. Pegou o seu rosto no impulso e olhou com raiva para o seu pai. O olhar dele era agressivo. Nunca na vida ele levatara a mão para bater nela e nem em Anthony. Mas agora ela despertara o pior lado dele. Sabia que se tocasse na morte de sua mãe iria atigi-lo em cheio, porém ela queria que ele sentisse a dor que ela estava sentindo agora.

— Sabe por que eu aceitei o pedido de Aro? – Edward falou gritando enquanto a filha se dirigia a porta do escritório. – Por que você estava prestes a querer assumir um romance com um bandido. Um imundo que nem mesmo gostava de você, que queria apenas saber informações sobre a sua mãe. Ele ria pelas suas costas enquanto você se apaixonava. Se eu tenho culpa pela morte dela, você também tem.

— Nunca mais fale comigo! Nunca!

Era o fim. Edward sabia que nada de pior mais poderia acontecer. Perdera sua esposa, seus filhos e estava diante de um país que desmoronava em sua frente. Era um beco sem saída que ele não via muitas formas de sair.

Renesme saiu pelo palácio em desespero. Fora a pior conversa que poderia ter com o seu pai. Não queria que tudo tivesse chegado a esse ponto. Mas ele passara por cima dela sem dó. Isso a entristecia, enravecia. Se sentia cada vez mais só. Talvez mais agora, depois que sua mãe morrera. Era como se não houvesse mais nenhum alicerce, nada que a segurasse da grande onda por mais que quisesse escapar. Se antes ela sentia meio sem rumo, agora conseguiram lhe dar um completamente alheio à vontade dela. Tomaram o controle da vida dela sem pedir licença.

Quanto a Tom, a dor era ainda maior ao pensar que de certa forma, o seu pai tinha razão, ela foi ingênua em acreditar nele e se entregar sem reservas. Ela contribuiu sim para que sua mãe tivesse o seu fim prematuro. Se odiava por ter sido tão boba. Passou anos com tanto medo de se entregar a alguém por não confiar e acabou caindo na conversa do inimigo facilmente por apenas se deixar se levar pelos sentimentos.

A princesa acabou se deixando levar pelo impulso e pegou o carro. Sua vontade era de cuspir na cara de Tom tudo que ele merecia ouvir e tentar tirar dele alguma informação se quer, mas sabia que não podia. Ainda lhe restava um pouco de senso que seria um grande escandalo aparecer numa delagacia aos gritos. Resolveu então seguir no endereço que Joel lhe dera certa vez. Precisava ao mesmo saber o que Tom lhe dissera.

Mas ao chegar no recinto quem lhe recebera fora alguém inesperado, William. Ele também parecia surpreso em vê-la, mas não lhe deixou de dar aquele sorriso sedutor, como fazia sempre. Porém, ela estava quebrada demais para lhe retirbuir da mesma forma, apenas abaixou a cabeça e se arrependeu por ter vindo assim de última hora.

— Joel está?

— Ele teve um chamado urgente do presídio e teve que ir correndo. Mas em breve deve estar aqui. Por favor, entre.

William deu espaço para que a princesa adentrasse o apartamento e procurasse se acomodar. Sentia que ela não estava nada bem e quão sabia que ela tinha motivos para isso. Desejava não ter que vê-la passando por tudo isso.

— Então você continua no caso?

— É um dever de honra pra mim descobrir o que aconteceu com a sua mãe. Para Joel também e acredite, ainda há muito a ser descoberto.

— Eu sei que sim e fico muito grata por vocês não terem desistido.

— Jamais isso passou pela nossa cabeça.

Renesme conseguiu expressar um pequeno sorriso agradecido, mas William ainda podia ver a tristeza em seu olhar. Sabia que ela podia chorar a qualquer instante. Sua vontade era de esticar os braços e abraçá-la, mas controlou o seu impulso e pôs as mãos debaixo das pernas.

— Joel deu alguma informação a cerca do que aconteceu?

— Ele confessou tudo que desconfiávamos. Porém, ainda falta sabermos até que ponto Bono Donnalson está envolvido no caso. Acreditamos que ele sabe bem mais do que contou no primeiro depoimento dele.

Renesme sentiu o seu coração se afundar ainda mais. Ainda no fundo tinha aquela esperança tola que ele viesse a desmentir tudo.

— Ele me enganou da pior forma possível ou eu me deixei enganar, sei lá... Mas de qualquer forma, me sinto responsável por tudo que aconteceu.

William sentiu a mão coçar novamente. Ela estava ali tão perto...

— Você não foi responsável por nada.

— Eu me apaixonei por ele e fui tola demais! De alguma forma me deixei levar pela sensação de liberdade. Pela primeira vez estava eu ali quebrando as regras. Me deixando levar pelos sentimentos que ele me proporcionava.

— Em nenhum momento você não desconfiou que talvez ele quisesse algo mais do que um romance?

— No fundo sim... Agora eu sei que sim. Eu não sabia muito sobre ele e isso me incomodava. Porém, eu pensava que era o jeito dele, que de alguma forma ele se sentia mal por virmos de situações tão diferentes... Nem me passou pela cabeça que ele poderia ser um espião.

— Ele não chegou a fazer perguntas a você?

— Ele me perguntou sim, principalmente sobre mamãe, mas eu burramente entendia como algo casual.

— Detesto quando você diz isso sobre si mesma, Renesme. Tom é muito bom no que faz. Mas ele chegou a dizer a Joel que deixou de dar informações e a participar dos esquemas do movimento por sua causa e que vinham perseguindo ele por isso.

— Eu não consigo acreditar em nenhuma palavra do que ele diz. Manipulador como é... Tenho certeza que acredita em suas próprias mentiras.

William não discordou. Não esteve diante de Tom para saber até que ponto ele estava falando a verdade e também não duvidava que ele tivesse apenas blefando para se safar de alguma forma.

— Eu não duvido que Bono Donnalson tenha participação nesses crimes, o de Elton e o de sua mãe. Ele está desesperado para ganhar as eleições.

Renesme deu um sorriso amarelo. Tudo no final era uma questão de poder.

— Talvez papai esteja mesmo certo afinal de contas... Meu casamento com Alec pode ser uma maneira de colocar Donnalson em seu lugar.

Casamento com Alec? Então tudo que diziam por ai era verdade. Ela aceitara o pedido daquele príncipe fedelho! William detestou ouvir isso da boca de Renesme e era até engraçado. No fundo, ele achava que talvez pudesse ter uma chance com ela, mas era absurdo demais até para ser concebido.

— Então você chegou mesmo a aceitar o pedido dele. Desculpe tocar esse assunto, mas não se fala em outra coisa na redação do jornal.

— E precisa?

— Por que não precisaria?

— Por que no meu mundo nós só temos que obedecer o que nos é mandado.

— Lamento que seja assim. Por que você merece alguém melhor do que Alec Volturi.

Renesme corou. Era incrível como William sempre conseguia tirá-la do prunho, mesmo ela estando em seu pior estado.

— Só espero que o meu casamento sirva para um bem maior. Que Aro consiga tanto apoio no parlamento a ponto de desestabilizar Bono e saiamos desse pesadelo que está se formando.

— Se mepermite dizer... Acho que nem cara e nem coroa é a melhor opção nesse momento.

A princesa assentiu quase que discretamente. Ela concordava. Aro era ambicioso e se tivesse espaço iria crescer tanto a ponto de ser quase impossível poldar as suas raízes.

O silêncio se instalou entre os dois. Era desconfortável, especialmente para William que queria dizer muitas coisas para a mulher em sua frente, mas não podia. Não naquele momento de fragilidade. Era impressionante como ele havia se deixado levar por ela, que ele pouco conhecia, diga-se de passagem. Mas havia alguma nela que o atraia, que o seduzia. Talvez esse jeito gracioso de pardal, que escondia um grande gavião.

Renesme olhou para o William mais uma vez e viu que ele a observava com fervor. Desviou o olhar e decidiu que não havia mais nada para ser feito ali. Porém, a porta se abre num rompante e Joel entra em alvoroço. Tanto o jornalista quanto a princesa se levantam rapidamente ao vê-lo tão agitado.

— Acontceu o pior! Mataram Tom na cadeia.

Renesme de repente sentiu as suas pernas vacilarem e perderem as forças e sentou-se. William não sabia se ia até ela ou se insistia por mais informações.

— Fizeram um motim proposital na cadeia, Tom estava dando o depoimento dele, mas tiveram que deixá-lo sozinho e então...

— Foi o timing perfeito! – William completou.

— Sim!

— Ele chegou a dizer alguma coisa?

— Não revelou nada sobre Donnalson, se quer saber. Ele apenas reafirmou o que já sabiamos. Teremos que ir mais a fundo na investigação.

— Não se preocupe. Agora está mais perto do que longe!

Renesme não podia continuar mais ali. Já tinha ouvido tudo que queria. Fora enganada e pronto. Agora Tom estava morto, sem ao menos deixar nenhuma pista sobre o que realmente acontecera no dia da morte de sua mãe. Mas uma vez ele falhara com ela, mesmo que sem querer, nesse último caso. Porém, não havia mesmo mais nada que fazer. O certo mesmo era levantar a cabeça e fechar o coração. DEIXE SEU COMENTÁRIO!