Renesme respirou nervosa. Verificou todos os papéis em suas mãos como tinha organizado mil vezes na noite anterior e decidiu que estava pronta. Suspirou mais uma vez e entrou na sala de reuniões. A primeira coisa que viu foi uma fileira de homens de terno preto. Não que já não estivesse acostumada. Em seu estágio na ONU lidava com esse tipo de situação o tempo inteiro. Era um mundo ainda feito por homens e para homens.

Tentou não se intimidar, levantou a cabeça e foi até o seu lugar na mesa. Antes de se sentar deu uma olhada para cada um deles. É claro que estavam todos muito surpresos em vê-la presidindo essa reunião. Sempre era o rei ou Edward que estava ali e poucos tinham tido a oportunidade de ter contato com ela.

— Eu gostaria primeiro de justificar a ausência do meu avô, vossa majestade, o rei. Ele teve que comparecer a uma consulta check up com o seu médico essa manhã. Meu pai, sua alteza real, também está um tanto indisposto. Mas eu estou muito feliz em presidir essa reunião com vocês hoje. – Renesme declarou com a voz mais baixa do que gostaria.

— O que disse sobre a vossa majestade? – perguntou um dos homens da mesa que ela não sabia quem era.

— Ele está em uma consulta de rotina.

— Ah certo! Me desculpe, alteza! Você fala muito baixo.

— Vou tentar falar...

— Vamos começar a reunião, sim? – interrompeu o primeiro ministro. – Temos muito a discutir.

— Vamos. Queiram sentar-se, por favor.

Todos sentaram e Renesme já sentiu de cara que iria ser uma reunião longa. Tinha sido um começo ruim. Duvidava muito que estes homens velhos e conservadores lhe dessem algum crédito. Podia sentir isso nos olhares entrecortados deles para ela. Talvez estivessem pensando que ela não sabia absolutamente nada sobre o assunto e era apenas uma figura representativa.

Ela tentou afastar esse pensamento e não julgar por antecedência. Podia perceber que os ânimos estavam acirrados. Não podia esperar menos. A situação da crise no país parecia não evoluir para um quadro positivo. Então, o estresse estava acumulado. A princesa preferiu a princípio apenas ouvi-los. Cruzou as mãos e apoio o queixo nelas e escutava tudo que era dito. Por hora, fazia anotações de coisas que ela considerava importante, principalmente o nome e o cargo daqueles presentes na mesa. Na verdade, envergonhava-se por conhecer tão pouco os representantes da política nacional.

Ao menos entendia bem o que se passava. Passou os últimos dias visitando várias cidades mineiras e bairros considerados críticos de Belgravia para ver os efeitos da crise de perto. Assistira várias matérias a respeito, lera muito até entender bem tudo que até um certo tempo sabia apenas por cima.

Tudo que ouvia parecia absolutamente muito vago diante da gravidade que ela presenciara. O que via em sua frente durante a reunião eram homens, cada um com o seu partido político, defendendo quase aos gritos as suas ideias bem distantes da realidade. Ela não pode deixar de dar um sorriso ao lembrar de um artigo de William Lamb que falava justamente sobre as discussões do parlamento a respeito do assunto. Ele dizia que: “pareciam um bando de gralhas gritando umas com as outras sem chegar a nenhum lugar”. Ela tinha que concordar.

Tentou argumentar algumas vezes diante de coisas que considerava errôneas, mas sempre era impedida pela fala mais alterada de alguém. Ela já estava perdendo a paciência. Bem que seu pai dissera que preferia fazer qualquer coisa a ter que estar numa reunião política. Queria poder falar, mas não queriam ouvi-la. Ela não era chegada a grandes cenas, mas achava que agora teria que sair um pouco da sua compostura. Bateu na mesa e só parou quando todos olharam para ela.

— Desculpem os modos senhores, mas preciso que me ouçam. Tenho uma agenda muito cheia para ser cumprida, tem um monte de gente lá fora passando fome de verdade, chegando aos hospitais e morrendo nos corredores. Temos pressa e pouco tempo para mais reuniões infrutíferas feito essa e outras que possam ser marcadas se nessa nada for resolvido. Então, vamos logo ao que interessa, sim? Alguém tem alguma sugestão cabível para dar? Algum projeto que realmente valha a pena?

Todos agora olhavam para ela como se ela fosse uma má- educada isolente. Ela tentou não se envergonhar e permaneceu firme, mesmo que os dedos tivessem tremendo de vergonha e insegurança. Nenhum deles falou nada e ela prosseguiu:

— Temos alguns pontos que eu considero importante serem discutidos e avaliados. Primeiro, a questão empregatícia. Temos um grande número de pessoas sem trabalho principalmente na região das minas. Como vamos inseri-los ao mercado novamente? Sei que é algo a longo prazo, mas a nossa economia anda um tanto estagnada e para termos um bom andamento precisamos dessas pessoas com dinheiro no bolso para fazerem compras e contribuírem com os seus impostos.

O primeiro ministro levantou o dedo para falar. Parecia um aluno da terceira série pedindo a professora para responder a pergunta do dia. Renesme lhe deu a permissão e sentiu-se satisfeita por finalmente encontrar um ponto de organização entre os participantes. Sentiu-se ainda melhor quando tudo terminara. Saiu andando pelos corredores do palácio em direção ao seu quarto e resolveu ligar o seu celular. Tinha uma ligação perdida de Henry, não hesitou e retornou a chamada.

— Hey Ness! Pensei que tinha perdido a minha prima predileta.

— Deixe de vergonha, você só tem a mim como prima.

— Você entendeu. Como anda a vida? Só te vejo nos compromissos agora.

— Agenda cheia. Resolvi pegar os compromissos do papai também e alguns do vovô. É bom se manter ocupada em alguma coisa... Você sabe...

— Sei... Mas por acaso tenho uma hora com você a qualquer momento?

— Você sabe que estou sempre disponível para você, meu primo favorito. – Renesme deu um sorriso.

— Então, pode ser hoje? É importante.

— Claro. Tenho uma folga de trinta minutos depois do almoço e antes das duas. Pode ser?

— Pode. Combinado!

Renesme ia caminhando enquanto falava ao telefone e quase esbarrou no secretário particular do seu avô. Ele a olhava e deu a entender que o assunto era com ela. Só esperava que o seu comportamento durante a reunião não tenha chegado com tanta rapidez aos ouvidos de Carlisle e o deixado contrariado.

— Henry, tenho que desligar, ok? Te espero.

Desligou o telefone e esperou que Antony Eden falasse o que queria dizer a ela, ao mesmo tempo que pensava em quais desculpas daria ao avô.

— Alteza, sua majestade deseja ter uma audiência com a senhorita em seu escritório agora.

— Sim. Irei. Você sabe me dizer o motivo dessa audiência?

— Não, senhorita.

— Tudo bem, obrigada.

Então, seguiu em direção ao velho escritório apreensiva e pensando mil coisas diferentes. A última coisa que queria era decepcioná-lo. Tremia só em pensar nessa possibilidade. Durante toda a sua vida ela o via como um grande mestre. Alguém sábio e que jamais dava um passo errado. O admirava e queria sempre segui-lo. Agora, com a idade em quem ele estava, aborrecimentos, principalmente da parte dela eram impensáveis.

Chegou até o escritório e esperou os guardas abrirem a porta para ela entrar. Ao avistar o avô fez-lhe uma reverência. Admirou-se ao notar que ele não estava sentado em sua habitual cadeira atrás da mesa de mogno. Estava numa das poltronas e com uma bandeja de chá e biscoitos em sua frente. Alguma coisa lhe dizia que ele não estava a esperando como um rei.

— Minha querida sente-se, por favor.

Renesme atendeu o pedido do avô e sentou-se de frente a ele e aguardou um tanto apreensiva.

— Tenho uma coisa importante para falar com você.

— Alguma coisa relacionada à sua consulta de hoje? O que o médico disse?

— Ele me disse uma coisa que eu já esperava. Além desse trono, meu velho pai me deixou uma herança que o levou para outro plano.

A princesa paralisou diante dessa informação nova. O seu bisavô, o antigo rei Pierino, falecera após vários problemas no coração. Inclusive chegara a óbito em sua segunda cirurgia em 1999. Era previsível que a doença fosse hereditária, mas de todas as coisas que poderiam acontecer, jamais pensara que esse mal estava tão próximo de seu avô. Ainda tinha no fundo aquele pensamento infantil que ele viveria para sempre, pelo vigor vital que ele representava para todos em sua volta.

— O que ele disse mais sobre isso? É muito grave?

— Não convém nos preocuparmos agora. Enquanto ele estiver batendo está tudo bem. – Carlisle falou enquanto batia de leve no peito. – Mas isso só veio a firmar o que eu já vinha pensando há um tempo.

— Sim?

— Sabe, querida, eu sou grato por ter poucos arrependimentos na vida. Um homem poder dizer isso na idade que tenho é uma grande dádiva, porém, esse arrependimento me dói muito.

— E qual seria?

— Seu pai. Esme e eu erramos muito com ele. – Renesme já ia contestá-lo, mas Carlisle continuou. – Edward era especial demais para nós! Nunca soubemos lidar muito bem com a sua personalidade e isso encheu a cabeça dele de inseguranças sem sentido. Bella fez algo que jamais podermos fazer nesses anos todos. Ela o mostrou que ele estava vivo, mesmo pensando que estava morto.

— Não foi bem assim, vovô. Não digo o fato dela não ter conseguido ajudá-lo, mas era algo provisório, sabe? Ela o deixou crescer, mas preso às raízes dela. O resultado estamos vendo agora depois de tudo.

— Mesmo assim. Ela o mostrou a força que ele tinha dentro dele. Acho que devíamos antes ter apostado mais nas capacidades que ele tem, o incentivado mais... Enfim, os arrependimentos só nos levam a uma trajetória vazia e sempre há chance de se consertar um erro quando ainda existe tempo.

— E o que você sugere?

— Acho que chegou a hora de Edward assumir o lugar que lhe pertence.

— Está pensando em abdicar? Você já consultou o conselho sobre isso? Por que nenhum monarca abdicou de seu trono até aqui.

— Eu não consultei a ninguém por que eu queria falar com você primeiro. Eu andei lendo a legislação real novamente e no meu caso uma abdicação não é prevista. Um rei só perde a coroa por deposição ou pela morte. Mesmo que eu abdicasse, não pode haver dois soberanos. É mais como um afastamento, diante do meu estado de saúde, acho que não seria difícil conseguir.

— Papai seria o príncipe regente.

— Sim, até o momento de minha morte, onde então ele assumiria de vez a coroa como monarca. O que pensa sobre isso?

Renesme se ajeitou na poltrona e ficou pensativa. Abriu e fechou a boca várias vezes sem saber o que dizer.

— Eu... Não consigo lhe responder. Não algo que se pode prever, não é? Mas o senhor é o rei e deve saber o que está fazendo.

— Acho que seria muito bom para Edward ter o que se ocupar. Até como uma maneira para aplacarmos essa depressão que o assola agora.

— Bom, é uma possibilidade.

— Acha que ele pode conseguir assumir as suas funções? Eu soube que você conversou com ele novamente.

— Sim e acho que foi produtivo. Eu disse algo para ele que o deixou a pensar. Mas depressão não é algo que pode sumir assim de uma outra pra outra.

— Eu sei. Seu pai nunca ficou totalmente curado.

— Papai é um homem responsável e tenho certeza que ele cumprirá as suas obrigações como lhe cabe.

— Isso eu sei. Por isso quero lhe dar essa chance. Mas e você, filha? Com o seu pai ocupando o meu lugar, você passará a ter ainda mais obrigações, como a próxima herdeira. O que pensa a respeito?

— Uma hora isso iria acontecer, não é? Não vou dizer que gostaria que fosse logo... Porém, cumprirei o meu dever da melhor maneira possível.

— Tenho absoluta certeza disso. Tenho que lhe dizer que ando muito orgulhoso de você. Sei que está cumprindo mais deveres do que lhe são destinados, assumindo compromissos meus e de seu pai. Isso me deixa feliz e preocupado ao mesmo tempo. Não quero todo o peso nas suas costas.

— Você não deve se preocupar com nada disso, vovô. Estou apenas fazendo o meu dever. Não podemos deixar a agenda desfalcada.

— Sim... Mesmo assim aceite os meus agradecimentos. Também já chegou em meus ouvidos sobre o episódio da mesa na reunião de hoje.

— As notícias circulam rápido por aqui... – Renesme falou constrangida.

— Não estou te recriminando, pelo contrário, alguém tem que mandar aqueles homens calarem a boca de vez em quando.

Ambos riram e a princesa ficou mais aliviada. Levantou-se do sofá, foi até o avô e beijou-lhe as mãos.

— Nada vai acontecer com o senhor. Tenho certeza disso!

— Deus de ouça, filha.

A princesa fez uma reverencia ao avô e saiu da sala pressa em seus pensamentos. Seguiu até o escritório do pai para assinar uns papéis antes de ter que sair de novo para um novo compromisso. Não tinha como não ficar imersa a conversa que teve com Carlisle. Tudo lhe levava a refletir e a temer, principalmente pela eminência de estar perdendo mais um ente querido que ela amava demais. Não suportaria ter que conviver com mais uma perda. Era uma cota alta demais de uma vez só.

Entrou no escritório e sentou-se na poltrona. Tentando evitar mais lágrimas. Não queria atrair o pior. Tinha que pensar que tudo ia se ajeitar e transcorrer bem por mais alguns anos pela frente. Quanto ao afastamento de Carlisle do trono? Isso não era nem uma surpresa. Ele já havia lhe expressado esse desejo antes. Ela agora não temia as suas responsabilidades na instituição. Trabalhar deixava a cabeça dela longe de pensamentos ruins.

Estava distraída, lendo pela décima vez os documentos em sua frente quando as batidas na porta a trouxeram de volta a realidade.

— Entre!

— Alteza, há uma visita para a senhorita. Mando entrar.

Só pode ser Henry, pensou.

— Mande entrar, por favor.

— Sim, senhorita.

Não levantou a cabeça de imediato. Ouviu as pisadas fortes e determinadas no chão a se aproximarem dela. Henry estava diferente. Olhou para cima e viu quem não esperava. William Lamb de carne e osso em sua frente, ela ficou surpresa e irritada ao mesmo tempo.

— O que faz aqui?

Ele a fez uma reverência e isso a irritou ainda mais. Como ele podia ser tão cínico e agir como se nada se passasse? Ao mesmo tempo em que lhe dirigia um olhar tão intenso que fazia o seu chão amolecer como lama. Isso lhe dava ainda mais raiva por ele lhe causar efeitos tão conflitantes.

— Não sei se me preocupo mais com a sua eminente raiva ou com o fato de eu ter conseguido entrar aqui sendo que você esperava outra pessoa. A segurança desse palácio é bem falha.

— Cadê Henry?

— Está trabalhando. Ele me conseguiu esse horário com você por que eu não teria essa chance sozinho se tentasse.

— Não ia ter mesmo.

— Tenho uma coisa muito importante para falar com você.

— Eu não tenho nada para falar com você.

Renesme se levantou, sentindo a raiva atravessar o seu corpo, ao mesmo que sentia-se insegura diante do homem em sua frente. Ele parecia tão intimidante de um jeito que ela não entendia. William era capaz de chamar atenção, atrair interesse a si mesmo com o menor dos gestos. Ela sentia-se completamente fora de prumo diante dele, como se fosse uma adolescente de novo e estivesse em frente ao cara mais bonito da escola. Ela abriu a porta mais irritada do que estava por que não conseguia explicar a si mesma essa confusão em sua mente toda vez que ele estava perto, isso não era natural, tinha que mantê-lo longe e estendeu a mão para fora torcendo para que ele não insistisse mais em ficar ali.

— Faça o favor de ir embora, sim?

William sabia que a irritava e, sinceramente, achava até um pouco divertido por que via que essa raiva era apenas uma fachada. Foi se aproximando devagar e percebendo que ela tentava se manter firme em sua expressão séria, mas cada vez que ele chegava mais perto dela, via um vermelho tomar conta de suas bochechas. Como ela podia ficar ainda mais bonita?

— Não pode ter tanta raiva de mim assim, pode? Eu já lhe pedi desculpas.

Renesme respirou profundamente e olhou para o teto, sabendo que William ainda estava agudamente ciente de sua inquietação. Não queria ter que encará-lo e perder a compostura. Ela olhou para baixo, para qualquer lugar antes de se resignar a ter que encontrar os olhos dele. Por que ele tinha que ser assim tão atraente e abusado?

— Saia daqui agora! – ela falou tentando manter a voz firme em cada palavra. – Vou chamar os guardas.

Ela pôs a cabeça para fora da porta e William segurou o braço dela para fazê-la lhe encarar. Ficaram assim por alguns segundos. Ele olhando para ela, vendo o seu peito subir e descer com rapidez. Renesme ficou pasma com o fato dele não respeitar o fato dela ser uma princesa. Todos em sua volta a tratavam como devia ser, sempre como decoro. Ela quis soltar o braço das mãos dele e se esquivar do calor que borbulhava dentro dela. Que diabos estava acontecendo com ela afinal de contas?

William, de certa forma, também estava irritado, mas consigo mesmo, por que não era dessa maneira que queria conduzir essa conversa tão importante. Porém, já estava admitindo o fato de que talvez não conseguiria nunca ter um momento que não fosse tenso ou embaraçoso com a princesa. Os dois tinham essa incompatibilidade e pronto. Resolveu então falar logo sobre o tema da conversa antes que ela se irritasse ainda mais.

— É sobre a sua mãe.

— O que tem a minha mãe?

— Acha que eu viria aqui enfrentar a sua fúria se não fosse importante?

— Talvez viesse, diante desse seu cinismo.

— Por favor, me ouça, princesa.

Renesme pensou um pouco e encarou William novamente. Ele estava bem sério agora. O que ele poderia falar a respeito de sua mãe? O que ele poderia saber sobre ela? Ele nem mesmo a conhecia! Mas a curiosidade lhe abateu. Tudo que era relacionado à Bella lhe causava interesse. Então, resolveu arriscar.

— É melhor que seja mesmo interessante.

— É. Acredite.

— Sente-se, então.

William foi até a porta e a fechou. Pegou a cadeira e pôs ao lado dela. Renesme olhou para ele incrédula e afastou-se um pouco a sua própria cadeira. William não podia mesmo ter nenhum escrúpulo. Mas ele não parou. Agia naturalmente diante dela como se tivesse diante de uma mulher completamente comum, sem nenhum título de princesa e futura rainha. Abriu a pasta com vários papéis e pôs diante dela. Renesme se perguntava o que esses papéis podiam ter a ver com a sua mãe.

— O que são esses papéis?

— São alguns questionamentos e pistas importantes sobre o acidente que matou a sua mãe. Eu acredito profundamente que há muitas coisas que não foram bem explicadas.

— O que quer dizer com isso?

— Que eu acredito que tem todas as chances de sua mãe ter sido assassinada.

Renesme agora sentiu como se uma tonelada tivesse caído sobre sua cabeça. Se encostou na cadeira e olhou para o William esperando que fosse brincadeira. Talvez mais uma prova de seu mau gosto. Mas à medida que ele falava as coisas pareciam mais sérias. Ela coçava os olhos e se ajeitava na cadeira cada vez que ouvia os relatos do homem em sua frente. Não podia crê no que estava ouvindo. Eram muitas novidades para um dia só. Como uma piada ruim do destino.

Ouvia claramente ele dizer detalhes muito precisos sobre o acidente de Bella. O carro parecia não estar funcionando como deveria. O Air bag não tinha acionado. Que sua mãe dirigia numa velocidade alta demais para as circunstâncias. Poderia estar fugindo de alguém? Por que tinha marcas tão estranhas em seu corpo? Ela estava apenas com uma das sapatilhas nos pés. Onde ficara a outra? Todas essas afirmações e perguntas rodavam na mente de Renesme e a deixava cada vez mais pasma. Sentiu seu corpo esfriar e tremer. Era muita coisa para assimilar de uma vez.

William percebeu as mudanças no corpo da princesa. Ele sabia que para ela isso era muito mais impactante do que foi para ele. Imagina saber que sua mãe pode ter sido assassinada? Ele quis se aproximar mais dela, mas preferiu não fazê-lo, podia ser bem pior. Então resolveu esperar. Ela ficou parada, completamente congelada em seus movimentos. Presa aos seus sentimentos. Talvez um minuto tenha se passado, ou talvez dez até que ele resolveu falar alguma coisa. O silêncio dela o incomodava. Ele não sabia dizer o que ela estava pensando e precisava ter certeza que ela tinha acreditado nele.

— Essa investigação não está sendo conduzida por mim e sim por um policial chamado Joel Hernandez. Ele foi o primeiro a ver a sua mãe após o acidente e resolveu dar início as investigações por conta própria por que sentiu que o SS, serviço secreto, tinha deixado passar muitas pistas óbvias.

— Eu acredito. Eu mesma pensei a mesma coisa quando eles declaram o fim das investigações prévias e por isso insisti para que continuassem. Só não levei o caso mais longe por que eu me senti sozinha nisso. Todos, incluindo eu, estávamos muito abalados e remexer na ferida era pior.

— Mas você entende que é importante continuarmos com a investigação?

— Sim, claro! Acho que vai ser uma boa. Meu pai tem que saber disso. Ele anda numa depressão horrível e acredito que essa investigação vai motivá-lo, sabe? Precisamos saber a verdade.

— Sim, precisamos e principalmente acharmos o culpado de tudo isso.

Agora Renesme sentiu seu coração afundar. Depois que assimilou tudo que William lhe dissera sentiu-se culpada novamente. Era mais uma prova que sua mãe estivera certa o tempo inteiro e ela não lhe dera nenhum crédito. Preferiu acreditar que ela estava afetada emocionalmente e criando histórias surreais em sua mente. Ela perdera Bella por nada. Então não pode evitar deixar as lágrimas caírem de seus olhos. Ela ultimamente vinha se esforçando muito para não chorar e cair na dor novamente. Tinha que ser forte e seguir em frente. Mas agora nada disso importava.

William via Renesme chorar descontroladamente em sua frente e quis abraçá-la. Dizer que ela não estava sozinha. Ele iria ajudá-la. Mas conteve-se. Porém, não podia deixá-la assim tão frágil, tinha que confortá-la e contentou-se em pegar a mão dela.

— Você não precisa enfrentar nada sozinha, Renesme. – A princesa quase deu um pulo ao ouvir que ele se referia a ela pelo seu nome de batismo. Ele parecia mesmo não querer respeitar as formalidades, queria? – Terá todo o meu apoio.

Ela observava a mão dele sobre a dela e polegar dele movendo-se em um círculo relaxante contra sua pele. Sentiu a vibração em seu estômago quando ele deu a ela toda a sua atenção empurrou-a mais para o lado do desconforto. Queria responder, mas era incapaz de formar um pensamento, muito menos palavras, tudo o que ela conseguiu foi virar a cabeça em direção ao som da voz dele.

— Eu conheci a sua mãe. Me encontrei com ela ano passado nessa mesma sala e pudemos conversarmos um pouco. Quando eu soube da morte dela foi como um golpe pra mim. Eu estive na Abadia antes do enterro dela. Eu queria ter lhe dito naquele dia que sentia muito e realmente sinto. Sua mãe era uma boa pessoa e eu acreditava que ela podia fazer grandes coisas se a tivessem deixado fazê-las.

A princesa assentiu. Ela tentou acalmar seu coração acelerado pela presença dele e por tudo que tinha ouvido. Mas era em vão.

— Pode trazer Joel aqui? – apenas disse. – Quero que ele fale pessoalmente com o papai.

— Claro que posso. Mas entende que temos que conduzir isso de uma maneira muito sigilosa, não é?

— Claro que sim. Eu mais do que ninguém quero que tudo transcorra sem chamar o mínimo de atenção até quando for possível.

William assentiu e pegou um pedaço de papel onde começou a escrever os contatos dele e de Joel. A princesa observava tudo inquieta.

— Vou deixar o meu número e do Joel para você entrar em contato quando for a melhor hora. Você pode me ligar na hora que quiser. Estarei disponível.

Ele levantou-se e recolheu todos os papéis. Não queria correr o risco de algo tão importante cair em mãos erradas. Já tinha averiguado que havia bisbilhoteiros demais no palácio. Se preparou para sair da sala já supondo que a conversa já estava terminada. Quando afastou a cadeira para se retirar sentiu a mão da princesa no pulso dele.

— Obrigada por ter vindo aqui e me contar tudo isso. – William sentiu-se inquieto pela primeira vez. Foi estranho... Mas então, todo o resto tinha sido. – Eu me sinto no momento num misto de sentimentos. Me sinto aterrorizada, temerosa, com raiva, mas ao mesmo tempo aliviada. Finalmente vamos ter alguma resposta e isso aquieta o meu coração.

— Nós vamos encontrar o culpado.

— Sim, é o mais quero.

William pegou a mão dela e a beijou. Renesme deu sorriso leve com esse gesto, sem evitar que o seu coração disparasse novamente. Era reconfortante ter a ajuda dele nesse momento tão difícil. Observou ele sair e se reiconstou na cadeira sem ter forças para se levantar. Só tinha certeza de uma coisa, não deixaria a morte da mãe sair impune.

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