01 de Julho de 2044

William Lamb olhava horrorizado para as últimas notícias sobre o caso do assassinato de Elton Rust. Não era possível que mesmo com quase dois meses após a morte dele nada tem sido feito de verdade.

— É um caso tão absurdamente óbvio! Estou começando a achar que tem muita falta de vontade envolvida.

Charlote Becker ouvia a insatisfação do seu colega de trabalho com concordância. Ela era jovem na área, fazia apenas alguns meses que tinha entrado no The Globe quando aconteceu a morte de Elton. Ela que sempre fizera questão de trabalhar na área policial tinha encontrado o seu primeiro grande caso. Era tudo muito sinistro e um prato cheio para uma boa investigação, mas tinha que confessar que as coisas andavam mesmo mais lentas do que o normal. Era como se alguém tivesse impedindo que a verdade aparecesse e o culpado fosse punido.

— Você sabe o quanto ser parte da comunidade LGBTQUIA+ é difícil nos dias de hoje! Eles vão acabar achando um culpado que seja e dizendo que foi mais um crime de homofobia.

— Um verdadeiro absurdo!

— Eu quem o diga!

Para a jornalista não existia pessoa mais indignada e apreensiva do que ela. Quantas vezes perdeu o sono ou teve pesadelos frutos do medo que sentia dela ou da sua esposa serem vítimas de alguém que só queria fazer o mal? Sentia todos os dias na pele o olhar recriminador, o preconceito e a falta de respeito daqueles que simplesmente se achavam superiores em seus valores regados de hipocrisia. Mesmo após anos de luta nada parecia surtir efeito contra o preconceito e parecia que a desigualdade sempre continuaria a reinar.

— A data da morte rodeia entre os dias 8 e 9 de maio, mas antes Elton vinha recebendo mensagens de texto com ameaças. – Analisou William.

— O celular era pré-pago e descartado após o envio da mensagem. A pessoa que enviava as mensagens apagava sempre alguns segundos antes de Elton visualizá-la. Pelo menos foi o que declarou a amiga dele, Natasha Brongpierce em seu depoimento á polícia.

— Conseguiram rastrear os números?

— Os chips onde saíram às mensagens foram todos encontrados no mesmo lugar, na lixeira.

— Isso complica as coisas. – William falou ainda pensativo. – Alguém da Multicores não tinha dito que a escola tinha sido invadida e pichada?

— Sim, isso consta nos inquéritos.

— E se a gente fosse atrás das câmeras de segurança? Podíamos ter uma pista da meliante que fez essa palhaçada.

— E acha que a polícia não foi atrás disso? As poucas câmeras que tinha na escola foram misteriosamente danificadas.

— Mas tem as de trânsito próximas dali. Não é possível que todas tenham sido destruídas. Acho que vale a pena seguir nessa pista, daria uma boa matéria. Além do que a gente estaria pressionando a polícia e a opinião pública sobre o caso.

— É uma boa! – Charlote falou enquanto anotava rapidamente em sua caderneta.

— Nada me tira da cabeça que foi um crime político.

— Penso o mesmo e tenho por mim que isso não vai acabar por aqui.

William concordou em silêncio e pensou em si mesmo. Estava no olho do furacão. Cada vez mais ele vinha atacando Donalson com mais veemência. Não que ele se arrependesse, estava apenas fazendo a sua obrigação para proteger o seu país de um grande crápula! Mas estava, por outro lado, atiçando a fera com a vara curta. Sabia o quanto o parlamentar tinha força. Na verdade, ele andava até surpreso por não ter recebido nenhum sinal até agora. Isso o preocupava, não por ele, mas pela sua filha. Todo cuidado era pouco.

— Vocês não sabem o que acaba de acontecer. – Erick falou quase sem ar ao entrar na sala de William. – Henry acabou de me ligar. O rei levou um tiro.

Charlote e William se olharam abismados. O visconde sabia que iriam haver algumas manifestações hoje. Ele tinha se recusado a participar da cobertura pelo fato de ser no dia do National Day. Evento esse que o lembrava dos velhos tempos de juventude com os pais aristocratas. Ele detestava esse dia e preferiu passar a cobertura para outro jornalista mais empolgado. Entretanto, ele sabia que as coisas iriam ferver. Donalson estava atiçando as pessoas a se revoltarem nas ruas, mas não esperava que alguma delas fosse atirar no rei.

— O dever nos chama, vamos? – perguntou William a Charlote.

E seguiram os dois e Erick para o calor da revolução.

No palácio Renesme abraçava Tom com tanta força que com certeza sabia que ele estava sentindo dor, mas não reclamava devido ao estado de apreensão dela. Ela sentia que tudo a sua volta estava desmoronando, estava sem chão e abraçar Tom era como se de alguma forma fosse se prender a algo sólido antes que a maré a levasse pra longe.

— Jamais poderia imaginar que isso poderia acontecer.

— Não acredito que tenha sido proposital, Renesme. Pessoas desesperadas fazem qualquer coisa em momentos difíceis.

— Não foi proposital? Deus! Atiraram no meu avô! – ela afirmou nervosa.

— As pessoas não odeiam o rei, acredite.

— O que explica essa barbaridade! Céus! – Falou agora ainda mais apreensiva. — Tenho que ir para aquele hospital agora para ver como ele está.

— Não vá! É perigoso!

A princesa deixou os braços de seu segurança e amante para sair dali. Mas acabou sendo interrompida por Tom antes que pudesse dar alguns passos. Ele puxou o braço dela com tanta força que acabou a empurrando em seu peito. Ela olhou para os olhos de Tom em busca de algum conforto, alguma coisa que pudesse ser um scape para todo esse terror, mas não era bem isso que ela via. Os azuis olhos dele denunciavam algo que ela não esperava, uma pitada de culpa, dor, medo e compaixão. Renesme queria acreditar que ele estava também assustado com os rumos que o país estava tomando, mas no fundo, alguma coisa a avisava que algo estava fora do lugar. Mas o que era?

— Devia ouvir mais a sua mãe. As coisas andam muito perigosas.

— Como você...?

— Ness, ligaram do hospital. – alertou Henry ao entrar no recinto. – O tiro foi só de raspão.

Renesme mordeu a isca e foi ao encontro do primo para saber mais notícias, deixando para trás a resposta evasiva de seu segurança. Tom respirou fundo e manteve-se distante.

— Eu fiquei tão aliviado quando ligaram do hospital! – afirmou Henry.

— Me conte mais. Como ele está? – perguntou Renesme curiosa. Sentindo um enorme alívio com essa notícia.

— Está ótimo e já vem pra casa. Foi só um arranhão no braço.

— Mesmo assim, poderia ter sido bem pior. Quase perdi o fôlego quando soube que ele tinha levado um tiro.

— Eu também. Ness, as coisas estão ficando piores.

— Alguma coisa tem que ser feita e rápido. Não podemos ficar nesse terror pra sempre!

— O que vocês devem fazer é se protegerem. – afirmou Tom se aproximando dos dois. – Hoje foi apenas uma amostra grátis do que está por vir.

Renesme olhou para Tom mais uma vez com desconfiança. Sentiu que ele sabia de alguma coisa e queria alertá-la. Queria confrontá-lo, empurrá-lo na parede para fazê-lo falar tudo que ele sabia, mas a presença de Henry ali a fez esperar. Mas ela não ia esquecer.

Nem Bella, que estava do outro lado, sozinha apenas absorvendo tudo que tinha acontecido. Nunca em nenhum National Day na História tinha terminado com um rei ferido a tiro. As coisas estavam pegando fogo e ela não se surpreendia com nada do que aconteceu. Ela tinha tentado avisar um milhão de vezes que o perigo os rondava, mas todos achavam que ela estava ficando maluca. Tratavam-na como inimiga e a afastavam como podiam.

Tinha certeza que o alvo não tinha sido exatamente Carlisle, mas ela. Desde que recebera a ligação anônima a avisando que ela iria ser vítima de algo horrendo, tinha colocado-se sobre aviso. O homem tinha deixado bem claro: “vão pegar você. Melhor ficar calada por que pode ficar bem pior e sobrar para os seus filhos também!”. O ataque de hoje fora apenas um lembrete, um ensaio do que estava por vir, tinha total ciência disso.

Sentiu, de repente, alguém se aproximar dela e por impulso se afastou um pouco. Mas logo se recompôs ao ver que era apenas Marlowe. Ela vinha timidamente, o que fez Bella estranhar. A filha de Emmett nunca se acanhava, sempre fora cheia de si, muito cheia de energia e vivacidade. Alguma coisa estava fora do lugar.

— Posso falar com você um instante?

— Claro, querida!

— Não pode ser aqui, se não se importa... – Mais reticências, Bella observou.

— Ok.

Marlowe olhou para trás para ver se ninguém as observava e conduziu a duquesa até a sala ao lado. Bella a seguiu com um misto de receio e curiosidade. Estava num estado em que tudo a deixava muito desconfiada. Não sabia o que esperar de Marlowe, mas estava disposta a descobrir. As duas chegaram à sala anexa e Bella viu que a sua sobrinha postiça se apressou a fechar a porta atrás das duas e encarou a duquesa com uma expressão de dúvida, como se não soubesse como começaria.

— O que nos traz aqui, Lowe?

— Você certamente conhece Sean Renard.

— Claro, é o prefeito de Belgravia.

— Ele, como político, você sabe... Vinha fazendo uma espécie de sondagem no parlamento. Pra saber alguma coisa com antecedência caso...

— Desculpe Marlowe, mas eu realmente não estou interessada em me envolver com nenhum político.

— Escute, por favor. Ele descobriu uma coisa que lhe interessa pessoalmente.

Bella dessa vez resolveu dar a sobrinha a devida atenção. Poderia ser algo sobre Donalson. Na verdade, tinha quase certeza que era algo relacionado a ele e isso realmente lhe interessava. Queria saber se suas suspeitas, de certa forma, estavam erradas. Podia Bono Donnalson estar envolvido com as ameaças que ela vinha recebendo e o palácio isento disso?

— Ele não me disse exatamente o que era. Na verdade... Era algo que ele considerou importante demais para ser transmitido através de recado. Sean quer se encontrar com você pessoalmente.

— Quer se encontrar comigo?

— Sim. Na verdade, ele já está lhe esperando. É um encontro completamente confidencial. O que ele tem a dizer é realmente importante.

Bella pensou por uns instantes. Era algo arriscado. E se fosse um blefe? Valia a pena arriscar tanto? Se Edward descobrisse ficaria furioso! Talvez virasse uma prisioneira por completo. Mas ao mesmo tempo, ela não podia negar a intensa curiosidade que ela sentia. Por que Sean usaria Marlowe, alguém tão próximo a ela, para mentir para ele? Decidiu confiar.

— Onde ele me espera?

Sean Renard não se lembrava da última vez que estivera tão ansioso. Estivera com a duquesa em outras ocasiões, é claro. Mas nunca se sentira como estava agora. Para ser sincero, ele sempre achou que ela era submissa demais, nada que pudesse merecer a atenção dele. Mas esse comportamento dela atual tinha sido uma surpresa boa. Quem diria que aquela mulher que estava sempre atrás do marido, falando baixo, e tentando ao máximo não sair dos protocolos poderia ter um vulcão a ponto de explodir dentro de si. Sean sabia que a duquesa agora poderia ter muito a oferecer.

Bella estacionou o seu carro em frente à calçada e teve um certo cuidado em olhar se não estava sendo seguida. Olhou para cima, para o flat onde Sean a esperava e pensou mais uma vez se seria uma boa ideia. Marlowe deixou expressamente claro o desejo do prefeito de ter uma conversa as sós com ela e isso a deixava mais desconfiada. Sentiu o estômago embrulhar, mas resolver seguir em frente. Abriu a porta do carro uma vez e se dirigiu a portaria. O homem que estava lá na pequena cabine parecia que já a esperava. Bastou um olhar dela para que a porta abrisse. Ela seguiu pelo elevador e parou em frente à porta com um grande 204 pregado nela. Respirou fundo e tocou a campainha.

Quando o prefeito abriu a porta se surpreendeu ao ver a mulher baixa de cabelos aloirados artificialmente, parada diante dele. No fundo, esperava que ela fosse desistir. Mas era um alívio tê-la ali. Marlowe tinha mesmo um grande poder de convencimento. Ele estendeu a mão para dentro do flat a convidando para entrar. Sentiu a insegurança de Bella e tratou de assegurar que não era nenhuma armadilha.

— Marlowe me disse que você tinha algo a me dizer...

— Tenho.

Sean sentou-se em frente à Bella e pensou como contaria a ela a sua descoberta.

— Ela deve ter contado que fiz algumas investigações por conta própria.

— Sim e não entendo como isso possa ter a ver comigo.

— Não me leve a mal, mas é algo que realmente gosto de fazer. Nunca se sabe quem pode ser seus verdadeiros aliados. A política é um terreno arenoso e instável.

— Acredite, eu sei sobre isso mais do que imagina...

— Pois sim. Eu vinha investigando e chegou uma informação importante. Donalson planejou tudo que pudemos presenciar hoje.

— Não me surpreende. Na verdade, a única coisa que me deixa espantada é o fato de você saber o que iria acontecer e não fazer nada a respeito.

— Não podíamos prever um tiro. Mandei toda a polícia pra lá. O atirador era realmente bom.

— E acha que Donalson pode estar por trás disso?

— Não duvido. Não posso provar que foi ele que mandou o tal homem atirar, mas ele acaba sendo culpado de qualquer forma. Já que toda a revolução foi incentivada por ele.

— Donalson se arrisca muito! Meu sogro é de uma popularidade quase santificada. Atingi-lo hoje é como dar um tiro no próprio pé, ainda mais se descobrirem a procedência da pessoa que atirou.

— Sem sombras de dúvidas. Mas Donalson não pensa as coisas com muita clareza. A estratégia dele é outra. Na verdade, a tática é contaminar a família real e todo o partido liberal usando a crise das minas. Isso foi apenas o começo...

— Eu já imaginava e o que ele planeja tem a ver comigo.

Não era uma pergunta e sim uma afirmação. Bella estava muito ciente dos riscos que corria. Sean sentiu o estomago afundar. A informação era séria, mas tudo que ouvira podia ser apenas uma especulação. Não duvidava da coragem de Bono Donalson para fazer coisas desastrosas, mas aquilo era demais. Entretanto, ele precisava manter a duquesa informada de tudo que se passava. Ele não sabia até onde ela sabia do perigo eminente, mas ainda assim precisava deixá-la preparada. Aproximou-se dela e sussurrou tudo que descobriu no ouvido dela, como se tivesse medo que as paredes pudessem escutar.

Bella olhou para Sean com uma expressão neutra. O que ele lhe contara era sério demais, porém não era nenhuma surpresa. Ela meio que já vinha se preparando para isso há algum tempo, como se o seu destino fosse esse.

— Diante disso, preciso de sua ajuda, alteza.

Ela apenas assentiu sem pensar nas consequências.

— O que eu posso fazer para lhe ajudar?

Do outro lado da cidade estava William ao lado de Charlote. Ele olhava o grande número de pessoas assombradas na rua e pensou que talvez Belgonia tivesse vivendo num apocalipse. Jamais pensou que um dia tão festivo e amado como o National Day pudesse se transformar nesse cenário de horror saído direto de um filme de Hitchcock.

A jornalista a seu lado fazia questão de tirar fotos de tudo, mas ele preferiu ir direto a cena do crime. A carruagem que transportava o rei, a rainha, o príncipe Edward e sua esposa ainda estava lá. A polícia cercava todo o local e os peritos faziam o seu trabalho em busca de encontrar alguma pista no estofado ensanguentado.

Em sua cabeça se passava muitas coisas. Não conseguia imaginar qualquer pessoa atirando no rei com tanta precisão, conseguindo driblar toda a forte segurança que cercava a família real. O que prova que atirador devia estar em uma certa distância para não ser visto. Era, portanto, alguém muito bom no que fazia e a intenção não era matar. Alguém tão perito não erraria um tiro mesmo a longa distância.

De repente, lembrou-se da duquesa e suas desconfianças. Ela provavelmente estaria certa o tempo inteiro. O cerco estava se fechando. Ele virou-se e tentou calcular a distancia da carruagem e do possível local onde o atirador estaria. Um pensamento bateu nele de repente. E se o rei apenas tivesse no local errado? E se fosse à duquesa o alvo? William coçou a cabeça e lembrou-se do caso de Elton Rust. Seria coincidência ou ele apenas estava impressionado demais?

O celular em seu bolso gemeu. William pensou em ignorar quem quer que fosse que estivesse mandando uma mensagem pra ele. Sentiu outro tremor no bolso e acabou mudando de ideia, pegando o aparelho com desinteresse, mas uma coisa o fez prestar mais atenção. Eram duas mensagens vindas de um número desconhecido.

“ Hoje foi só o começo. Você é o próximo!”

“Na verdade, não é sua filha que está brincando no jardim da casa 122 da Bailey Cross?”

Segundos depois que ele terminou de ler as mensagens, elas foram deletadas. Era como se o remetente soubesse exatamente quanto tempo ele levaria para ler o que lhe foi destinado. William não pensou duas vezes e saiu correndo pelas ruas lotadas de Belgravia.

Notas finais
Os comentários de vocês são sempre bem - vindos! Me deixe saber o que você está achando da história.