Renesme observava Alec absorto nos inúmeros objetos e obras de arte em exposição no museu real no anexo do palácio com um misto de curiosidade. Pra ela, tinha que admitir, nada ali era muito novo. Ela praticamente crescera dentro desse museu, mas observar um homem como o príncipe de Volterra absorver tudo aquilo como se buscasse ar para a sua vida, era realmente interessante. Nunca conhecera alguém assim antes.

— Foi uma ideia excelente construir um museu dentro do palácio! – afirmou ele.

— Foi mesmo uma ideia fantástica! Na verdade, a sede do antigo museu passou por um incêndio poucos anos depois do vovô assumir o trono e como tudo havia de ser reconstruído, ele achou que poderia ser uma boa que o museu passasse a ser aqui. atrai turistas.

— Com certeza! Brilhante ideia! É uma pena não podermos fazer isso em Volterra também. Papai tem pavor de pessoas circulando mesmo próximo ao palácio. – riu.

Renesme não se lembrava com tanta exatidão de Aro Volturi, mas pela descrição do filho dele, não parecia ele ser uma boa pessoa. Podia imaginar o motivo de Alec ser assim tão solitário.

— E você? Onde veio esse seu gosto tão peculiar? Não me lembro de conhecer tantos caras que valorizem as artes e o lado intelectual como você.

Alec abaixou a cabeça e temeu por Renesme o achar estranho demais. Ela não era a primeira, já tinha ouvido isso antes e não se importava. Nunca desejou ser como os outros. Mas agora isso importava muito.

— Não sei bem... Acho que desde a minha infância, talvez. Acha esquisito?

— Não. Eu também gosto muito de artes.

— Eu sei bem disso. Você pinta, não é?

— Pinto e desenho.

— Isso é um máximo! Infelizmente não nasci com tamanha habilidade.

Renesme sorriu e corou.

— Tem alguma obra sua exposta aqui?

— Aqui não, mas tem nos corredores na ala de cima.

— Posso ver?

A princesa olhou para Alec tentando descobrir se ele realmente queria ver algum quadro dela de verdade ou só estava tentando ser simpático. Mas ele realmente parecia animado e ela assentiu.

— Claro!

Os dois seguiram pelo palácio até o andar de cima, onde estava um dos quadros que Renesme mais se orgulhava. Ela o tinha feito quando tinha aproximadamente uns 15 anos e num dos momentos mais importantes de sua vida. Não tinha como ela não se orgulhar da nitidez dos desenhos e das boas combinações de cores que tinha feito e como ela era bastante perfeccionista, era difícil ela achar alguma coisa produzida por si mesma realmente boa.

Alec olhava bem de perto o quadro e Renesme o analisava. Na verdade, ficava bastante nervosa quando alguém observava alguma obra sua.

— É bonito. Acredito que deve ter o feito na infância, não é? Vejo algumas coisas que poderiam melhorar, mas acho que hoje você já deve ser bem mais experiente.

Renesme sorriu amarelo e preferiu não responder. Na verdade, ela tentava decidir se ele era franco assim sempre ou apenas queria passar a imagem de super entendido em obras de arte. Ela não se sentia mal por ter levado uma crítica, era a sinceridade dele que a incomodava.

Tom observava os dois a certa distância durante alguns minutos. Sabia que o príncipe tinha acordado cedo, mesmo com muita ressaca, para se desculpar com a princesa com um buquê de rosas. Depois do que acontecera ontem no baile, ele até se surpreendia pelo fato de Renesme ter aceitado passar algumas horas com o príncipe. Mas Tom estava certo que alguma Alec iria aprontar. Estava claro que ele era um rapaz desajeitado que claramente não fazia ideia de como se fazer charmoso para uma mulher e pela cara da princesa esse momento tinha acabado de acontecer. Era a deixa que Tom esperara.

Renesme observou Tom se aproximar e imediatamente veio um turbilhão de emoções em seu corpo. Tudo ficou mais quente, mais confortável. Em suas memórias ainda vinham às cenas da noite anterior. O sorriso em seu rosto. Os belos olhos azuis de Tom a observá-la e as mãos fortes dele em sua cintura. Eles rodopiavam pelo salão, alheios a qualquer coisa ao seu redor. A máscara no rosto dele impedia que os outros soubessem quem ele era. Ela sorriu ao inevitavelmente pensar que pela primeira vez naquela noite se sentiu segura. Não só pelo fato dele ser o segurança dela, mas por estarem protegidos dos julgamentos alheios.

Os dois dançaram silenciosamente durante todo o momento em que ficaram juntos na pista. A princesa sentia que não precisava de muitas palavras, não deveria haver muitas palavras. Era um momento de sentir e se entregar a algumas loucuras e nada mais. Ela ainda estava confusa sobre muitos aspectos, mas não queria pensar nisso na hora. Apenas o observava atentamente. Apesar da máscara, podia sentir a dureza em suas expressões se transformarem em doçura por alguns momentos e isso a fazia feliz.

Quando a música parou, ela relutantemente o deixou. Ele se curvou em direção a ela de uma maneira respeitosa, mas ainda com um sorriso no rosto.

— Você parece um tanto cansada, se posso dizer. Talvez seja a hora de se retirar.

— Por mim, eu dançaria com você a noite inteira. – disse ela se surpreendendo com a sua própria franqueza.

Ele pegou a mão dela e a conduziu para o andar de cima do palácio. Pelo caminho, ela podia ver que quase todos já tinham ido embora, era mesmo muito tarde. Quando ambos pararam em frente à porta do quarto dela, eles ficaram olhando um para o outro por alguns segundos, que pareciam uma eternidade. Muitas perguntas mudas que não eram respondidas. Até que eles foram se aproximando até darem um meio abraço. Renesme podia sentir a excitação percorrer entre eles, era quase palpável. E então ele se inclinou para trás e disse com suavidade:

— Não na noite de hoje, princesa.

Renesme relutantemente saiu de suas lembranças quando Alec tocou o seu braço para levá-la a outro lugar, mas para a alegria dela, Tom os interrompeu formalmente.

— Devo lembrar, alteza, de seu compromisso de agora...

A princesa ficou sem entender. Hoje era domingo e ela não precisava trabalhar. Mas alguma coisa no olhar confiante de Tom a fez entrar nos planos dele.

— Oh sim! Como pude esquecer? – falou ela teatralmente. – Temos um compromisso inadiável em Norfolk agora.

— É mesmo? – falou Alec um tanto desapontado. – Não sabia.

— Desculpe não ter te avisado, Alec.

— Sem problemas, o dever sempre em primeiro lugar.

— Com certeza!

Renesme saiu do recinto com Tom em suas costas. Tentou não dar uma impressão que estava aliviada por estar saindo dali, mas quando Alec saiu de sua vista, ela não pôde deixar de dar um sorriso.

Um pouco depois, Tom deixou-se ser conduzido pela princesa para um lugar que ele desconhecia. Ela sorria para ele e parecia confiante à medida que saiam da cidade. Por que era tão difícil seguir o seu plano inicial? O que essa mulher tinha que o fazia se descontrolar dessa forma? Ele sabia que tinha que resistir a essa química dominante que existia entre eles se quisesse ser bem sucedido. Tinha que ditar as regras e não seguir por impulso. Sem distrações!

— Onde estamos indo, especificamente?

— Para uma propriedade de meus pais em Norfolk. Na verdade, não fica exatamente lá, mas na divisa com Seraf. É um bom lugar para se ter um pouco de paz.

Tom olhou para ela novamente e viu mais uma vez aquele sorriso maroto no rosto dela. Ele estava redondamente enganado ao pensar na ingenuidade dela no início. Renesme até podia passar a imagem de inocência, mas tinha nela uma astúcia e força que talvez ela mesma não conhecia em si mesma.

— Se me permite, acho que devemos mudar um pouco os planos.

— É mesmo? – perguntou Renesme surpresa.

— Uma vez me falou que sentia falta de ter uma vida normal. Fazer coisas que as outras pessoas faziam...

— Sim?

— Posso levar você para um belo passeio em Norfolk, lhe apresentar um pouco de normalidade.

— Convite aceito.

Ela acelerou um pouco mais o carro e se sentiu um pouco mais leve. Há quanto tempo ela não se permitia fazer algo que ela própria desejou? Quantas vezes tinha quebrado as regras? Nunca! Sempre procurou ser uma boa moça, mesmo quando teve um pouco mais de liberdade para escapar um pouco. Sempre teve medo da desaprovação dos outros, mas agora, ela sentia que ela precisava de um pouco de férias de tudo ao seu redor.

Mesmo dirigindo, desviou o olhar para Tom por uns instantes. Ele a observava com curiosidade e ela sentia que haviam muitas palavras e perguntas que eles queriam fazer, mas não tinham feito. Ela se permitiu começar:

— Acho que pode ter algumas coisas mal explicadas entre nós dois, Tom.

— Eu sei, mas eu quero que saiba que nada disso foi planejado por mim. Eu entrei no seu mundo apenas como seu empregado e queria não passar disso. Mas...

— É impossível resistir essa química que temos. Eu também estou confusa, Tom. O que ando fazendo ultimamente não é do meu feitio. Mas eu também não consegui resistir. Depois daquele incidente em Clarence...

— Tudo foi pelos ares. – completou ele sorrindo. – Mas você sabe que isso pode ser perigoso para nós dois, não é?

— Eu sei. – falou Renesme, abaixando um pouco a cabeça. – Mas eu quero viver o momento. Quero aproveitar esse sentimento. Quero sentir o que nunca me permiti sentir e deixar os dados rolarem.

Dessa vez foi à vez de Tom proletar um pouco. Ele engoliu em seco e olhou para o lado de fora da janela do carro. Se ela soubesse esse enorme poder que tinha de atrair as pessoas ao redor, como um átomo. Ela que mudava o comportamento, o pensamento, os sentimentos de todos perto dela, fazia que estes ficassem seduzidos de alguma forma. Era difícil resistir, mas não podia ser impossível.

— Mesmo que os riscos possam vir a destruir você?

— Mesmo assim. Precisamos de alguns riscos de vez enquanto, não é?

— Definitivamente.

Ela deu um sorriso maroto para ele. Ao mesmo tempo em que ele tentava imaginar se era uma aventura que ela desejava ou se ela era uma ingênua romântica. Era notável que ela escondia sua sagacidade por trás de sua timidez. Ainda assim não conseguia tirar os olhos dela. Fazia parte do que lhe couberam a fazer, não é? Então, ele entraria no jogo e tudo seria eterno enquanto durasse, o quanto ele poderia tirar proveito disso.

Tom sorriu de volta para a princesa e tocou uma das mãos dela que estava no volante em concordância.

-------------------------------------------------------------------------

— “É impossível viver numa sociedade, onde o respeito e a valorização da dignidade não existem. Como vamos ser governados por alguém que despreza o outro pela sua cor? Que não dá o direito à cidadania a quem ama outro do mesmo sexo? Que nega o direito de escolha e se aproveita do que temos de pior em nossa volta?

A nossa política atual parece estar baseada no jogo do quem ganhar mais com o sofrimento alheio e a crise que assola o nosso país. Estamos diante da corrida ministerial, onde quem vence é quem angaria mais compaixão, esperança, e adoração de um povo cego pelo sua própria miséria. Seremos obrigados a crê em discursos rasos e sensacionalistas feitos na escuridão de um blecaute? Será que permaneceremos com o mínimo direito da democracia após essas eleições? Ou a tirania vencerá pelo calor do momento? Fica a reflexão!”.

Henry Cullen parou sua leitura completamente surpreso. William Lamb olhava para ele com uma certa confiança. Henry pôs o celular do lado e sentou-se na frente de seu colega jornalista.

— Quando eu penso que nada mais pode sair de você, aí eu me surpreendo. – afirmou Henry.

— Com isso? Vamos lá, Henry. Isso não é nada!

— Não é nada? Tem ideia que isso vai cair como uma bomba dentro do escritório do Donalson?

— Que ele se exploda! – William falou rindo. – Duvido que o ego alto dele permita que ele entenda quaisquer palavras escritas nessa crônica.

— Mas as pessoas vão. Aposto que essa belezinha aqui vai chegar a um milhão de cliques em vinte quatro horas. As pessoas amam um embate!

— Não espero tanto. Já escrevi textos mais polêmicos.

— Isso até me surpreendeu. Achei que ia fazer uma matéria daquelas contra ele, assim como vem fazendo com os textos políticos anteriores.

— Quero pegar o Donalson aos poucos. Com uma bomba de cada vez.

— Sabe que eu admiro esse seu talento e também a sua coragem? Não é para qualquer um colocar a cara a tapa desse jeito! Não tem medo de alguma represália por parte dele?

— Eu temo pelo que o nosso país possa se transformar se ele ganhar. São apenas algumas batalhas que a gente tem que enfrentar.

Henry se ajeitou na cadeira e pegou William olhando para a foto da filha ao seu lado. Pensou que talvez não tivesse tanta coragem de falar tanto com muito a perder. Donalson poderia ser capaz de fazer tudo e Henry sabia que ele era covarde o suficiente para pegar os mais fracos. Porém, William tinha uma coragem e uma rebeldia tão forte que o levaria fazer qualquer coisa pelo que ele achasse que fosse certo.

— Você devia conhecer a minha tia Bella. Você sabe, a duquesa de Richmond. Ela também parece bem disposta a se arriscar.

William tirou os olhos da foto de Katlyn e voltou a sua atenção para o amigo em sua frente.

— Eu ouvi falar muito dela ultimamente e confesso que de todos em sua família, ela é a mais disposta a fazer alguma coisa de verdade.

Henry sorriu. William e seu eterno ranço contra o que ele próprio representava, de alguma forma.

— Não é bem assim, você sabe. Meu vô bem que tentou por anos reverter essa situação das cidades mineiras. Ele ofertou muitos cursos técnicos para outras áreas de trabalho, investiu na indústria, mas é aquela coisa, ninguém pode ir contra a tradição.

— Nem eles, meu caro Henry. Se a família real não tivesse tão pressa aos seus próprios protocolos e neutralidade não tinha visto esse problema se agravar de uma maneira tão irreversível. Bem que sua alteza real poderia ter pressionado mais seus ministros.

— É o que eu lhe digo sempre, Will, boas intenções sempre há, porém na prática é mais complicado.

— O inferno está cheio de gente com boas intenções, meu caro Henry. Mas, em respeito a nossa História e as nossas próprias tradições, deixarei a família real quieta no seu canto.

Sem querer proletar ainda mais nessa desagradável conversa, Henry levantou-se e ficou de pé diante de William. No fundo, o neto do rei sabia que o amigo remoia mágoas passadas de sua própria família aristocrática e não queria ter que discutir isso com ele.

— Quando vai mandar a crônica para o chefe?

— Agora mesmo, afinal de contas, ele vai me matar se eu não mandar isso ainda hoje.

— Temos um trufo nas mãos, Will. Você não vai só deixar o chefe contente, mas vai enlouquecer o nosso inimigo em comum. Ainda por cima vai gerar muitas discussões a respeito.

— Assim espero.

— Então lancemos uma aposta!

William levantou a sobrancelha e deu um sorriso maroto.

— Que aposta?

— Se a crônica chegar a um milhão de views em vinte quatro horas e você perder, terá que cobrir um evento bastante tradicional para a minha família. Será a sua chance de conhecê-los também.

— E se eu ganhar?

— Pagarei uma bebida para você.

— Não pode ser qualquer bebida, ein? Tem que ser um uísque duplo daqueles.

— Fechado!

Henry apertou a mão do amigo e saiu da sala. William admirava o jeito do seu colega de trabalho. Ele tinha um espírito leve e cheio de entusiasmo. Como se acreditasse em tudo de bom que a vida ainda poderia lhe oferecer. De certa forma, William lembrava-se dele mesmo quando era mais jovem quando estava com Henry. Hoje, já com quase cinquenta anos, não imaginava que grandes coisas pudessem acontecer. Tudo parecia sempre se repetir. Mas também não poderia deixar de lutar por algo bom e justo, não por ele, mas pelo amigo ou Katlyn que ainda tinham uma vida inteira pela frente.

Pegou a foto da filha novamente e teve medo. Não podia deixar de pensar nos riscos que ela podia correr. Nunca pensava nele mesmo e sim nela. Tudo em sua vida foi voltado para a sua pequena menina desde o minuto em que ela nasceu. Voltar a Belgonia de vez e trabalhar para o jornal novamente, como não fazia há anos, foi por causa dela também. Precisava construir um lugar melhor para ela morar e para isso teria que correr riscos indesejados.

Pegou o telefone e ligou pra sua ex- esposa e esperou que ela tivesse a decência de atender. Esperou alguns minutos até ouvir a voz dela no outro lado da linha.

— Helen, sou eu.

— Eu sei.

— A Katlyn está por aí?

— Por que?

— Por que eu quero falar com ela, é claro.

— Ela não está.

— Helen, por favor.

— Eu não estou mentindo, William.

— Onde ela está, Helen?

— Está na casa de uma amiga.

— Tenha cuidado com ela. Não é bom deixá-la fora de suas vistas por muito tempo.

— Está dizendo que eu não sei cuidar da minha própria filha?

William respirou fundo e coçou a testa. Mesmo depois de tantos anos a sua relação com Helen não melhorara nem um grau. Para quem os visse anos atrás, diriam que os dois eram uma e carne. O romance tinha sido tórrido mesmo no início. Ele ainda se lembrava do dia que avistara aquela bela mulher, que em seus olhos parecia uma “gueixa”. Lembrava-se que ficara encantado ao mesmo instante e abandonou os colegas para tentar ao menos pagar uma bebida para ela. Depois disso foram dois anos de um namoro que parecia mágico demais para ser verdade, mas que tudo que é bom tinha a sina de durar pouco, o relacionamento deles fora se diluindo após alguns anos a ponto de os dois não conseguirem nem estarem próximos um do outro por alguns instantes. Ele lamentava muito, especialmente por Katlyn. Porém, ele sentia que mesmo depois de tudo que aconteceu, Helen deixara uma marca muito profunda nele.

— Não é isso, Helen. Não seja tão extrema! É por que podem existir pessoas más intencionadas que podem usá-la para se vingarem de mim.

— Sempre por conta dessas suas matérias estúpidas! Escuta aqui, William, eu não vou deixar esse seu trabalho idiota estragar a minha vida e a vida de Katlyn mais uma vez.

E desligou. William ficou ouvindo o som da chamada encerrada por alguns minutos. Sentiu um vazio enorme em seu peito. O que mais ele tinha nessa vida, a não ser a sua filha e que nem podia estar perto dela? Nada tinha a perder. Sua vida era um extremo buraco negro. Se arrependia de as coisas não tivessem sido melhores, mas agora era um caminho sem volta.

—----------------------------------------------------------------------------

Tom e Renesme entraram num pequeno pub de Norfolk para terem um pouco mais de diversão antes de voltarem para Belgravia. Os dois passaram o dia pela cidade fazendo coisas que até poderiam ser consideradas meio bobas, como tomar um sorvete, tirar fotos nos pontos turísticos das cidades ou correr pelas lojas apenas para ver as novidades. Tom olhava para a princesa ao seu lado e via que ela parecia uma criança em um parque de diversão. Era óbvio que ela não tivera como ter uma vida normal e aqueles pequenos momentos eram puro deleite. Em todo tempo que trabalhara no palácio nunca a tinha visto tão solta e feliz. De alguma maneira, isso o deixava satisfeito, de certa forma. Ele absorveu essa sensação antes que o arrependimento lhe batesse.

O sol já estava caindo, quando ambos resolveram dar uma pausa. Tom tentava não rir com a peruca que Renesme usava e os grandes óculos escuros que tapava quase todo o seu delicado rosto.

— Você ainda não se acostumou, não é?

— Como iria?

— Não posso andar sem essa proteção. Todos me reconheceriam.

— Você parece tão natural usando essas coisas, apesar de bizarro!

— Eu já usei esses disfarces antes. Principalmente quando ia as baladas junto com Henry e Marlowe quando eu era mais nova.

— Mesmo assim, prefiro você do modo natural. – bateu de olho. – Não imagino você em baladas.

— Por que não? Até uma pessoa marcada como eu tem o direito a um pouco de diversão.

— Você não sabe o que é ser uma pessoa marcada. Especialmente pelo eterno destino da labuta.

Renesme corou e abaixou a cabeça envergonhada. Mas uma vez a disparidade das realidades diferentes. Mas Tom não se ofendera, segurou o queixo da princesa e foi levantando a cabeça dela aos poucos, como se saboreasse cada movimento. Renesme sentia ferver a região que ele a tocava. Era incrível as sensações que o seu corpo produzia com apenas a presença dele.

— É emocionante estar aqui assim. – admitiu ela tentando encontrar outros assuntos que não poderia haver discordância. – Andar com você o dia inteiro sem ser reconhecida e fazer coisas que normalmente eu não poderia fazer... É libertador!

— Então, somos dois, eu também gosto da sensação do perigo.

— Eu quase consigo me imaginar vivendo num lugar assim. Crescer livre, sem muitas cobranças...

— Não é tão bom quanto imagina.

— Não?

— Não. É duro ter que viver a cada dia apenas para sobreviver. Não sabe os privilégios que tem.

— Acredite, eu sei. Mas tudo vem com um preço. A minha vida é como estar numa vitrine por vinte quatro horas por dia.

— Vendo por esse lado. Prefiro a minha vida de cidadão comum.

Renesme sorriu e inclinou a cabeça para estudar mais um pouco as expressões que ele deixava em seu corpo. Ela queria saber tudo que podia sobre ele. Apesar de o lado misterioso dele a atraísse mais do que gostaria.

— Alguém da sua família trabalhava nas minas? – perguntou.

— Meu pai. Eu também cheguei a trabalhar quando era ainda moleque, mas é aquela coisa... “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Meu pai até tentou me convencer, mas não deu. Eu ainda trabalhei um ano na metalúrgica, porém não era mesmo o que eu queria.

— E qual era a sua aptidão?

— Sabe que eu ainda não descobri?

— Você me disse que esteve no exército.

— Sim, passei dois anos em treinamento na base de Belgravia e depois eu me juntei ao exército britânico no Irã.

— Então chegou a combater na linha de frente?

— Sim, mas não foi uma experiência muito agradável. Passei três meses lutando junto ao exército e dois meses pilotando os helicópteros da base.

— Também sabe pilotar? Papai também! – Renesme exclamou admirada.

— Eu sei alguma coisa. Mas os cinco meses que passei lá me mostraram que eu não queria continuar com aquilo. Há muita morte e muita desilusão num lugar como aquele. Eu não queria continuar sendo responsável pela morte de alguém.

— Tomou a atitude certa.

— Ainda tenho pesadelos de vez em quando.

— Deve ser mesmo muito difícil! E como virou segurança?

— Era o que eu podia fazer no momento. Não podia deixar a minha família na pior com toda a crise das minas.

— Ouvir tudo isso me orgulha muito, sabia? Que sorte a minha ter encontrado você.

— Não. A sorte foi minha. Quando me disseram que eu tinha sido escalado para trabalhar para o palácio, eu mal pude acreditar.

— Eu imagino. Tudo parece ser muito impressionante, não é?

— Sim. Mas você foi mais impressionante.

— Então, nos impressionamos mutuamente.

Tom pegou a mão da princesa e fitou os olhos dela por alguns segundos. Uma mão tão delicada. De alguém que pouco conhecia a realidade da vida. Sabia muito de tão pouco! Renesme pôs as mãos dela em torno da dele e ele olhou para aqueles olhos fascinantes novamente.

— Eu queria muito ter resistido... Vivemos em mundos muito diferentes. Temos vivencias diferentes e talvez não compartilhemos de muitos valores, mas eu não consegui. Eu ainda tento explicar o que aconteceu comigo desde aquele dia em Clarence, mas não sei explicar.

— Como eu lhe disse, também é confuso para mim também. Eu ficava pensando o tempo inteiro no que era certo ou errado. Se você compartilhava desse mesmo sentimento que eu estava sentindo. Eu não queria sofrer e nem complicar as coisas pra você.

— Você não está fazendo nada sozinha. Se eu estou aqui agora é por que eu quero estar.

— E como vamos fazer isso dar certo?

— Eu não sei, confesso. Mas a gente pode ir vivendo isso da maneira mais discreta que houver, como você mesma disse, vamos deixar os dados rolarem.

— Um dia de cada vez. Um passo após o outro.

— Definitivamente. Não vamos tentar mais teorizar o que não pode ser explicado.

— E que seja eterno enquanto dure!

Tom pegou o rosto da princesa e tirou os óculos que a cobria. Foi se aproximando cada vez mais até ambos compartilharem o ar que entrava em seus pulmões. Renesme sentiu a expectativa daquele ato. De repente se sentiu mais jovem, como uma adolescente de novo que dá o seu primeiro beijo.

— Agora deixe eu fazer uma coisa que eu queria fazer há um tempo....

Ele tomou os lábios dela e sentiu o prazer de tê-la em seus braços. Tão dele! Tão entregue como nunca. Fez questão de por alguns instantes esquecesse todos em volta e tudo que estava em sua mente e se deixou levar pelo calor do momento.

—----------------------------------------------------------------------------

Bella finalizava a leitura de alguns projetos que tinha elaborado para seus trabalhos filantrópicos, quando viu Emily entrar na sala. Lamentava muito em ter que segurá-la até tão tarde.

— Alteza, Elton Rust na linha.

— Obrigada Emily.

A secretária saiu da sala e Bella pegou o telefone para atender a chamada. Logo de cara estranhou o tom em que ele falava.

— Tom, sua voz está estranha.

— Alteza, vamos desistir dos nossos projetos.

— Por que? Nós tínhamos tantos planos para a fundação.

— Não podemos continuar trabalhando juntos. Estão no nosso encalço. Não é mais seguro conversarmos ou estarmos juntos. Vão nos prejudicar, Alteza. Tenha cuidado!

— Mas Tom, quem está nos vigiando?

A chamada desligou de repente e Bella não pôde compreender o que acabara de ouvir. O que ele queria dizer? Ela estava sendo vigiada? Por quem?

A duquesa se encostou na cadeira e ficou pensativa. Não poderia desistir. Iria em frente até o fim. E descobriria quem estava querendo colocá-la em perigo ou fazer mal a qualquer um da Fundação. Não desistiria nunca! Iria descobrir o que estava acontecendo a qualquer custo.