Abril de 2044

As ruas de Clarence estavam tomadas por revoltosos. Haviam pessoas de todas as idades gritando com cartazes. Em seus rostos tinha apenas raiva e desilusão. Quem passasse por aquelas ruas anos atrás jamais poderia supor que aquela gente alegre, pomposa, era a mesma que estavam nas ruas naquele momento.

Os velhos casarões históricos, as pistas de pedra e o cenário medieval que tanto antes tinha feito muitos sonharem, agora dava lugar a barricadas e faixas pretas. Era como se a grande crise tivesse sugado todas as cores deixando tudo cinza e com poucas esperanças. Parecia que muito pouco fazia realmente sentido.

— Nos tiraram tudo! Nosso trabalho, nosso bem estar, nosso meio de sobrevivência. Daqui a pouco até sem luz vamos estar! – gritava o líder dos protestantes. — Meus amigos, está na hora de lutarmos! Chega de ficar no fundo do poço esperando que olhem por nós. É hora de fazer que nos ouçam.

As pessoas gritavam em concordância. Os que protestavam eram mineradores liderados pelo sindicato. A tensão saia pelos poros e Bono Donnalson podia sentir isso através das imagens da TV que transmitia a manifestação ao vivo. A cada grito dado, ele sorria. Não podia para ele haver situação melhor.

Quando o deputado George Wilson entrou na sala de Donnalson, o encontrou em gargalhadas e não podia entender o que poderia ser tão engraçado num dia cinza como aquele. Olhou para TV e viu o que todos estavam comentando, a manifestação em Clarence.

— O que acha tão engraçado, Donnalson?

— O dia de hoje. Tudo está acontecendo exatamente como eu queria. Esse governo do David Blair está me trazendo à vitória de bandeja.

— Como assim?

— O país está um caos e eu vou me aproveitar de cada segundo desse terror.

De repente, George entendeu tudo. Donnalson iria fazer uma campanha ainda mais ferrenha contra o atual governo do primeiro ministro e não duvidava que ele ganharia muitos apoiadores. Era no momento de dor e fúria que as pessoas apelavam para aqueles que falavam exatamente o que queriam ouvir. A vitória parecia mesmo mais próxima.

— Se não fosse por aquela maldita família real, a gente teria bem mais domínio do que estamos tendo agora. – falou Donnalson batendo na mesa como se quisesse eliminar os seus inimigos como matava uma mosca.

— A família real não pode interferir na nossa campanha.

— Não pode, mas a opinião deles conta muito. Eles apenas fingem serem neutros, mas em cada discurso e causas que eles apoiam mostram para o público o que eles pensam e os influenciam.

— Está se referindo a duquesa de Richmond?

— Essa vadia suburbana é mesmo um problema! Esse último discurso em defesa desses viados e sapatões que ela deu ontem parecia que estava falando para mim. Eu sei que ela não gosta da minha pessoa, mas eu estou me mantendo muito bem informado de tudo que ela faz.

— O que o nosso amigo descobriu?

— O nosso amigo está mais bem infiltrado do que você imagina. É um sujeito inteligente! Conseguiu chegar no coração da família real.

— Sério?

— Sim. Ele me mantém informado de tudo que acontece por lá. Mas se Deus continuar a meu favor como aparenta está... Eu não vou ter que mexer nenhum palitinho contra ela, o próprio palácio vai dar um jeito de calá-la.

— E o príncipe Edward e sua filha? Algum risco?

— Não. O príncipe Edward não é burro. Ele já conviveu tempo o suficiente com as regras da realeza para saber quando ficar com o bico calado e as mãos atadas. Já a filha dele... Ela está exatamente no lugar em que eu quero que ela esteja.

Donnalson pegou o seu celular e transmitiu o vídeo ao vivo onde mostrava a princesa na sede da fundação The Wild Beauty, que cuidava de cavalos com maus tratos, e mostrou para George.

— Enquanto a princesa estiver pensando apenas em cavalos não vai nos incomodar.

— Acho que podemos mandar escrever algo do tipo. O que acha?

— Acho uma maravilha! Temos que colocar pra ferrar dessa vez. Nada de piedade.

— Não acha arriscado atacarmos a família real?

— Não! Quem sabe não eliminamos dois coelhos com um tiro só?

George olhou para Donnalson preocupado. Queria ganhar a eleição, mas não queria que as coisas tomassem proporções desagradáveis. A monarquia era algo poderoso demais, ninguém poderia contra eles. Mas a grande pergunta era: quão longe Boni achava que poderia ir? Quanto poder ele queria conquistar para si? George refletiu consigo mesmo, mas nada disse. No futuro eles teriam que decidir como lidar com as consequências que viriam. Na corrida política, vencia quem tinha mais poder, mas permanecia quem tinha mais sagacidade.

Do outro lado da cidade estava Henry olhando para o céu observando o grande avião pousar aos poucos no aeroporto internacional de Belgravia. Podia até confessar que estava ansioso em rever aquele que foi o seu grande mentor quando começou a trabalhar como jornalista. Sentia falta das conversas dele e de suas ironias afiadas. No tenso momento em que estavam vivendo, ele seria mesmo o ideal para cobrir os acontecimentos com maestria. Sentia que ele faria uma diferença muito grande.

Henry saiu de perto da janela que dava para a pista de pouso e resolveu esperá-lo depois da área de check in. Afinal, não queria dar a impressão que estava muito ansioso. Não queria que ele soubesse que deixou de lado um freelancer no exterior só para recebê-lo. O que ele diria? Que estava parecendo uma namoradinha esperando o seu pretendente. Sorriu ao pensar que poderia ser essa a exata resposta dele.

Não precisou que ele esperasse muito até que avistou o homem alto de cabelos castanhos meio encaracolados se aproximando dele. William Lamb estava quase perto dos 50, por dois anos apenas. Era um dos jornalistas mais respeitados de Belgonia. Trabalhou duro no mais renomado jornal do país, apesar de não precisar disso, já que sua família era possuidora da maioria das terras de Gotland. Ele mesmo tinha herdado o título de Visconde de sua cidade natal, algo que ele desprezava. Inclusive, essa foi uma das coisas que o fez passar tantos anos fora do país. Mas agora, ele sentia que estava na hora de coletar um pouco do fogo dessa fogueira que estava Belgonia no momento.

— Will! É bom vê-lo novamente.

William se aproximou mais do neto do rei e tocou o ombro dele. O visconde sempre achou Henry muito promissor no jornalismo. Ele tinha exatamente as qualidades que apreciava num profissional, criatividade na escrita e curiosidade para ir atrás de uma boa história aonde quer que ela tivesse. Além do que, William via em Henry um pouco dele próprio. Um rapaz que tinha saído correndo do seu passado nobre para encontrar as suas próprias aventuras e independência. Achava que isso tinha sido um grande motivo para que eles se tornassem bons amigos.

— Henry! Você não mudou nada!

— Digo o mesmo! Como estão as coisas em Paris?

— Você sabe... Um cara pode encontrar muitos prazeres por lá. Mas confesso que eu já estava ficando entediado. Soube que as coisas estão bem mais animadas por aqui.

— Você nem imagina! Nunca pensei que as coisas chegariam a tal ponto. Belgonia sempre teve um histórico de ser um país tão tranquilo e equilibrado!

— Alguma hora alguma coisa interessante tinha que acontecer.

— Não seja tão sacana!

— Falando sério, eu não queria que tantas pessoas tivessem passando por tantos problemas. Porém é bastante óbvio que isso estava para acontecer.

— Isso é verdade.

William colocou a mala no taxi e seguiu com Henry para o escritório do The Globe Mail. O transito estava tranquilo demais para uma segunda-feira. Por onde passavam viam televisões abertas com as cenas da manifestação. As pessoas viam as notícias em seus celulares e demonstravam preocupação. William sentia que muitos estavam imaginando que o fim estava próximo. Ele agradeceu a si mesmo por ter aceitado a oferta do chefe do Mail. Odiava a pompa de Manolo, mas o seu melhor salário era cobrir cada acontecimento desse momento histórico.

Como jornalista, ele vivenciara muitas coisas. Sempre esteve no furo da notícia e se orgulhava disso. Sempre se doou cem por cento para que estivesse as melhores matérias, as melhores entrevistas e agradasse ou desagradasse quem realmente interessava. Sabia que mesmo depois do que aconteceu em sua vida pessoal não poderia deixar de dar a sua contribuição num momento como aquele.

Diferente das ruas, a redação do jornal estava lotada. Parecia que todos os jornalistas da casa estavam trabalhando no momento. O som de dedos digitando agilmente nos teclados e os gritos eram a trilha sonora do momento. George levou William para a sala dele e ambos encontraram Manolo Chiff a espera dos dois.

— Espero que esteja a seu gosto, William.

William deu ao seu novo chefe um sorriso irônico. Viu a sua nova sala e gostou de encontrar nela tudo que pedira para voltar ao cargo de jornalista mais polêmico do país.

— Está perfeito! Espero que as outras condições que eu pedi sejam atendidas.

— Espero que a sua mente e os seus dedos ainda tenham a mesma eficiência.

— Não se preocupe com isso, Manolo. Posso estar perto dos cinquenta, mas não estou gagá. Eu posso botar esse país de cabeça pra baixo se quiser.

— Perfeito! Amanhã quero você bem aqui trabalhando.

— Pode deixar, caro chefe.

Manolo deixou a sala e Henry sorriu para William. Este acendeu um cigarro e sentou-se em sua larga cadeira giratória. Sua disposição para o trabalho não seria estragada pela prepotência de seu novo chefe.

— Senti falta dessa sua ironia. – declarou Henry.

— Mal acreditei quando soube que esse patife estava na chefia agora.

— Você ainda poderia estar lá se não tivesse escolhido mudar-se para uma longa viagem para lugar nenhum.

— Eu precisava disso na época. Não me arrependo de nada.

— Por causa dela.

William olhou sério para Henry. O visconde lamentava muito que a questão de seu relacionamento conturbado com Helen tivesse se tornado tão público e respondeu com sinceridade:

— Não somente, apesar de ela ter me obrigado a fazer isso, á princípio. Eu precisava me livrar dessa atmosfera terrível também. Eu não aguentava mais essa sombra de ser o Visconde de Gotland. Se eu tivesse assumido a direção do jornal iam me acusar de ter conseguido apenas por ser nobre. Eu precisava espairecer e você bem sabe como é a sensação.

— Eu sei. Eu ainda passo por isso.

— E ainda vai passar por isso por toda a sua vida. Afinal ninguém deixa de ser o neto do rei do dia para o outro. Mas assim como eu, você também tem a missão de ajudar a mudar esse país. Eu soube que aquele imbecil do Boni Donalson estar planejando se candidatar para primeiro ministro.

— Nem me fale!

— Tenho que escrever algumas coisinhas contra esse cara e você, meu amigo, vai me ajudar.

— Mal posso esperar!

William sorriu, gostava da boa disposição de seu discípulo. Se espreguiçou mais um pouco para tirar o mau jeito da poltrona do avião e ligou a TV em sua frente. A primeira imagem que surgiu foi uma reportagem que mostrava a princesa Renesme na fundação que ajudava a defender os cavalos de maus tratos. Nada que poderia interessá-lo, mas ao ver o rosto da bela mulher na tela, fez com que ele dedicasse alguns minutos da sua atenção e aumentou o volume da TV para escutar melhor. Olhava para ela e tentava reconhecê-la, mas foi em vão. Porém de certa forma, ela parecia despontar e encher os olhos de quem quer que a visse.

— Quem é essa? – perguntou curioso.

— Não? – perguntou Henry sem acreditar no que ouvira.

— Quem é?

— É a minha prima, a princesa Renesme.

— Essa é a princesa Renesme?

— Sim. Algum problema?

William se concentrou bem no rosto que aparecia na TV e ficou desconcertado. Não sabia como olhar para essa desconhecida, que um dia seria a rainha do seu país, e não ter se quer uma lembrança dela. Era lamentável, ao mesmo tempo o deixava assim tão pasmo e tão... encantado. Como ele não podia saber que aquela mulher pequena, mais com modos que mais pareciam de uma boneca, realmente era?

— Ela me parece tão... mais velha.

— Oito anos é muito tempo, meu caro Will. Ela estava viajando quando você deixou o país e então não me admira que não tenha acompanhado a evolução dela.

— Eu estou pasmo comigo mesmo.

É claro que ele sabia da existência da princesa Renesme. O nascimento dela foi um acontecimento nacional. Ele tinha uns 15 anos quando foi arrastado pelos pais para conhecê-la em um desses National Days. Tudo na princesa era conhecido e noticiado. Porém, a última visão que ele tinha dela era apenas de uma adolescente bastante tímida, por sinal, mas agora alguma coisa nela o deixava maravilhado. Ele tinha conhecido muitas mulheres em sua vida para saber que Renesme Cullen era uma hipnotizadora. Ela conseguia fazer com que todos olhassem para ela. Porém, certas coisas em seus modos não estavam corretos. Ela quase nunca olhava para as câmeras. Sua postura era esguia, como se quisesse se esconder de todos dentro do seu próprio corpo, talvez ainda guardasse aquela velha timidez. Sabia que ela provavelmente tinha recebido a melhor educação possível para o seu cargo, mas tinha algo muito errado nela.

— Entrei nessa missão por amor aos animais. – discursava a princesa. – É inadmissível que as pessoas tratem os bichos como meros objetos. É duro vê-los sendo mal tratados todos os dias nas ruas. Quantos cavalos não estão por aí trabalhando por longas horas e sendo mal alimentados? É um problema que poucos conhecem ou fecham os olhos para não verem. Eu realmente amo cavalos e depois de saber o que está acontecendo com eles, eu definitivamente queria fazer algo para ajudar. Foi algo do qual senti que precisava fazer parte. É o meu projeto dos sonhos e espero ajudar a salvar alguns. Gostaríamos que todos pudéssemos unir forças e lutar pelo que realmente importa no momento.

William abriu a boca e colocou a mão na testa. Não acreditava no que estava vendo ou ouvindo. Ele estava terrivelmente certo em achar que havia algo fora do lugar, na verdade, nada estava certo nela.

— Tem algum muito errado com essa princesa.

— Por que? Acho que ela está começando a sair da sua zona de conforto e trabalhar em causas que são importantes.

— Não. Está tudo errado. “Lutar pelo que realmente importa?”. Ela sabe o que está acontecendo no país agora?

— Isso foi apenas uma frase mal colocada.

— Acredite que enquanto ela estiver com esse jeito acanhado, essa voz estrangulada e essa frase mal colocada, as coisas não vão ficar muito boas para ela e nem para o país. Mas o que eu poderia esperar? A realeza é muito alienada!

— Você precisa conhecer muito mais sobre a realeza e sobre a minha prima antes de falar o que disse.

— Acho que preciso mesmo, mas não vou poder dizer boas coisas.

Enquanto isso, Renesme entrava no carro acompanhada por Tom e respirou aliviada. Nunca tinha se sentindo tão bem em um compromisso oficial antes. Em sua mente tudo tinha sido perfeito. Conhecer a fundação The Wild Beauty foi como renovar as energias.

É claro que tinha ouvido muitas histórias tristes a respeito dos cavalos que lá estavam no abrigo. Muitos deles foram resgatados com muitas feridas de maus tratos e até membros tinham perdido. Mas saber que poderia contribuir para salvá-los e que ainda existiam pessoas boas que se importavam com os animais já era grande coisa.

Lá na Fundação ela pôde conhecer como funcionava o resgate e os cuidados com os cavalos que chegavam e que permaneciam. Eles eram todos abrigados num grande acampamento e cuidados por dois veterinários que prestavam serviço. Eram treinados e cuidados até que encontrassem um novo lar.

Ela mesma tinha adotado um cavalo muito bonito que tinha sido resgatado das ruas. Era mágico poder fazer algo que realmente gostava e poder sentir aquela conexão legal que tinha com os bichos. Podia ver em seus olhos o quão felizes eles estavam por poder finalmente ter um carinho.

Tom olhou para o retrovisor para garantir que o motorista não estava olhando para os dois e tocou levemente a mão da princesa. Ele podia sentir o quanto ela estava feliz e mais confiante. Podia até dizer que estava satisfeito por vê-la tão bem.

— Você se saiu muito bem hoje, alteza.

Renesme olhou para a mão de Tom encostada na dela e deu um sorriso. Era um gesto tão pequeno, mas que para ela contava muito. Ela não era de gostar muito fácil de uma pessoa. Desconfiava sempre de todos aqueles que se aproximavam dela. Tinha aprendido que podiam facilmente enganá-la e se aproveitar de seu poder. Seu coração estava adormecido, mas alguma coisa estava começando a mudar. Ela não sabia bem o que estava sentindo. Mas tinha certeza que quando Tom estava perto ela sorria mais e a e ficava até mais falante.

— Obrigada Tom. Eu realmente me sinto muito bem. É uma área que gosto muito de trabalhar.

— Eu gosto de vê-la assim, se me permite dizer.

A princesa sorriu para o seu segurança e aguardou que o carro parasse em frente ao palácio. Ela desceu e seguiu direto para o escritório de Emily para planejar a sua agenda. O estranho de tudo era que todos estavam muito agitados ao seu redor. Conversavam um com o outro e demonstravam apreensão.

— Emily, o que está acontecendo?

— Alteza, você precisa ler isso.

A secretária estendeu o tablet em direção a Renesme e logo ela pôde ver em letras garrafais o título da matéria que estampava um dos jornais. “A princesa Renesme despreza o sofrimento de seus súditos!”. A confusão bateu-lhe e ela não esperou mais nem um segundo para ler o restante e a cada linha que lia sentia suas mãos tremerem. Eram duras palavras de um jornalista que tinha usado o seu discurso dessa manhã para lhe acusar de negligencia ao caso de Clarence. A chamava de insensível, de fútil e muitas outras coisas horríveis.

Ela não pôde mais suportar em continuar, entregou o aparelho para Emily e foi em direção ao seu quarto. Seu corpo agora todo tremia e seus olhos já queriam soltar algumas lágrimas. Sabia que bastava apenas uma matéria dessa para se espalhar um ódio pelas redes sociais contra ela.

Tinha que admitir que tinha escolhido mal as palavras. Não podia mesmo falar o que lhe viessem no calor do momento. Agora já chorando em sua cama, se sentia uma fracassada e esse era o pior sentimento que poderia ter. Não era fácil estar sendo alvo das piores palavras que uma boca poderia dizer. Sabia que era sua obrigação não se importar com isso, mas simplesmente não conseguia. Por que ela não poderia ser mais desinibida? Se sentia fraca, despreparada e inútil! Uma grande decepção para si mesma.

Tom avistou Renesme subindo as pressas e logo soube que tinha algo errado. Pegou o celular e viu o que tinha acontecido. Estava entre os assuntos mais comentados do Twitter alguns trechos do discurso da princesa que colocados fora do contexto, obviamente parecia muito ruim. Ele sabia bem quem poderia estar por trás disso. Fazia parte do plano esse ataque, mas no fundo, sentia que dessa vez tinha sido cruel demais.

Então, resolveu subir as escadarias e viu que o corredor estava vazio. Se aproveitando disso bateu na porta do quarto da princesa, sem sequer pensar que isso poderia ser errado.

— Por favor, me deixem ficar sozinha. – ela respondeu lá de dentro.

— Alteza, sou eu.

O silêncio se instalou por alguns instantes, mas em seguida a porta foi aberta. Tom entrou devagar e fechou a porta atrás de si. Renesme estava vermelha de tanto chorar. Parecia até uma garotinha indefesa para quem a olhasse agora. Ele sentiu pena dela naquele instante. Era duro estar sob constantes julgamentos. Eles não podiam fazer isso com ela.

— O que aconteceu, Tom?

Tom se aproximou-se mais e Renesme o observava atentamente. Ele a olhava e sentia que ela o chamava para mais perto. Era uma sensação esquisita, mas era isso que os olhos dela diziam. Mas ela preferiu permanecer num lugar seguro. Tinha medo do que poderia fazer diante dela.

— Alteza, não se deixe levar pelo que escreveram sobre você. Eles só querem te ver derrotada e você não pode cair no jogo deles.

— Eles têm razão em muita coisa, Tom. Eu não estou preparada para isso. – Renesme falou apontando para as paredes do palácio. – O que adiantou eu passar anos e anos estudando para que num compromisso eu não saiba dizer uma frase coerente num discurso?

— Tudo que fizer vai ser alvo de críticas. Eles querem acabar com a sua família.

— Às vezes eu queria não ter um coração para sentir o que eu estou sentindo. Isso é tão injusto! – falou a princesa já chorando novamente. – Por que eu tenho que ser assim?

— Para mim, você é perfeita! Te ver hoje tão solta, tão feliz, me fez ter esperança que tudo vai ficar bem. Infelizmente, princesa, a gente não pode ter tudo que queremos ter.

Aquelas palavras amoleceram de vez o coração de Renesme. Nunca alguém que não fosse a sua família a disse algo tão bom e tão profundo. Ela se jogou nos braços de seu segurança e se permitiu sentir o conforto daquele calor que emanava dele. Tom a abraçava, mas ainda sentia mais confusão. Tinha sido sincero com ela e isso não fazia parte das regras. Mas ela estava ali diante dele, tão frágil e insegura. Ele estava começando a se apegar e querer guardá-la e protegê-la de todos que tinham planos horríveis contra ela. Isso não era certo. Nesse momento, podia fazer o que quisesse dela, mas preferiu deixar as coisas como estavam.

Alguns minutos depois, Renesme levantou a cabeça e olhou para o rosto de Tom. Ali estava aqueles olhos tão bonitos que ela tanto admirava. Eles a hipnotizavam, a fazia se aproximar cada vez mais e chegar tão perto que poderia ver as suas linhas de expressão. Sem pensar duas vezes, o beijou ardentemente. Tom no início não a correspondia, mas por fim se deixou levar pelo calor da emoção. Mas quando ele deu por si, notou que não era algo que ele podia fazer e se afastou dela.

Renesme o olhava andar para longe e percebeu o erro que tinha cometido. Como ela tinha sido boba por acreditar que poderia ter algo logo com o seu segurança!

— Tom, me desculpe!

Ele parou de caminhar, porém permaneceu de costas para ela.

— Eu não devia ter te beijado. Confundi as coisas e isso foi imperdoável! Por favor, me perdoe!

— Ambos confundimos as coisas, alteza. Isso não pode se repetir.

Renesme sentiu o seu coração se afundar ainda mais ao vê-lo deixar o quarto. Tom encostou se na porta e tocou os seus lábios. Não podia negar que tinha sido muito bom beijá-la. Tinha razão quando pensou que Renesme podia conquistar qualquer pessoa com aqueles olhos dominantes. Mas o que ele não entendia era que sentimento era aquele que estava surgindo dentro dele.