Dinastia 1: O Sonho Real
27 Seguindo em frente
Notas iniciais
Enquanto seguíamos para a sacristia para nos casarmos no civil, Christina Perri surgiu cantando A Thousand Years, essa música tão linda que considerava minha e de Edward. Quando Alice me ouviu ouvindo essa música sem parar às vésperas do casamento, ela teve a brilhante ideia de chamá-la para se apresentar durante a cerimônia. Fiquei meio receosa que ela não aceitasse, mas por incrível que pareça a resposta foi um sim e eu estava muito feliz por tê-la aqui.
Adentramos a sacristia e eu me sentia satisfeita por estarmos longe dos olhos de todos e apenas na companhia dos mais íntimos. Edward também parecia satisfeito e me deu um breve beijo nos lábios, fazendo o meu corpo esquentar. Senti uma vontade de chorar mais uma vez ao ouvir a voz de Christina cantando. Eu estava mesmo vivendo num sonho.
— Eu te amo. – disse ele.
— E eu mais ainda.
Era incrível que apesar da distância ainda podíamos ouvir os gritos das pessoas lá fora. Senti um carinho enorme por eles. Eu soubera que muitos habitantes de Seraf tinham vindo em caravanas para assistir a cerimônia. Me senti tão grata pelo carinho que eles tinha por nós. Me lembrei de quando finalmente pude levar Edward de volta para perto daquelas pessoas e cumprir a minha promessa com eles.
Primeiro visitamos a cidade de Seraf em si para fiscalizarmos a obras da reconstrução que havia começado pra valer. Eu soube que haviam sido contratados vários engenheiros e arquitetos locais e de vários lugares do mundo para realizar um projeto visionário de uma reconstrução total do que foi perdido. As pessoas nos olhavam a distancia e tinham uma expressão de completa admiração. Corei e olhei para baixo. Eu ainda não estava acostumada com toda essa atenção que agora eu recebia.
Em seguida, formos para Northfolk para conversar com os desabrigados e claro que eles nos receberam com uma animação e um carinho incomum. Edward e eu havíamos levado mais algumas cestas básicas e alguns objetos que poderiam ser uteis para eles. Distribuímos juntos e isso chamou, obviamente, atenção da imprensa. Tentamos não no importar e continuamos o nosso trabalho.
As pessoas dali já estavam mais acostumadas comigo e até puxavam conversa, mas com Edward era diferente. Parecia que ele estava num pedestal. As pessoas não sabiam reagir muito bem ao lado dele. Tentei quebrar o clima o levando para conversar com alguns deles e isso pareceu muito bom por que aos poucos, tanto Edward quanto os desabrigados, iam se soltando mais. Eu sabia que aquela interação era importante para Edward por que ele deveria conhecer melhor o seu povo, assim como, se acostumar mais com os seus deveres como futuro representante dessas mesmas pessoas.
Saímos tarde de lá e isso culminou a nós dois um almoço atrasado num dos restaurantes de Northfolk. É claro que isso chamou muita atenção. As pessoas se encolhiam para nos verem e ficavam tirando fotos em seus celulares. O dono do estabelecimento nem sabia como nos tratar e nem o que fazer. Falava rápido e se embolava nas próprias palavras. Edward apenas pediu gentilmente o cardápio e assim ele o fez. De repente me senti meio desconfortável diante daquela situação. Era difícil ter todo mundo te observando o tempo inteiro e as pessoas quererem te tratar duma maneira que eu achava desnecessária, como se não fossemos pessoas.
Quase não conversamos por que estávamos meio tímidos diante da situação. Comemos tranquilamente e depois seguimos viagem para Belgravia novamente. No carro, Edward desatou a falar amenidades comigo. Aí eu me lembrei da cena que tinha presenciado no escritório de Carlisle. O comportamento de Emmett não havia saído da minha cabeça. Além da cena ser estranha o suficiente, eu nunca tinha presenciado um comportamento tão explosivo e maluco em Emmett antes.
— Edward...
— Hum?
— Qual o real problema de Emmett? –perguntei meio receosa.
Edward me olhou surpreso com a minha pergunta aleatória num meio de uma conversa que não tinha nada a ver com o irmão dele.
— Não entendi.
Cocei o pescoço, me perguntando como eu tocaria esse assunto com ele. Eu sabia que o problema de Emmett era outro tabu dentro da família, mas eu não poderia deixar passar essa. Eu estava curiosa o suficiente para me arriscar num assunto desses.
— Outro dia, eu, totalmente sem querer, presenciei uma discussão dele com o seu pai e o comportamento de Emmett estava... Diferente. Ele não parecia aquele cara descontraído, mas sim agressivo e meio descontrolado.
Edward suspirou e virou o rosto para a janela do carro. Na mesma hora eu me arrependi de ter tocado no assunto. Afinal, não tinha nada a ver comigo.
— Lamento que tenha presenciado isso.
— Eu não queria... Fiquei preocupada com ele.
— Eu sei. Eu também fico. – Ele esperou um pouco e depois afirmou o que no fundo eu já sabia: — Emmett tem problemas com álcool.
— Mas ele não tinha melhorado?
— Aparentemente não. – a voz de Edward tinha uma pitada de raiva e não sabia se era comigo ou com a situação em si. – Ele tinha conseguido um certo controle quando ele entrou no exército. Lá ele ganhou um equilíbrio e passou a ter regras rígidas em torno dele, afinal não podemos ter um soldado bêbado lutando numa guerra, não é?
— Ele lutou em uma guerra? – perguntei completamente surpresa.
— Emmett lutou junto com o exército britânico no Iraque há três anos atrás.
— Ual!
— Ele amava fazer parte do exército! Ele se encontrou de verdade lá. Pôde demonstrar a sua bravura, força e o seu lado competitivo. Foi bastante importante para ele.
— E por que ele deixou o exército?
Ele pensou um pouco e respondeu:
— Acho que os horrores da guerra deve ter o abalado, mas o ócio atual está fazendo mais mal a ele por que voltou a ter recaídas.
— E acha que é só álcool?
— Não sei... Ele fumava maconha quando era adolescente, mas não sei se ainda fuma. Eu procuro estar um pouco longe por que eu gosto muito do meu irmão para vê-lo como você o viu.
— E não tem alguma forma de poder ajudá-lo?
— Ele ficou internado uns meses numa clínica quando ele abdicou. Ele saiu dizendo que estava bom e foi para o exercito, mas parece que é só ele ficar sem fazer nada que ele volta a beber.
Será mesmo apenas o ócio? Pensei comigo mesma. Será que não era o contato com as regras que ele não tolerava e com o relacionamento complicado com a família que impulsionava ele a beber cada vez mais? Acho que o clima era que estava muito tóxico por lá.
— Vocês não podem desistir dele...
— Nós tentamos absolutamente tudo com Emmett e nada funcionou. Agora com o meu tratamento, eu penso que uma pessoa só pode ser ajudada se realmente ela quiser isso.
Fiquei em silêncio, mas com uma dor no coração por Emmett. Ele parecia um cara legal e que não merecia o que estava passando. Depois pensei em Rosalie. Será que as acusações dela contra ele não o prejudicavam ainda mais? O que ela estava fazendo para ajudá-lo? Por que eu jamais deixaria Edward na sarjeta se fosse o caso.
Revirei os olhos querendo esquecer o assunto e Edward também parecia não querer mais falar sobre isso. Chegamos ao campus em silêncio e permanecemos assim até descermos do carro. Puxei Edward pela cintura e o beijei. Ele estava bastante pensativo e não correspondia o beijo da maneira que fazia sempre. Tomara que ele não tenha se ofendido com alguma coisa que eu disse.
— Te vejo mais tarde? – perguntei.
— Claro!
Ele beijou a minha testa e saiu em direção ao prédio onde estava localizado o quarto dele. Segui em frente no estacionamento tentando procurar a minha camionete que eu havia emprestado a Jake para trazer as coisas dele. Estávamos no início de Agosto e o semestre iria começar só dali a um mês, mas ele queria se organizar melhor e eu achava isso justíssimo.
Jake tinha conseguido ser aprovado na seleção de bolsistas e estava animado para poder começar o curso de agronomia. Eu até me sentia culpada por não tê-lo ajudado o suficiente. O problema de Edward desviara toda a minha atenção e os meus planos iniciais de ensiná-lo até o dia da prova. Mas estava feliz por ter sido tudo mérito dele mesmo.
Segui até o fim do estacionamento e o vi aos beijos com Leah. Os dois estavam tão colados que pareciam que iriam se fundir. Sorri e resolvi ir até eles e irritar um pouco Jake. Eu sabia que ele odiava que alguém atrapalhasse o momento dele com sua nova namorada.
— Hum hum.
Jake me olhou de esguelha e continuou beijando Leah com uma mão estendida tentando me afastar.
— Jake!
— Cai fora Bella!
Leah sorriu e veio falar comigo. Ela parecia uma mulher maravilhosa, apesar de que no início eu a achasse um pouco antipática e séria demais. Porém, após algumas saídas nossas por aí percebi que não era bem isso.
— Olá Bella!
— Oi Leah. Desculpe atrapalhar, mas esse daí tem uma mudança para ajeitar.
— Eu sei. Eu vi para ajudar.
— Ótimo!
Jake bufou e virou-se para a picape para retirar as suas coisas de dentro. Eu e Leah continuamos apenas conversando.
— Ei! Que bela ajuda eu ganho de vocês. – falou Jake irritado.
Leah e eu seguimos até a minha picape e começamos a ajudá-lo. Os dois tinham começado um relacionamento a cerca de algumas semanas atrás e já pareciam super grudados. Confesso que no começo eu fiquei um pouco receosa por as coisas estarem indo rápido demais e até meio enciumada por ter que dividir o meu melhor amigo com alguém que ele amasse mais. Eu sei! Estou sendo completamente boba!
Ela parecia completamente no controle da relação e isso me dava um pouco de medo também, principalmente pelo fato de poder ser apenas uma aventura para Leah e Jake se apaixonar demais e não entender isso. Mas eu prometi a mim mesmo que não interferiria, só se fosse necessário.
Seguimos para dentro do prédio que e adentramos os andares superiores. Jake tinha conseguido dividir o quarto com um garoto bem mais velho e veterano, foi ele que gentilmente nos recebeu e abriu espaço para que acomodássemos as coisas do meu amigo.
O quarto era exatamente como o meu e de Ângela, porém parecia bem menor com tantas coisas que havia nele. Ri com essa observação. Depois diziam que eram as mulheres que se entupiam de coisas!
— Quer dizer que você não lembra do meu pai? – me perguntou Leah quando fazíamos uma pausa para o lanche.
— Talvez eu tenha mesmo o conhecido, mas não estou conseguindo me lembrar do nome dele.
— Ele era bem conhecido lá em Seraf. – falou Jake. – Eu é que me sinto um derrotado por não ter conhecido Leah antes.
Leah acariciou os cabelos dele e ele beijou a mão dela.
— Não poderia. Eu sai ainda garota para estudar em Estocolmo. Morei lá todo esse tempo com uma tia minha.
— Incrível como eu não consigo te associar a ninguém lá de Seraf.
Ele pegou o celular e me mostrou uma foto onde ela estava com toda a família e aí eu me lembrei do senhor com cabelos grisalhos que estava ao lado dela na foto. Era Harry Clearwater, um dos amigos de pescaria do meu pai. De repente todas as minhas memórias da infância vieram a minha cabeça.
— Eu o reconheci agora. Ele era muito amigo do meu pai. Lamento que ele tenha falecido.
— Eu também lamento. – falou ela abaixando a cabeça. – Ele era um cara especial!
Jake foi até ela e a abraçou por trás enquanto beijava os seus cabelos negros. Agora eu entendia a cumplicidade que existia entre eles. Os dois eram parceiros de perdas e tragédias. Ambos tinham perdido alguém especial de forma bastante triste e se apoiavam na dor e na alegria. Fiquei feliz por Jake ter alguém que o compreendesse verdadeiramente e pudesse ficar ao lado dele.
— Como está o restante da sua família? – perguntei.
— Minha mãe e meu irmão, Seth, estão bem. Graças a Deus! Eu consegui um lugar para eles lá em Northfolk para ficarem enquanto a nossa cidade não é reconstruída.
— Que bom! Fico feliz! É triste a situação das pessoas que ficaram desabrigadas.
— Não sabe o quanto. Minha mãe mesmo está criando uma garotinha de três anos que era filha de dois amigos meus de infância que acabaram morrendo na tragédia.
— Nossa! Tadinha!
— Pois é. Ela sente falta deles todo dia!
— Eu queria poder fazer mais por essas pessoas...
— Você já está fazendo demonstrando o seu apoio.
Assenti entristecida. Realmente nada pagaria o que eles passaram. A vida era mesmo muito injusta! Olhei para Jake e Leah e vi que eles já estavam se beijando novamente. Revirei os olhos e me levantei com a desculpa que ia pegar uma tesoura para cortar as caixas lacradas. Mas acho que eles nem perceberam de tão concentrados que estavam.
Cheguei ao meu quarto com a intenção mesmo de procurar a tesoura e dar um tempo para eles. Sai procurando por todos os lugares onde eu poderia ter deixado, mas eu não encontrava. Talvez Ângela a tivesse pego. Fui então para as prateleiras onde ela guardava uma caixa de materiais e a peguei. Só que nesse processo algo me chamou atenção. Um pequeno aparelho preto que me parecia uma escuta escondida entre os objetos da prateleira. Meu coração deu um salto e minha mente não queria acreditar no que eu estava vendo. Derrubei o aparelho das minhas mãos por que elas tremiam tanto que não conseguia segurar nada. Será que eu estava sendo vigiada?
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