Dinastia 1: O Sonho Real
15 O Significado da Vida
Notas iniciais
O céu estava cinza. Nuvens carregadas se espalhavam por todos os lugares, deixando o clima ainda mais pesado. Era como se Deus lá em cima também lamentasse pelo que tinha acontecido, ou pelo menos, eu imaginava que fosse. Pensar na tragédia em Seraf, a primeira que eu presenciava na minha vida, me deixava com muitos questionamentos. Por que Deus fizera isso com aquelas pessoas? Será que Ele queria fazer com que nós refletíssemos sobre os nossos atos? Por que eu fizera isso durante essa semana inteira. Pensei em como a vida era volátil e frágil. Um dia tínhamos tudo e no outro nada. Como se cada segundo devesse ser aproveitado antes de tudo chegar ao fim. E estar no cemitério dava essa visão de que a nossa vida tinha que ter um significado. Tínhamos que fazer algo que realmente bom para que quando chegássemos aqui, as coisas tivessem sentindo.
Depois de quase uma semana da tragédia, o pai de Jacob foi encontrado. Foi uma luta imensa da equipe de bombeiros e de resgate para encontrar os desaparecidos em meio à lama e os escombros que ficaram para trás. Todos os dias ficamos ligados na televisão para saber todas as notícias. Edward também acompanhou de perto todo o resgate e nos informava de cada passo. Foi duro segurar Jake para que ele não fosse a Seraf e se arriscasse por lá. Eu entendia a sua dor, mas eu queria protegê-lo também.
O padre terminou as orações e o corpo de Billy começou a ser enterrado. Jacob e as gêmeas começaram a jogar as primeiras areias que cobririam o caixão. Era tudo muito emocionante! Eu nem queria pensar em estar na situação deles. Resolvemos enterrar Billy no jazigo de nossa família no cemitério de Belgravia, mas com a garantia de Jacob que seria apenas provisório, pois quando tudo se acertasse, Billy seria enterrado em Seraf, no lugar que nasceu, morreu e tanto amou. Isso não poderíamos discutir.
No fim do enterro, seguimos para fora do cemitério. Acompanhei Jake e o abracei. Ele estava sendo tão forte! Tinha orgulho dele.
— Estava pensando Bella... Eu não quero ir com as minhas irmãs para o Hawai ou para Austrália. Eu quero ficar aqui em Belgravia por enquanto e depois em Seraf. Eu quero dar um sentido para a minha vida. Quero ajudar aquelas pessoas e poder reconstruir o sítio com mais recursos que tinha antes.
Dei um soquinho no ombro dele e sorri.
— Eu acho que você tem toda razão. Agora que as coisas se acalmaram um pouco, você deve pensar mesmo em como reconstruir a sua vida.
— Eu pensei em tudo aquilo que você me disse antes sobre a faculdade... E eu resolvi tentar agronomia para poder aprender muitas coisas sobre a terra, acumular tudo que for de novo de conhecimentos e técnicas para que eu possa aplicar no novo sítio.
— E com o auxílio do governo para a reconstrução de Seraf, você pode levantar tudo novamente.
— Não, eu irei guardar esse dinheiro e juntar mais. Vou ver um trabalho para mim e tentar tirar essa dor do meu peito através de uma ocupação. Quando tiver uma boa grana aí eu recomeço tudo de novo por lá.
— Eu acho uma ótima ideia! Eu soube que a seleção para as bolsas de estudo da universidade começam em julho. Vou te dar umas aulas e aí eu te ajudo a passar.
— Você é maravilhosa Bella.
— Eu sei. O que você faria sem uma amiga como eu?
Ele riu e eu beijei a sua testa. Depois desvelei do seu abraço com muito custo e comecei a andar em direção ao meu carro pensando em tudo que ainda tinha que fazer hoje.
— Aonde você vai? – perguntou.
— Sinto muito eu não poder ficar com vocês, mas eu tenho uma prova daqui a pouco e não posso perder.
Ele assentiu meio entristecido.
— Ei quando ver o Edward diga a ele que eu agradeço de coração pelo que ele e a família dele tem feito pela gente. Eu julguei-os mal. Edward é um cara legal!
— Eu sei. Eu o agradecerei.
Abracei-o mais uma vez e segui até o carro. No caminho fiquei pensando nas palavras de Jake. Era tão bom vê-lo com tanta força de vontade para vencer e reconstruir a vida, mas muitos dos que sofreram na tragédia provavelmente não tinham condições nem de começar. Era bastante triste. Eu nunca tinha pensado antes no significado de minha vida. Tantas vezes a gente acorda um dia após o outro e vive a vida sem pensar no propósito disso tudo. Ver aquelas pessoas sofrendo em Seraf me deu essa reflexão que a gente tem que encontrar um verdadeiro sentido para a nossa vida. Eu queria ser diferente e parar de pensar o que as pessoas fariam ou que estavam pensando de mim. Eu queria seguir um extinto que estava dentro de mim e fazer algo que realmente valesse a pena.
Foi com esse pensamento que Ângela e eu começamos uma campanha para a arrecadação de alimentos no campus. Eu estava tão feliz por termos recebido tantas doações! Após a prova fui me encontrar com ela para formarmos as cestas básicas e separar algumas roupas para levar Northfolk, onde estavam abrigados as vítimas da tragédia.
— Bella! – Ângela me chamou de longe.
Fui até ela e me espantei ao ver Jéssica e Mike também à vista no mesmo recinto. Eu não tinha esquecido o que ele tinha feito comigo, queria vê-lo pagar por tudo que eu desconfiava que ele andava fazendo contra mim, mas infelizmente eu não tinha provas para acusá-lo. Eu queria saber também o quanto Jéssica estava envolvida nisso. Pois, alguém está ativamente metido nisso, por que muitas fotos minhas aqui no campus continuavam sendo divulgadas nos tabloides junto com tantas outras que tiravam de mim a cada lugar que eu fosse. Resolvi ignorá-los e seguir até Ângela.
— Quanta coisa Ângela! Acha que já podemos levar para Northfolk?
— Eu acredito que sim. Quase não há mais espaço por aqui também.
— Então vamos começar a separar logo e formar as cestas.
Começamos a separar os alimentos quando Jéssica veio toda animada para perto de nós. Tentei ignorá-la o máximo que pude, mas ela se fazia notar o tempo inteiro.
— Meninas, eu resolvi virar boa samaritana como vocês.
Não respondi e continuei a separar as coisas. Ela me olhou de cima a baixo e fez um ríspido comentário:
— Pensei que agora fazendo parte da realeza Bella, você não andasse com meros mortais como nós.
Respirei fundo e olhei para ela com uma cara pouco interessada.
— Engano seu Jéssica. Eu não faço parte da realeza. Sou uma pessoa como qualquer outra.
— Sabe que eu acho que você está completamente certa Bella. Tem mesmo que se envolver com a caridade para alavancar um pouco o seu nome, sabe para ter um pouco de fama para alcançar a do príncipe, quer dizer, acho isso até um pouco impossível.
Minhas mãos se fecharam em punho. Eu estava louca para socá-la agora, mas sabia que tinha que manter a calma por que era exatamente o oposto que ela queria que eu fizesse. Mike só estava ali na espreita para tirar uma foto nossa. Eu não podia confiar neles e nem em ninguém.
— Chega Jéssica! – disse Ângela percebendo o meu desconforto. – o motivo para estarmos aqui é outro.
— Eu não estou dizendo nada! Só vim aqui anunciar que estou organizando a festa beneficente desse ano. Quero a presença de vocês, ah claro se você achar conveniente Bella já que você nunca gostou de ficar conosco.
— Pelo contrário Jéssica será um prazer estar lá. Pode contar com a minha presença e a de Edward também. Só nos mande o convite com antecedência.
Ela saiu com um olhar venenoso e Ângela me olhava com um olhar surpreso.
— Jéssica quer me atingir de todo o jeito. O motivo eu não sei, mas eu não vou deixar ela me derrubar nem que eu tenha quer ir para um maldito baile.
— Jéssica tem inveja de você com Edward é só isso.
Fiz uma cara exasperada e segui com algumas cestas para a minha picape. Eu realmente não queria que Jéssica e Mike acabassem com o meu dia e nem diminuísse o trabalho que eu estava fazendo. Eu já estava no limite de tensão durante essa semana e não queria que o nível aumentasse. Apenas queria paz.
Contamos com a ajuda de alguns outros colegas nossos de classe para ajudar e distribuir todas aquelas cestas. Era tão bom poder ver que as pessoas estavam mesmo interessadas em ajudar, isso mostrava que o mundo não estava assim tão perdido, ainda tinha muita gente boa por aí. Seguimos para Northfolk e no caminho comecei a ver que estarmos sendo seguidos. Só podiam ser os malditos paparazzis. No fundo eu meio que já estava me acostumando com a presença deles já que eu continuava sendo o alvo perfeito deles. Tentei não me importar com isso.
Quando chegamos nos abrigos improvisados tentamos armar um plano para distribuir as cestas, mas para a minha total surpresa havia um milhão de fotógrafos no local apostos para registrar qualquer coisa que eu fizesse e ainda estavam chegando mais. Alguém deve ter dito a eles onde eu estava, só podia ter sido isso. Eles não estavam ali para tirar fotos dos desabrigados. A tensão subiu dentro de mim, mas eu prometi a mim mesma que não ligaria e tentaria continuar o que eu tinha planejado fazer.
Desci do carro e ajudei a levar as cestas para dentro dos abrigos. Eles vieram até mim, tirando fotos tão perto do meu rosto que me cegavam. Parei no meio do caminho sentindo um turbilhão de emoções dentro de mim. Ignore-os! Disse a mim mesma. Continuei andando sem me importar com essa perseguição idiota.
— Para tirar fotos cara! Não vêm que isso é errado? – disse Julian, um colega meu que estava nos ajudando.
— Nós estamos fazendo o nosso trabalho. – gritou um deles.
Trabalho? Que tipo de trabalho era esse que invadia a vida dos outros sem se importar o que eles estavam sentindo? Todos esses flashs eram tão perturbador, desviava totalmente o foco do que tentávamos fazer ali.
— Ei Isabella! Esse trabalho é promovido pela família real?
— Onde está o príncipe Edward agora?
— O que você pensa sobre a tragédia em Seraf?
Eles faziam perguntas o tempo inteiro, mas eu não as respondia por que eu não queria ser a atração principal ali. Decidimos que eu iria ficar dentro dos abrigos distribuído as cestas que já estavam ali e os outros trariam o restante para dentro. Era uma forma de desviar os paparazzis de cima de mim. Vi todas aquelas pessoas olhando para mim e me senti um pouco incomodada. Obviamente elas também sabiam quem eu era.
— Oi. – falei para um dos responsáveis pela organização do abrigo. – Nós somos da Universidade de Belgravia e nós arrecadamos alguns alimentos e viemos distribuir essas cestas básicas para vocês.
— Ótimo será um prazer em recebê-los aqui. Por favor coloquem-nas naquelas mesas que eu vou trazer as famílias aqui para recebê-las.
— Maravilhoso!
Coloquei algumas cestas em cima de uma mesa enorme que havia ali perto e comecei a distribuí-las para as pessoas que o organizador via selecionando. Uma delas me olhava com grande curiosidade. Era uma senhora que aparentava ter mais de 60 anos. Ela me olhava com tanta intensidade que fiquei até envergonhada. Quando chegou a vez dela de pegar a cesta, ela não resistiu e perguntou:
— Você é a Isabella swan?
— Sou.
De repente, o rosto dela se iluminou e começaram a cair lágrimas de seus olhos. Fiquei aflita pensando que ela poderia estar passando mal e me aproximei para verificá-la.
— Está tudo bem senhora?
— Minha filha é tão bom poder te ver de perto! – Olhei para ela com estranheza. – Olha, eu quero que saiba que eu estou muito feliz por você está namorando o príncipe Edward. Vocês formam um lindo casal e eu torço muito por vocês!
— Muito obrigada... – disse meio sem jeito.
— Você pode me dar um abraço?
— Sim.
Abracei-a calorosamente ainda estranhando toda essa reação. Como eles podiam gostar tanto de mim e Edward se eles nem nos conheciam?
— Oi! – disse uma garota que parecia ter uns 15 anos. – Eu sou a sua maior fã! Eu também torço bastante por vocês dois! Eu comprava todas as revistas que falavam de vocês!
Assenti ainda espantada e percebi que todas aquelas pessoas pareciam ter o mesmo pensamento. Era tudo tão estranho e eu não sabia o que fazer diante disso. Era tudo tão surreal!
— Obrigada Isabella por nos ajudar. – disse outra mulher na fila.
Meu coração se iluminou com aquilo e naquela hora eu percebi que haviam muitas pessoas que me apoiavam e gostavam de mim e Edward mesmo se ter nenhum contato com a gente. Éramos uma espécie de personagens de um romance que estavam ali para o divertimento e a adoração de todos. Entendi que o meu relacionamento com Edward era muito mais do que nós dois, era também um produto, um folhetim romântico que todos gostavam de acompanhar. Porém, me impressionava a adoração que aquelas pessoas tinham pela família real. Era como se eles fossem algo sagrado ou coisa assim e agora eu estava fazendo parte disso também e devia rever como eu agiria daqui para frente.
Me aproximei mais deles e começamos a conversar um pouco sobre diversas coisas que eles quisessem me contar e aquilo me deixou contente por de alguma forma poder confortá-los. Olhei em volta e vi que os meus colegas já tinham trazido todas as cestas para dentro e voltei a distribuí-las com a ajuda deles. Estava tudo indo bem até que alguns fotógrafos conseguiram entrar e tirar fotos novamente.
— Isabella isso é alguma forma de promoção? – perguntou um deles estupidamente.
Me irritei profundamente com aquilo. Em nenhum momento eu tinha pensado em nenhum tipo de promoção. Eu não queria ser uma aproveitadora! Só queria poder ajudar aquelas pessoas. Meus olhos começaram a arder, mas eu não podia deixar que eles acabassem com aquela boa causa.
— Por favor não desviem a atenção do que realmente importa. – falei para eles. – Eu não sou o centro das atenções aqui e nem quero ser. Por favor ajudem essas pessoas. Elas precisam do apoio de todos.
Algumas pessoas aplaudiram e os paparazzis ficaram alvoroçados e tiravam uma foto atrás da outra. Acabei chamando também a atenção de uma rede de TV que fazia a cobertura dos acontecimentos em Northfolk e eles começaram a pedir entrevistas comigo. Todas aquelas vozes misturadas a todos aqueles flashs acionaram novamente um misto de emoções em mim. A ficha caiu e eu entendi que tudo que eu fizesse agora chamaria bastante atenção indesejada para mim. Me entristeci com o fato de eu estar sendo a celebridade e toda a intencionalidade do projeto das cestas básicas ir por água abaixo. Comecei a sentir os meus olhos marejarem e resolvi sair dali. Eu não queria ser mais a atração principal.
Sai em passos rápidos com as lágrimas saindo do meu rosto o tempo inteiro. Me sentia encurralada, invadida e desrespeitada. Entrei na sala mais próxima que encontrei e fiquei lá chorando copiosamente. Eu me sentia sozinha enfrentando esses brutamontes sem nenhuma defesa. Ângela veio até mim e me abraçou.
— Ângela me ajuda a sair daqui.
Ela me ajudou a levantar e saímos juntas pelos fundos. Entrei no carro e sairmos em disparada para Belgravia novamente. Assim que chagamos ao campus, corri até a única pessoa que poderia me entender nesse momento. Edward estava em seu quarto assistindo um programa que trazia como manchete: “Isabella é vista traindo príncipe Edward com um moreno nesse manhã!” e em seguida mostravam diversas imagens distorcidas minhas deixando o cemitério com Jacob.
— Você não pode me dizer que está acreditando nessa mentira!
— Bella...
Pus as mãos na cabeça chorando copiosamente.
— Eu não aguento mais!
Edward foi até mim e me abraçou. Estava claro para mim que eu nunca mais teria a minha vida de volta e não tinha mais tanta certeza se queria continuar assim.
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