Dinastia 1: O Sonho Real

3 A curiosidade tem raízes profundas


Os sinos da Abadia soavam com fervor. Definitivamente havíamos chegado. O carro parou em frente à Igreja e eu olhei mais uma vez para a multidão ali presente. Parecia que havia triplicado o número de pessoas com relação ao número que eu tinha visto durante o trajeto. Meu estômago tremeu novamente. Eu me sentia pronta, mas ao mesmo tempo tinha medo. Como algo assim poderia acontecer?

Papai olhou novamente para mim como se tivesse me perguntando se eu também estava aterrorizada. A porta do carro foi aberta pelo guarda que estava ali e eu sabia que agora era à hora, não poderia mais haver escapatória. Meu pai desceu primeiro e me aguardou. Tentei descer com o máximo de cautela que eu conseguia, lembrando da voz insistente da Alice para que eu não amassasse o vestido ao sair. O grito das pessoas ao me verem era estridente. Elas pareciam enlouquecidas. Fiquei as observando por um momento. Eu mal podia acreditar no amor que elas tinham por mim. Será que eu poderia ser digna de tudo isso? Acenei meio tímida para elas. Meu pai pegou a minha mão e me fez voltar à realidade. Respirei fundo e dei o braço a ele. Minha hora havia chegado definitivamente.

***

— Então? A faculdade está sendo tudo isso que você imaginou? – Papai perguntou certa vez durante o nosso tradicional almoço de domingo em um tempo que agora parecia distante demais.

— Claro que sim. Esperava que eu fosse desistir?

— Não, Bells você é grande demais para isso.

Meu pai nunca havia ido à faculdade, não que ele não quisesse ter ido, mas por que não teve chance mesmo. Ele era filho único do vovô e da vovó Swan. Eles o tiveram quando já estavam com uma certa idade e o consideravam um verdadeiro milagre de Deus. Ele permaneceu o filho único e ficou perto de seus pais. Quando adulto, papai entrou para o Departamento de Polícia de Belgonia. Ele queria ir para a faculdade, mas a saúde de seus pais começou a se deteriorar na época e ele sentiu que precisava ficar perto de casa. A vovó estava nos estágios iniciais da doença de Alzheimer e a mobilidade do vovô estava sendo reduzida pela artrite severa. Ele fez tudo que podia para ajudar a cuidar deles. E eu sei bem o quanto estava satisfeito com o seu posto na polícia, papai não era um homem ambicioso.

— Sabe Bella, eu estou muito orgulhoso de você. Sei que não costumo dizer muito isso e nem sou muito bom com essas baboseiras sentimentais, mas quero que saiba agora.

— Isso me alegra muito pai. – Toquei na mão dele com carinho. Era o máximo que eu conseguia. Eu também não era a pessoa mais sentimental do mundo.

— Então... – ele começou dizendo tentando ao máximo acabar com o clima. – Fez algum amigo?

— Fiz alguns... Mas você sabe como eu sou... Meio atrapalhada para fazer amizades.

— Você deve se esforçar Bella. Quero que você tenha boas companhias e não quero que se sinta sozinha.

— Eu vou pai.

Levantei e tirei os pratos da mesa. Se ele soubesse qual companhia eu estava andando ultimamente talvez ficasse impressionado demais. Edward estava bem mais próximo de mim agora, ou pelo menos o máximo que poderíamos estar. Apresentamos o nosso trabalho e foi um sucesso! Mais ao invés de nos separarmos como imaginei que aconteceria, acabamos prolongando a nossa estadia juntos. Ele sempre guardava o lugar perto dele para mim, me acompanhava as aulas e ao refeitório, embora não se sentasse comigo e com os outros, mas ele parecia bem mais amistoso do que qualquer um poderia imaginar.

Não voltamos a sair depois daquele dia no café, nem eu insistiria a dar um passo maior do que os meus pés. Eu ainda o achava fascinante e talvez ainda mais. Eu me sentia bem perto dele e meio estremecida também. Tinha vontade de conversar com ele por horas, de rir e de dividir vários momentos ao lado dele. Perguntava-me se isso era normal, eu nunca tinha sentido nada parecido por alguém antes.

Outra coisa que me deixava curiosa era a respeito da vida de Edward como um príncipe. Toda aquela conversa que a gente teve no café me deixou curiosa para saber mais sobre a monarquia, mas tudo parecia óbvio de mais para todos que moravam aqui. Eu parecia ser a única a não saber absolutamente nada da história deles.

— Pai.

—Hum?

— O que acha da família real?

Ele me olhou com uma cara de quem não entendia o porquê de eu estar perguntando algo tão aleatório num momento desses. Mas quando percebeu que eu estava falando sério resolveu me responder.

— Bom... Parecem boa gente. Pelo menos não são tão chatos e pomposos quanto o Rei anterior era. O Rei Carlisle é bem popular e responsável. Ele parece ser um bom homem.

— Me surpreende quando diz que eles são populares. Ouço alguns falando deles em tom de brincadeira às vezes.

— Isso não os torna menos populares. Sabe, essas pessoas às vezes me deixam irritado. Eles não sabem o que é melhor para o nosso país definitivamente. Temos sorte de ter um Rei tão brilhante e organizado. Há tantos países por aí que se dão mal com esses presidentes ladrões! Ele é um aditivo á comunidade e todos aqueles garotos são bem comportados e educados... O príncipe Emmett causou alguns problemas no passado, mas parece que agora anda mais calmo. Já o príncipe Edward parece um bom garoto e bem promissor. E eles ficam juntos do jeito que uma família deve ficar. As pessoas realmente não sabem o que querem! — Foi o discurso mais longo que eu já o vi fazendo. Não sabia que ele era tão monarquista.

Resolvi me fazer de desentendida. Não queria que ele se irritasse com qualquer coisa que eu dissesse.

— Eles pareceram bons o suficiente pra mim.

— O príncipe Edward estuda com você não é? Já teve a oportunidade de vê-lo?

Respirei fundo e pensei se eu deveria contar a ele da minha aproximação com Edward. Mas por que mesmo eu queria esconder? Será por que eu o queria manter como o meu segredo particular? Um universo em forma de homem que eu queria guardar só para mim?

— Sim. Já tive. – falei meio vaga.

Nós continuamos em silêncio até terminarmos de comer. Ele limpou a mesa enquanto eu comecei a lavar os pratos. Ele voltou para a TV, e depois que eu terminei de lavar os pratos á mão, nada de lavadora de pratos, nossa situação financeira não nos dera esse luxo.

Quando eu já pegava a minha bolsa para voltar para o campus, a campainha tocou estridente. Olhei para o papai perguntando se ele esperava alguém e pela cara dele não estava. Ele foi até a porta e vimos que eram Billy e Jake.

— Olá – papai começou. – Estamos na temporada de caça?

— Só se for à caça aos jogos. Estamos loucos para assistir a nova temporada do futebol. – respondeu Billy.

Papai os recebeu com um sorriso que não cabia no rosto. Esporte era a palavra mágica para despertar o bom humor nele. Jacob entrou meio tímido e veio até mim, parecia que não estava tão interessado nos jogos quanto os nossos pais.

— Hora se não é o meu mecânico favorito!

— Oh para! Você sabe que eu ando meio enferrujado.

Billy e o meu pai eram amigos desde de sempre, ou pelo menos era o que parecia, e graças essa grande amizade acabou aproximando Jake e eu, o meu único amigo de verdade em Belgonia. Eu o conheci quando papai me levou em uma visita a família Black em Seraf em um dos verões que eu vim passar aqui durante a minha infância. No início, os nossos pais queriam que eu me aproximasse das gêmeas Rachel e Rebecca, mas foi Jacob que despertou mais a minha atenção e carisma. Mesmo sendo dois anos mais jovem que eu, nós fazíamos tudo juntos e eu sentia uma ligação muito boa entre a gente, ele simplesmente conseguia me entender melhor do que ninguém. Crescemos juntos e compartilhamos muitos momentos bons e ruins. Alguns até chegaram a pensar que ficaríamos juntos, mas as coisas tomaram outro rumo. Não que ele não tenha tentado algumas investidas e flertes quando vi morar aqui há um ano atrás, mas não deixei que fosse a diante, Jacob era como um irmão para mim.

— Nossa parece que você está mais alto do que da última vez que eu o vi.

— Você é que diminui toda vez que eu te vejo.

Dei um tapinha nos ombros dele e notei um certo cansaço em sua aparência. Jacob levava uma vida de muitas responsabilidades para um garoto de 17 anos. Desde que sua mãe morrera anos atrás e com o casamento das gêmeas, ele assumira inteiramente os cuidados do pai, que era deficiente físico, isso fora as preocupações com a colheita na fazenda e seus estudos. Eu o admirava por ter tanta fibra, mas hoje ela parecia estar se esvaindo.

— Estou te achando um pouco cansado Jake. Está acontecendo alguma coisa?

— Ah não, só o de sempre.

— Sabe, eu estava pensando... Você vai fazer 18 esse ano e já está terminando o colegial e eu pensei que poderia criar uns contatos lá na universidade e ver se consigo marcar um teste para uma bolsa de estudo.

— Muito legal da sua parte Bella, mas eu ainda não decidi se vou para a universidade.

— O que? Não quer ir para a universidade? Jake, você sempre quis estudar engenharia mecânica.

— É mais isso foi há um milhão de anos atrás.

— Jacob, você não está me escondendo nada, não é? Você sabe que eu vou descobrir de alguma forma.

Ele me olhou com desdém, mas ele sabia que eu estava certa afinal de contas. Eu sempre descobria tudo e ele sempre descobria tudo o que estava acontecendo comigo. Simples assim.

— É melhor eu saber por você.

— As coisas lá na fazenda não estão muito bem... A colheita teve um prejuízo por conta do tempo e por conta disso as vendas caíram.

— Mas momentos ruins costumam fazer parte dos negócios, não é? – eu disse quero ser otimista.

— Dessa vez não é algo que possamos chamar de normal. Estou realmente preocupado Bella. A Fazenda é o único patrimônio que nós temos, não sei o que faríamos se a perdêssemos.

— Então você quer largar a chance de ir para a universidade para ficar mais perto dos assuntos da fazenda e conseqüentemente do seu pai.

— Você acha que eu poderia ficar longe com tudo isso acontecendo?

— Eu entendo...

— Meu pai acha que pode lidar com tudo, mas eu sei que mesmo que ele queira há muita coisa que ele não pode fazer sozinho.

Me aproximei dele e lhe dei um abraço. Eu realmente sentia muito por Jacob. Eu sabia mais do que ninguém o quanto ele amava carros e consertá-los. Era muito nobre o que ele estava fazendo, mas será que ele merecia tudo isso?

— Jake, você não pode pensar nisso como uma coisa eterna. É apenas uma crise passageira.

Ele me olhou como se quisesse acreditar nas minhas palavras, mas não tinha muita certeza de que isso poderia acontecer.

— Você é muito inteligente. Pense o quanto a universidade pode lhe proporcionar novos caminhos para você investir na fazenda.

— Como? – perguntou com descrédito.

— Já pensou em tentar agronomia? Soube que é um dos melhores cursos da Universidade de Belgonia e recebe muitos investimentos da coroa. Você poderia aprender tudo de mais novo para poder aplicar na fazenda.

— Pensando por esse lado até que não seria má idéia... Eu realmente acho que um dos nossos grandes problemas é falta de algo mais substancial, uma mudança no modo de tratar a colheita para que ela fique a nível de mercado, mas com o que temos em caixa não dá para fazer muito... A crise foi bem pesada.

— Você já pensou em fazer algum empréstimo?

— Claro que sim, mas como ainda não tenho a maioridade só o papai pode fazer isso, mas ele prefere morrer até que dever ao banco.

— Eu vou pensar em algo que possa te ajudar. Posso conversar com umas pessoas lá na universidade e ver como posso ajudar vocês.

— Bella, você é uma boa amiga, mas não sei o que você pode fazer para nos ajudar.

— Deixe de ser tão pessimista!

Bati de leve no ombro dele e tomamos um susto com o grande grito de gol que os nossos pais deram na sala e rimos como se fossemos duas crianças. Era bom poder estar com ele e me sentir tão leve como uma pluma é simplesmente reconfortante.

— Então, eu vim aqui para saber de você e não para descontar todos os meus problemas.

— Sabe que isso não é nenhum estorvo para mim.

— Você fala da faculdade como se lá fosse um paraíso na Terra.

— Não é o paraíso, mas certamente é um lugar incrível e eu estou amando o curso. Você também vai amar!

— Espero poder dizer isso um dia também...

— Você vai.

Acaricie as costas dele em sinal de conforto. Eu já mais ficaria bem se soube que ele está com dificuldades.

— Eu soube que é lá que o príncipe estuda. É verdade?

— Você é o segundo que me pergunta isso hoje. Até parece que isso é a única coisa que a universidade pode oferecer: um encontro grátis com o príncipe!

— Ei! Calma! É só curiosidade. Afinal o príncipe é a nossa única celebridade por aqui.

— Estou sabendo... Vocês só se interessam por isso.

— Você já se encontrou com ele?

— Você e o meu pai combinaram isso?

— Por que isso te estressa tanto? Já conheceu o príncipe e não gostou dele?

— Eu o encontrei poucas vezes...

Desviei o olhar enquanto ele tentava me analisar.

— Não te culpo se não gostar dele. Sou um súdito do pai dele e eu o acho um cara chato. Um almofadinha!

— Ele não é um almofadinha.

— Aha! – ele disse batendo as mãos e me dando um susto enorme. — Já o conheceu e bem por sinal.

— Por que tanto interesse?

— Por que você é minha amiga e eu tenho que saber como determinados homens te tratam para eu poder ir lá e te defender.

— Obrigada, mas eu não preciso disso. Sei me defender sozinha.

— Cuidado Bella, esses príncipes são aproveitadores. O irmão dele pegou metade da Europa antes de se casar e não duvido que ele ainda não esteja fazendo.

— Você parece uma velha fofoqueira!

Ele deu uma risada estridente e isso era bom, pelo menos o distraia um pouco dos problemas.

— Fala sério! Não me diga que você nunca se deparou com alguma notícia sobre eles?

— Já, claro, mas não presto muita atenção nisso. Tenho coisas mais importantes para me preocupar do que saber com quem o príncipe está dormindo.

— Ok, se esse assunto te incomoda não vamos mais falar disso.

— Não, pelo contrário, te fez rir e isso me deixa feliz.

— Bella às vezes eu desconfio que goste mesmo tanto assim de mim.

— Por que? Já não dei provas o suficiente disso?

Ele balançou a cabeça como se quisesse apagar um pensamento.

— Bobagem minha, desculpe.

— Jacob, não é por que o nosso relacionamento não foi para onde você queria que fosse, não diminui o amor que eu sinto por você. Você é como um irmão que eu nunca tive.

— Eu sei. Já tivemos essa discussão. Não sei por que eu falei isso.

— Por que você é bobo!

Ele riu de novo e dessa vez mais alto, chamando a atenção dos nossos pais na sala que desligavam a TV com o fim do jogo.

— Eu só quero que você seja feliz Bella. Só não se iluda com qualquer um com palavras bonitas e com jóias no cofre federal.

— Eu vou esquecer esse seu comentário, ok? Não tem nenhuma chance de eu me apaixonar pelo príncipe Edward, certo?

— Tudo bem. Mas não quero que esqueça isso.

— Você é que parece que está apaixonado por ele.

Levantei do banco do bar e fui até a sala recolher as latas de cerveja que estavam por ali.

— Não faça isso Bella. Você não é a minha criada, querida. – disse o meu pai.

— Eu sei, mas se eu não fizer isso antes de ir embora, essa casa vai ficar provavelmente um chiqueiro e eu não quero que você se transforme num porco.

Ele riu e me abraçou.

— Morei 18 anos sozinho Bella e eu sobrevivi.

— Eu sei pai. Mas eu gosto de cuidar de você.

Após jogar as latas no lixo, fui até o corredor e peguei a minha bolsa, já estava ficando tarde e eu não queria chegar ao dormitório a noite.

— Bom, eu vou ter que ir agora, não quero chegar tarde ao dormitório.

— Tchau minha filha.

— Tchau pai. Tchau para vocês dois também. Foi bom vê-los novamente.

Acenei para Billy e Jacob e fui até a porta.

— Acompanho você, Bella.

Papai e Billy se olharam. Eu sabia que eles conspiravam ao nosso favor, mas isso nunca iria acontecer.

— Bella não fique chateada comigo.

— Deixe de bobagem Jake! – falei batendo no ombro dele. – Eu não estou chateada.

— Não se esqueça do que conversamos.

— Não vou. Principalmente da parte que eu prometi te ajudar.

Ele deu um sorriso tímido e eu beijei a bochecha dele antes de sair. Liguei o carro e quase me assustei com o rugido alto da minha velha picape, não sei por que eu ainda me assustava, eu já a tinha desde que vim morar aqui e ela era minha companheira nas horas precisas.

No caminho de volta, fiquei remoendo o que Jake dissera. Por que todo mundo achava que eu poderia me interessar pelo príncipe? Certo que eu sentia uns tremores e um frio dos pés a barriga quando eu estava perto dele, mas me apaixonar? Era ridículo! Eu não seria boba o bastante de cair de amores por ele e de repente vê-lo se casar com uma princesa linda do estrangeiro. Edward era muito para mim e eu jamais poderia tê-lo. Tinha que aceitar isso e ponto final.