Depois de um farto jantar com minha avó e suas duas vizinhas, que por acaso também eram suas amigas de infância e igualmente ótimas piadistas, eu estava cheia e cansada. Em minha barriga havia torta de frango armazenada para o verão todo, se é que isso era possível. Eu tentava dormir, mas algo me incomodava. Peguei o celular que minha mãe havia deixado comigo, o que hoje em dia podemos chamar de o famoso “tijolinho”, naquela época era de última geração.

–Já são onze e meia.

Eu estava cansada, com certeza, mas então por que não conseguia dormir?

Levantei-me da cama e olhei pela janela, todas as casas tinham um design velho, rococó, todas enfileiradas em formação de meia lua envolta da pracinha. No meio da pracinha havia um relógio, no escuro se parecia com um poste de luz apagado, mas eu havia passado por ele antes de chegar à casa de minha avó. Era lindo, eu me perguntava se minha avó perceberia se eu saísse para velo de perto.

A casa estava silenciosa, eu imaginava que minha avó roncasse, mas ela dorme como um bebê. Desci as escadas e atravessei a sala, precisava destrancar a porta sem nenhum ruído, o que era um desafio para uma casa velha de madeira. Mas foi um sucesso. Eu cruzei a rua no escuro e no frio, calçando apenas minhas pantufas e apenas agasalhada com meu roupão. Quanto mais eu me aproximava do relógio, mais podia notar que ele estava funcionando e em hora exata. Checando com meu celular, os dois estavam iguais nos requisitos do horário. Já era quase meia noite. Faltavam apenas alguns movimentos do ponteiro.

Então finalmente as 00:00 horas da noite e eu contei cada sutil badalada, até a 11ª.

–Interessante, não?

Eu olhei para trás assustada e me deparei com minha avó observando com um sorriso o belo relógio.

–V-Vovó?!

–Você contou? – Ela me olhava como se eu não tivesse feito nada de mais andando pela rua no meio da noite só para ver um relógio.

–Sim...

–Somente onze badaladas... você sabe porquê a 12ª não bate?

–Não, vovó.

–Foi logo quando nos mudamos para nossa casa, depois do terremoto, A mesma vizinhança até hoje... todos sabem a história do relógio e, é claro, do seu inventor.

–Quem ele era?

–Quem ele era? Somente o melhor relojoeiro da cidade, na época. Fazia desde os mais simples aos mais perfeitos e elegantes relógios que os deputados carregavam em seus bolsos. Mas sua grande obra-prima foi o “Destino”, esse foi o nome que a cidade deu para o relógio... depois do que aconteceu.

–Vovó?

–Sim.

–Essa é mais uma das suas histórias?

–Não é só uma história, aconteceu de verdade!

–Certo, certo. Continue.

Nós nos sentamos na grama e foi lá mesmo, no escuro daquela praça que eu descobri algo que não devia.

–Depois da construção do relógio ele passou a dar vários passeios com sua esposa cujo trajeto acabava por dar na pracinha, sempre uma desculpa para dar uma olhada em sua obra. Mas um dia então, exatamente às 17:00 horas, eles dois estavam passeando quando o relógio começou a dar as badaladas, foi quando o relojoeiro percebeu algo estranho.

–O que?

–Eram 17:00 horas, mas o relógio deu apenas 4 badaladas. Perturbado com o fato de talvez ter cometido um erro na programação de sua obra-prima, ele olhou para a esposa e perguntou: “Você ouviu? O relógio deu apenas 4 badaladas?, está quebrado!”, mas a mulher o negou, dizendo ter escutado perfeitamente as 5 badaladas. Indignado, ele voltou acompanhado com sua esposa e seu 3 filhos mais velhos no mesmo horário por duas semanas, todos afirmavam escutar as 5 badaladas, menos ele.

–Estranho...

–Não é só isso, a indignação começou a perturbar o juízo do pobre homem, que cheio de ira com sua “falha” na construção do relógio, ameaçou destruí-lo. Mas no caminho de sua casa que ficava em outro bairro até nossa rua, ele sofreu um acidente de carro, morrendo exatamente as 17:00 horas.

–...

–Mas é claro que não acabou por ai, meu avô era um grande amigo do relojoeiro, ele o conhecia muito bem. Com saudades de seu velho amigo e com vontade de relembra-lo, sentou-se no banco da pracinha e ficou a observar o relógio, até as 17:00 horas.

–Quantas badaladas ele ouviu?

–5.

–Então somente o relojoeiro escutava 4?

–Sim, mas quando meu avô chegou do mercado uma manhã, recebeu o convite de meu pai para uma pequena partida de xadrez na praça. Eles adoravam jogar xadrez juntos e eu adorava assistir junto de minha irmã. Eram 9:00 horas quando a partida começou, eles esperaram a última badalada, mas quando ela chegou meu avô olhou de modo estranho para o relógio, então disse: “O relógio já quebrou de novo?”, mas nós três negamos, ele não estava nem adiantado e nem atrasado. “Eu não quis dizer isso, estava falando das badaladas.” ele nos respondeu.

–Como assim?

–Ele ouviu apenas 8 badaladas em vez de 9.

–Vovó, o que aconteceu com o seu avô?

–Morreu 10 anos depois, em uma sala de cirurgia por conta de cirrose, exatamente as 9:00 horas da manhã.

–...

–Mas é claro que ele não foi o único a ter coincidências com o relógio. Não é como se o relógio estivesse matando as pessoas, menina boba. Ele não faz nada além do seu trabalho.

–Que trabalho?

–Dizer as horas.