Dimensão
1 Capítulo 1
- O céu está tão lindo hoje.
- Lixo!
- O quê?
- Não são estrelas, é lixo, puro lixo espacial. Vedes como meu povo desenvolveu-se, não param de lançar coisas para além-atmosfera.
- Já não basta de esperar?
- A qualquer momento algum infortúnio sucederá.
- Estarei a aguardar primeiras ordens.
Por ser deusa da sabedoria, Atena já possuía uma solução. Fez um grande buraco no vácuo do espaço, tendo proporções imensuráveis.
A nova presença não recebeu denominação, pois Atena prevera que seu povo cederia à tentação da curiosidade. O fizeram e batizaram-no de buraco negro.
Um buraco no espaço era só uma figura que escondia o que verdadeiramente atuava na sucção do lixo espacial: uma fenda dimensional.
- Oportunidade é rara como um deus que peca.
- Incubo, para que pressa, não podemos continuar a atormentar vagarosamente cada alma inescrupulosa dessa terra?
- Já o fizemos e estou conturbado em continuar a fazer, temos de usufruir e regozijar pelo que achamos, Hécate.
- Aaah... Querido, você não é de dizer esse tipo de coisa.
- Tenho um contato!
Atena visava somente o beneficio com sua obra e logo trataria de fechá-lo no término da limpeza, mas não esperava que alguém pensasse o contrário.
Passaram-se exatamente sete dias para a limpeza ser completa.
- Oh! Veja, minha mãe, é um bichinho.
- Não me convêm dizer que isso parece o que você diz ser.
- Então digo que parece uma lagarta.
- Mas nunca vi uma de cor preta.
- Posso recolhê-la?
-Claro, somente não a ingira.
- Como queiras, senhora.
Numa tal cidade que também ficava sob o olhar de Atena. Esse era o lugar da informação e evolução. Tecnologias e máquinas, tudo empregado sabiamente no viver de cada indivíduo supostamente contente daquela cidade.
Tudo se ambienta numa era supra técnico-científica. Não se vive mais no maquinário, já se é um deles! Saber já é um direito. Todos sabem antes de você ou vice-versa. Atualize-se ou morra, lema básico, mas rígido.
Humanos? Não, Homos batráquios crotabus. Tal espécie possue olhos grandes, sem o conjunto que define a íris e a pupila. Sua pele variava dos mais inumeráveis tons de verde. Mãos e pés possuem membranas salientes que se interligavam entre os dedos.
Uns seres notáveis; só em um aspecto. Ao passar dos milênios, eles evoluíram, proclamaram sua inteligência e dominaram terras. Os corpos foram dando espaço ao cérebro. Fibras musculares deram lugar a neurônios. “Não podemos mais prosseguir... Não podemos sucumbir!”
O corpo não mais se igualava à mente. Uma solução...prioridade. O metal logo cobriu o corpo desses seres. Exoesqueletos feitos de titânio abriram um novo caminho para o desenvolvimento acelerado.
Número serial: 1,619,472. Número familiar: 676. Uma pequena criatura de um metro e quartoze. Tem oito anos e já cursa o ensino superior.
Vivia ela muito bem, alegre e aproveitando tudo que seus pais lhe ofereciam.
- Hi! Hi! Hi! Hi!... Ria como para si mesma, abraçando carinhosamente aquele pote de vidro.
Aqueles grandes olhos de tom amarelado olhavam carinhosamente a pequena lagarta negra, recolhida no jardim alguns dias atrás.
Não por ser uma criança, mas por ser ela, 676, cativava muitos ou a todos. Seus sedosos fios de cabelo rosa, recaindo sobre seu pequeno corpo, criam curvas naturais no jovem corpo escondido pela proteção.
Vivia, vivia bem.
- Bom dia! Minha cara colega.
- Bom dia e seja bem vinda à minha morada. Não resistiu e abraçou a amiga. – Dócil-
A doce menina recebe com toda a atenção quem visita sua casa. Vivendo uma boa vida. Ah!
Dominós começam a cair como os amores de 676. Dia qualquer como outro, mas sempre diferente para a garota, acontece um fato natural. Sua melhor amiga falece.
- O que é a vida perante a morte? Pergunta a inconsolada criança para a mãe.
- A vida... É pequena, quando se encontra encoberta pelos lençóis negros. Não preocupe-se, ela não morreu; não para nós.
- Mãe... Por que não choro?
- Os sentimentos existem, não existe razão para chorar, se você sabe...
- Sentimentos. Conheço a aplicação de um Haleto Orgânico para a indústria, mas desconheço a aplicação dos sentimentos. Pensava ela, apertando suas duas pequenas mãos contra o peito.
Mãe e filha se retiram do evento, onde ninguém chorava, mas sabiam do sentimento, da dor.
- Nah... Nua, bocejava, saindo lentamente da cama, indo vestir-se com o exoesqueleto. Um novo dia. Espero algo bom.
Alimentou a pequena lagarta que cuidava e foi para a escola. Ao retornar planejava estudar, mas já teve seu tempo ocupado por outra reunião em razão da morte de um conhecido, sua avó; que havia visitado ela três dias depois da morte de sua amiga.
- Sei que isso é difícil, tente agüentar, querida. Compreendo sua dor.
676, com olhos baixos, via o chão pálido como sua avó, já morta.
O desempenho escolar da pequena caiu 1%, algo que preocupou sua mãe; até o pai, que se encontrava trabalhando numa outra cidade. 676 vagava pelas suas atividades diárias como a própria tristeza que a cercava.
- Por que não cai nenhuma lágrima de mim? Perguntava eternamente durante os tempos em que vagava na própria mente.
Ninguém sabia explicar. A tecnologia, a medicina, a informação: todos os aspectos em seu mais belo auge e ninguém é capaz de usá-las para dar qualquer satisfação. Mortes atrás de mortes. Amigos, vizinhos, conhecidos e parentes, 676 foi sendo despedaçada, parte por parte. Foram 12 mortos no total.
A construção que não mais tinha fundamento desabou.
- O... Quê? Mãe? A senhora está bem? Falava, aproximando-se da fêmea que se encontrava estirada no quintal da casa.
A doce mão –recoberta por metal- da criança tocou o peito da mãe para tentar acordá-la notou que os soquetes para os olhos, no exoesqueleto, encontravam-se vazios. O desespero tomou repentinamente a criança, que pouco conhecia sobre.
- Mãe? Onde se encontra a senhora? Por que você... Dizia colocando os dedos nas aberturas.
Ela encaixou seus dedos no vão e sem querer removeu a parte frontal do capacete do exoesqueleto. Nada viu, realmente.
- Ela deve ter trocado de roupa, só pode ser... Já estava entrando em delírio.
Correu para dentro de casa e começou a gritar pelo número serial da mãe. Nada. Correu pelas redondezas da morada e nada encontrou. Conversou, até com desconhecidos, mas nada. A pobre criança perdeu os sentidos, não literalmente, mas o suficiente para que ela se jogasse num canto da sala de estar e ficasse imóvel, reflexiva, durante duas horas. Como se esperasse ajuda. Seu pai estava em viajem de negócios.
- Não... Ela somente dirigiu-se às proximidades e retornará... Com roupa mais bonita, com cara mais bonita, com mãe mais bonita, He... He... Finalmente dizia, amargamente e com certo tom de loucura.
- Errado!
Aquela grossa entonação de voz fez pensar que seu pai, de alguma forma, havia retornado. Mas quando levantou a cabeça foi vendo aquelas pernas negras – de fato, pretas – braços em formatos de asas saindo daquele tórax raquiticamente escuro; cabelos roxos quebrados e sujos recaindo sobre o corpo todo e aquela cabeça... Não, não era uma cabeça, era algo que mais parecia uma grande oval presa a um fino pescoço; um pirulito. E nada mais se via nessa cabeça além de um olho, somente um e o suficiente para assustar.
Os olhos da menina se arregalaram ao ponto de saírem das órbitas ao ver aquela figura demoníaca.
- Errado, errado de novo. É difícil perceber a verdade com os olhos errados.
A garota fica sem palavras. Trêmula, e o suor, imperceptível.
- De onde eu vim? Quem eu sou? Para que estou aqui? Digo isso com só um gesto...
Um braço-asa do demônio contraiu-se e lançou-se contra a menina encostada na parede. O titânio, a pele, o tórax. O que agüentou? Penetrando e atravessando a delicada estrutura daquele ser. Sangue corria como numa fonte, a menina encarou a morte. Ao penetrar, o braço-asa acaba removendo, bruscamente, o capacete de 676, fazendo a menina se apreciar, da pior forma, num espelho que se encontrava em sua frente. Via-se lágrimas correndo de seu pequeno e ensangüentado rosto.
- Vermelho? ...minha lágrima é vermelha? Não sinto mais nada... Ai! Isso é ruim... Mãe, enxugue minhas lagrimas, por favor. É vermelho... Pensava, derradeiramente, para si. Mais ninguém podia ouvir ela.
- Obrigado, pequena alma. Você cuidou bem de mim...
Estava no chão, quebrado, o pote onde estava a lagarta... E alma sendo arrancada do porco da garotinha 676.
Perspicaz era. Disfarçou-se de forma faceira, contraindo-se e encaixando-se num exoesqueleto de outro indivíduo que matou. De porta em porta, foi dilacerando as almas dos Homos batráquios crotabus que encontrava, de forma silenciosa; comendo aquilo que tinha direito; ora, era um demônio.
Passou-se uma hora, e a força policial foi acionada e morta. O demônio, após a ameaça concebida por suas vítimas, largou o disfarce e começou a arrastar almas de forma maciça. Ninguém conseguia escapar, ninguém o conseguia parar. Almas foram arrebatadas para dentro daquele tórax vazio.
Foram cerca de 12 minutos para que ele conseguisse capturar cerca de 387 almas. Nível estimado. Toda ação foi no nível de um único bairro. Sendo um único bairro, também sendo um único ser; orou e recebeu. Dentre as vítimas do demônio, uma era crente, acreditava no poder de Atena. Seu socorro foi imediato.
- Parem, parem, parem!!!
- Mas, o que foi minha senhora?
- ...
- Deusa todo-poderosa, algo lhe aflige?
Atena deixou seu trono, deixou de ouvir os louvores, deixou de responder as orações, deixou de ser deusa por um instante. Desceu a terra. O mundo se abalou.
A presença da deusa era tamanha que fez com que muitos se curvassem perante ela, exceto o demônio. O olho contra os dois olhos de Atena; mas foram estes que se curvaram para ele.
- Energúmeno, Mentecapto, Estúpido, Devasso, Infeliz, Larápio – disse Atena ao levantar a cabeça e se recompor. O que tu fazes aqui!?
Chutando o chão, Atena faz uma onda de terra sair do chão, soterrando completamente o demônio. De imediato a deusa alcança as alturas e cospe uma enorme bola de fogo que acaba indo de encontro com o sepulcro de terra da criatura. O ambiente fica cercado por foco, como se estivesse acorrentado, selado pelo mesmo.
- Agora o ponto final – disse Atena antes de sentir aquela mão sobre seu ombro esquerdo.
- Tu não chorarás criança dos cabelos azuis?
De imediato ela golpeia o demônio por baixo de seu braço, livrando-se da mão maldita. Quatro pilares então saem do chão, prendendo a criatura, ao mesmo tempo em que um tornado recaia sobre o mesmo. Atena faz a mistura perfeita entre água e eletricidade, resumindo tudo num raio que se integra ao tornado; formando uma espécie de tornado elétrico.
Antes de poder apreciar essa cena rara, Atena, se imediato, põe-se ao chão para realizar o ritual de selamento.
- Selar, é excluir, não prevenir. Tem certeza que não vai pedir por ajuda, menina dos cabelos azuis?
Atena balbuciou murmúrios de tanta fúria que estava. Afastou-se consideravelmente e não parou para analisar. Atacou mais uma vez e falou mais uma vez. Então víamos o quadro pintado. “A deusa e o demônio”. Atena estava desesperada, quanto mais se afastava, mais a criatura de aproximava; aquele bairro estava cada vez mais sendo destruído, mas ninguém estava mais vivo para reclamar.
Tudo então se resumiu ao parar do monstro.
- Vejo que o tempo se perde. Já fiz o que tinha que fazer. Você seria importante, mas somente seria de grande valia. Já fiz o que tinha que fazer.
- Ah! Via-se Atena indo de contra o demônio novamente.
Com um balançar de seu braço-asa, um buraco se abriu. Atena parou, conclui, então pensou.
- Uma fenda dimensional? Era essa a forma como você estava aparecendo sempre de imediato em minha retaguarda!?
- Não somente isso, mais foi com isso que terminei de coletar as outras 103 almas. Minhas quedas não passaram de distração; a fumaça encobria a minha fuga e a fuga encobria minha presença e a presença encobria minha volta.
- Não, não, de novo não!
- Sim, menina dos cabelos azuis. Como ocorreu há anos atrás e da mesma forma como você ouviu claramente o meu nome...
- Maldito... Dizia, correndo contra...
- LE PADRON. Disse a criatura antes de evaporar-se na fenda que abriu.
“[...] a fuga encobria minha presença e a presença encobria minha volta.”
Fale com o autor