Dilema de Segurança
1 Capítulo 1
— Você está errado.
Um suspiro cansado deixou os lábios de Eduard enquanto ele fechava os olhos por um momento; o estudante tinha certeza de que Naoji e Camus também estavam se preparando mentalmente para mais um debate.
— Eu não estou surpreso em notar que você não elaborou sua resposta e, por conseqüência, não explicou por que motivo você acredita que seu raciocínio inferior tem qualquer consistência.
Orpherus colocou suas duas mãos enluvadas sobre a mesa de madeira, o objeto sendo a exata distância da sua figura loira para a de Ludwig, que continuava sentado em uma das suas cadeiras favoritas da biblioteca com os braços cruzados na frente do corpo e um olhar superior no rosto.
— As nações não tendem para a guerra como se fossem monstros sedentos por poder; elas tendem à cooperação mútua e o abandono progressivo da força.
O mais leve traço de um sorriso arrogante curvou os lábios do futuro duque para cima, o mesmo finalmente se levantando da sua cadeira e copiando a posição de Orpherus. Três pares de olhos observavam a dupla que parecia ter esquecido da sua presença ou do resto do mundo, na verdade.
— Você fala de contos de fadas, Orpherus. Estados sempre são atraídos para conflitos, possivelmente até mesmo para a guerra, mesmo que ninguém deseje o confronto. Poder econômico e militar são as razões por detrás de cada ação de cada país.
A expressão de ultraje no rosto do loiro precedeu o modo muito previsível como seu corpo se inclinou para a frente, quase como se o herdeiro dos Gorz estivesse tentando reduzir seu oponente a cinzas apenas com a intensidade do seu olhar.
— Então você está me dizendo que como o conflito é inevitável, o único caminho a seguir é o de combater violência com violência? Isso é simplesmente cair na armadilha de Machiavelli. – o loiro fez um pequeno barulho de desdém, balançando a sua cabeça – É a mesma coisa que dizer que nós não temos a habilidade de aprender e mudar as coisas. É exatamente por isso que eu digo que nós temos que nos desarmar e dar o exemplo.
Uma pequena mosca entrou por uma das janelas da biblioteca, vinda do lado de fora. Ela imediatamente se tornou o alvo da atenção de Ed, enquanto Camus tentava limpar a barra dos seus shorts de uma sujeira que ele não havia notado antes, provavelmente de dentro da estufa. O olhar de Naoji estava completamente fora de foco, como se ele estivesse de volta ao Japão e não mais em Küchen.
— Exemplo? Exemplo de um fracasso, certamente. – o candidato ao Strahl de cabelos longos replicou, torcendo seus lábios em um sorriso cheio de arrogância – É apenas sábio agir da mesma forma que os outros países agem. A guerra está chegando quer você goste ou não, Orpherus, e eu prefiro ter Küchen bem armado e preparado para quando ela chegar de fato.
— Isso é o dilema de segurança e você sabe disso. Quanto mais você tentar aumentar a nossa força, mais vulnerável você deixará o nosso país no final!
— E então entramos em guerra. É exatamente isso que eu venho tentando lhe dizer pelos últimos trinta minutos: somente um louco removeria nossas tropas da fronteira e deixaria que o mais leve sinal de rendição alcançasse os outros reinos. A guerra está próxima e seria suicídio acreditar que as outras nações não agiriam imediatamente após a retirada da nossa segurança dos limites de Küchen. – o cabelo roxo escuro e longo adornava o belo rosto de Ludwig, seus olhos brilhando com um fogo que somente um bom debate conseguia acender.
A voz do diretor veio dos alto-falantes recentemente instalados pela Academia, convocando os três candidatos ao Strahl que não estavam debatendo à sala da diretoria. O trio se levantou imediatamente, saindo da biblioteca depois de desculpas sussurradas e mal conseguindo esconder o alívio da expressão dos seus rostos.
Apesar da ausência dos outros estudantes, a biblioteca parecia menor do que nunca; era praticamente um efeito colateral das discussões inflamadas, egos e sede por vitória dos dois jovens que haviam ficado para trás que substituíam a presença humana.
Orpherus contornou a mesa com pouco passos, parando de modo a ficar de lado do que seria mais ou menos a metade do objeto. Cruzando os braços na frente do seu uniforme turquesa, ele encarou seu oponente:
— O modo como você retrata o ser humano me desagrada profundamente. É quase como se pudéssemos passar de caçador a presa quando não existe tal coisa.
— Quando não existe tal coisa? – o futuro duque inquiriu, seu tom de voz levemente divertido mas ainda sim com um quê de perigoso. A figura mais alta de Ludwig também se moveu, parando em frente ao outro estudante; o sobrinho do rei parecia consideravelmente mais intimidador quando estava perto daquele jeito – Tem certeza disso, Orpherus?
Alguns passos de Ludwig e movimentos inconscientes do loiro terminaram com Orpherus sendo pressionado desconfortavelmente contra a mesa, sentindo o objeto dolorosamente contra as suas costas conforme o adolescente de cabelos escuros se aproximava ainda mais e o prendia em uma armadilha com seus braços. O garoto de olhos azuis não conseguia pensar em nada enquanto sentia as carícias suaves que o cabelo do outro estudante fazia no seu rosto, os lábios de Ludwig a milímetros da sua orelha esquerda.
— Você tem certeza, Orpherus? – ele murmurou, o seu tom de voz baixo, aveludado e com o mais leve traço de malícia – Porque eu certamente me sinto como o caçador no momento… E você se parece muito com a minha presa.
Se existia uma coisa que Orpherus realmente detestava era ter suas próprias palavras jogadas contra ele, algo que Ludwig tendia a fazer com alguma freqüência. Recusando-se a continuar preso daquele jeito, o loiro imediatamente usou as suas mãos para agarrar o cabelo lustroso do seu rival com força, beijando Ludwig com ardor.
O contato foi intenso e de tirar o fôlego; o mundo foi esquecido por ambos enquanto suas línguas se entrelaçavam e dançavam, seus corpos se movendo por instinto e vontade própria. Quando a dupla se separou para respirar, o futuro Duque estava meio sentado sobre a mesa, sua perna esquerda balançando no ar enquanto Orpherus apoiava seu corpo com uma das mãos, os seus outros dedos enluvados ainda enterrados nas longas mechas de cabelo sedoso.
Um sorriso orgulhoso enfeitou o rosto do loiro, gesto que não foi copiado pelo outro estudante.
— Talvez eu esteja começando a entender a sua divisão dos seres humanos em caça e caçador. – o estudante de olhos azuis falou em um tom de voz rouco; seu olhar estava preso na figura do jovem de cabelos escuros com tamanha intensidade que ele não perdeu o início de uma curva maliciosa porém arrogante que logo se fez presente nos lábios do outro.
— Eu tenho a impressão, Orpherus, de que talvez você não seja um caso completamente perdido.
FIM
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