Digressão
2 Jabu
Notas iniciais
Jabu tentava dormir num colchão no navio. Não era muito confortável, mas ao menos não tinha que dormir no chão duro. Se sentia um pouco enjoado durante aquela viagem e provavelmente ainda demoraria para chegar até a Argélia. Estava há uns dias naquele navio mas não sabia o quão longe já estava do Japão, nem como seria o caminho. Iria descer do navio em algum outro lugar e embarcar em outro navio? Ou iria descer em algum lugar e entrar num ônibus? Bem, a Fundação Graad deveria saber o quê estava fazendo mas era ruim não saber de nada.
Mais cedo, tinha visto alguns aviões passando pelo céu. Como seria viajar de avião? Não dava para ir até a Argélia de avião também? Voar… Parecia uma experiência tão excitante… Mas muito distante da realidade de um garoto pobre e órfão feito ele. Voar era pra quem tinha dinheiro.
Se teve uma coisa que Jabu percebeu nos dias que passou na Mansão Kido foi que existiam coisas que nunca seriam para ele. Aquele lugar era insano. Um sonho. Perfeito. Mas não era para ele. Nunca seria. Um moleque feito ele não se encaixava naquela realidade. Não que ele não quisesse passar o resto da vida num lugar como aquele, mas simplesmente aquele mundo era muito diferente do mundo dele, ele nunca se encaixaria na realidade que Saori Kido vivia. Ela tinha uma aparência tão delicada e ele era um garoto muito bruto. Ela tinha modos e ele mal conseguia comer sem parecer um troglodita ou derrubar alguma coisa no chão sem querer. Os outros garotos diziam que ela era arrogante e, bem, realmente, muitas vezes ela não era muito gentil com eles. Mas Jabu não pensava que ela tinha a obrigação de ser gentil. Afinal, eles estavam na casa dela de favor, não é? Eles que estavam lá, feito uns folgados, comendo aquela comida de gente rica, dormindo naqueles futons de gente rica, tudo de graça. Ao contrário do que pensavam os outros, ele se incomodava sim com Saori Kido tratá-los como se fossem parte da coleção de brinquedos dela. Mas, Jabu sentia que aquilo era parte da troca: eles ficam ali e ela faz o quê quiser. Aliás, ela não é tão ruim assim, a questão é que ela foi acostumada a mandar. Mas, se fizer o quê ela pede, não vai ter problemas. Às vezes, ela exagerava nas brincadeiras, mas eram momentos mais raros. Aquele outro garoto, o Seiya, que era muito burro: enfrentava a srta. Kido, daí ela ficava irritava e aí sim ela pegava pesado.
Ele de certa forma se sentia em dívida com os Kido. Mas tinha algo além disso. Saori Kido… Saori Kido tinha algo que nenhuma outra pessoa tinha. Era como se para ele fosse completamente aceitável que ela valesse mais do que qualquer um deles. Não sabia bem explicar mas havia algo naquela garota que fazia ele querer ficar perto dela. Não era uma coisa maliciosa, era apenas uma vontade de estar perto dela e de defendê-la. Algo fazia-o sentir que Saori Kido era uma existência numa posição hierárquica acima dele e, então, ficava irritado que os outros meninos não pareciam compreender isso. Mas, quando pensava sobre, não fazia o menor sentido. Por quê? Por quê ele aceitava de bom grado certas coisas tão absurdas que ela fazia com eles? Por quê ele sempre tinha a necessidade de defendê-la? Por quê o irritava tanto quando alguém se referia a ela com a mínima falta de respeito? E também, por quê só conseguia se referir à ela maneira formal? “Senhorita Kido”, “Senhorita Saori”, “Senhorita”, “Saori Kido”... Parecia haver algo errado com simplesmente “Saori”. É como se ela fosse algo inatinível, como se nem suas palavras tivessem permissão para "tocá-la". Afinal, o quê era esse sentimento?
Ouviu, umas vezes, alguns meninos dizerem que ele estava apaixonado por ela. Seria isso realmente uma paixão? Amor? Ele sentia uma vontade muito grande de proteger Saori Kido, de atender às vontades dela, de seguí-la, mas parecia que isso bastava. Ele não precisava e nem esperava que ela retribuísse. Ele queria se tornar um cavaleiro e voltar para o Japão para ser capaz de protegê-la, igual o Tatsumi. Sim, era isso: ele queria fazer parte da vida dela da mesma forma que o Tatsumi. Não queria fazer parte daquele mundo dos ricos, ele não era bom o bastante para isso, mas estava determinado a ser alguém mais forte. Isso ele podia fazer. Não importa o quê acontecesse, ele voltaria para o Japão com aquela armadura e mostraria para a senhorita Saori ser capaz de defendê-la. Nesse meio-tempo, ele certamente sentiria saudades dela. Jabu virou pro lado no colchão e tentou, mais uma vez, dormir. Quem sabe nos sonhos ele não pudesse se aproximar da senhorita Kido?
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