Digital Prophecy: Apelo Profundo
1 Apelo Profundo
“Pronto…” eu ouço uma voz extremamente grave, seguida rapidamente de um suspiro profundo de exaustão, um tipo de suspiro que eu entendo e conheço muito bem.
“Você acha que ele vai ficar bem?” vem outra voz, talvez de um garoto aos 15 anos de idade, sua voz parece-me preocupada, talvez com algo importante.
“Vamos esperar um pouco, dar a ele um momento de descanso.” Vem uma terceira voz, claramente uma voz de um homem, mas bem fina, talvez uma criança que ainda não passara de sua puberdade... Não, é um pouco mais grave que isso...
“Quem precisa de descanso aqui somos nós.” Vem mais uma, quarta voz, ela me parece outra de algum garoto de 15 ou talvez 16 anos, um pouco mais grave que a anterior, uma voz que eu não desconhecia, talvez não por seu tom, mas sim pela força que ela levava, e sua aura que sempre carregava o ódio e a fúria – meus ódio e fúria.
Eu tento me mover, mas meu corpo está fraco, eu consigo ouvir, mas não consigo falar, ou sentir, e com os olhos fechados, ver é meio impossível. Mesmo tirando tudo isso de lado, eu me sinto exausto, ou talvez não tanto, é como se eu tivesse acordado de um sono que teria durado anos, e ainda não tivesse aberto meus olhos.
Os momentos se passam enquanto eu faço forças para tentar me levantar, esforços inúteis, especialmente quando uma grande dor de cabeça me cruza, eu não posso responder a ela, mas se eu tinha qualquer sentido antes dela, eles se foram. Meu mundo teria se resumido aquela única dor de cabeça que mais e mais crescia, e mais e mais e mais. Ao ponto de ficar facilmente insuportável.
Eventualmente, a dor de cabeça da qual eu não podia fazer nada sobre começou a diminuir, mais e mais e mais, até que eu comecei a ouvir vozes novamente.
“Não acredito.” Veio a primeira, algum tipo de voz mecânica, algo facilmente audível para alguém que conhecia binários e programas de computador tanto quanto eu, ela era quase robótica, mas ainda tinha seu pequeno senso de humanidade, talvez uma voz que fora passada pelo ó-tão-clássico Auto-Tune, mas não em doses grandes, não.
“Nunca mais poderei andar sobre solo sagrado novamente.” Vem outra voz, dessa vez claramente distorcida, não era qualquer tipo de distorção que eu conhecia, não, mesmo assim, era uma voz que quase me parecia angelical por um momento.
“Admitam e aceitem – perdemos.” Vem uma terceira voz, claramente humana, seu tom facilmente lembrava minha própria voz, mesmo assim, ela ainda era distorcida, algum tipo de distorção... “Negra”. Por assim dizer... Diferentemente das quatro primeiras vozes, eu não reconhecia essas três.
“Hey... Acha que ele está bem? Ele não se meche.” Vem a segunda voz novamente, claramente mostrando preocupação em seu tom.
“Não acha melhor checarmos sinais vitais?” vem a terceira voz, a extremamente fina, ouvindo mais claramente, ela realmente me lembra de uma voz de criança, apenas um pouco mais grave, um pouco mais desenvolvida... Era estranho, quase assustador.
Meus sensos estavam voltando, e por algum motivo, uma intuição interna me dizia que alguém teria acabado de engolir seco logo a minha frente, os momentos lentamente se passam enquanto eu sinto alguma coisa se aproximar um pouco, uma respiração quente facilmente chegando a minha face, algo me dizia que esse alguém não era humano.
Então eu senti, algo pontudo, afiado, diria até que uma navalha, frio, até como aço, tocar ao lado esquerdo de meu pescoço, minha primeira reação foi um medo de morte, o sentido da preservação da vida atacando com toda sua ferocidade de dentro do corpo humano, instintos primitivos que eu ó tanto conhecia.
Porém, novamente veio a respiração em minha face, quente, assim como a primeira vez, mas ela rapidamente se acelerava, como se a imagem se formasse em minha cabeça, eu consegui ver a criatura, seja lá o que fosse, abrindo sua boca e começando a ofegar a minha frente, mas não uma respiração exausta de como se você estivesse extremamente cansado depois de muito exercício, era algo mais leve, mais sutil... Mais assustado, por assim dizer.
O toque em minha veia jugular foi a segunda coisa que me fez perder o instinto de preservação, seja lá o que fosse, tremia, muito, se eu não soubesse melhor, eu diria que fosse algum tipo de vibrador, não, no fundo da minha mente, eu reconhecia aquele toque gelado. Algo que me dizia que não iria me julgar, não iria me atacar, não iria me machucar, e por cima de tudo, não iria me matar, não, certamente não.
Minhas forças depois daquele único momento que parecia uma eternidade rapidamente voltaram, eu consegui sentir minhas pernas, braços, cabeça, tudo claramente, minha mente que ainda se forçava a lembrar o que tinha me feito estar naquela posição que eu imaginava ser tão comprometedora, mas não, era tudo um branco, ou melhor, um negro, eu via a minha mente claramente e pelo o que ela era, muitas mentes eram sempre caracterizadas por sua cor interna, uma pessoa má teria uma cor normalmente mais escura, uma pessoa mais bondosa teria algo mais sutil, mais claro.
Minha mente era completamente negra, e eu sabia disso, não, não importava o quanto eu tentava esquecer, não importava os meios, os métodos, ou o quanto eu corresse do meu passado sombrio, não, mesmo tendo o removido virtualmente permanentemente de minha mente, ele ainda estava lá, e sempre me acharia no final.
Eu não sei o que me deu, mas meu corpo começou a agir em impulso, eu me levantei, sem abrir meus olhos, com os braços abertos e rapidamente os fechei, rápida mas sutil e gentilmente. Como um abraço, um abraço intimo entre dois bons, bons amigos, minha mente trabalhava para tentar decifrar meu ato, mas minha própria boca se moveu mais rápido que minha mente, treinada para calcular até as equações mais complicadas em questões de segundos.
“Eu senti sua falta, Meggido.” Eu disse em voz baixa, sem mesmo pensar, o tempo pareceu parado por um momento, novamente eu senti aquela respiração quente, dessa vez em meu pescoço, ela acelerava e ficava mais pesada, mais e mais, eu consegui sentir um bater de coração forte e acelerado vindo de seja lá que meu estivesse abraçando, um momento de pânico talvez? Sim, claramente um momento de pânico, um momento dos quais eu nunca me esqueço, mas dessa vez era diferente, dessa vez... Era mais forte, mais profundo. Por um momento eu consegui sentir a criatura, sua pele não me parecia pele, era extremamente diferente, mas era-me familiar... Escamas, sim, escamas. Escamas das quais eu nunca esqueceria nem que quisesse, escamas nem tão macias, mas ao mesmo tempo, nem tão ásperas, e mesmo por baixo delas, eu sentia algo extremamente diferente das mesmas, algo que me lembrava muito mais pele, mas nenhum pelo, macio... Macio... Confortável... Memórias começaram a me invadir... Memórias de noites a claro em expedições, em tormentos, memórias dos quais ficamos juntos por ó tanto tempo, memórias de amizade e risos e sorrisos, até mesmo uma única memória do dia em que eu queria o fazer uma massagem para aliviar o stress, no qual eu não ligava para o que poderia parecer aos olhos alheios... Mas também memórias tristes, um grito, um crime, um assassinato, vários, vários. Fugas... Por quanto tempo... Por quanto tempo eu não teria sentido esse abraço...?
Em um segundo eu senti meu abraço quebrado, e novamente senti algo forte e pontiagudo tocando meus ombros antes que meu parceiro se distanciasse, lentamente eu abri meus olhos, tendo que fechá-los novamente graças a pouca luz que entrava naquele lugar, enquanto meus olhos lentamente se acostumavam as condições, eu usei ambos meus braços e mãos para me equilibrar, sentar no que eu acreditava ser uma superfície plana.
Eu me senti zonzo por outro momento, as vozes de antes voltando por um segundo, mas agora distantes, distantes, “Não podemos deixar isso ficar assim” disse uma, das quais eu não reconhecia, “Eu não serei humilhado tão facilmente!” disse outra.
“Vocês já causaram problemas demais, e, verdade seja dita, acredito que eu seja culpado do mesmo, agora calem a boca, as conexões ainda estão se formando, ele ainda pode nos ouvir.” Disse uma terceira voz, e novamente, o silêncio voltou assim, sem mais nem menos.
Alguns momentos depois, eu abri meus olhos totalmente, finalmente tendo me ajustado a pouquíssima luz do lugar, eu me vi no que apenas poderia ser descrito como um universo, um nada, um lugar com chão, mas provavelmente nenhuma parede ou teto, dos quais ninguém poderia normalmente sair, não sem minha ajuda, o universo se mostrava claramente ao meu redor, ao fundo eu via um buraco negro, distante o suficiente para não ser um problema, estrelas, para todas as partes, asteróides, planetas, planetas, eu vi Júpiter, Saturno, Vênus, até a Terra. Ó Terra, meu querido planeta azul... Por que foi que eu te deixei assim? No que foi que eu errei para te causar tantos problemas?
Sim, sim, as memórias lentamente se voltam, eu novamente fui um covarde, acredito que eu já tenha perdido conta de quantas vezes isso aconteceu, ó quantas vezes... “Você está bem?” veio a primeira voz novamente, quebrando minha linha de raciocínio, eu olho para ele, me apoiando em ambos meus braços, cabelo espetado e vermelho, roupas azuis escuras com algum tipo de cinza claro no centro, separado do azul por duas pequenas faixas amarelas, em seu pescoço um colar, na ponta, um MP3, em volta de seus ouvidos e cabelo, Headphones, seus shorts brancos com dois lugares onde dois botões um dia fizeram duas casas, agora vazios... Sem sombra de duvidas, aquele era o primeiro dos “Irmãos Subconscientes”, Tsubaki Wo Shinjitsu, nome cuja única possível tradução seja “Procurando pela realidade”.
“S-Sim... Sim... Eu só preciso de um momento ou dois pra me recuperar.” Eu respondi sem pensar, aquilo era talvez uma das maiores mentiras eu disse em minha grande vida, eu precisaria de um bom tempo para me recuperar completamente...
“Você nos preocupou bastante.” Disse a voz fina, olhei para de onde ela veio, e acabei achando o garoto, Tsubaki segurando um claro Gomamon em seus braços, sua pele e pelos claramente brancos, mas que não refletiam muita luz daquele lugar nem-tão-escuro, suas orelhas, assim como várias outras, pequenas partes de seu corpo já pequeno estavam cobertos de alguma tinta azul-claro, o que qualquer um notaria primeiro caso não o conhecesse, porém, era talvez uma de suas características mais marcantes, seu pequeno “cabelo” em forma de mohawk, pintado de Rosa claro, novamente, sem sombra de duvidas aquele era Benibara Kakutasu, muito mais conhecido como “Benny”, como muitos o chamavam, seu nome apenas poderia ser coerentemente traduzido como “Luxúria Amante”, ele era o segundo dos “Irmãos Subconscientes”.
Eu não o respondi, sua pequena expressão inocente e triste era a ultima expressão que eu queria ver naquele momento, ao invés disso, eu virei o meu olhar um pouco a direita, vindo outro garoto de uns 15 anos, cabelo completamente preto e liso, cheio, talvez um pouco demais, sua camiseta vermelha-sangue talvez fosse sua característica mais marcante já que suas calças pretas não eram algo de chamar atenção, “Da próxima vez que quiser colocar o mundo e a própria existência em risco de destruição, consulte-nos primeiro, pra eu poder socar você na cara, tudo bem?” o garoto diz, suspirando um pouco e fechando os olhos com os braços cruzados, a atitude arrogante era talvez a característica mais marcante de sua personalidade, aquele era o terceiro e ultimo dos “Irmãos Subconscientes”, Sayuri Furijia, um nome que apenas podia ser traduzido como “Fúria Imatura.”
Novamente, outro que eu não queria responder, responder ao Sayuri nessas condições era praticamente pedir por um soco bem dado, eu facilmente poderia derrotá-lo em uma luta com meus poderes ao Maximo, mas no meu estado atual, estou com problemas até para sentar, quem me diga lutar.
Abaixando um pouco a minha cabeça, eu consigo ver mais uma criatura a minha frente, ele está caído, como se tivesse tropeçado em algo enquanto andava de costas e caísse com seus braços de amortecedores, ele olhava pra mim com certo desespero nos olhos, certo pânico, mas talvez o que qualquer um estaria mais surpreso ao ver era seu rosto sutilmente corado, proporcionalmente falando, ele era grande, e claramente não era um humano, um Digimon, com certeza um Digimon, escamas negras que impediam de refletir qualquer luz daquele lugar já escuro, seus olhos não eram extremamente grandes, não para seu tamanho, mas sua respiração acelerada era talvez o que mais me surpreendia, eu não me importava, aquele era meu parceiro de longa data, Blackguilmon, parceiro o qual eu confiaria minha própria vida a, e a qual eu teria certeza que... Não, não em tempos recentes, não mais, não mais ele daria sua vida por mim, talvez antes eu tivesse certeza, mas não agora, não.
“O que foi?” Eu perguntei a ele, embora eu já tivesse uma pequena certeza de qual seria a resposta, ele não respondeu, seus olhos eram imóveis, se não fosse sua respiração acelerada, alguém até acreditaria que ele estava morto, o que certamente não era o caso, sua mente estava concentrada em alguma coisa, trabalhando talvez para interpretar o abraço que eu teria acabo de lhe dar.
Alguns momentos se passaram, até que ele finalmente pareceu se tocar que eu tinha o perguntado algo, ele pareceu pular um pouco de surpresa, e, com sua voz grave mas ao mesmo tempo demonstrando vergonha, ele balançou a cabeça enquanto olhava para baixo, “N-nada... Nada...” ele disse, sua vergonha tão clara que qualquer um poderia perceber, mesmo assim, sua face levemente corada era algo que talvez eu fosse o único a perceber.
As memórias dos motivos de tal reunião com ele ser tão estranha começaram a voltar, dentro de mim, algo me pedia, não, me ordenava a continuar pressionando ele, pouco a pouco, mas minha pena pelo pequeno me impediu de fazer isso, alguns dizem que eu sou bonzinho de mais pro meu próprio bem, e talvez seja verdade, talvez.
Talvez felizmente para ele, outra voz interrompe minha concentração, algo distante, quase inaudível agora, “Acha que... Ele sabe?” veio a voz de dentro de minha cabeça novamente, impossível de se identificar de qual das três falava.
“Ele vai saber se você não calar a boca.” Respondeu a outra, e novamente minha mente retornou ao silêncio, mas não o meu mundo material, não.
“Poderia nos explicar de como tudo isso aconteceu?” diz Tsubaki, lentamente ajustando Benny em seus braços, ele me olhava com uma expressão que implorava por uma resposta, eu poderia facilmente ignorá-lo, mas quando meus olhos viram o do pequeno Benny, meu coração simplesmente não agüentou, eu não podia dar a eles todos os detalhes, não, era até demais para mim mesmo, e mesmo que não fosse, algo dentro de mim me dizia para não dizer isso para eles, não, para ele, principalmente Tsubaki.
Abaixando minha cabeça, eu lentamente comecei a pensar em como eu poderia explicar tudo de um jeito rápido e sem dizer os detalhes mais importantes – os quais eu estava tentando guardar – depois de momentos que pareceram horas de pensamento, eu consegui explicar para ele de uma forma que todos estariam satisfeitos... Ou talvez, eu espere por isso.
“Não posso dar todos os detalhes, mas... Eu criei essa dimensão na qual vocês estão para ser a nova True Dimension, como vocês sabem, a True Dimension é o centro de tudo, se ela for destruída, a Realidade, os Sonhos, a Fantasia, assim como os planos da Existência e Não-Existência vão junto.” Eu respondi, eu esperava que não perguntassem o porquê, mas claro, tal pergunta erra inevitável.
“Por quê?” disse o pequeno Benny, novamente, olhos que eu não podia recusar, não, o coitado já passou tanto em sua vida... Eu não poderia fazê-lo sofrer mais um pouco, eu não tenho coração pra isso.
“A fusão de todas as dimensões... Causou uma tremenda sobrecarga. Se fossem apenas duas Dimensões, tudo bem, a Boundary Of Delusion poderia facilmente arrumar o problema, mas estamos falando de literalmente sete mundos colidindo e se fundindo no exato mesmo momento, isso é impossível para qualquer coisa se manter.” Eu respondi, tomando um segundo ou dois para pegar fôlego, eu estava cansado, exausto, não conseguia nem falar direito. “Se eu não fizesse isso, a Boundary Of Delusion estaria em sobrecarga e seria forçada a apagar a True Dimension, o que traria o fim da Existência e Não-Existência.” Eu continuei.
“Deixe de tentar soar superior.” Diz Blackguilmon, finalmente retornando sua respiração ao normal, e perdendo sua expressão corada, agora sério e firmemente olhando para mim como se quisesse me abater em uma competição de olhares, ele se levanta, e fica em sua posição em suas duas pernas traseiras, algo normal para ele, com suas costas curvadas, um humano normal ficaria corcunda muito rápido, mas Guilmons são feitos para ficar nessa posição a vida toda.
Ainda olhando para mim com certa fúria e desapontamento nos olhos, ele me diz “Você estava correndo... Denovo.” A afirmação não estava tão longe assim da verdade, sim, talvez eu realmente estivesse correndo, criando uma replica da True Dimension para poder chamar de “True” e impedir a destruição completa, mas até eu entendo, não importa meus esforços, a vida é para acabar, tudo, tem que acabar um dia, de uma forma ou de outra. Como um deus como eu poderia acabar? Muitos perguntariam. Mas até o eterno acaba, assim que o fim de existência e da não existência acontecerem, quem sabe o que vai acontecer depois? É impossível descrever, mas eu, mesmo sendo um deus – e o mais forte de todos ainda por cima – terei de ceder-me a tal destino uma hora ou outra... Meu único trabalho é adiar tal data o Maximo possível.
“Você diz isso como se eu fizesse isso com freqüência.” Eu o respondo, claramente o desafiando, eu não sei por que, mas minha pena por ele não “ativou” nesse caso, talvez meu simples desejo de poder falar com ele sobre qualquer coisa – qualquer coisa – depois de tanto tempo esteja me levando no momento.
“Disse o homem que tomou o caminho do covarde cinco vezes na vida – incluindo dessa vez!” Blackguilmon me responde, eu estava prestes a retrucá-lo, mas algo me para, mais uma dor de cabeça, mas não, as vozes não voltam...
...O que voltam são memórias, memórias de um tempo que ninguém sabia ter passado, memórias de um tempo negado, reprimido por mim décadas atrás, não, não apenas um tempo, mas dois, não... Três. Três diferentes vidas das quais eu tinha me esquecido, ao meu próprio desejo, mas como, como elas estariam voltando a mim agora? Agora, depois de tanto tempo? Eu pensei que tivesse me livrado daquele instrumento – Meteodantine – desde... Desde minha vitória contra Nyx, sete anos atrás...
“Cinco vezes... O que quer dizer com cinco vezes?” Eu o perguntei, lentamente entendendo o que estaria acontecendo, BlackGuilmon parece pasmo, assustado por um segundo, mas ele volta ao normal rapidamente, mantendo sua compostura de muralha impenetrável, “O que, um Digimon não pode errar matemática de vez em quando?” ele diz, tentando mascarar seu erro como um simples erro de calculo.
“É meio difícil confundir dois com cinco, BlackGuilmon.” Eu o respondi, sim, existiam apenas duas vezes do qual eu “tomei o caminho do covarde”, a primeira foi a sete anos atrás, e a segunda, nesse mesmo ano, mas não, essas memórias, essas memórias me lembravam de outros tempos, tempos esquecidos pelo próprio tempo, vidas esquecidas pelo destino, eu o olho fundo nos olhos enquanto minhas antigas memórias caem em lugar, finalmente resolvendo a charada que tem existido por talvez quase uma década e meia.
“BlackGuilmon... Não me diga que... Você se lembra?” eu o pergunto, pasmo, meu próprio parceiro teria guardado algo assim de mim por tantos anos? Não... Não pode ser... Mas é a única explicação.
BlackGuilmon vira o rosto, talvez um pouco em vergonha de admitir a verdade, ele olha aos três irmãos pelo canto do olho e diz “Se importa... Se tivermos essa conversa... Em particular?” ele diz.
Se eu estivesse em condições, eu faria um portal para eles saírem naquele mesmo momento, mas eu não estava, Benny, por outro lado, levantou uma de suas garras e apontou ao fundo, um portal, grande o suficiente para várias pessoas e humanóides passarem, Benny também tinha o poder de viagem dimensional, poder que ele teria ganho de mim.
Tsubaki, ainda com Benny em seus braços começa a andar até o portal, mas ele para imediatamente quando vê que Sayuri não está os seguindo, ele segura Benny mais fortes com o braço esquerdo, e puxa o braço de Sayuri com o direito “Vem... Esses dois têm muito que conversar.” Diz Tsubaki, Benny parece estar prestes a dizer algo, mas Sayuri anda e passa pelo portal sem mais delongas, Tsubaki e Benny são os próximos, e rapidamente, eu e Blackguilmon estamos a sós nesse espaço sem fim.
No momento que nos encontramos em paz, BlackGuilmon vira de costas, uma maneira de evitar meu olhos do qual apenas implora por respostas, ele parece hesitar por um momento, suspirando e olhando para baixo, mas ele levanta a cabeça em poucos segundos “Sim... Eu realmente me lembro de tudo, absolutamente tudo Sacchi, como você era membro da DSG, como você lutou contra Mecha Rogue X, eu lembro de tudo sobre sua... Terceira vida, por assim dizer.” Ele confessa, ficando o mais imóvel possível.
Meu cérebro automaticamente demanda mais explicações, mas meu coração acaba me dizendo que isso não é tão estranho, não, não é nada estranho, o estranho não é ele se lembrar da minha terceira vida, o estranho é ele se lembrar do fato de que eu tomei o “caminho do covarde” cinco vezes, três das mesmas que só tinham acontecido durante minhas primeiras duas vidas, as memórias ainda voltavam lentamente, mas eu lembrava o suficiente para trazer as respostas dele.
“E... Sim... Eu me lembro de suas primeiras duas vidas Sacchi, seus tempos como ladrão e como garoto, ambas lutando por sua própria sobrevivência como qualquer outro, mas um lutando pela justiça, e outro lutando para viver um erro que teria cometido.” Ele continua, ainda tentando-se manter o mais imóvel possível mesmo assim, eu consigo ver que ele parece está ficando mais e mais perto de alguma coisa que ele não gostaria de admitir...
“Mas... Como? Só nos conhecemos durante minha... Terceira... Vida...” eu comecei, mas imediatamente me parei, não, como eu podia ser tão cego? A resposta estava debaixo do meu nariz o tempo todo, e mesmo assim eu teria a ignorado como se não fosse nada, ela estava lá, na minha frente, em plena vista! BlackGuilmon... Por que...?
“Você entende, não é?” ele diz, virando novamente, olhando para mim, ele suspira uma vez antes de dizer algo que ele obviamente estava guardando pelo que pareciam milênios, “Sim, eu trabalhava para Nyx, eu fui especialmente apontado como seu parceiro no momento do meu nascimento para aquele especifico ponto na sua vida, e eu estava para trabalhar para Nyx, ajudando você a se lembrar da verdade, claro que... Shadow ajudou isso tremendamente.” Ele continua, as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixam, isso fazia sentido, ele sabia que estava trabalhando para a mulher que teria me tornado um escravo de seus desejos pelo pior ano de minha inteira vida, ele teria ajudado ela a fazer isso, ele sabia que tudo que eu tinha que fazer era me lembrar da verdade, de que minha terceira vida não passava de uma mentira, uma literal ilusão por mim criada, eu já tinha aceito o contrato, mesmo sem saber, eu já era escravo, agora tudo que eu tinha que fazer ela lembrar, e ele ajudou isso tremendamente... Mas...
“...Por que?” eu o perguntei, por que? Era uma pergunta que eu tinha medo de saber a reposta, mas eu precisava saber, eu e ele, mesmo nesses três anos de parceria que tivemos durante minha terceira vida, teríamos virado pelo menos bons amigos, por que ele teria ajudado ela, mesmo sabendo o que ela iria fazer comigo depois?
“Por que eu não queria morrer!” ele me responde, gritando e virando a cabeça, “Tá bom?! Eu, BlackGuilmon, um dos quatro grandes dragões, deus de todos os Digimons dragões e parceiro do deus mais forte da existência e não existência estava com medo da morte, feliz?!” ele continua a gritar, novamente olhando para mim, seus olhos já lacrimejavam, algo que eu não teria o feito fazer na minha vida inteira, ele sempre foi forte, ele sempre foi um guerreiro, ele nunca chorou, pelo menos, não na minha presença, ver alguém como ele chorar é...
“...Eu sabia.” Ele diz, “Eu sabia que depois que você se lembrasse, a dimensão seria quebrada e tudo dela seria destruído, eu incluído, e mesmo que não se lembrasse, você morreria, levando a True Dimension, a existência, a não-existência e eu junto...” ele continuou, seus olhos lacrimejantes deixando pequenas lagrimas escorrer por seu rosto, lágrimas que ele parecia não notar em seu desabafo pessoal.
“Por isso, Nyx me contatou, ela sabia que eu seria o seu parceiro naquele momento, então eu e ela fizemos um pacto no momento do meu nascimento, que se eu te ajudasse a lembrar, ela preservaria a minha memória, forma, espírito, alma... Tudo para o novo mundo. Eu estaria intacto, mesmo que o mundo não fosse o mesmo.” Ele continua, agora praticamente deixando rios de lagrima cair de seus olhos, ele não as limpa, coisa que me impressiona, talvez ele não saiba que pode chorar? Talvez essa seja a primeira vez dele chorando na vida...? Não, alguma coisa, alguma coisa profunda me diz que isso não era verdade, eu não sei o que, mesmo nas memórias que agora já eram minhas novamente, eu não me lembro de ter visto ou o ouvidoele chorar na vida, na verdade, o mais próximo que eu já vi ele chorar em todas as minhas memórias foi... Manchar o rosto com o sangue dos inimigos.
“Então... Essa é a história... O que, vai me matar agora?” ele finalmente termina seu desabafo, eu ouvi todas as palavras atentamente, com certeza, mas... Ainda me restava uma única pergunta... Não... Duas.
Eu começo a pensar em qual das duas eu deveria perguntar primeiro, e acabo decidindo, a sua confiança é mais importante para mim. “...Por que não me disse isso antes?” eu pergunto, extremamente curioso a resposta.
O silêncio se quebra no infinito, eu começo a imaginar qual seria a resposta, raiva? Vergonha? Culpa? Talvez, talvez todas, mas não me importava muito, depois dessa confissão, qualquer coisa era válida, e eu o aceitaria como ele é, eu não o julgaria, assim como nunca o fiz.
“Eu queria te contar!” ele grita “Eu queria te contar desde... Desde...” ele continua, “...Desde a guerra...” ele finalmente termina, a guerra, ó a grande guerra, como eu poderia algum dia me esquecer do que seria o mais próximo que a terceira guerra nuclear chegaria sem destruir o mundo? Sim, uma bomba atômica, em Washington, um sexto da população mundial foi perdida durante esses simples três anos, mais até do que os nazistas, nada impressionante, nada impressionante.
“Mas eu não conseguia... Eu tinha medo do que você ia pensar...” ele continua, ó BlackGuilmon, seu bobo, somos parceiros por tanto tempo, como é que eu ficaria bravo com você por algo assim? Claro, você pode ter ajudado a me tornar um escravo no ano mais excruciante de minha vida, e não fez nada durante o mesmo período, mas seus motivos eram bons, o medo da morte... Não, o medo de deixar de existir. Para um Digimon, a morte é um dos menores problemas, eles podem simplesmente renascer em um Digi-Ovo afinal, mas a morte definitiva é tão dolorosa e tão aterrorizante para os Digimons quanto é para os humanos, talvez até mais graças a sua falta de medo da morte comum, mesmo assim, ser removido da existência é outro nível, é simplesmente outro nível.
Eu sorri para ele, levantando minha mão para tocá-lo, seus olhos fechados e lacrimejantes, ele chorava, chorava e chorava, uma coisa da qual eu não conseguia aceitar, Blackguilmon nascera como um guerreiro, sua própria biologia tomou ênfase na luta, na batalha, na sobrevivência do mais forte, eu me pergunto, por que, por que ele nunca foi honesto comigo assim antes? Ele sempre era distante, sempre, eu confiava a ele meus problemas e segredos íntimos, mas ele nunca foi tão aberto comigo assim...
Eu finalmente o toco, seus olhos imediatamente abrindo, com um movimento, eu começo a coçar atrás da orelha dele, um gesto amistoso, um carinho entre um escolhido e seu Digimon, um gesto amistoso entre dois amigos, um carinho, e nada mais que isso, algo para tentar acalmá-lo, eu sempre notei na minha vida, palavras são poderosas, e uma ação vale por mil palavras, talvez o poder de um toque desse tipo o tornasse um pouco menos distante de mim, especialmente depois do que aconteceu há apenas seis meses? “Seu bobo, eu nunca te julgaria.” Eu disse, calmamente.
Ele olha para meus olhos e sorriso carinhosos, mas sua expressão é diferente do que eu esperava, ele não está relaxado, ele não está calmo, ele não está sorrindo, ele não me parece de qualquer forma feliz, não, o que ele demonstra é medo, um medo profundo pelo toque que acabei de fazer a ele, talvez até mesmo um medo por mim mesmo, mas por que—“Não me toque!” ele grita, quebrando meu raciocínio e rapidamente empurrando minha mão para o outro lado, um gesto rápido que parecia ter sido feito de puro reflexo, talvez até de puro instinto, estou pasmo, por que ele faria isso? Ele fecha os olhos, e suspira uma vez enquanto minha mão fica parada na minha surpresa “...Desculpa...” ele diz, mas algo me diz que ele disse isso por pura educação, ele não me parecia realmente estar falando isso do fundo do coração...
O silêncio começa, mas rapidamente se quebra quando BlackGuilmon levanta sua cabeça, “Sacchi... Já que estamos a sós... Eu... Posso te perguntar uma coisa?” ele diz, minha surpresa se esvaece, mas o que seria isso, eu me pergunto, alguma coisa que deveria apenas ser perguntada com nós dois sozinhos? Sua expressão tinha algum medo, mas mudava para a seriedade, e uma pequena dica de curiosidade, mesmo assim, uma expressão dessas era impossível de se ler, “O que?” eu pergunto.
“P-Por que...” ele começa, sua mão um pouco tremula se movimenta até seu peito, tocando no símbolo do Digital Hazard, o equivalente digital a um perigo nuclear, aquele símbolo em seu abdômen representava que BlackGuilmon guardava dentro de si um poder inimaginável, mas ao mesmo tempo, incontrolável, e que se algum dia esse selo fosse quebrado, a extinção do Mundo Digital seria inevitável caso ele não fosse parado, um vírus, um vírus de proporções que apenas os melhores dos melhores fariam, do tipo que poderia destruir permanentemente computadores mais fortes que os da NASA, ou causar catástrofes digitais equivalentes as torres gêmeas, ele toca o símbolo, mas rapidamente move sua unha trêmula para um segundo símbolo extremamente menor logo acima, em seu peito, logo abaixo da garganta, o símbolo era muito mais simples, era um “w” estilizado, ou mais especificamente, a ultima letra do alfabeto grego, ômega, em sua forma minúscula.
“Por que... Eu sou apenas honorário... No Team Omega...?” ele me pergunta, ah, sim, uma pergunta que eu realmente não gostaria de responder, eu sou o líder do Team Omega, a ultima linha de defesa da realidade, meu time e eu, guerreiros e guerreiras extremamente capacitados para fazer absolutamente tudo, de luta até infiltrações, fortes ao nível de poder destruir exércitos de 50.000 homens espartanos sem quebrar uma unha, lutamos contra coisas, criaturas ou pessoas que são uma ameaça a própria realidade, ou até mesmo, a própria existência, as critérias para entrar no time eram extremamente rígidas, e nem se resumiam ao poder, eu era o único, a saber, tais critérias, o único.
“BlackGuilmon...” eu digo, porém, BlackGuilmon levanta a cabeça mais um pouco, tentando chamar minha atenção, de forma que ele ainda não estivesse terminado, “Você nunca me diz... Você nunca me diz o por que... Você sempre me diz que eu “não sou capaz”, que eu “não estou cumprindo as critérias”... Me diga Sacchi, por favor, o que é que eu estou faltando?” ele pergunta, quase que inocentemente.
Eu não sei se devo responder a ele honestamente ou não, a verdade para essa pergunta dói, eu sei disso, não é algo que ele poderia entender, ou talvez até mesmo aceitar, não, não é... “BlackGuilmon... Você simplesmente não está pronto...” eu respondo-o, com toda a culpa na consciência que um ex-humano como eu poderia ter.
“Então... Quanto mais forte eu devo ficar...? Eu... Eu sei que os outros são fortes... O suficiente para me derrotar facilmente... Então... Quanto mais...” ele pergunta, seus olhos lacrimejantes ficando cada vez mais fracos, quase que tremendo, olhos que eu não poderia aceitar ver, uma culpa imensa, não, eu não vou viver com essa culpa na consciência... E existe uma outra coisa que eu preciso que ele saiba, uma outra verdade, de eu não dizer isso agora, ele nunca vai aceitar, ele nunca vai saber, ele nunca vai mudar, ele nunca vai se curar, nunca.
“Não... Não é sobre força BlackGuilmon... Se fosse, eu não teria expulsado Gatomon do grupo quando assumi liderança, e boa parte do Alpha Team seria do Team Omega.” Eu o respondo, mas a pior reação possível vem logo em seguida: “Então o que é que eu não tenho?!” ele grita, finalmente perdendo sua calma.
Eu... Detesto fazer isso com ele, meu coração aperta ao dizer essas palavras... Mas essa é a hora. E como dizem, “a culpa de fazer alguma coisa é sempre menor que a culpa de não ter feito ela.”.
“...Certo BlackGuilmon, o que você não tem?” eu digo, finalmente assumindo uma voz mais séria, mais superior, algo que o fizesse ficar irritado, eu precisava quebrá-lo, eu precisava derrotá-lo em uma luta psicológica, e do jeito que ele vivia, isso não seria difícil.
“Você não tem um motivo, um objetivo, você não tem uma perspectiva de vida, uma habilidade para viver, BlackGuilmon, você tem um conflito interno, isso é algo que eu não aceito no meu time, você só é honorário por que eu gosto de você, por que somos parceiros e eu tenho dó de você, só isso.” Eu finalmente o digo, e eu consigo exatamente a reação que eu queria, seus olhos antes tristes e desesperados se tornam em fúria, raiva, ódio, uma mentira que precisava ser desmentida aos ouvidos dele, um argumento, uma briga a ser vencida.
“O que quer dizer?!” ele grita, “Como ASSIM eu não tenho um objetivo?! Como ASSIM eu não tenho uma perspectiva de vida?!” ele continua a gritar, e agora é minha chance, meu coração aperta mais e mais, mas sacrifícios tem que ser feitos BlackGuilmon, sacrifícios tem que ser feitos.
“Quer mesmo que eu responda? Tudo bem.” Eu digo, me levantando e me equilibrando, eu ainda me sentia um pouco fraco de ter acabado de acordar, meus poderes lentamente voltavam a mim, e meus sentidos se arrumavam pouco a pouco, eu ainda estava exausto, mas se era uma luta que BlackGuilmon iria querer, é uma luta que ele teria, uma luta perdida, isso sim.
“O que você faz o dia inteiro da sua vida, BlackGuilmon? O que?” eu o pergunto, ele abre a boca para falar, mas eu o impeço, eu tenho que manter o controle dessa conversa, desse argumento, “Você fica voando por ai em sua forma Mega, sem um rumo, apenas voando, um de seus passatempos você diz? Errado, a vôo te deixa longe dos problemas terrestres, mais importante, o vôo te deixa longe de pessoas, pessoas das quais você odeia, pessoas das quais você nunca quis conhecer, pessoas das quais você não ligaria se apenas morressem.” Eu digo, novamente ele tenta falar “Isso não é—“ desculpa BlackGuilmon, mas você perdeu.
“Não é o que? Não é verdade? Poupe-me, você é o único Digimon que algum dia já cometeu um crime no mundo real, eu vou enfatizar isso de novo, o único. Quais crimes? Ah, por que, estupro e assassinato sem sentido, claro!” eu digo, isso claramente o acerta como uma flecha no peito, mas eu não posso dar espaço pra ele. Eu tenho que continuar a atacar, “Você acha que eu não tenho assistido seus crimes e tolisses nos últimos seis meses BlackGuilmon? Eu sou o deus da noite, eu vejo a tudo e todos o momento que eu quero, você pega uma pessoa aleatória, a joga em um beco, e a mata, dando a ela o grande privilégio de ser estuprada antes se for uma mulher, ah, sim, isso se você não decidir dar a ela esse privilégio depois de cortar sua garganta ao meio.”
Outra flecha, ele começa a perder a compostura, seus olhos voltam a lacrimejar, ele está à beira de cair em lágrimas, meu coração grita para eu parar, piedade com o garoto, piedade com o pequeno, mas não, ele precisa aprender essa lição e ele precisa aprender ela agora. “E por que tudo isso BlackGuilmon? Por que? Você tem feito isso nos últimos seis meses, você era alguém doce e carinhoso, talvez distante, talvez um pouco rude, e certamente um babaca com os outros, mas comigo você era o parceiro – o amigo – que eu sempre desejei ter, você nunca me julgaria, nunca me feria, nunca, nunca. Seis meses atrás, o que mudou a seis meses BlackGuilmon? O que?” eu o pergunto... Ele continua silencioso, sim, ele já está no ultimo passo antes de quebrar em um choro de desespero, um choro de ter que aceitar e acreditar na realidade, desculpe-me BlackGuilmon, perdoe-me, eu te imploro, perdoe-me, mas isso é para o seu próprio bem.
Por um momento, eu me encontro sem munição, mas ele parece já estar derrotado, ele rapidamente fica em suas quatro pernas e corre para o portal, com os olhos fechados e chorando, eu venci, eu venci, mas por que isso não me aparenta ser uma vitória? Será que ele aprendeu? Ou será que isso só vai levá-lo ao suicídio? Não sei, mas agora, isso já está feito, nada mais importa... Eu ainda tenho um trabalho a fazer, um mundo a salvar, uma realidade a preservar, se tudo acabar, isso terá sido em vão, BlackGuilmon, eu sei que você não vai participar na luta final, perdoe-me, mas eu espero que você algum dia aprenda seus erros, sua vida, seus pecados, e que finalmente entenda o por que eu fiz isso, eu te amo como um amigo BlackGuilmon, daria minha vida por você, e como o bom amigo que sou, lágrimas agora te salvarão décadas de remorso depois... Eu espero.
Vamos Sacchi, você ainda tem um trabalho a fazer, como você sempre teve, e sempre terá, é inevitável, eu passo pelo portal, fechando meus olhos por um único momento, e mesmo assim, uma das vozes de antes retorna a meus ouvidos.
“Pobre pequeno... Mas ele precisa aprender...”
Talvez algum dia ele se torne um membro oficial do time, talvez ele se toque que viver por viver é o maior dos pecados, mas até lá, eu não posso fazer nada a não ser rezar.
Ó karma, por que você me tormenta tanto?
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