Digimon:origins
2 "Eu vim buscá-la..."
Notas iniciais
Alguns minutos após o ocorrido no parque, Yukino abria a porta de sua casa. Tendo passado o braço esquerdo do bruxo por trás do seu pescoço, ela o carregava para dentro de casa, andando lentamente, uma vez que ele parecia estar bastante ferido. Por estar escuro, ela acendeu a luz da sala, cômodo por onde eles haviam entrado, e ajoelhou-se com ele no chão.
-Você está bem? Suas feridas doem? – perguntou a loira, fitando-o com um olhar apreensivo.
-S-Sim... eu estou bem. – respondeu o Digimon, com um pouco de dificuldade – As feridas não são... sérias. – disse, com seu rosto virado para baixo, evitando olhar diretamente para a garota.
Yukino continuou encarando-o, preocupada com as condições do rapaz. As roupas dele estavam muito surradas, perguntava-se se ele estaria sendo perseguido há muito tempo. Mas pela forma como ele falara com ela, não estava a fim de conversar.
-Entendo. – respondeu a loira. Em seguida, ela levantou-se do chão e voltou a encara-lo, desta vez, com um singelo sorriso no rosto – Talvez um banho faço-o sentir-se melhor. Irei esquentar a água.
Ela virou-se de costas para o rapaz e correu em direção ao banheiro. O bruxo a fitava com curiosidade. Não entendia o porquê daquela jovem estar sendo tão atenciosa com ele. Contudo, após sentir o bolso de sua calça queimar, ele voltou a sua atenção para o objeto que havia guardado dentro dela. Era pequeno e cinza, um objeto de metal que mais parecia um MP4 ou algo do tipo, mas não era. A tela do objeto ficara branca e começara a brilhar intensamente. O bruxo olhava para o objeto com seus olhos arregalados, espantado, uma vez que aquilo nunca havia acontecido antes.
-Será que... – sussurrou o digimon.
Ele levantou-se do chão e, ainda carregando o objeto em sua mão direita, caminhou até o quarto da jovem. Era um cômodo grande com uma cama de casal, um guarda-roupa branco com prateleiras, uma mesa de cabeceira ao lado da cama e duas prateleiras na parede de coloração azul, próximas à escrivaninha onde ficava o computador dela. O Digimon olhava tudo com bastante atenção. Era a primeira vez que ele entrava no quarto de um humano. Ao olhar para o lado, ele percebeu que nas prateleiras ao lado do guarda-roupa haviam três porta-retratos. Caminhou até eles e pegou o que estava mais embaixo. A foto era de uma mulher de longos cabelos loiros, trajando um vestido branco de meia-manga. Seu sorriso era radiante, e carregava uma criança recém-nascida em seus braços. Quando olhou fixamente para o rosto daquela mulher, o bruxo começou a sentir fortes dores de cabeça, e uma voz ecoou em sua mente.
-“.... mate.”
Ele voltou a apoiar o porta-retrato na prateleira, enquanto levava sua mão esquerda para sua cabeça. “Essa mulher...” – pensava ele, até ter seus pensamentos interrompidos por uma voz.
-Senhor bruxo? – gritou a jovem, saindo do banheiro e parando diante da porta de seu quarto, assim que o avistou – Ah, aqui está você. A água já está pronta. O deixarei a vontade. – disse Yukino, sorrindo gentilmente para o rapaz –
-Hm... obrigado. – agradeceu o digimon.
Assim que Yukino virou-se, caminhando em direção à cozinha, o digimon escondeu o objeto que carregava debaixo do travesseiro dela e dirigiu-se para o banheiro. Fechou a porta do cômodo e entrou na banheira, cuja água quente parecia aliviar todas as suas dores musculares. Ele soltou um longo suspiro assim que entrou na água. Deitou sua cabeça em uma das beiradas da banheira e relaxou. Contudo, a imagem daquela mulher ainda o atormentava. “Quem?” – pensava o digimon. “Quem é ela?” Enquanto perguntava-se sobre a identidade da mulher da foto, abaixa seu corpo, ficando com o seu rosto parcialmente escondido debaixo d’água, brincando de fazer bolhinhas na mesma com a boca, até se assustar com o som da porta sendo aberta rapidamente e a voz gentil da humana que entrava no banheiro.
-A água está boa? – perguntava Yukino, entrando no banheiro completamente nua. Carregava uma toalha na frente de seu corpo e seus longos cabelos loiros estavam presos em um coque.
-S-SENHORITA! – gritou o rapaz, surpreso com a aparição repentina da garota. Ao vê-la sem suas roupas, o rosto do Digimon ficou bastante corado – O-O que está fazendo aqui? – perguntou, virando o seu rosto para o outro lado, evitando olhar para ela novamente –
-Ora, vim tomar banho também. E aproveitar para ajuda-lo no seu. – respondeu Yukino, aproximando-se de onde o bruxo estava e entrando na banheira, sentando-se no lado oposto ao do rapaz –
Ao voltar sua atenção para o bruxo, a loira surpreendeu-se ao vê-lo vestido dentro d’água.
-Ei, o que está fazendo? Precisa lavar suas feridas. Tire essas roupas!
O digimon ficara assustado ao vê-la ajoelhar-se na banheira e engatinhar em sua direção. Mas quando ela tocou em suas vestes, ele segurou nos pulsos dela e a encarou, olhando fixamente em seus olhos, com o rosto levemente corado.
-N-Não faça isso! – pediu o digimon.
-Por que? – perguntou Yukino –
-Há alguns mistérios sobre mim que você não precisa saber. – disse o bruxo, voltando o seu olhar para baixo.
A jovem sentiu uma certa tristeza nos olhos do rapaz. Parecia que o assunto não lhe era muito agradável. Ele era cheio de mistérios. Mas pelo menos um de seus segredos Yukino tinha certeza que sabia.
-.... você é um Digimon, não é? – perguntou a loira, voltando o seu olhar para o lado.
-C-Como você...? – começou o bruxo.
Sem esperar o término das palavras dele, Yukino levantou-se, virando-se de costas para o rapaz e ameaçando sair da banheira. Mas antes que ela o fizesse, o digimon agarrou o seu pulso direito e puxou-a para baixo, fazendo-a sentar-se em seu colo, enquanto encarava-a com um olhar sério.
-Como sabe dos Digimons?
Yukino ficou em silêncio, fitando-o com espanto e o rosto levemente corado. Após alguns segundos, ela voltou a se pronunciar.
-Quem não conhece? Desde que a criação do Digital World foi divulgado, todo o mundo sabe da existência dele, embora ninguém tenha ido para lá se não as oito crianças escolhidas.
Era verdade. O bruxo também sabia sobre as oito crianças, embora nunca as tivesse visto.
-Aliás... – começou Yukino – Eu me chamo Yukino Kurumi. E você? Qual é o seu nome? – perguntou a loira, voltando o seu olhar para os belos orbes esverdeados do Digimon.
-W-Wizardmon. – respondeu o bruxo, fitando-a com o rosto levemente corado –
-É um prazer conhecê-lo, Wizardmon. – disse a garota, sorrindo gentilmente para ele – Ah, é mesmo! – gritou ao se lembrar de alguma coisa.
Após dizer tais palavras, Yukino ergueu um pouco o seu corpo e estendeu seu braço para fora da banheira, até pegar o sabonete que estava no chão. Tendo-o em mãos, ela virou-se para o bruxo e voltou a sorrir para ele.
-Deixe-me ajudá-lo a se levar, Wizardmon. – disse a jovem.
Ao perceber as intenções da garota, o digimon tentou pará-la. “E-Eu me lavo sozinho. Não se preocupe! “ – gritou Wizardmon, esticando seus braços como se pedisse para a jovem afastar-se dele, mas não obteve sucesso. Yukino continuou aproximando-se do rapaz, até roçar seus seios no peito dele, enquanto levava as suas mãos até as costas do Digimon, onde começara a esfregar o sabonete.
-Não se preocupe. Eu serei rápida. – respondeu a loira, procurando acalmá-lo.
Tranquilidade era algo que Wizardmon não conseguia sentir tendo os seios de Yukino sendo pressionados contra o seu corpo. Ele lembrava-se da imagem do corpo nu da loira e seu rosto voltava a ficar bastante avermelhado, enquanto ele fechava seus olhos com força, procurando se desligar do que estava acontecendo.
-Por favor... você não deveria estar fazendo isso.... a senhorita... é uma garota. – dizia o bruxo, procurando convencê-la a se afastar.
-Mas qual é o problema? Você é um digimon.
O bruxo percebeu que a garota era ingênua demais para perceber que a diferença de sexos ainda era um fator importante, mesmo para os digimons. Sem saber como explicar isso para ela, ele preferiu deixá-la agir como desejasse, embora seus batimentos cardíacos estivessem bem acelerados. Alguns minutos depois, após saírem do banho, Yukino levou o hóspede para o seu quarto e pegou um secador de cabelo que guardava no banheiro para ajudar o Digimon a se secar com o ar quente do aparelho.
-Assim você ficará seco mais rápido e não correrá o risco de ficar doente com este frio. – disse a loira, enquanto movia o secador pelo corpo do Digimon.
-A senhorita deveria fazer o mesmo e vestir alguma coisa apropriada para esta temperatura. – respondeu o Digimon, evitando olhar para a garota.
Mesmo depois de sair do banheiro, Yukino colocara somente uma calcinha e cobrira o seu corpo com um roupão bem pequeno, que deixara suas pernas de fora.
-Ah, tem razão. Eu já irei me vestir. – afirmou a loira, enquanto movia-se ao redor do digimon.
Quando ela parou de frente para Wizardmon, o rosto do rapaz corou novamente ao deparar-se com o decote da jovem. Como ela estava agachada diante dele que estava sentado sobre sua cama, pôde ver novamente os seios de Yukino. Não sabia o que fazer. Estava começando a se sentir em um pesadelo. Ela não conseguia vê-lo como um homem e não queria parecer um pervertido para ela. Resolveu virar seu rosto para o lado mais uma vez, ficando em silêncio por um tempo, até voltar a se pronunciar.
-Yukino-sama.... não foi uma das escolhidas? – perguntava Wizardmon, em um tom de voz baixo e gentil –
-....Na verdade, eu fui. – respondeu a loira, desligando o secador logo em seguida.
-Então por que não foi para o Digital World? – perguntou o digimon, voltando seu olhar para a jovem.
-P-Porque eu....
Yukino ficou em silêncio por alguns segundos. O bruxo não sabia se ela estava mentindo ou não, ou se ela somente havia desistido de ir. Porém, quando a jovem voltou a se pronunciar, Wizardmon notou que algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto, o que deixou seu coração apertado.
-... porque eu matei... o meu digimon. – respondeu a garota, em um tom de voz choroso.
Ela agachou-se, deixando seu secador no chão e virou-se para o digimon, sentando-se na cama ao lado dele.
-Há seis anos atrás, quando a minha mãe morreu... eu perdi... completamente o gosto por aquele mundo. – continuou, falando com dificuldade devido ao choro, e mantendo sempre a sua cabeça voltada para baixo – Não conseguia cuidar do meu Digitama sem me lembrar da minha mãe, da promessa que havíamos feito de explorar o Digital World juntas, e aí... eu o abandonei. E quando decidi voltar a vê-lo... uma mensagem... na tela do computador...dizendo que meu digimon não existia mais... apareceu.
Por um momento, os olhos de Wizardmon arregalaram-se, mas depois o digimon voltou a abaixar sua cabeça, ocultando uma parte de seu rosto com a aba de seu chapéu. Ouvia-se apenas o choro da jovem naquele grande quarto. Nenhum dos dois tinha coragem de dizer mais uma palavra. ‘Ele deve estar me achando um monstro agora... ‘ – pensava a loira. Mas eis que o digimon volta a se pronunciar.
-Por que está chorando? – perguntou Wizardmon.
Ele virou-se para a garota e empurrou-a para trás, deitando-a em sua própria cama, enquanto posicionava-se sobre o corpo dela. Com a 'queda', o cóque se desfez, os cabelos de Yukino voltaram a ficarem soltos e a parte da frente do roupão da loira se abriu, deixando grande parte dos seus seios a mostra. Mesmo envergonhado ao ver os seios da jovem novamente, Wizardmon aproximou o seu rosto do dela, encarando-a com seus olhos entre abertos e tendo metade de sua face ocultado pela gola de sua capa.
-Se está chorando pela morte do seu Digimon, já pode parar de se lamentar. Eu estou vivo. Estou aqui. – disse Wizardmon. Em seguida, ele levou sua mão esquerda para debaixo do travesseiro sobre o qual a cabeça de Yukino estava deitada, tirando um objeto metálico de lá, o qual a loira fitava com atenção. Ele levou o objeto para perto do seu rosto, olhando-o fixamente e virando-o para a loira logo depois. – Isso é uma prova. Eu vim buscá-la... para que possamos ficar juntos novamente...
Os olhos de Yukino arregalaram-se, mas suas lágrimas não cessaram. Contudo, agora era diferente. A loira não chorava por tristeza, mas sim por sentir uma felicidade indescritível ao rever àquele que fora destinado para ela. Sem conseguir se conter, Yukino envolveu o corpo de Wizardmon com seus braços, dando-lhe um forte abraço, enquanto sussurrava perto de um dos ouvidos do rapaz, algo que sempre procurou lhe dizer.
-.... me desculpe, Wizardmon....e... obrigada.
Em um outro lugar, em uma grande sala escura, uma pessoa estava sentada em sua cadeira, olhando fixamente para uma enorme tela a sua frente, dividida em doze telas menores, mas que juntas, formavam uma única imagem, mais precisamente, a de um noticiário. Até ser interrompido por alguém que se ajoelhara atrás dele, mantendo alguns centímetros de distância do mesmo.
-P-Perdão, mestre. Eu o perdi de vista. Não consegui encontra-lo novamente. – lamentou a gata branca, em um tom de voz triste e com sua cabeça abaixada.
-..... você o perdeu? – perguntou o rapaz.
Rapidamente, ele levantou-se de sua cadeira, tirou o chicote que estava preso em sua cintura e açoitou o rosto da gata.
-VOCÊ O PERDEU? Tem noção do quanto a captura daquele digimon era importante para nós? – bradou o rapaz, esticando o chicote, como se fosse castigá-la mais uma vez. Contudo, ele virou-se de costas para ela, voltando a fitar a enorme tela, e se pronunciando em um tom de voz mais calmo, porém, sério – Se ele tiver um parceiro humano, certamente o levará para o Digital World com ele. Mas não tem problema... afinal... sou eu quem controla este jogo!
Ele soltou uma risada diabólica que ecoou por toda a sala, enquanto cada uma das doze telas passou a transmitir uma parte diferente do Digital World. Tailmon, com sua pata direita sobre a ferida causada pela chicotada, fitava o rapaz com um olhar apreensivo.
Fale com o autor