Digimon: death metal
1 Capítulo I – Um coração simples
Sara tirou o velho chapéu de palha. Apoiou o machado no tronco. Levou a mão direita à testa bronzeada e secou o suor com a luva. Respirou fundo e começou a juntar a lenha espalhada pelo chão de terra batida. Aquela quantidade seria suficiente para alimentar o fogão por dois ou três dias. Apesar da diferença de sabor, tinha certa dificuldade em entender por que sua mãe insistia em seguir fazendo comida dessa forma, se era mais trabalhosa e a casa há anos já constava com um fogão a gás.
Enquanto caminhava em direção à casa, ouviu um agudo chiado. Olhou ao redor, mas não avistou nenhuma possível origem para o som. Talvez seja o calor mexendo mais uma vez com sua cabeça. Ana, sua irmã mais velha, caçoava dizendo que o calor não apenas queimava a pele de Sara, mas levava consigo alguns neurônios. Aos 19 anos, duvidar da própria sanidade estava se tornando um hábito.
Depois de deixar a lenha ao lado do fogão da varanda, seguiu para a cozinha. Serviu um copo de água gelada e sentou-se à mesa. Pegou o celular do bolso da jardineira e checou suas notificações. Encontrar um vazio ali era sua nova rotina. Será que algum dia ela responderia? Sara repensava suas atitudes enquanto esfregava as mãos calejadas. O que de tão horrível pode ter dito? Seria culpa da sua falta de traquejo com as palavras? Ou foi a vergonha de mostrar seu próprio rosto?
Acordou sentindo a mão de Ana sobre seu ombro esquerdo, embora não se lembrasse de ter dormido ali mesmo na mesa da cozinha. Levantou devagar o rosto, não queria encarar a irmã nesse momento. Talvez lhe faltasse um pouco de espaço. Inevitavelmente, seus olhos encontraram as escuras pupilas de Ana. O rosto da irmã era bronzeado como o seu e se abria para o mundo por conta dos cabelos castanhos firmemente presos em um coque.
— Escuta, Sara, amanhã preciso que cê leve algumas peças pra Alegre.
Fazia parte de sua rotina levar peças de renda feitas pela irmã para cidades próximas. Gostava desses deslocamentos, de sentir o vento contra seu corpo em cima da moto, que, apesar de cansada, era seu principal tesouro, herdado de seu pai.
— Ok... Só deixe os endereços certos dessa vez...
—Ora, deixar tudo certo eu sempre deixo, cê que se confunde toda.
Sara preferiu não prolongar a discussão. Pegou o celular da mesa e se levantou. Quando cruzou a sala, notou que a noite já estava firme lá fora. Mas como, se o sol estava alto no céu enquanto cortava a lenha? Dormiu por tanto tempo assim?
No banho, enquanto deixava a água gelada escorrer por seu corpo e a observava descer pelo ralo, voltou a ouvir o chiado. Dessa vez, não o estranhou, mas encontrou nele um singular conforto, uma certa hospitalidade. Fechou os olhos. Aos poucos, ele se transformava. Assumia um timbre familiar, uma melodia agradável. Sara lembrou de uma música que ouviu em uma madrugada, há dois meses. Foi ela, essa mesma que agora já não responde, quem enviou. Quando sentiu que seu corpo estava prestes a desabar, abriu os olhos em um susto. Respirou fundo e olhou para o celular sobre o tampo da privada. Ele piscava freneticamente em diferentes cores: amarelo, rosa, roxo, azul, vermelho, verde, laranja. Fechou correndo a ducha e se enrolou na toalha. Pegou o aparelho, que começou a piscar mais lentamente, até cessar. Ela sentiu nele um calor orgânico, que desencadeou o estranho impulso de abraçá-lo.
Porém, mais uma vez seguia sem qualquer notificação.
A música voltou aos seus ouvidos à noite, enquanto tentava dormir. Ao mesmo tempo que a acolhia, o som era a presença pulsante de uma falta. Foi forçada a abrir os olhos quando viu que seu quarto estava completamente tomado pelas luzes coloridas e piscantes da tela do celular. No impulso, tentou pegá-lo. No entanto, nesse momento, o calor já não era confortável, mas queimava. Ao cair no chão, o aparelho começou a vibrar intensamente.
O que daí se desenrolou era a confirmação de sua loucura, da provável queima de seus neurônios. Uma pequena criatura começou a emergir da tela. Primeiro, foram fofas patinhas brancas. Depois, uma bola peluda completamente branca, com grandes olhos negros, dois caninos sobressalentes, bochechas rosadas e compridas orelhas, onduladas e arrebitadas.
Fosse o que fosse, o serzinho olhava ao redor assustado. Quando percebeu a presença de Sara, correu para se esconder debaixo da cama, tremendo.
Então, o celular vibrou uma vez mais, a tela se acendeu e ela pode ver a notificação.
Bravy: me ajuda.
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