Digimon Zero: The Lost Gate
7 Capítulo 6 (Episódio 2) - "Cinco Divinos, Juntos a Encontrar"
Notas iniciais
— Mundo digital? — perguntou Lua, olhando ao redor agitada.
Sim. Este é o mundo onde vivem todos os dados digitais do Mundo Material, o qual os humanos chamam de Terra. Agora vocês são feitos de dados, combinações numéricas. Respondeu a voz misteriosa.
— Opa, para, para tudo. Dados digitais? Mundo Material? Eu sou de carne e osso, sua maluca! — reclamou Joseph, cerrando as mãos, com medo e raiva.
— Se nos trouxe para cá, também pode nos levar de volta para nosso mundo, se é que estamos em outro mundo — inquiriu Joseph, fingindo estar tranquilo (mas era o mais apavorado. Ele não gosta de admitir que é medrosinho).
— É, nos leve de volta agora — Tila disse num tom ameaçador.
Eu não posso fazer isso. Vocês são a esperança desse mundo, todos precisam de vocês.
— Esperança? Mas o quê-?
— Para de falar e nos leve de volta — Tila interrompeu Lua. — Mundo Digital? Esperança de um mundo? Hã! Eu não acredito em nada do que você diz!
Pode não acreditar, mas é a verdade. Vocês estão na Floresta do Cântico, a floresta das riquezas, minha terra natal. Você não foi transformada em dados digitais, Tila Gewandsznajder? Me admira que não creia que tudo isso é real.
— Você disse se chamar Lírian? Quem é você? Onde você está? Por que não aparece? — foi Haruka falar isso, que a dona da voz apareceu, surgindo de um fulgor azul como as ondas de um mar de verão.
Ela, a mulher que dissera se chamar Lírian, parecia ter sido esculpida a partir do mar. Seus cabelos ondulados eram louro-platinados e tão grandes que formavam um véu à suas costas. Sua pele bronzeada era lisa e perfeita, sem uma marca ou cicatriz. Os olhos, joias de safira, os encaravam curiosos, como se quisesse ver seus maiores segredos. Usava um vestido liso simples, ainda que suntuoso. Era azul como o fundo do oceano, e só (era o suficiente). Conchinhas decoravam suas sandálias de pérola do mar, adornavam suas orelhas e suas mechas louras. Era uma deusa na terra de tanta beleza e poder que irradiava. Trazia o cheiro do sal do mar e da chuva de primavera.
— Desculpe-me fazer todo esse mistério. Sou uma oráculo do Digimundo. — Abriu um sorriso simpático. — Meu dever, além de predizer o futuro, é receber os viajantes que vêm para o Mundo Digital. Eu disse que são a esperança desse mundo porque são os Digiescolhidos, as crianças humanas que foram escolhidas pelos Deuses Lendários, os cinco protetores da ordem mundial. — Seu sorriso desapareceu, e ficou séria. — Seu destino foi reescrito. Agora devem salvar o Digimundo.
— Salvar o Digimundo…? Eu tenho que salvar um mundo inteiro? É loucura… — murmurou Lua assustada. Haruka não tinha palavras tamanho era seu choque.
— Eu não vou salvar mundo nenhum. Vou pra minha casa! — Joseph se revoltou.
— Isso mesmo. Vou levar meu irmão embora, e você não vai me impedir. — Foi a vez de Tila se revoltar. As pálpebras de Salen tremularam e ele abriu os olhos, olhando para Tila e perguntando devagar:
— O que está havendo? Tila…?
— Salen!
Ele focou o olhar em Lírian, e, sem sair do colo de Tila, disse soturno:
— Eu escutei um pouco do que vocês disseram. Você é uma oráculo e disse que temos que salvar esse mundo. Teria alguma profecia prevendo nosso futuro como Digiescolhidos?
— Sim, existe uma profecia, que veio a mim há dois dias — confessou a deusa marítima primaveril, e recitou:
As cinco almas humanas se reúnem
Com elas, os Lendários renascem
Cinco Divinos, juntos a encontrar
A chave sagrada, antes que ela se parta
Apenas juntos, vão achar
Aquela alma que se perdeu, tão vazia.
A voz suave como um condão,
Trará novamente a alegria,
E só um coração poderá tomar a direção.
Por favor... Antes que a chave se parta.
Por favor, antes que a justiça desapareça.
Por favor... A escolha terá que ser exata.
Por favor, antes que o mal se enriqueça.
As cinco estrelas a brilhar
Procurem e a verdade a achar,
No céu, brilharão,
E o caminho, acharão.
Por silêncio reinou por um minuto inteiro. Cada um dos cinco presentes tentava entender — no caso de Salen, decifrar — o significado daquele poema.
— Eu não entendi nada. Pode repetir a última parte? — pediu Joseph.
— Não, não posso — ela respondeu. — Vocês devem ir para a Cidade dos Princípios, lá encontrarão seus digimons. Devem procurar por seus Brasões e Esferas de Poder. Nos digivices que eu lhes entreguei, aparecerá o mapa do lugar por onde estiverem passando. Por eles, encontrarão o caminho até a Cidade.
— Eu não quero procurar nada, quero ir pra casa! — Tila persistiu em ir embora.
— Não posso levá-los de volta. Sinto muito. E tenho que ir — desculpou-se a oráculo, e enviou as crianças de volta a parte do bosque normal da Floresta do Cântico, onde as folhas das árvores eram verdes. Não conseguiam mais ver rastro da floresta de ouro e prata. — Quando chegarem a Cidade dos Princípios, minha irmã os auxiliará.
— Mas como vamos fazer sem comida, sem roupas? — disse Lua aturdida. E num passe de mágica, surgiram barracas, potes térmicos cheios de comida sobre caixas também térmicas, essas com bebidas, assim como sacos de dormir, kits de primeiro socorros e sacolas com roupas e outros mantimentos. Também surgiram mochilas, uma roxa, uma azul, uma verde, uma preta e rosa.
— Boa sorte e até logo — despediu-se Lírian, e desapareceu no mesmo brilho azul em que aparecera.
— Ótimo! Largados sem resposta. Pelo menos deixou comida pra gente — reclamou Joseph.
— Então… O que a gente vai fazer agora? — quis saber Lua.
— Choramos. Cara, salvar um mundo? Que história doida é essa? — perguntou Haruka. Estava com medo e nervoso, queria poder falar com Suya, ela o entenderia naquele momento.
— Depois de Tila e eu sermos transformados em códigos digitais, tudo que a senhora Lírian disse deve ser verdade — desabafou Salen.
— Tá, se for mesmo tudo verdade, que que custava ela explicar direito o que está acontecendo? — Tila estava querendo socar alguém. A oráculo idiota cheia de conchas e algas seria um ótimo alvo. — Esse mundo tem que ser salvo de quê exatamente? E os tais Deuses Digitais? O que quis dizer com Digiescolhidos? E digimons?
— Bem, acho que as respostas estarão na Cidade dos Princípios — refurtou Salen, pensativo.
— E o que é digivices? — Joseph questionou. Aquela era uma boa pergunta. Salen adivinhou.
— Talvez seja isso. — E o menor do grupo pegou do bolso de sua calça branca um pequeno aparelho em formato de octógono…
— Ah! Eu também ganhei um. — Haruka mostrou o seu.
— E eu. — Lua também mostrou o seu. Era do mesmo formato, e com os dois botões embaixo da pequena tela quadrada. A diferença estava nas cores: o seu era coral e rosa com um toque de verde.
— Todos nós — comentou Tila, ela e Joseph mostraram os seus. O dela era prateado e verde-exército, e o dele era azul-celeste e turquesa. — Olhem, ligaram.
— Estão mostrando mapas, do mesmo lugar. Essas coordenadas apontam para o norte. Temos que ir para lá — argumentou Salen.
— Tá legal, pequeno nerdzinho — zoou Joseph. — Mas não vai ser agora, né? Quero comer e dormir.
— Pode ficar aí, preguiçoso. — Tila se levantou, determinada. — Eu vou procurar logo por essa tal Cidade dos Princípios. — Já estava de saída, mas Salen a segurou.
— Não, Tila! Já vai anoitecer, não é prudente irmos agora. — Realmente, o dia se fora, uma noite estrelada tomara seu lugar.
— Ahn?! Mas como pode? Acabou de amanhecer! — Haruka se sobressaltou.
— Parece que ficamos andando a manhã e a tarde inteira — observou Lua. — Minha nossa.
— Vamos acampar aqui — decidiu Salen, então todos, calados, foram montar as barracas (se enrolaram mais que fio de tomada. Apenas Tila era profissional em montar barracas). Estenderam o grande pano de piquenique que viera em uma das sacolas e arrumaram a comida nos pratos descartáveis que haviam vindo nas caixas.
— Olha, Coca-colas! — Haruka tirou dez latinhas vermelhas de uma caixa térmica.
— E minha Antártica! — Joseph abraçou uma garrafinha com rótulo verde.
— E o livro de teoria da gramática que eu estava lendo. — Salen sorriu para o grosso livro coral que tirou da mochila preta.
— Cruzes! Quanto mal gosto. — Joseph fez careta para o livro teórico.
— Não zombe do meu irmão só porque não é capaz de ler algo do nível dele, miolo mole — disse Tila, indo para sentar ao lado de Salen.
— Me chamou de quê, sua tábua de passar roupa? — Joseph se aborreceu, Tila também.
— O que foi? Tábua?! — Ela se pôs na frente dele, o encarando.
— É isso mermo! — Joseph confirmou, e os dois começaram a se atracar (Joseph levou a pior).
— Gente, para de brigar! — pediu Lua.
— Deixa eles. — Haruka a impediu de se intrometer na briga. — É amor a primeira vista.
— Ei, Tila, e você! Parem de brigar feito crianças, por favor. — Salen conseguiu aquietar os brigões.
— Nós ainda não sabemos os nomes uns dos outros, né? — Haruka disse tentando ser simpático, enquanto todos se reuniam. — Eu sou Haruka.
— Lua. — Ela sorriu meio sem jeito.
— Salen — ele disse amenamente.
— Tila. — Ela deu de ombros.
— Joseph. — Ele coçou o nariz. Tila o olhou feio.
— Vamos comer, antes que as Cocas esquentem e os burritos esfriem — falou Haruka para desviar a atenção de Tila de Joseph para impedir uma nova desavença.
Finalmente, eles foram comer, cheio de dúvidas e preocupações os rondando. Salen, por um instante, não parou de pensar na profecia que Lírian recitara. Enquanto isso, comia e observava Lua, Joseph e Haruka. Os três pareciam boas pessoas, apesar de Joseph ser um barraqueiro. Suas roupas estavam apresentáveis. As de Lua e as dos dois meninos também: ela usava um quimono curto, short, camiseta e chinelos; Joseph vestia calça jeans larga, blusa verde-escura e casaco preto, os tênis de corrida também pretos com partes em laranja; Haruka usava blusa de mangas compridas branca, uma camisa de mangas curtas violeta por cima, bermuda jeans lavada e tênis azuis e prateados.
Salen se atinha aos detalhes em volta para não tentar pensar demais em seu avô. Será que ele estava vivo ainda? Nem tivera tempo para perguntar nada a Lírian. Deus, impeça que ele morrer, por favor…
Lua ficou pensando no que poderia ter acontecido ao pai e a mãe (não se preocupava com Albert, não ligava para o que tivesse acontecido com ele. Não que fosse uma menina má, mas ela sente raiva de gente preconceituosa, assim como eu, e você também, espero que sim).
Joseph imaginava o que seus pais estariam achando de seu desaparecimento — o pai provavelmente acharia que fugiu para não ter que viajar, a mãe devia estar enchendo o saco da polícia para encontrar seu filhinho (ele amava aquela mulher mais do que a si mesmo, e fazia bem). Quando voltasse para casa, iria tentar ser um bom filho para sua mãe. Ela merecia.
Haruka não parava de pensar na família, como estariam lidando com seu sumiço, principalmente a mãe e Suya. Se ela estivesse aqui, o que acharia disso tudo? Como ela agiria nessa situação, ao saber que tem que foi escolhida por um deus e que vai salvar um mundo feito de dados? Milhares de dúvidas e pensamentos negativos o dominavam. Tudo que ele queria era reencontrar sua família.
Se vim para cá, tem como voltar. Eu irei descobrir um jeito de ir pra casa.
Aquela seria uma noite longa.
— Foi só eu, ou mais ninguém entendeu aquela profecia? — perguntou Joseph. A forma como ele fez a pergunta e a careta que ele fez foram simplesmente hilárias. Os outros acabaram rindo, mesmo Salen, que era o mais sério dentre eles.
Talvez a noite não fosse tão longa assim.
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