Digimon Zero: The Lost Gate

3 Capítulo 3 (Episódio 1) - Ria, Ria, Luazinha


Notas iniciais
Esse cap. é meio pesado, espero que não deixe ninguém assustado ou muito bolado. Essa é a terceira personagem nova que vai aparecer. Enfim, boa leitura, pessoal.

Lua andava rápido, praticamente corria. Ela não podia demorar, tinha que encontrar com sua mãe, aquela que seu pai falou mal por anos, mas Lua se lembrava de como ela a ama — tinha apenas quatro anos quando seus pais se divorciaram e se mudou para Tóquio com seu pai, que ficou com sua guarda, mas sabia que sua mãe a amava. E poderia pela primeira vez ver Albert, o primeiro irmão que teria na vida, mesmo não sendo de sangue. Agora que mamãe vai se mudar para cá, poderei visitá-la quando quiser. Papai não vai poder me impedir. E vou ganhar um irmão! A pequena garota argelina torcia para Albert ser legal e gostar dela, claro. Ela estava tão, mais tão feliz! Seu coração balançava veloz dentro do coração, por causa de sua ansiedade.

O pai de Lua fora contra a ideia da filha, mas Lua não ligou para ele e foi comprar assim mesmo presentes para a mãe e seu futuro maninho. Então foi a uma loja de conveniência nos arredores do aeroporto, comprou um relógio caro (feito de prata, quem pode, pode, né, gente?) para Albert e um conjunto de joias para sua mãe, brincos e colar de ouro decorado de safiras (menina exagerada essa Lua, hein). Agora levava os presentes para os dois, que a essa altura já deviam ter desembarcado do avião que pegaram em Boston para Tóquio. O dia estava lindo e tudo corria muito bem.

Ofegante, chegou a área de embarque/desembarque do aeroporto. Parou de correr, quase topando com o pai.

— O que houve, Lua? Por que toda essa pressa? — ele perguntou curioso a olhando, estava sentado numa das cadeiras que tinham por ali, lendo um jornal do dia (tantos kanjis juntos deixava Lua tonta).

O pai é muito parecido com ela, menos na cor da pele (a dele é branca, a sua é negro-clara). Os mesmos cabelos castanho-alourados cacheados e os mesmos olhos amendoados do mesmo castanho-avermelhados. Ele estava bem com aquele blusão social branco listrado e a calça também social de cor bege, os sapatos ingleses tinham sido engraçados naquela manhã antes de virem para o aeroporto. Seu pai parecia de bom-humor, mas tinha plena noção de que ele ficaria de mau-humor quando sua mãe aparecesse. Mesmo sabendo qual seria a reação dele, indagou:

— Eles chegaram? Mamãe e Albert?

— Ainda não. O voo atrasou um pouco — o pai respondeu indiferente, descendo os olhos para a notícia que lia — Parece que vão demorar um pouco.

Lua fez biquinho e tentou ao lado do pai, pegando seu ioiô de madeira, um presente manual dado pelo pai quando ela tinha seis anos, do bolso da bermuda que usava por baixo do quimono, e ficou brincando de subir e descê-lo, enquanto a mãe e Albert não apareciam. Ficou pensando em todas as coisas legais que poderia fazer junto com a mãe. Plantar, cultivar flores, ver ovos de tartaruga chocarem na praia, tratar de passarinhos machucados… Eram tantas coisas que nem sabia o que iria querer fazer primeiro! (Que menina mais fofinha, ela pensava que se plantasse flores e mudas de árvores salvará o planeta. Tão iludida, a coitada…).

Faltavam quinze minutos para as 10h da manhã quando a mãe de Lua e seu filho postiço, Albert — filho do falecido marido da mãe dela —, chegaram. Desembarcaram e logo encontraram Lua e seu pai. Lua reconheceu a mãe rapidamente, apesar de anos sem vê-la. Aquele cabelo castanho estilo black power, os olhos verdes somados ao nariz fino e longo e ao xale verde-claro que cobria seus ombros não deixavam dúvida, era sua mãe! Mamãe ama xale e tem marcantes olhos verdes, só pode ser ela!

A primeira reação de Lua foi correr e abraçá-la.

— Lua, é você? — perguntou a mãe ao retribuir o abraço.

— Uh-hum! — confirmou a garota rindo. Estava tão alegre que seu coração não se aguentava dentro dela de tanto nervosismo. Não pode conter-se mais e se pôs a chorar histérica. — Po- po- por que a senho- ra não ve- ve- veio antes?! Queria muito te ver! Por quê só agora? — Soltou a mãe, que a olhava com os olhos empoçados de lágrimas.

— Eu queria te ver também, mas não tive condições de vir para cá por muito tempo. Quando finalmente podia comprar passagens e vir, seu padrasto não deixou. Ele não queria que eu visse seu pai e nem você. Me perdoa?

— Claro que sim, mamãe. Tá tudo bem agora. Nada mais vai nos separar agora.

— Sim, filha, com certeza — assentiu a mãe, enxugando algumas lágrimas. — Ah, esse é Albert. — Indicou seu filho de consideração, que estava atrás dela, com as mãos nos bolsos da calça, entediado. — Vamos, Al, dê um olá para sua nova irmãzinha. — Ele veio para a frente, e a alegria de Lua murchou.

Albert não era o que Lua esperava. Pelo o que sua mãe dizia através dos telefonemas, o garoto parecia ser bondoso, educado e gentil. Ele não era nem uma coisa nem outra. Era totalmente o inverso.

A aparência era igual ao que a mãe costumava dizer. Alto, branco e magro, de cabelos curtos e arrepiados de um tom claro de louro. Os olhos também eram verdes, mas mais para azul, o nariz era arrebitado e nos lábios tinha um sorrisinho maldoso, quase pervertido.

— Oi, você deve ser a Lua. Eu sou Albert — apresentou-se, estendendo a mão. A segunda coisa que Lua detectou foi o olhar cruel dele. Não, devia, tinha, que ser sua impressão. Não podia estar vendo mesmo aquilo. Tinha que estar enganada!

— Oi… — depois de um tempo Lua finalmente conseguiu falar. Ficou sem-graça por não dar a mão para o garoto de primeira, mas não estava tão mais feliz em conhecê-lo. Mas agora era tarde demais, ele viria morar com sua mãe agora em Tóquio e teria que se acostumar a ele. Não, não! Albert deve ser uma pessoa legal. Eu que estou nervosa e maldando os gestos dele. É isso! Convence-se, largando a mão dele. Sorriu e ele sorriu de volta, ainda sustentando aquele olhar perverso. Lua desviou o olhar, vendo sua mãe conversar com seu pai um pouco distante deles.

— …precisava mesmo morar aqui? Não bastava uma visita? — perguntava o pai sem um pingo de paciência.

— Eu quero morar onde minha filha está. Não vou perder nem mais um ano da vida dela. Entendeu? — a mãe retrucou séria.

— Ei, não- — Lua começava a ir até eles, mas a impediram de prosseguir. — Ahn? — Virou para ver quem a segurara. Fora Albert.

— Se eu fosse você não me meteria. Deixa eles se virarem — aquilo seria um conselho, se Albert não fosse desagradável.

— Você não pode me impedir de falar com eles. — Ela franziu o cenho, bolada com ele.

— Posso, sim — afirmou Albert, dando aquele sorriso sujo de novo. Calafrios horríveis percorreram o corpinho de Lua. — Olha aqui, garota, não vou fingir ser o que não sou. Nunca vou aceitar você como minha irmã. Sempre fui sozinho, não preciso de irmã nenhuma, ainda mais uma da sua cor. — Ela arregalou a boca e os olhos, chocada. O que ele acabara de dizer? Que não gostava de sua cor? É um problema para ele eu ser negra? Questionou-se apavorada, jamais lidara com um comentário racista, e não esperava que o primeiro fosse ser daquele que deveria tratá-la bem (eu sou o narrador e tudo mais, mas dessa vez eu preciso me meter. Racistas são desprezíveis! Nem deveriam existir, assim como os homofóbicos e todos os outros imbecis preconceituosos. Ok, parei por aí. Ficar só reclamando não vai resolver os problemas). — Acha que gosto da Angela? Eu só fingo, nunca poderia aceitar uma mulherzinha negra como minha mãe. E nem quero um padrasto daqueles.

— Seu nojent- — Albert tampou a boca de Lua, ela grunhiu e mordeu a mão dele.

— Ai! — gemeu, espremendo o braço direito de Lua entre os dedos e segurando-a pelo queixo com a mão que fora mordida. — Me morde assim de novo e viro sua cara pra trás.

— Mamãe-! — Lua tentou pedir socorro, mas Albert não permitiu, puxando-a pelo braço.

— Não a chame, senão eu quebro o seu braço — ele ameaçou, Lua o olhou aterrorizada. — Sua mãe me adora. Vai fazê-la me odiar? Quer mesmo vê-la sofrer? E se falar mal de mim para ela eu juro que te arrebento. Então vamos fingir que nos gostarmos e assim ninguém sofre. — Lua abaixou a cabeça, engolindo em seco. — Ok? — Grunhiu, a raiva e o horror reviravam seu estômago. — O quê? Eu não ouvi. — (Molequinho escroto, dá um soco na cara dele, Lua!).

— Está bem… Albert… — Lua disse forçada, e ele largou seu braço. Ela esfregou o úmero, que agora doía por causa da força com que ele o segurou.

— Nem uma palavrinha para sua mãe. Senão já sabe.

Lua se afastou de Albert (se ela não fosse tão boazinha, ele estaria com a cara arrebentada agora. Pena que nossa Lua é uma menina ingênua) e andou até os pais de cabeça baixa, ele não viu, estava mexendo em suas malas. Chegou na mãe e disse que ia no banheiro e já voltava, entregou os presentes embrulhados ao pai e, sem dizer mais nada, saiu correndo. Iria para lá chorar trancada em alguma cabine. Precisava recuperar a calma para sua mãe não perceber que tinha algo de errado. Recomeçou a chorar antes mesmo de chegar lá, agora suas lágrimas eram de tristeza, medo e decepção.

Mamãe e papai precisam saber que Albert é malvado! Mas se eu contar… Se eu contar- Pensou, começando a soluçar violentamente no compasso de seus passos. As coisas não iam ficar bem como gostaria. Seu sonho de ter um irmão acabara-se de ser destruído. Albert era um garoto mal e preconceituoso que tentaria transformar sua vida num inferno.

Foi assim que, correndo sem destino, esbarrou em alguém. Pediu desculpas no automático, nem parou para ver em quem esbarrara. Foi dessa forma que o portal digital, o mesmo que engolira Haruka e Joseph, apareceu para ela.

Lua nem chegou a ver nada. O portão abriu para ela e a tragou. Ela só se deu conta do que aconteceu do lado de dentro, já flutuando no espaço interminável de números. Ela gritou pelo pai e pela mãe, à medida que era transformada em códigos, mas ninguém podia ouvi-la.

Não! Papai! Mamãe… Chorou, e dessa forma, sozinha com seu desespero, a pobre menina se tornou dados digitais.

Notas finais
É isso que tenho por ora. Nos vemos no cap. seguinte. Beijos e abraços para todos!