Digimon Zero: The Lost Gate

4 Capítulo 4 (Episódio 1) - Uma Dupla pra lá de Incomum


Notas iniciais
Já faz um tempinho que não apareço, não é mesmo, gente? Enfim, acho que não tenho muito a dizer, só de que esse é o último capítulo de apresentação dos personagens principais, a última parte do episódio um.

Nós iremos viajar para o Japão com nosso avô, que assinará um contrato com uma empresa de transportes de Tóquio. Ele tem uma concessionária e quer fazer negócios com eles, não sei exatamente pra quê, mas quer. Vai entender vovô, ele anda mais estranho cada vez mais. Enfim, como não temos outro responsável legal, teremos que ir com ele. Eu não gosto muito de yakisoba e sushi, mas Salen e eu não temos outra escolha. Bem, ao menos vai ser uma viagem rápida.

Tila acabou de escrever em seu diário e fechou o parágrafo com um “Estou indo me arrumar agora. Daqui a pouco teremos que ir pro aeroporto. Até daqui a pouco, Night. Fechou seu diário, engatando a aba da caneta na capa desse, continuaria a escrever dentro do avião. Levantou da cama de lençóis vermelhos, andou até o armário, abriu-o e escolheu rapidamente suas roupas (não é do tipo vaidosa e sempre acaba de se aprontar antes de seu irmão. Salen é tão caprichoso…).

Por falar nele, Salen já escolhia as roupas com que sairia, e já fazia isso por quinze minutos, provando roupa após roupa, mais nenhuma parecia lhe cair bem. Só ficou satisfeito na vigésima camisa provada, na décima sétima calça e no terceiro par de mocassins que calçou; o conjunto terminou todo em tons de cinza, branco e preto. Também pôs pulseiras com tachões prateados e um colar. Se olhou no espelho e sorriu. Agora estou bem.

Saiu do quarto e desceu para o primeiro andar do casarão. Seu avô Aristóteles e Tila o esperavam lá na sala de estar, perto da porta principal da residência.

— Olha ele aí, Tila — avisou Aristóteles ao ver o netinho de intensos cabelos vermelhos.

— Até que enfim, Salen! Pensei que teríamos que esperar por mais uma eternidade! — reclamou Tila aborrecida. Odiava esperar pelos outros, no caso de Salen o que a irritava mais era a vaidade enorme dele. Mas cá entre nós, ela achou que ele estava lindo, tirando que ele já era lindo (modéstia parte). Salen é pequeno e franzino, sua tez é branca, lembra o marfim, e seus olhos azuis, parecem água debaixo da superfície de um bloco de gelo. Os cabelos ondulados dele se assemelham a brasas escaldantes, vermelho-alcaçuz, e lhe alcançam as omoplatas. Ele era uma representação de gelo e fogo perfeita.

Salen então se desculpou por atrasá-los:

— Perdão, não pretendia demorar-me tanto assim.

— Tudo bem, vamos logo. — Tila deu de ombros, abrindo a porta. — Se não a gente não vai chegar a tempo pro voo — ela lembrou, transpondo a porta, Salen e o avô a seguiram, o menino foi o último a sair, portanto trancou a porta. Era verdade, já eram quase seis da manhã. O avião em que deveriam embarcar sairia as seis e dez, por sorte moravam perto do aeroporto, então não tinha o perigo de perder o voo.

Tila não se preocupou em levar muitas malas, ao contrário de Salen, ele trouxera bastante delas, algumas abarrotadas de roupas, esmaltes, acessórios com spikes e pares de brincos também (na opinião da irmã, era um monte de inutilidades). O avô se contentou com duas bolsas de mão grandes e uma mala.

Eles arrumaram as malas no porta-malas do carro quatro por quatro do avô e foram o mais depressa para o Aeroporto Roissy.

Chegaram bem na hora que o voo partiria de Paris para Tóquio.

No voo, Tila e Salen, para matar as primeiras horas de tédio dentro do avião, resolveram repassar os kanjis básicos do japonês. Pelos cálculos de Salen (e o menino nunca erra), chegariam ao seu destino por volta das nove e cinquenta e dois, nem seria dez quando o avião pousaria. Queriam ver se não haviam esquecido de nada (bem, Tila queria ver se não esquecera nada. Salen sabia a língua japonesa de cor e salteado, e memorizara cada um dos oito mil kanjis, só se enrolava com uns dez).

Tila queria estar em qualquer lugar, pegando uma onda ou jogando vôlei, ou tênis, ou pingue-pongue, ou basquete, ou correndo uma pista de cem metros, mas não. Estava naquele lugar fechado, a milhas de metros do chão, treinando japonês com Salen, seu irmãozinho poliglota. Só não estava uma chatice total porque ele estava ali, e ele que estava lhe tirando suas dúvidas, então menos pior.

Salen também preferiria estar tocando sua guitarra, estudando geografia ou lendo um bom romance, mas sua irmã pedira ajuda, então iria ajudá-la (e adora ensinar, ele não ligava de doar seu tempo para tirar dúvidas, ainda mais sendo de sua querida irmã).

Quando Tila tinha alguma dúvida, pedia ajuda para Salen, e isso acontecia com mais frequência do que ela gostaria. Não sei como Salen consegue aprender tantos idiomas em tão pouco tempo. Ele só tem dez anos e já aprendeu dezenove línguas. Há alguns anos, ela ficava espantada no desempenho gigantesco do irmão caçula, agora nem se surpreendia mais. O garoto apenas tinha memória de elefante e uma vontade incontrolável de adquirir conhecimento. Ainda lembro da primeira vez que Salen aprendeu a fazer função de segundo grau e Bhaskara, aos quatro anos. Até hoje nem sei fazer uma parábola. E quando completou dois, tinha dominado o francês e o inglês. Sinceramente, ela tinha de admitir, Salen era tão talentoso e inteligente que chegava a ser paranormal.

* * *

O avião pousou em Tóquio bem na hora que Salen achara na conta, às 9h52. Eles desembarcaram e chegaram na área de embarque/desembarque faltando um minuto para as 10h. O avô das crianças recebeu uma ligação, era um dos atendentes da empresa com que firmaria um contrato, que avisou que um dos empresários da empresa, o sr. Sakamoto Touki, o receberia do lado de fora do aeroporto.

Aristóteles encerrou a ligação com um “sim”, e avisou, virando para os irmãos:

— Vovô vai ter que sair por um tempo. Podem esperar um pouco aqui, crianças? Daqui a pouco eu volto. Ah, onde é que estou com a cabeça? Não posso deixar dois menores sozinhos.

— Vai, vô. Eu posso ser de menor, mas sou bem independente. E Salen se vira sozinho, nem precisa de ninguém o supervisionando.

— Acho que já sei formas possíveis de sair do aeroporto sem ser pela saída principal.

— Apenas com uma observação? Esse meu neto é mesmo surpreendente!

— Vai, pode ir, vovô. Sabemos como nos cuidar. Vamos ficar bem.

Assim, Aristóteles foi-se encontrar com o tal sr. Sakamoto e Tila e Salen ficaram tomando conta das bagagens, sentados em alguns dos bancos da área de embarque/desembarque do aeroporto. Sem ter muito o que fazer, Tila ficou repassando os kanjis que aprendera na viajem para ali e matutando como seria divertido escapulir e seguir o avô para ver a cara do tal empresário que tinha vindo em nome da tal empresa idiota de transportes. Quem sabe fizesse o avô parar de ter olho gordo numa companhia de outro país.

Já Salen ficou revivendo seus emocionantes momentos em sala de aula do ano anterior, quando se formou no fundamental. A partir daquele ano seria diferente, pois entraria direto para o ensino médio, com apenas 10 anos de idade. Diziam que ele devia estar feliz com aquele avanço espetacular, mas não estava. Não pedira para nascer com o Q.I. acima do normal, tudo que queria era ser como as outras crianças: completar cada série dentro de um ano, para então, com quinze ou dezesseis anos, começar o ensino médio. Mas por ter uma inteligência apurada, via-se na obrigação de agradar aos adultos com suas notas excelentes, e já que não se via no direito de fazer objeções, não discutia, não retrucava, só abaixava a cabeça e aceitava as coisas, tentando se adequar ao que a situação pedia (era muito peso nos ombros de uma criança de dez anos, mesmo para uma que era gênio acima da média).

— Você está bem, Salen? — Tila tirou o pequeno irmão do plano da imaginação ao perguntar. Ele a olhou meio aéreo. — Pensando no quê?

— Na minha escola antiga. Não poderei voltar para lá, agora que vou ingressar no segundo grau… — ele desabafou, quase incrédulo. Ainda não tinha aceitado aquilo. — Nem acredito que isso é verdade.

— Você é um garoto fora do comum, óbvio que não continuaria perdendo tempo no fundamental — falou Tila despreocupada.

— Perdendo tempo? — Salen se ofedeu com o que a irmã disse. — Eu queria continuar nele, e ir ano que vem para a quinta série, Tila. — Ela se espantou com essa declaração. — E você disse que eu estava perdendo meu tempo?

— Espera, Salen. Você- — Ele não a deixou terminar.

— Tudo que eu queria era ser normal, mais um na multidão! — bradou indignado. — Nunca agradou-me ser especial, isso me incomoda grandemente. — Socou o banco a seu lado, estava mais revoltado que já estivera em sua vida inteira. — Por mim não seria nada mais que um aluno com a nota da média.

— Salen… — Tila se sentiu mal pelo irmão, querendo entender se ouvira certo mesmo. Ele não gostava de ser um prodígio? Ela adoraria, se estivesse em seu lugar!

— Isso é tão irritante — reclamou Salen. — Por que não recusei a oferta de avançar direto para o médio? — perguntou e se respondeu — Ah, porque queria agradar vovô, agradar você. Não podia decepcioná-los com um capricho desses, seria egoísmo de minha parte. — Sua raiva se abrandou quando se deu conta de que estava descontando toda sua agonia em sua irmã, sua querida maninha, aquela que sempre lhe estendera a mão. Menos para isso. — Desculpe-me, irmã, não queria ser tão trivial… — ele pediu, despencando em lágrimas de nervosismo. — Mas você e vovô nunca perguntaram se eu gostava de me esforçar tanto!

— Ei, ei! — chamou Tila assustada e brava. Se ele não gostava disso, por que nunca falara antes com ela? Sentiu-se totalmente desamparada. — Salen, olha pra mim! — Segurou-o pelos ombros. — Não tinha problema você negar, falar que não queria pular para o segundo grau. Se tivesse falado com o vô, tenho certeza que ele teria te entendido.

— Sério? Não teria brigado nem nada? — perguntou manhoso com direito a biquinho.

— Sim — afirmou Tila. — Ainda tem tempo. Se quiser, pode falar quando ele voltar depois de fazer aquele contrato inútil com o empresário panaca, tá ok?

Ele apenas assentiu, afinal, eles não precisavam de palavras a todo momento, e se abraçaram em silêncio. E logo se largaram, olhando olho no olho — sempre haviam conseguido se entender bem apenas se olhando, esse era um talento que ambos irmãos Gewandsznajder compartilhavam.

— Perdão se estou atrapalhando algum momento irmão e irmã. — Um homem enviado num terno de linho branco de luxo chegou para seu lado, com um grande sorriso polido aberto para eles.

— Quem é você? — indagou Tila, envolvendo Salen com um braço protetor, que enxugou as poucas lágrimas que ainda desciam com um lenço que trazia no bolso de seu casaco preto e verde-azulado.

— Esse é o sr. Sakamoto. — Apontou o avô deles para o homem de branco, que vinha logo junto. Salen guardou o lenço de volta no bolso. — Esses são meus netos, Salen e Tila.

— Prazer, crianças — disse Touki, esticando uma mão grande. Tila não deu a mão para ele, Salen deu, não era dado a mal-educado, mas se arrependeu. A mão do homem de branco era áspera feito uma lixa velha e muito cortante. Salen se soltou da forma menos brusca possível, esfregando a mão com a outra discretamente enquanto sorria simpático para Touki.

— Seu avô e eu já fizemos o contrato, mas resolvi vir aqui para conhecê-los, o senhor Aristóteles elogiou muito vocês.

— Obrigado pela atenção, senhor Sakamoto. — Tila fez uma careta e não concordou com Salen, deixando bem claro que não estava feliz em ver aquele mané de terno. Touki percebeu a raiva da garota com ele e prendeu um riso.

— Seus netos são adoráveis, meus parabéns — Touki elogiou da boca para fora, disfarçando seu jeito cínico e dizendo a Aristóteles. Essas crianças são detestáveis. Pena que não posso pulverizá-los aqui e agora. A senhora Aíria quer eles inteiros. É uma lástima. Pensava, irritado.

Esse homem não é de confiança. Ele me dá calafrios. Pensou Salen, atento a todos os movimentos de Sakamoto.

Esse cara não vai mais embora, não? Perguntou-se Tila nem um pouco interessada em Touki e seu cabelo lambido.

— Aqui está a maleta com os comprovantes do contrato entre a empresa Suzuki e sua concessionária. — Essa sensação... Touki até parece não ser normal. Salen pressentiu, sentindo uma aura maligna irradiar dele. Não sabia como explicar aquele sentimento, só de que era certo. Também não via tal aura, só senti-a. Realmente, ele é estranho, mas... Continuou a pensar, intrigado com os olhos do homem de terno branco, que parecia variar entre preto e violeta. E uma ideia muito sem-noção para alguém realista como ele veio a sua mente. Será que ele não é huma-?! — …então vou levar seus netos para minha mestra, se não se importa. — Os pensamentos de Salen foram interrompidos por essas palavras, e um dos homens que acompanhavam Touki puxou uma pistola do paletó.

— Fujam, crianças! — Aristóteles só teve tempo de gritar isso.

Um disparo ecoou pelo saguão. Sangue jorrou do peito do velho senhor Aristóteles. Vendo os olhares de desespero de seus netos, ele soltou com a voz entrecortada:

— Fujam enquanto podem. — Suspirou e caiu no chão com um baque, o chão espalhou a sua volta, perdendo calor rápido. As pessoas gritaram ao ver aquela atrocidade, chamando a polícia ou fugindo com todas as forças de suas pernas, crianças choravam, menos Tila e Salen. Eles estavam chocados demais para se mexer.

O homem cruel que sacara a arma, um dos capangas de Touki, apontou para os netos de Aristóteles, só esperando o comando de seu chefe.

Tila, recobrando seu instinto de sobrevivência, agarrou Salen pela mão e correu, forçando-o a fazer igual.

Os dois correram, com Touki e seus imediatos em seus calcanhares. Balas voaram em sua direção, por pouco não morreram nos tiros que se sucederam.

Como que para salvar o dia dos irmãos, o portal virtual apareceu diante deles, com suas portas verde-acabate escancaradas. Uma potente ventania sugou as crianças, fazendo-as voar por alguns ínfimos milissegundos. Touki, praguejando, tentou impedi-las, mas não conseguiu.

— Não pode ser... Droga! — berrou ao ter o braço que estendera para pegar as crianças cortado pelas portas.

Que lugar é-? Aaaahhh!!! — gritou Tila, sendo desfeita em digi-códigos numerais na imensidão virtual.

Não me deixe, mana! — Salen tentou alcançá-la, mas foi reduzido em lascas digitais, desfazendo-se em combinações numéricas, misturando-se aos zeros e uns que vagavam no espaço digital, zero e um, zero e um, zero e um… Infinitos.

Notas finais
É só isso, pessoal. A gente se vê em breve!