Digimon Story: Convergência
2 Capítulo Dois: Tela Estática.
Notas iniciais
Digimon Story — Convergência.
Arco I – Incidente de Diwa.
Capítulo Dois: Tela Estática.
Enquanto Hawkmon preparava o próximo ataque, o corrompido com um grunhido de raiva, alongou seus braços num borrão e atingiu o pequeno Digimon gavião o fazendo voar pelo corredor, parando apenas quando bateu contra uma pilastra. A Luz em torno de seu corpo oscilou.
— HAWKMON!
Ren correu até ele e caiu de joelhos apoiando o corpo do Digimon sobre os braços, Hawkmon tentou se levantar com a ajuda, mas suas patas não tinham forças para ficar em pé, tremiam e cediam logo em seguida, o impacto tinha sido muito forte para o corpo dele.
— Perdoe-me... parece que só consigo ir até aqui Ren-dono.
— Pelo quê? — questionou com a voz urgente.
— Ainda não sou forte o bastante para cumprir adequadamente meu dever.
— Que dever? — os dedos apertaram mais o Digimon em seus braços. — Você lutou muito bem, essa coisa é que...
Antes que pudesse terminar o que dizia o corrompido soltou outro rugido, erguendo o braço preparando mais um ataque. Seu núcleo permanecia exposto e pulsante. Monitores e telas espalhadas pelo velho prédio acenderam ao mesmo tempo.
Ren pode ver novamente o rosto de sua irmã refletido em cada tela. Assim como para a garota do outro lado da sala aparecia um rosto masculino cansado e com a barba por fazer. Não era uma lembrança ou um aviso de que estavam vivos, não.
Era como uma isca, e os dois adolescentes mesmo assustados com o que viam tinham experiencia básica por fóruns e avisos emitidos pela B.R.A.N.C.H. que anomalias como aquela poderiam acontecer.
Isso não queria dizer que deixava a coisa menos perturbadora. Os rostos refletidos sorriam e tinham uma expressão convidativa. O que desarmou completamente as defesas de Ren. Estava entregue, ele e Hawkmon em seus braços eram alvos fáceis.
CRASH!
O som de um monitor quebrando tirou o garoto do estado de transe. Olhou de relance para de onde vinha o som e viu a garota de pé ao lado de um deles que tinha um vaso de flor o atravessando.
— ACORDA! — a garota gritou.
Tarde demais. O corrompido já estava a centímetros dele, o braço longo e magro já estava perto demais para desviar.
A mão parou com as pontas dos dedos já tocando a pele quente e rígida de Ren que esperava o ataque.
Tic.
O som delicado de uma unha batendo contra o metal ecoou pelo corredor.
O braço monstruoso permanecia suspenso, envolvido por uma mão negra, longa e elegante. Uma voz feminina surgiu junto com um perfume impossível de existir naquele corredor cheio de poeira e fios queimados.
— Que criatura indelicada. — A voz carregava diversão, mas nenhuma pressa. — Interromper um momento tão tocante é de péssima índole.
Uma cortina de escuridão surgiu ao lado do corrompido e dele surgiu ela. Alta, imóvel, recortada pelas luzes que agora piscavam nos monitores e telas. As asas negras ocupavam quase toda a largura do corredor. Correntes pendiam de sua roupa e tilintavam devagar, apesar de não haver vento. O braço que segurava o inimigo parecia fino demais para conter aquela força.
Mesmo assim, o Digimon corrompido não conseguiu mover um único centímetro. Dando um sorriso simpático inclinou o rosto na direção dele.
— Agora... vamos lidar com você.
A criatura gritou e tentou se fragmentar em glitches. Isso fazia o sorriso dela aumentar ainda mais.
— Não. Você fica. — Os dedos pressionaram mais forte.
Linhas escuras percorreram o braço do corrompido e invadiram suas falhas digitais. Cada tentativa de desaparecer era puxada de volta para o mesmo lugar, como se a própria distorção tivesse sido amarrada.
A garota da outro lado ergueu seu scanner, surpresa.
— Ela está estabilizando o padrão de corrupção...
— Prefiro pensar que estou ensinando bons modos a está pobre criatura. — Olhou de relance para ela.
— LadyDevimon.
Uma voz masculina surgiu, vinha do inicio do corredor, não era alta e nem precisava. Passos firmes ecoaram no corredor. Um homem alto surgiu, sobretudo escuro, luvas e barba curta. O cansaço em seu rosto não diminuía a autoridade com que examinou todo o cenário. Primeiro o Digimon corrompido. Depois Tanemon desacordada. Hawkmon, A garota. Por último, Ren.
Ele levou dois dedos a um pequeno comunicador preso ao colarinho.
— Kanzaki, unidade auxiliar de campo. Confirmação visual de convergência ativa no edifício Diwa, setor norte. Um alvo corrompido, dois civis menores de idade, dois Digimon parceiros não registrados no perímetro. Solicito isolamento de rede e contenção externa. Ninguém entra até segunda ordem.
Uma resposta metálica chiou no comunicador. Mas Ren não conseguiu a ouvir.
— Negativo. Eu assumo a responsabilidade local. Registre como risco classe três provisório.
LadyDevimon lançou lhe um olhar lateral.
— O senhor certinho chegou.
O homem não a encarou.
— Vim ter certeza que não passasse do ponto e derrubasse o prédio.
— Ah! Tão lindo se preocupa comigo então. — A voz dela soava extasiada e docemente.
— Não é hora e nem lugar pra isso. — O tom autoritário, apenas a vez soltar um sorriso satisfeito.
— Deixe de cortar muita onda August. — Mantinha o tom perigosamente doce.
O corrompido se debatia entre os dedos dela, chamando a atenção de August para um analise visual dele.
— Núcleo exposto. Alimentação parasitária na infraestrutura. Padrão de teleporte incompleto e múltiplo, pelo jeito eram um Hagurumon e um Keramon. Sinceramente, mesmo depois de dezessete anos ainda não entenderam que só um pode passar por portal. — Analisava cada detalhe que podia, a voz calma e controlada.
Neste ponto já estava ao lado da garota e a passos de LadyDevimon e do corrompido. O que fez a garota se espantar com a pericia do homem diante de si.
— Você descobriu tudo isso apenas olhando?
— Não é tão difícil. — Ele apontou para uma caixa de distribuição, sem retirar os olhos do alvo. — Você, garota. Consegue isolar a linha principal?
Ela hesitou por meio segundo, ofendida pela forma como fora reduzida a uma descrição funcional.
— Consigo.
— Então faça. — O olhar dele recaiu sobre Ren. — Você. Fica com seu parceiro e não se move.
— Mas eu posso ajudar.
— No estado do seu parceiro vocês dois estão mais para peso morto.
— Ele descobriu o intervalo entre os glitchs — disse a garota, já trabalhando no painel. — Sem isso o núcleo ainda estaria protegido.
August avaliou Ren outra vez. O reconhecimento durou menos de um segundo.
— Ótimo, já fez o bastante. Agora obedeça.
Ren abriu a boca para argumentar, mas Hawkmon tocou seu ombro com uma asa.
— Creio que, ele esteja certo, Ren-dono.
— Mas...
August soltou um ruído que talvez fosse quase uma risada.
— Gosto desse.
— Naturalmente — LadyDevimon comentou. — Ele é sensato. Uma raridade neste prédio.
— Linha isolada! — a garota anunciou.
Todas as luzes de emergência, monitores e telas apagaram.
O corpo do corrompido sofreu uma contração violenta. As engrenagens diminuíram. Os cabos mergulhavam nas paredes para tentar puxar qualquer sinal de eletricidade, soltaram um após o outro.
O Agente ergueu a mão.
— Mantenha ele em contenção. Não destrua o núcleo.
Ela fitou o Digimon preso com uma expressão quase carinhosa.
— Ouviu, querido? Hoje você não teve sorte nenhuma. O homem sério quer você inteiro.
A criatura abriu a boca num chiado.
— Não precisa agradecer.
Sombras se estenderam das asas dela e envolveram o alvo. Em vez de explodir, o Digimon foi comprimido dentro de uma esfera de dados negros, camada após camada, até restar um fragmento pulsante do tamanho de uma moeda. LadyDevimon o apanhou entre dois dedos.
— Aqui está, uma boa aquisição.
August estendeu um recipiente cilíndrico emborrachado.
— Coloque aqui.
Ela deixou com cair dentro do recipiente.
— Você sabe tirar toda a graça das coisas.
O silencio que veio depois pareceu mais pesado que a luta. Ren voltou imediatamente para Hawkmon.
— Ei. Consegue ficar de pé?
— Acho que sim.
Hawkmon tentou. Quase caiu.
Ren o segurou antes que atingisse o chão.
— Será que foi mais grave do que parece?
— Se tivesse sido muito grave teria retornado a minha outra forma.
Ren assentiu, e voltou a o ajudar. Estava perto o suficiente para notar que pequenas falhas quase imperceptíveis entre as penas de Hawkmon. Não eram ferimentos comuns. Eram trechos do corpo dele tentando se recompor.
— Por que você me chamou de Ren, já me conhecia antes de se apresentar?
Hawkmon ficou em silêncio.
— Eu... não sei explicar corretamente.
—Tenta, por favor!
A ave olhou para a mão de Ren, ainda apoiada em seu peito.
— Eu não lembro de nascer. Não lembro de um ovo, nem de um lugar anterior a este. Lembro apenas de uma sensação. Como estar no escuro e ouvir alguém chamar sem usar palavras.
Ren perdeu o sorriso.
— Eu?
— Creio que sim.
— Mas eu não chamei ninguém.
— Talvez não conscientemente. — Hawkmon tocou o próprio peito. — Havia medo. Culpa. Saudade. E, por baixo de tudo, uma vontade tão insistente de não perder outra pessoa que ela parecia uma ordem.
Ren sentiu a garganta apertar.
Miyu voltou à mente, mas desta vez não na tela. Apenas a lembrança dela correndo no parque, reclamando porque ele tinha derrubado o sorvete.
— Então você apareceu porque eu estava com medo?
— Não. — Hawkmon respondeu sem hesitar. — Apareci porque, mesmo com medo, você ficou na frente de alguém.
Ren olhou para a garota de cabelos escuros, que agora segurava Tanemon junto ao peito enquanto conferia o aparelho danificado.
— Isso foi idiota.
— Bastante.
— Ei!
— Coragem e prudência não são a mesma virtude, Ren-dono.
Ele encarou Hawkmon por um instante. Depois soltou uma risada cansada.
— Você vai continuar me chamando assim?
— Até que me ordene o contrário.
— Para de me chamar de “dono”. Só Ren.
Hawkmon pensou com seriedade exagerada.
— Entendido... Ren.
A palavra saiu estranha na voz formal dele, quase íntima por contraste.
Ren estendeu a mão.
— Então... eu sou Ren Ayase. Oficialmente, dessa vez.
Hawkmon olhou para a mão como se fosse um ritual que precisava compreender. Em seguida, pousou a própria garra sobre ela com cuidado.
— Hawkmon. E, se me permitir, permanecerei ao seu lado enquanto houver caminho para percorrer.
Ren apertou de leve a garra dele e os dois sorriram cumprisses.
— Parceiros então!
— Com honra. — Hawkmon assentiu.
— Se a cerimônia terminou — August disse atrás deles —, precisamos nos retirar e deixar a equipe de pesquisa e limpeza cuidar do lugar.
Ren se virou.
O agente já havia guardado o recipiente e agora observava uma leitura no comunicador.
— A rede externa foi isolada, mas a convergência ainda não fechou. Vocês dois serão identificados, avaliados e ouvidos pelo setor de incidentes com civis da B.R.A.N.C.H. antes de irem para casa.
— “Ouvidos”? — Ren repetiu. — Tipo interrogados?
— Ouvidos, se fosse interroga-los estariam presos juntos com a distorção. — disse com um tedio na voz.
— Isso não tranquiliza ninguém. — A voz da garota foi ouvida se aproximando, Tanemon acomodada sem seus braços.
— Não é minha função tranquilizar crianças idiotas. — Encarou a garota como quem indaga-se quem era ela.
— Sara Kugimiya. — disse ela, antes que August questionasse verbalmente. — E não preciso de escolta.
O Agente parou por um instante. Por uma fração mínima de segundo, algo mudou em seu rosto ao ouvir o sobrenome. LadyDevimon percebeu. E seu sorriso alargou-se.
— Dr. Kugimiya... — repetiu ela, saboreando o nome como quem reconhece uma música antiga. — Agora a noite ficou interessante.
— Você conhecia meu pai? — perguntou estreitando os olhos.
— Não, querida. — LadyDevimon passou por ela, as correntes roçando o chão. — Mas conheço nomes que adoram reaparecer de tempos em tempos, mesmo aqueles que pareciam ter sido enterrados.
— LadyDevimon. — A voz de August ficou mais dura.
Ela ergueu as mãos em rendição teatral.
— Nem uma palavra mais e você sem perguntas. — August apontou para a saída.
— Rápido. Ayase, apoie Hawkmon. Kugimiya, mantenha Tanemon longe das superfícies afetadas. Não toquem em telas, cabos ou qualquer objeto que possa emitir estática. Se ouvirem vozes, ignorem. Se virem alguém conhecido dentro de telas, lembra-se que estas pessoas já se perderam.
Ren parou.
— Você sabe sobre isso?
— As convergências tendem a usar todos os meios possíveis para conseguir o que precisa.
— Inclusive memórias? — perguntou Ren.
— Principalmente se vocês perderam alguém.
Ren queria perguntar mais sobre isso e por que via a Miyu. Queria agarrar aquele homem pelo casaco e exigir que falasse tudo que ele sabia. Mas Hawkmon se apoiou um pouco mais em seu braço. Não agora. Eles começaram a caminhar. Quando chegaram ao fim do corredor, LadyDevimon ficou para trás.
— Vai ficar admirando a decoração? — August perguntou sem se virar.
— Só um instante August.
Um monitor quebrado, que deveria estar sem energia, acendeu no fundo da sala. Uma linha branca surgiu no centro da tela. Depois outra. E outra. As linhas se enrolaram até formar um símbolo: um olho entrelaçado por espirais, cercado de caracteres que não pertenciam a idioma algum conhecido.
Naquele momento LadyDevimon pareceu perder o sorriso e a atmosfera sedutora e imponente que passava. Por uma fração de segundos, sua expressão revelou algo que Ren não esperava ver nela.
Reconhecimento.
Não, talvez medo?
<< A Semente foi plantada >>
LadyDevimon fechou os dedos. E todas as telas, painéis e lâmpadas explodiram ao mesmo tempo.
— Algum problema? — questionou August.
Ela voltou a aura que passará até agora.
— Nenhum que você vá querer ouvir hoje.
August a encarou por um tempo, e desistiu de perguntar, sabia que ela só dizia aquilo quando algo a deixava preocupada.
Assim continuaram até a saída do prédio. Puderam ver e o beco e a rua de frente já estavam completamente isolados, três viaturas policiais, uma ambulância de pronto atendimento e duas da B.R.A.N.C.H.
Dois paramédicos chegaram correndo aos garotos onde faziam os atendimentos rápidos, checando ferimentos e fazendo os curativos para os superficiais. August olhou para os dois e seus parceiros.
— Estarei esperando os dois ali. — Apontou para um dos carros da organização.
Ren olhava para Hawkmon ao seu lado, enchendo o paramédico de perguntas sobre o estado dele. Pela primeira vez em anos, a loucura do novo mundo não pareceu ter levado tudo dele.
Desta vez, alguma coisa havia escolhido atravessar ela para ficar ao lado dele.
Alguns prédios de distância, uma figura olhava para a direção do prédio Diwa, vestia um sobretudo rasgado nas barras, botas grossas militares, usando uma máscara antigases, as mãos esfregavam uma na outra.
— Ah! Finalmente começou, o jardim logo florescerá. — O tom grave da voz poderia intimidar o mais formidável dos adversários, no entanto, não era o mais assustador.
Da fricção de suas mãos uma pequena espera de energia surgiu e se expandiu, formando uma espécie de porta pela qual ele passou em seguida sumindo com uma ultima olhada em direção ao incidente, estava satisfeito.
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