Digimon - O Mundo Dos Sonhos
7 Cap. 7 - Jonas
Notas iniciais
-Lucas.-
CAPÍTULO VII
JONAS
Na mesma manhã do meu teste prático na autoescola, Jonas passava por um momento de inquietude em casa e provocava um certo desconforto à sua mãe.
– Mãe, Karen tá chorando de novo!!! – Disse Jonas já impaciente com a irmã doente. –
– Seja paciente com sua irmã, menino! Ela tá com febre! – Respondeu irritada para ele. –
– Eu tô querendo ir na casa de Caíque, mãe. Tenho umas pesquisas pra discutir com ele.
– Pelo amor de Deus, né Jonas... Sua irmã doente, eu tendo que arrumar a casa e você pensando nessas loucuras que você pesquisa? Você precisa ter uma noção maior de prioridade!
– Mas mãe, não é qualquer pesquisa. É algo muito importante, tão importante que pode mudar o curso da história!
– Quer ver o que pode mudar o curso da história?
– Hum?
– Você fazer alguma coisa pra me ajudar e tentar distrair sua irmã pra eu arrumar a casa em paz.
– Droga, mãe!
– O quê é que você disse?
– Nada... Vou pro quarto!
– E sua irmã?
– Já dei uma bala pra ela. Não percebeu que ela parou de chorar?
– Tá bem, mas se ela chorar de novo você leva ela com você!
– Certo...
Jonas é muito preocupado com as pessoas ao redor dele, diferentemente da forma com que trata a si próprio, mas as coisas que vinham acontecendo com ele, misturadas com o fato dele não poder explicar e não ter a situação “mastigada” tirava ele do eixo.
Já havia se passado um tempo desde o encontro dele com o Leomon, mas os efeitos colaterais daquela situação ainda o assombravam com uma intensidade talvez maior do que quando aconteceu comigo, já que ele se afundava num pântano de insegurança e desdém consigo mesmo.
Equilibrando esse desleixo, Jonas é uma pessoa com a qual você sempre pode contar. Ele se importa muito com as outras pessoas e sobre como elas estão ao seu redor e exatamente isso o fazia estar numa situação pior do que a minha. Ele, por ter achado que foi o único que passou por aquela situação, se sentia na responsabilidade imediata de conseguir descobrir tudo o que acontecia e proteger as pessoas que não têm conhecimento sobre o fato. É muita pressão para uma pessoa só, colocar a vida de todos em suas próprias costas e Jonas faz isso numa intensidade muito maior que qualquer pessoa que eu já conhecera.
– Uéeeeeeeeeeeeeeeeeen!!!
– Jonas, Karen tá chorando de novo! Pega ela no colo e leva pro seu quarto com você!
– Tá bem, mãe!
– E faz isso logo que eu tô com dor de cabeça e não da pra trabalhar desse jeito!
– Uéeeeeeeeeeeeeeeeeeeen!!!
– Ei, menininha. Não fica assim não tá? Vem cá pro colo do seu irmão. Vamos pro meu quarto?
– Tá... – Respondeu Karen com voz de choro. –
Jonas tem uma casa bem simples: Uma varanda logo de entrada que comporta ao máximo uma moto, ao passar pela porta, chega-se numa antessala com uma mesinha no centro e uma pequena cômoda de fundo, encostada na parede que fica de frente à porta. À direita, ainda na antessala, está o quarto da mãe de Jonas. Logo após a antessala, vem a sala com uma mesa redonda e algumas cadeiras ao redor. No canto dessa sala, vem o banheira da casa e vizinho ao banheiro, o quarto de Jonas. Passando por um vão à esquerda da sala, chega-se em sua cozinha que leva diretamente à um pequeno corredor no fundo da casa onde ficam alguns objetos guardados e uma pia para se lavar roupa.
No quarto de Jonas tem um guarda-roupas encostado à parede esquerda, na direita sua cama e de frente à porta, a janela que dá visão para pia dos fundo e ao lado da janela, o hack com o seu computador
– Acho que com você eu posso desabafar... Sem dúvidas você não vai sair por aí contando nada disso a ninguém, certo?
– Boca ”fêçada”, momon! – Disse ela carinhosamente. –
Jonas sorriu para sua irmã, complacente e pôs a mão no bolso de sua bermuda folgada. Tirou de dentro um celular prateado com algo escrito em preto em uma de suas laterais. Era um D-VICE.
– Eu não faço ideia de que seja isso, nem pra quê isso serve!
– Celular, momon. Pa ligar pá Caíque e Lucas. – Respondeu Karen com firmeza na voz. –
– Poderia ser tão fácil assim, Karen. Mas ninguém me daria um celular do NADA. Ainda mais sem dizer porque, sem nem deixar o nome! Isso é maluquice, entendeu? Por isso eu tenho que descobrir o que tá acontecendo. Pode ser um problema à vista... Levando em conta a possibilidade da existência de seres de outro mundo similares aos Digimon, poderiam causar muito estrago vindo pra cá. Não sei se eu tenho que avisar alguma autoridade, se eu posso fazer isso sozinho ou se eu tenho que contar pra Caíque... Ele pode me ajudar. Ivan sabe pouco e Lucas menos ainda... O que você acha?
– Tô com fome. – Resmungou Karen. –
Jonas olhava a irmã com um pequeno sorriso no canto da boca. Deixou-a no quarto dele e foi à cozinha preparar algo para a irmã. Ele estava numa situação pior do que a minha.
Era como se eu esperasse tudo aquilo e recebesse de forma mais simples do que Jonas. Eu ia deixando acontecer e me deixava ser guiado pelos passos que a situação dava e em seu ritmo, enquanto Jonas tentava ficar um passo à frente de toda a situação para poder calcular os pré-acontecimentos. Ele tinha essa fome por saber o que ia acontecer e não gostava de ficar no escuro. Era mais desesperador do que excitante para ele. Enquanto eu gosto de resolver enigmas, Jonas prefere destrinchá-lo, descobrir a sua origem e contar com todas as respostas possíveis para tal encontrando brechas. Ficar perdido, para ele, era sinônimo de guilhotina.
Quando ele coloca algo na cabeça, mesmo que queira não consegue tirar. Então nada era mais importante do que descobrir quem havia presenteado ele com o celular, o que o aparelho fazia e quais as consequências após o que viesse.
– Tá aqui, guria. Vê se come tudo, viu? Se não mamãe vai ficar chateada.
– Tá bom! – Disse ela segurando sua colher rosa, que combinava com o prato. –
– Jonas!! – Gritou sua mãe enquanto lavava roupas, no fundo. –
– Que foi mãe?
– Atende esse celular que já tá me deixando doida!
– Ahn?
– Atende o celular, menino!!
– Meu celular tá desc...
Seus olhos se arregalaram, talvez de espanto com a notícia, talvez de esperança de ser alguma resposta ou quem sabe de receio quanto ao que poderia vir adiante.
– Já vou atender! Caramba, deixei aqui na cozinha quando fui preparar a comida de Karen. Mensagem? O que é isso?
Jonas correu direto para o seu quarto e ligou o computador de imediato para pesquisar o significado do código que vira na tela do aparelho enigmático. Sua fome pela verdade era muita e uma pista como aquela não poderia simplesmente esperar para ser decifrada.
– Karen, consegui alguma coisa!
– É de comer, Momom? – Perguntou inocente. –
– Não menininha... A única coisa que isso pode alimentar é a minha curiosidade. Como é mesmo isso aqui?
Na mensagem em que Jonas escreveu também não tinha destinatário, mas ele não havia percebido isso de primeira. Estava mais preocupado em tentar entender o que o monte de números que vieram na mensagem poderia significar. Na mensagem vinha: “-12.96857 -39.259956 0001”
– Pelas duas primeiras ordens de números, eu poderia atribuir diretamente a coordenadas. Só tô em dúvida quanto aos quatro últimos números. Se forem coordenadas, vai dar algum lugar aqui no Maps. Se bem que qualquer número vai dar em algum lugar. Não custa tentar, né não?
– Tenta! Tenta! Tenta! – Torceu Karen espalhando almoço pelo chão do quarto. –
– Se eu não colocar esses quatro últimos números aqui vai dar em... COMO?? Mas, é coincidência de mais. Chega a ser impossível!
A resposta de Jonas quanto à mensagem foi praticamente instantânea comparado a mim. Enquanto precisei de um empurrãozinho do acaso, seu primeiro palpite o levou à resposta certa ajudando-o com seu quebra-cabeças pessoal.
– Momom.
– Pera, Karen.
– Momom...
– Karen, fica quietinha, só um segundo... Tô pensando aqui...
– Momom eu vou... –BLEEERGH-
– Ah, Karen! Você vomitou no chão do quarto?
– UEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEN!!!!
–Jonas!
– O que é mãe?
– Vá ajudar sua irmã menino! Saia do computador pra limpar essa meleira que ela fez.
– Mas eu tô muito ocupado aqui agora.
– Não me aborreça, não. Eu faria isso, mas tô lavando roupa aqui agora. Vá logo, depois você volta pra o computador.
– Tá, tá... Tá bem. Poxa Karen, você cortou minha linha de raciocínio, tá vendo?
– Mamãe escondeu a “tisôra” de mim...
– Certo. Então não cortou não. Eca... Então foi assim que ficou o cachorro-quente de ontem? Deixa eu limpar isso logo. Preciso confirmar o que eu descobri.
Jonas estava prestes a explodir de tensão e ansiedade. Sua cabeça estava a mil e por mais que quisesse dar atenção a sua irmã doente, ele não conseguia desgrudar-se do enigma do momento. Pelo menos ele se mostrava mais seguro de seus atos e aparentemente, era mais forte do que eu.
– Já limpei, mãe!
– Certo.
– Você vai ficar com Karen agora?
– Agora não que eu tô assistindo minha novela da tarde.
– Mas essa novela já passou. E se ela vomitar aqui de novo?
– Dê um pouco de atenção a sua irmã e não faça cara feia. Preciso de um descanso. Sou gente também, sabia?
– Tá bem. Mas a senhora limpa se acontecer de novo... Onde é que eu estava mesmo? Ah sim! As coordenadas vão dar numas três ruas daqui. Você acha que eu devo ir lá agora, Karen?
– Vai Momom! E “tlás” doce pá mim, tá?
– Tá bem. Mas vou precisar da sua ajuda. Eu trago doce, mas você tem que ficar quietinha aqui. Posso botar um joguinho pra você. Quer?
– Êbaaa! Bota!
Jonas terminou de montar seu plano arquitetado de última hora. Ele já tinha o que precisava. Ou pelo menos pensava que tinha. As coordenadas levavam para um lugar perto da sua casa e isso seria coincidência de mais para ele relevar. Precisava conferir prontamente o que lhe esperava. Sua natureza não o deixava esperar ao menos um minuto.
Ele foi sorrateiro até a porta da frente, passou pela varanda esgueirando-se e abriu o portão de casa com muita cautela para que a mãe não o escutasse saindo. Tendo terminado sua missão de “exfiltração” com sucesso, correu como pôde para chegar ao ponto dado a ele. Ele transpirava, mas era um suor de aflição. Não estava calor e ele havia corrido pouco, mas ainda assim sentia escorrer a preocupação e o seu senso de descoberta pelo corpo guiado para o desconhecido.
– Será que é aqui? Com licença moça, esse é o Caminho 27?
– Sim.
– E estamos no ponto de latitude -12.96857 e longitude -39.259956?
– O quê, menino?
– Nada, esquece. Obrigado pela informação.
–Maluco...
– Deveria ser aqui, mas não tem nada!
– Ei, ei, senhor!
– Oi meu filho?
– Essa rua é muito grande? No caso, ainda tem muito a andar daqui pra frente?
– Não, não. Deve ter mais umas 10 casas e termina.
– Tá bem, obrigado.
– Nada.
Jonas estava perdido. Não no espaço físico, mas em sua cabeça. Ela agora fervilhava mais que nunca e seus sentidos apontavam para tudo e para lugar nenhum. Sua única pista não havia dado em nada e isso o incomodava intimamente. Não entender o que acontece poderia ser normal, mas procurar, encontrar pistas e não chegar a lugar nenhum o fazia querer desistir de tudo e voltar para a vida onde ele não precisava se importar.
Geralmente suas intuições e deduções chegam a algum lugar e isso quando não são exatas, só que dessa vez havia levado ele para um beco sem saída, um lugar no qual ele não sabia por onde recomeçar. Pelo menos enquanto ele não se lembrava dos quatro últimos números da combinação.
– “Trôxe” meu doce? – Perguntou Karen virando sua cabecinha para trás ao escutar o irmão chegando ao quarto. –
– Aqui menininha, toma. – Entregou Jonas, esgotado. – Eu não consegui nada, Karen.
– Liga pra Caíque. Ele sabe “ploculá”, né?
– Não posso contar nada disso pra Caíque ainda, ele ia surtar. Não ia nem querer pensar em nada, ia dizer que são... Digimons. – Disse Jonas quase debochando na última palavra. – Não que seja mesmo impossível, mas eu não encontrei nenhuma prova que me dê certeza nem nada que me ajudasse afirmar a ideia, entende?
– Na “védade” eu não entendi nada... – Respondeu com a voz mais fofa do mundo. –
Aquela cena havia arrancado um pequeno sorriso de Jonas, mesmo que à força. A tarde passou se arrastando, como se estivesse carregando o peso de cada dúvida que se passava na cabeça de Jonas. Estava inquieto e pensativo na mesma situação onde eu me via histérico e afoito.
As coordenadas eram os protagonistas de seus pensamentos e o clímax havia se perdido naquela rua sem saída. Já havia tentando recombinar os números ou imaginar outros usos para tal, mesmo depois de ter batido tão perto de sua casa tendo dado a eles a qualidade de localizadores. O esclarecimento surgiu após ler a mensagem novamente.
– “-12.96857 -39.259956 0001”... Eu simplesmente coloquei como coordenadas e deram certo. Foi fácil até ai. Excluí os números sobressalentes e usei o que import... Mas é claro!
– Onde tá “clálo”? – Perguntou Karen, que ainda estava no computador. –
– Não, Karen. Não é esse tipo de claro. É que os números que eu tirei na verdade servem!
– Pá quê?
– Vou descobrir agora! Você vai ter que sair um pouquinho do pc agora. Vai assistir tevê com mamãe, vai.
– Não, “quélo” ficar aqui com você.
– Vai, Karen. Depois te dou mais doce.
– Êbaaa!! Aí eu vô.
Karen saiu do quarto de Jonas e foi para perto da mãe assistir televisão enquanto ele procurava cegamente na internet sobre combinações de quatro números, quebra-cabeças com números, numerologia, códigos e afins.
Já era noite. Jonas já estava exausto da pesquisa que só havia encucado ele sobre contas que nunca foram resolvidas. Mesmo cansado ainda persistia no computador, mas sua concentração foi quebrada pelo grito da mãe.
– Ô Jonas!!
– Oi, o que é mãe? Eu tô ocupado aqui.
– Venha cá ver isso, ó. Pra você entender por que eu não quero que você saia tarde de casa.
– Tá! Já vou.
Ele passou pela sala e pela antessala para chegar ao quarto da mãe, onde fica a tevê. A irmã estava deitada no colo dela, suando e dormindo.
– Espia aí ó. A mãe desesperada por que o filho não voltou pra casa.
– Sério isso, mãe? A senhora me chamou aqui pra isso?
– É, preste atenção.
Na tevê, o jornalista começava sua matéria.
– Boa noite. Uma mãe de uma pequena cidade do interior da Bahia chamou a atenção de todos durante a semana. Ela perdeu seu filho e procurou o máximo de ajuda que pôde. Até então não parece uma história de repercussão nacional, mas os detalhes veremos com o nosso repórter, Cláudio Rodrigues.
– Boa noite, Sérgio. Estou aqui para falar com dona Jaciara, que diz ter perdido o seu filho de uma maneira... Peculiar. Dona Jaciara, poderia contar melhor sobre os detalhes da situação?
A mulher no noticiário parecia cansada e impaciente, fora o fato de estar nitidamente preocupada e abismada. Aparentava ser uma mulher de meia idade e com muitas responsabilidades a cuidar.
– Boa noite senhor Cláudio. É como eu disse já pra os policias que vieram me ajudar no lugar. Eu tava andando com o meu filho na rua, pra resolver uns problemas, sabe? Aí do nada ele começou a se tremer todo, tadinho. Ele nunca teve nada disso, mas começou assim no meio da rua do nada. Ele caiu no chão e começou a tremer...
A mulher começou a chorar, mas se recompôs após alguns segundos.
– Desculpe... Então, eu já estava preocupada a partir daí, mas ele parou de tremer depois de um tempo e alguns rapazes que estavam por perto ajudaram ele a levantar. Eu agradeci e eles foram embora. Num minuto ele tava do meu lado e do nada ele desapareceu. Eu acho que ele foi abduzido!
– Esse foi o depoimento da Senhora Jaciara, Sérgio. Deixo os comentários com você.
Jonas ia saindo do quarto no momento que ouviu falar sobre aliens. Já estava saturado disso. Pouco antes de ele sair, Karen esbarra o braço sonâmbulo no controle que muda para um canal de vendas.
– Agora são 23 e 15 pessoal, é hora de comprar na Polish...
– Isso!
Jonas gritou um “eureca” mascarado acordando a irmã e chateando a mãe como um efeito dominó. Não era para menos, tivera algum tipo de epifania e entendido o “tão misterioso significado” dos números que faltavam.
– É o horário. Eu tenho que voltar lá às 00:01. Que preciso... Mas não importa. A prioridade agora é conseguir chegar lá no horário.
– Mãe!
– Que foi, Jonas?
– Já vai dormir?
– Já. Vou só acalmar sua irmã que você fez o favor de acordar e vou pra cama. Boa noite.
– Boa noite mãe.
Era tudo o que ele precisava. Sua mãe estava indo dormir numa hora muito propícia. Bastava ele esperar alguns minutos e sair de casa, sorrateiro novamente.
Suas esperanças haviam se reacendido e agora ele tinha a certeza de que iria chegar ao fim daquilo cravada em seu peito. Esperou o tempo de ouvir o ronco da mãe e saiu de casa bem devagar. O portão enferrujado não o ajudava muito com o plano, mas ele não deixaria aquilo ser um obstáculo. Abriu e fechou o portão com cuidado e correu como nunca para o local marcado pelas coordenadas.
Sua bermuda folgada o impedia de usar toda sua velocidade e o clima de tensão o fazia suar muito. O boné em sua cabeça ajudava a abafar a tensão e seus nervos estavam agora à flor da pele.
Chegando à rua, tirou o D-VICE do bolso e olhou o horário. Eram 23:57.
– Cara, o que eu faço agora?
– Ponto de encontro localizado. Espera solicitada.
– O quê? O que foi isso?
– Trata-se do sistema inteligente de voz do seu dispositivo.
– Voz do meu dispositivo... Essa me surpreendeu. O que mais você tem aí? Nem tinha mexido em você pra falar a verdade. Você me entende, né?
– Conversão de picos completa. Voz confirmada. Jonas Costa Moura, 17 anos, residente do Brasil. Insira cartão SIM no dispositivo.
– Cartão? Ah sim. Chip do celular, né? Ei, vai ficar muda agora?
– O sistema de interatividade do seu D-VICE é limitado a responder às perguntas certas. Por favor, faça as perguntas certas.
– O q... Cê tá brincando com minha cara, né?
– O sistema de interatividade do seu D-VICE é limitado a resp...
Antes que o D-VICE terminasse sua frase que parecia vir de um disco arranhado, um som muito mais alto do que aquela voz começou a tomar conta do espaço. Jonas olhava ao redor para tentar encontrar a fonte de tal som, então começou a sentir uma enorme ventania ao seu redor. Ele olhou para cima, perdido, e se perdeu mais ainda. No céu, um buraco se formava dentro de possibilidade nenhuma e começava a existir quebrando toda e qualquer lei ou cálculo que estivesse na cabeça de Jonas.
Ele queria ver mais. Queria ver tudo. Ele sentiu que aquilo seria importante para o desfecho do que estava para acontecer. Ele apagou.
Ele apagou e não viu mais nada. Quando acordou, estava deitado na calçada de casa, atordoado e abraçando alguma coisa. Estava começando a recobrar os sentidos e a primeira coisa que viu foi uma pessoa virando a esquina de saída da sua rua. Ainda não tinha entendido que estava abraçado a algo, mas assim que se segurou com a mão esquerda na barra do portão, teve que dispor mais força no braço direito para segurar com firmeza o ovo.
– O-o-o-ovo? Ai... Caramba, minha cabeça tá doendo. O que foi que aconteceu afinal?
Jonas estava confuso e sentia uma dor forte na cabeça. Conseguiu com algum esforço lembrar-se das últimas coisas que havia feito antes de apagar. De toda a tensão, toda a adrenalina e de toda a vontade de entender o que acontecia. Até que tudo se borrava em sua mente e ele se via levantando em frente de casa.
Ele não tinha lembrança alguma do que aconteceu depois do buraco estranho tomar um pedaço do céu à sua cabeça e isso o deixava meio frustrado e perdido. Sua consolação era o ovo enorme que segurava pelo que parecia, por instinto.
– Um buraco no céu, um apagão geral, uma dor de cabeça e um ovo gigante. Fora o fato de estar sentindo como se uma corrente elétrica tivesse passado por mim. Ai!
– Espécime convertido. Transferência terminada com sucesso. Compatibilidade inicial testada e aprovada.
– Ah, é. E tem o celular falante. Espécime? Você quer dizer esse ovão aqui?
– O sistema de interatividade do seu D-VICE é limitado a responder às perguntas certas. Por favor, faça as perguntas certas.
– Peraí! Da última vez que você falou isso eu apaguei. Esse ovo é meu?
– O espécime é destinado para um parceiro selecionado e testado. A compatibilidade é verdadeira.
– Que “sim” mais complicado. Caramba, minha cabeça tá doendo muito. E o que eu faço com isso?
– O sistema de interatividade do seu D-VICE é limitado a responder às perguntas certas. Por favor, faça as perguntas certas.
– Não tô com paciência pra isso. Não agora. Não sei nem dizer se essa noite foi boa ou não. Procurei respostas e consegui um ovo.
Nesse momento Jonas realizou-se para o que acontecia ao seu redor. Em sua cabeça as coisas se juntavam como ímãs de polaridades opostas.
– O buraco era uma fenda espacial, provavelmente. Eu posso ter apagado por não aguentar a pressão ou a gravidade que se intensificaram no momento da quebra de realidade. Esse ovo saiu de lá. Você é um celular que fala. CLARO! Isso é um Digimon. Agora eu não tenho dúvidas. Só uma coisa que Caíque gosta tanto pra ser tão maluca e no final das contas, real. Ainda vou demorar pra absorver isso direito.
Jonas terminou de levantar-se e quase derrubou o ovo que era pesado e difícil de segurar. O ovo era grande. Maior que uma bola de boliche, era pesado e sua casca era porosa. Ele tinha manchas de formatos e tamanhos aleatórios e de cor roxa, fora alguns traços espalhados que poderiam ser símbolos.
Jonas virou o outro lado do ovo para entendê-lo por completo e na face que estava virada para o outro lado, estava escrito com um vermelho bem forte letras tortas que deixavam seu excesso escorrer: “SEJA CUIDADOSO”.
– Isso é sangue?
Notas finais
Abraço!
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