Digimon: Fighters
14 Batalha Sob o Luar
Notas iniciais
Vitor não acreditava que meninos de 14 anos deveriam simplesmente pular de uma sacada do segundo andar de uma cabana sem pensar nas consequências, mas a visão daquele portal anulou todo o pensamento lógico de sua mente. Então ele pulou.
Claro que Tanmon o ajudou a chegar no chão sem que Vitor quebrasse nada, graças às asas do pequeno digimon, mas, ainda assim, o menino tinha apenas uma coisa em mente: minha oportunidade de ser forte. Vitor, então, correu na direção do lago, chegando até a pequena prainha próxima a cabana. Ele olhou ao redor rapidamente, tinha certeza que tinha visto um pier por perto quando chegaram na cabana do Dr. Joel. Lá estava.
Tanmon o acompanhava, voando a uma pequena distância de Vitor.
― Vitor, não seria melhor chamar o Daniel e o Lucas? ― Tanmon falou enquanto eles se aproximavam do pier.
― Não! ― Vitor respondeu, os olhos intercalando entre o caminho em sua frente e o digimon que atravessava o portal ― Foi como você falou, Tanmon! Essa minha chance de não ser um completo inútil!
― Mas, Vitor... ― assim que ele pisou no pier, a luz da noite mudou e Tanmon não terminou de falar. Ambos encararam o céu, assistindo ao portal se fechar, trazendo a imagem da lua e sua luz de volta. Revelando o digimon que havia atravessado para o mundo dos humanos.
Era uma sombra humanoide que se formava no centro da lua cheia, uma capa negra cobrindo a maioria do seu corpo e, claramente, um par de chifres saindo de sua cabeça. Com um simples movimento, a capa foi aberta, revelando o corpo em um tom de roxo do digimon com braços e pernas longas. As pernas terminavam em um par de botas da mesma cor da capa e as mãos possuiam longas garras.
Vitor engoliu em seco. Precisava admitir que aquela figura era uma presença quase assustadora.
― Tanmon, ― Vitor se virou para seu parceiro ― eu sei que parece loucura, mas nós podemos fazer isso. Daniel, Lucas e Letícia lutaram e venceram outros adversários. Nós podemos também.
― Vitor, eles tiveram a ajuda um do outro ― Tanmon rebateu ― Você está falando de fazermos isso sozinhos. É loucura!
― Alguns segundos atrás, você disse que confiava em mim ― Vitor respondeu ― Preciso que confie em mim agora, Tanmon. Precisamos confiar um no outro e provar que somos parte essencial desse time também!
Vitor sentia o desespero na própria voz e em seu coração. O desespero de se provar, provar ser útil, provar ser necessário. Não seria como na última luta. Ele e Tanmon conseguiriam dessa vez, lutariam juntos e venceriam juntos.
― Deveria escutar o seu pequeno parceiro, criança ― a voz arrastada do digimon que fluatuava sobre o lago atraiu a atenção de Vitor e Tanmon ― Vocês dois não seriam páreos para mim. Não sozinhos, pelo menos.
― Ninguém te perguntou nada! ― Vitor gritou de volta para o ser humanoide que o encarava com um olhar serpentiliano. Um arrepio percorreu a espinha de Vitor com aquele olhar ― Nós podemos muito bem cuidar de você sozinhos! Vamos, Tanmon!
Vitor se virou para seu parceiro, que hesitava em se juntar a batalha. Tal hesitação causou um riso fantasmagórico no digimon inimigo, que tomou conta de toda extensão da noite.
― Que tristeza, nem mesmo seu próprio parceiro confia que você pode lutar essa batalha ― Vitor sentiu uma onda de ódio crescendo em seu coração, tudo direcionado ao digimon sombrio em sua frente ― Se eu fosse você, garoto, eu considerava desistir agora e me deixar te destruir. Desse modo, poupamos maiores danos e uma luta completamente desnecessária.
Vitor não respondeu. Ele se virou para Tanmon mais uma vez, esperando encontrar aquele olhar determinado. Mas não aconteceu. Tanmon o encarava agora de uma forma mais preocupada do que antes. Será que Vitor estava mesmo ficando louco? Era loucura pensar que podia dar conta disso sozinho? Por quê? Por que ele não podia ser forte como os outros?
― Vitor, vamos chamar ajuda ― ele ouviu Tanmon falar, mas seus pensamentos estavam preenchidos com dúvidas. No que estava pensando vir aqui enfrentar um digimon desconhecido sozinho? Não conseguia nem fazer Tanmon digivolver e estava agora colocando a vida dos dois em risco? Qual era o problema em querer ser útil?
― Bom, eu adoraria que você chamasse ajuda para que eu pudesse me livrar de todos vocês de uma vez ― novamente, a voz do digimon roxo chegou aos ouvidos de Vitor, que levantou o olhar para encará-lo ― Mas eu também não me importo de acabar com todos um por um! ― o tom do digimon mudou e ele estendeu seu braço direito na direção de Vitor no exato momento em que uma esfera negra se materializou, disparando um ciclone de trevas na direção do digiescolhido mais jovem ― Nuvem do Pesadelo!
Vitor não se moveu. Não conseguia, era como se suas pernas não respondessem ao seu corpo. Ele queria desviar, queria correr, mas tudo o que conseguiu fazer foi encarar o redemoinho sombrio enquanto ele se aproximava para acabar com sua vida. Foi Tanmon quem o salvou.
― Vitor! ― ele ouviu o digimon pássaro gritar quando se jogou contra Vitor, tirando-o da frente do ciclone das trevas. Ambos caíram contra o pier, distantes do ataque que atingiu a estrutra de madeira, danificando-a.
Vitor demorou alguns segundos para enteder o que havia acabado de acontecer.
― Obrigado, Tanmon.
― Precisamos tomar cuidado com a técnica dele ― Tanmon se afastou de seu parceiro, se colocando de pé e encarando seu inimigo ― Dizem que quem é pego pela “Nuvem do Pesadelo” é forçado a viver seus piores medos tudo de uma vez.
― Você conhece esse digimon? ― Vitor voltou seu olhar para o outro digimon também. A luz da lua cheia batendo contra ele dava um ar muito mais sinistro tanto para o inimigo quanto para a situação toda.
― Vampirimon ― Tanmon respondeu, sem desviar os olhos do digimon roxo ― Já ouvi falar muito dele, mas nunca pensei que fosse vê-lo pessoalmente. Ele é um agente especial de Royalmon, um digimon capaz de derrotar um batalhão inteiro com sua técnica de pesadelos.
Vampirimon riu em meio à noite.
― Vejo que minha reputação me precede ― o sorriso do digimon era quase diabólico, sem perder uma luz de entretenimento ― Muito interessante, mas não quero perder tempo com análises e ponderamentos. Tenho uma missão e acho melhor darmos início a ela ― Vitor viu as mãos de Vampirimon brilhar em um raio negro, esferas tomando conta dos arredores de seus dedos.
― Vitor, eu confio em você ― Tanmon falou, atraindo a atenção de seu pareiro ― Mas eu não sei se posso lidar com esse digimon sozinho. Precisamos dos outros. Não quero que você não acredite em sua própria força, mas preciso que me escute. Entendeu?
Vitor encarou seu parceiro, mas o olhar do pequeno digimon ainda estava preso ao seu inimgo que flutuava na distância.
― Entendi.
― Pena que não vai acontecer ― Vampirimon falou no momento em que lançou uma descarga de energia de suas mãos na direção do pier atrás de Vitor e Tanmon, destruindo a madeira que conectava o restante da estrutura com a pequena praia próxima ao lago. Vitor e Tanmon estavam presos em uma ilha feita do pier ― O trabalho em equipe de vocês foi o que causou a derrota daqueles que tentaram enfrentá-los antes. Eu não vou cometer o mesmo erro.
Vitor viu enquanto Vampirimon se preparava para atirar mais uma descarga de energia contra ele e Tanmon, sua mão brilhando em tons negros novamente.
― Lâmina de Sangue! ― quando a energia saiu de sua mão, ela mudou de forma e cor, adquirindo um vermelho forte e lançando em linha reta como uma espada, iria acertar Vitor e Tanmon em cheio, se o pássaro amarelo não tivesse sido mais rápido.
― Mini Relâmpago! ― o digimon pequeno exclamou e raios amarelos saíram de seu bico, atingindo o ataque de Vampirimon, ambos ataques se anulando e criando uma nuvem de fumaça ao redor deles.
― Tanmon, você pode voar ― Vitor falou ― Pode ir pedir ajuda!
― Não posso ― Tanmon rebateu, surpreendendo Vitor ― Se eu for, não terá quem possa te proteger e ele irá acabar com você, Vitor. Eu pensei em te carregar até a praia, mas não conseguiria proteger nós dois do ataque dele se tiver você pendurado em mim. Seríamos os dois destruídos.
― Você até que é um digimon bem espertinho ― Vampirimon afirmou, entrando na conversa, a fumaça começando a se dissipar ― E nem pense em tentar nadar até a praia, garoto. Posso te afogar em um segundo usando minhas técnicas.
Vitor sentiu um arrepio percorrendo pela sua espinha. Estavam encurralados, verdadeiramente sem ter opções para onde ocorrer. E tudo porque ele precisava se provar forte. Que idiota.
Vitor trincou os dentes.
― Parece que vai ter o que queria, afinal, Vitor ― a voz de Tanmon o tirou de seus pensamentos ― Vamos ter que lidar com esse cara nós mesmos e rezar para que Daniel ou Lucas escutem a luta.
― É, acho que sim ― Vitor indagou, não estava mais tão certo de queria ter que lutar com esse digimon sozinho. Tanmon acreditava que ele era forte e ele realmente queria acreditar também, mas alguma coisa em Vampirimon não parecia certa. Ele não era como os outros, Vitor podia sentir isso em sua pele. Não tinha sentido antes, mas agora... O ar sinsitro parecia ser transipirado pelo digimon.
O sorriso de Vampirimon ficou mais largo, mostrando ainda mais suas presas e seu quê megalomaníaco. Vitor engoliu em seco.
― Ótimo ― a voz do digimon roxo soava ainda mais intensa e medonha do que antes, até a lua parecia brilhar mais no céu ― Que comece a luta, então.
E foi o que aconteceu. Ambos os digimons deram início aos seus movimentos. Vampirimon descarregou mais energia negra contra Tanmon, que rapidamente desviou do ataque.
― Vitor! ― Tanmon gritou.
― Te peguei! ― Vitor ouviu Vampirimon murmurar enquanto seus olhos arregalavam com a massa de energia que se movia em sua direção. Não teria tempo de Tanmon pará-la e, no último segundo, Vitor pareceu recuperar o movimento de suas pernas e se jogou para o lado.
O ataque destruiu mais um pedaço do pier, que continuava a ficar cada vez menor. Vitor se virou para o outro lado da estrutura de madeira. Se os ataques de Vampirimon continuassem assim, daqui a pouco não teria mais um pier que Vitor pudesse ficar sobre.
― Sua luta é comigo! ― Tanmon declarou, voando em direção ao seu inimigo. Raios começaram a brilhar na ponta de seu bico vermelho novamente e logo uma descarga aconteceu ― Mini Relâmpago!
Vampirimon também já estava pronto para seu próximo ataque, com sua lâmina vermelha saindo de sua mão e atingindo de frente aos raios de Tanmon. O céu brilhou com um laranja forte, quase um pôr-do-sol no meio da noite.
Vitor sentiu seus punhos cerrando, preocupado com o que iria acontecer nessa luta. Ele tinha cometido um grande erro ao ter vindo lutar sozinho e agora teria que confiar que Tanmon poderia derrotar esse digimon bem mais forte que ele.
Por um segundo, os olhos de Vitor desceram na direção da cabana. Não ficava muito longe dali, mas não era perto o suficiente para Daniel, Lucas e seus parceiros escutarem os gritos de ajuda. Por que tinha sido tão impulsivo? Por que era tão importante pra ele provar que não era inútil? Agora havia colocado a vida de seu parceiro em risco e a culpa era toda de Vitor.
Um grito ecoou pelo céu escuro, atraindo a atenção de Vitor de volta para a luta. Seus olhos encontraram Tanmon no mesmo momento em que o digimon pássaro foi nocauteado pela lâmina vermelha de Vampirimon. Um grito se intalou na garganta de Vitor enquanto ele assistia seu digimon caindo do céu em direção à água.
― Inútil lutar contra mim ― Vampirimon proclamou ― Vou terminar essa luta agora! Nuvem do Pesadelo! ― Vampirimon então se virou na direção de Vitor, o ciclone negro saindo de suas mãos e indo na direção do garoto. Vitor olhou para os lados, mas não tinha muito para onde correr.
O ciclone se aproximava. Seus pés estavam grudados na madeira do píer. A garganta trancada. Ele iria morrer?
Foi então que o ciclone mudou de direção e, por pouco, não o acertou. Quando Vitor viu o que tinha acontecido, ele sentiu seu queixo cair. Tanmon havia se recuperado do ataque anterior e voado para salvar seu parceiro, dando uma cabeçada contra Vampirimon que desestabilizou o golpe do inimigo. Vitor suspirou, aliviado.
Vampirimon se afastou de Tanmon, ambos os digimons se encaravam de for extremamente determinada. Tanmon estava sujo e bem machucado. Vitor sentiu seu coração apertar.
― Eu disse ― Tanmon começou a falar, ofegante ― que a sua luta é comigo.
Vitor ouviu as batidas do próprio coração contra seus ouvidos. Mesmo com a voz cansada e ainda se recuperando do golpe anterior, Tanmon tinha uma impressionante certeza em sua voz. Vitor nunca tinha ouvido ninguém falar daquela maneira, alguém que estivesse tão determinado a protegê-lo.
Vampirimon, então, riu.
― Ora, ora. Talvez você não seja tão fraco quanto eu pensei. Muito bem, então. Vamos ter uma luta de verdade agora. Eu não vou me segurar.
― Pode vir ― Tanmon o desafiou e os dois digimons avançaram um contra o outro.
Vitor engoliu em seco. Tudo o que podia fazer agora era assistir e torcer por seu parceiro.
+ + +
― O que você vai fazer, Pedro? ― ele ouviu Cornmon perguntar, quebrando o silêncio que existia entre eles desde que haviam retornado da procura por Paulo. Desde que tinham encontrado com o tal Jokermon.
Não haviam ido falar com Royalmon e nem ninguém do palácio. Ele e Cornmon entraram por uma das cavernas subterrâneas e se esgueiraram até a torre mais alta das paredes de cristal. Um lugar onde ninguém ia, um lugar perfeito para pensar. E era exatamente o que Pedro precisava fazer.
As palavras de Jokermon ecoavam em sua mente sem parar. Sua oferta era uma tentação enquanto ele encaravam aquela carta coringa que ele lhe havia entregado. Tinha sido silêncio entre ele e Cornmon desde então e Pedro sabia que deveria estar sendo difícil para seu parceiro não ter uma resposta do que estava acontecendo em seus pensamentos.
― Eu não sei ― Pedro respondeu, finalmente.
― Pedro, sabe que precisamos seguir as ordens do mestre Royalmon ― Cornmon continuou a falar, reforçando o fato de que não achava uma boa ideia ouvir Jokermon. Ele já tinha deixado isso bem claro quando haviam encontrado com o digimon ― A invasão vai acontecer e, quando chegar a hora, eu tenho certeza de que ele mesmo lhe dará uma missão como essa.
Pedro suspirou. As suas próximas palavras queimavam em sua garganta, como se fossem muito difíceis de serem ditas.
― Eu odeio os humanos. Mas, mesmo assim, ainda sou um humano, por mais que eu odeie admitir. Royalmon talvez nunca confie 100% em mim por causa desse simples fato ― as cores do coringa em contraste com a carta branca atraiam o olhar de Pedro ― Mas se eu fizer como Jokermon falou, se eu cumprir essa missão... Royalmon não terá nenhuma dúvida sobre minha lealdade.
― Se fizer o que Jokermon falou, estará cumprindo ordens diretas do mestre Royalmon ― Cornmon rebateu.
― Mas por um bom motivo ― Pedro, então, desviou o olhar da carta, encarando seu parceiro inseto ― Mostrarei para ele o quão valioso e leal eu sou.
― Você vai estar colocando a lealdade que tanto quer provar em jogo ― Cornmon deu um passo à frente, se aproximando mais de seu parceiro ― É tão importante pra você provar que é forte ao ponto de colocar em jogo a coisa que você mais busca? Precisa pensar nas consequências dessas ações, Pedro.
Pedro não respondeu. Ele sabia que era inconsequente. Sabia que poderia acabar muito mal para ele desobedecer as ordens de Royalmon sobre ficar no Digimundo. Mas alguma coisa dentro dele dizia que precisava aceitar essa missão. Seu coração e mente juntos clamavam por seguir as palavras de Jokermon.
Aceitar ou recusar. Royalmon ou Jokermon. Lealdade ou traição. Essas palavras jogavam ping-pong em sua mente em um dilema difícil de resolver.
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