Digimon: Fighters

20 A Missão no Digimundo


Passar pelo portal tinha sido como se enfiar em um simulador de parque de diversões. Quase como se estivesse dentro de uma nave espacial. Confuso, flutuante e um pouco nauseante, Daniel ousava dizer. Todos pareciam ter a mesma sensação enquanto cruzavam pelo túnel digital.

Seus digimons estavam ao lado, olhares determinados enquanto sua terra natal se aproximava. Antes de eles entrarem no portal, Joel e as meninas disseram que seria como um túnel de trem que conecta duas regiões diferentes. Tudo o que eles tinham que fazer era continuar em frente que, eventualmente, eles veriam a luz no fim.

E eles viram. Quando a luz os atingiu, foi como se eles tivessem se materializado em um lugar completamente diferente. Por um segundo só houve claridade, no outro eles estavam no meio de um bosque cheio de árvores sob um céu azul com nuvens e uma cadeia de montanhas ao final do verde.

― Esse é o Digimundo? ― foi Lucas quem perguntou primeiro. Todos eles estavam passeando seus olhos pelo lugar, admirando o quanto ele parecia com o mundo dos humanos.

― Sim ― Guepmon respondeu.

― Sejam bem-vindos ao nosso mundo ― Toramon continuou.

― É tão... diferente ― Letícia indagou.

― Como esperavam que fosse? ― Tanmon questionou, batendo suas asas e planando um pouco a cima dos outros, ficando na altura das cabeças dos humanos.

― Bom, quando se falam em Digimundo, imaginava um mundo como se fosse dentro de um computador ― Lucas falou, seu olhar parecia passar de árvore em árvore, nuvem em nuvem ― Algo como um tipo de rede, um mar cibernético. Não sei.

― Desculpem decepcioná-los ― Dinomon riu e Daniel acompanhou.

― Não é uma decepção ― ele falou para seu parceiro ― É só uma surpresa. Acho que nenhum de nós esperava que fosse tão parecido com o nosso mundo.

― Sim ― concordou Vitor ― É até que um lugar bem bonito.

Os outros digimons sorriram com a afirmação, felizes pela primeira impressão de seus parceiros talvez. Daniel voltou seu olhar para os arredores, pousando-o no céu e vendo três criaturas voando em direção às montanhas. Pareciam pássaros enormes com crânios de pterodátilo cobrindo seus rostos e bicos. Asas vermelhas e uma longa cauda de lagarto atrás de patas com garras afiadas.

― O que são aqueles? ― Daniel indagou, curioso.

― São Eaglemons ― Dinomon respondeu ― São digimons predadores que ficam no céu e nas montanhas. Geralmente só pousam nas florestas para achar comida.

Digimons. Agora que estavam no mundo deles, Daniel teria que se acostumar em ver essas criaturas por toda parte.

― Então o que fazemos agora? ― Letícia questionou e Daniel baixou seu olhar. Os quatro digiescolhidos e seus digimons estavam em pé em um círculo, encarando um ao outro ― Já chegamos aqui, então qual é o plano?

― Precisamos ir atrás de Royalmon ― Dinomon respondeu ― Essa é a nossa missão. Acabar com as trevas que governam esse mundo. Temos que ir até Royalmon e acabar com ele.

Daniel engoliu em seco. A coisa estava ficando muito real, muito rápido agora. Ele esperava que os outros dessem conta. Ele ainda se lembrava das palavras que tinha dito para todos antes de partirem. Não tinha percebido na hora, mas agora entendia que ele mesmo também precisara daquele incentivo.

― Muito bem, então ― Lucas declarou ― Temos o nosso alvo e sabemos nossa missão. Agora como encontramos o Royalmon?

― Tanmon? ― Vitor perguntou para seu parceiro que voava logo ao seu lado ― Você sabe?

Antes de responder, Tanmon olhou mais uma vez para a região ao seu redor.

― Bom, se não estou enganado, ― Tanmon começou a responder ― estamos na região sul do continente.

― Isso mesmo ― Toramon confirmou ― Isso significa que a fortaleza de Royalmon deve estar além daquelas montanhas.

Todos eles se viraram para as montanhas no final da floresta. Então ali era onde se encontrava o destino deles.

― Então é pra lá que temos que ir ― Daniel declarou.

― Parece bem longe pra ir a pé ― Letícia indagou.

― Eu me ofereceria para carregar vocês como Thundermon, mas não podemos arriscar sermos vistos ― Tanmon se pronunciou.

― Tanmon tem razão ― Guepmon se juntou à conversa ― Não sabemos como estão as forças de Royalmon agora. Se voarmos e formos vistos, o exército dele pode alertar o mestre. Além disso, estaríamos vulneráveis se fôssemos atacados no céu, já que Tanmon é o único de nós com capacidade de voo.

― Tá certo ― Daniel murmurou ― O jeito então é andar mesmo.

― E quanto ao dr. Paulo? ― Lucas interviu ― O dr. Joel disse que ele estava aqui. Não deveríamos ir atrás dele? Coletar algum tipo de informação?

Foi Dinomon quem respondeu.

― A última vez que vimos Paulo estávamos escapando da fortaleza de Royalmon. Se ele estiver em algum lugar desse mundo, tenho certeza que vamos encontrá-lo no caminho para lá.

― De qualquer forma, nossa única opção é Royalmon ― Letícia concluiu ― Não temos outras pistas que nos guiem.

Daniel concordou com um movimento de cabeça e se voltou para os parceiros digimon deles.

― Vamos, então ― ele falou e todos o seguiram com um aceno positivo.

Daniel se voltou para encarar as montanhas. Lá estava o destino deles. A luta para a qual tinham sido escolhidos. Seu estômago embrulhou por um segundo e eles começaram a andar, os digimons na frente mostrando o caminho.

+ + +

Não tinha nada de interessante passando na televisão. Na verdade, Alice não conseguia achar nada interessante desde o que tinha acontecido naquela noite. Sua mente só pensava naquela sombra, naquele túnel, tentando entender se tinha apenas sonhado ou se tinha sido de verdade.

O aparelho branco que tinha aparecido para ela alguns dias atrás não saía de sua mão, mesmo agora que ela estava sentada no sofá tentando se entreter.

Também não conseguia parar de pensar no seu irmão. O jeito como tinha ido embora, como tinha que partir. Como ela sabia que ele precisava partir. Alice não conseguia explicar, mas tinha uma forte sensação de que tudo aquilo que estava acontecendo estava conectado de alguma forma. Seu coração dizia que tinha que ter ido com seu irmão para onde quer que ele tenha ido.

Mas não podia deixar sua mãe. Depois de seu pai ter sumido, Daniel ter ido embora sem maiores explicações, se Alice fizesse o mesmo tinha medo do que podia acontecer com sua mãe.

― Filha, eu preciso ir até o mercado ― sua mãe falou entrando na sala de estar saindo da cozinha. Mexia na bolsa que carregava como se estivesse guardando alguma coisa. Seu olhar estava cansado e com olheiras, fruto do sofrimento de ter que se despedir de Daniel. Alice via o quanto ela estava preocupada com toda aquela situação ― Você fica aqui sozinha, meu amor? Eu juro que não vou demorar. Só preciso comprar algumas coisas pro almoço.

Alice sorriu para a mãe.

― Não tem problema, mãe. Eu fico aqui te esperando.

― Obrigada ― a mãe dela se aproximou e lhe deu um longo beijo na testa. Um beijo de despedida quase, como se ela não esperasse ver a filha sentada naquele sofá quando voltasse. Alice sentiu um aperto no peito ― Já volto.

E, com um último olhar, a mãe de Alice saiu pela porta, lançando um fraco sorriso para a filha.

Alice chegou à conclusão de que tinha feito o certo em não seguir sua intuição e pedir para ir com Daniel. Julieta ficaria desolada de ter perdido os dois filhos. Ela ainda não sabia dizer direito o quanto a partida de Daniel a tinha afetado, mas era perceptível que o único motivo que a mantinha sã era Alice.

A menina baixou o olhar para o aparelho branco que ainda segurava, o som da televisão ao fundo era como o mar em um quarto na praia. Nada mais do que um som ambiente. Seus dedos apertaram contra o objeto enquanto sua mente trabalhava, pensando em tudo o que poderia estar acontecendo. Em tudo o que aquilo poderia significar. E qual seria o seu papel nisso?

+ + +

Lá estavam eles: três dos quatro generais de seu exército. Royalmon ainda não conseguia entender porque Crowmon não estava com eles, mas pelo menos os outros três se apresentaram e agora se curvavam diante de seu trono. A pequena Katmon estava em pé logo ao lado, encarando os generais.

― Muito bem, Katmon ― Royalmon declarou ― Fez exatamente o que eu pedi.

― Eu dei a mensagem para Crowmon, mestre, mas não sei porque ele não apareceu ― Katmon falou.

― Não tem problema. O que quer que seja, ele virá a mim ― então Royalmon se dirigiu aos três generais em sua frente, suas silhuetas ganhando forma enquanto eles se aproximavam da luz ― Agora, obrigado por atenderem meu chamado, meus caros generais.

― Sabemos que ordens suas não podem ser ignoradas, mestre Royalmon ― a voz feminina de Blinkmon respondeu. Ela era a digimon que guardava a região oeste do Digimundo. Uma digimon com corpo feminino e botas brancas que terminavam em garras, um maiô verde cobria sua pele amarela e ela tinha uma máscara sobre seu rosto que só deixava seus olhos a mostra. Duas ombreiras estavam fixadas em sua roupa e terminavam em panos que pareciam asas encolhidas. E seu cabelo roxo chegava até a altura dos pés. Ela planava com o vento.

― Sabíamos que seria algo sério quando Katmon chegou ― Jeridermon continuou. O digimon que guardava a área sul do Digimundo, um digimon feito de madeira como um boneco, mas uma figura grande que carregava uma marreta gigante e uma metralhadora em suas costas como um X. Possuía também um capacete de cobre cobrindo sua cabeça e partes de armadura em seu corpo. Um dos guerreiros mais cruéis que Royalmon possuía em seu exército.

― Se tiver algo a ver com os rumores que correm por aí, acredito que já sei sobre o que será essa reunião ― o último general, concluiu. WhiteBisonmon, o general responsável pelo norte. O maior entre todos. Um bisão gigante com chifres de aço e pelo branco que andava sobre quatro patas. Em suas costas, uma armadura vermelha com chifres e pontas para sua defesa ― Tem a ver com os humanos, correto?

Royalmon suspirou.

― Sim, WhiteBisonmon. Tem a ver com os humanos.

― Ouvi dizer que em pouco tempo eles conseguiram fazer os digimons deles digivolverem para o nível adulto ― Blinkmon complementou ― Essas crianças estão ganhando força.

― Sim, isso é verdade ― Royalmon concordou ― Infelizmente, nossos esforços para detê-los têm sido em vão. Por isso os chamei aqui. Vocês são do mais alto escalão de meu exército, meus generais. Acredito que a força de vocês seja o necessário para derrotar os digiescolhidos.

― Está pedindo que deixemos nossos postos para irmos até o mundo humano para derrotar essas crianças? ― WhiteBisonmon indagou.

― Sinto dizer, mestre Royalmon, mas com os constantes ataques rebeldes, isso seria imprudência ― Jeridermon concordou ― Já é difícil manter os rebeldes na linha conosco aqui, se deixarmos nossos postos...

― Não é isso que quero que façam ― Royalmon o interrompeu ― Se as coisas seguirem como estão, logo os digiescolhidos virão para o Digimundo, entrarão em meu território. No território de um de vocês. Quero que, quando isso acontecer, vocês cuidem disso para mim. Sem falhas, entenderam?

― Sim ― os três responderam em uníssono.

― E, Royalmon ― WhiteBisonmon falou, atraindo a atenção de seu mestre ― E quanto ao humano que serve a você? O que fará com ele?

Royalmon engoliu em seco. Sabia que aquela pergunta viria alguma hora, mas esperava ter tempo de bolar uma boa reposta. A verdade era: ele não sabia o que faria com Pedro. Sabia que o garoto podia vir a ser uma ameaça, mas quando pensava em se livrar dele, um forte sentimento tomava conta dele, impedindo-o de concluir tais pensamentos.

Graças a forças superiores, ele foi impedido de responder à pergunta quando Onyxmon entrou aos berros na sala do trono.

― Mestre Royalmon! Mestre Royalmon! ― todos se viraram para encarar o digimon de pedra que corria até o governante do Digimundo.

― O que houve, Onyxmon? ― Royalmon questionou.

― Encantemon disse que os humanos chegaram ― Onyxmon respondeu, tomando fôlego ― Estão aqui no Digimundo, na floresta depois das montanhas.

― Como eu pensei. Eles vieram.

― E estão ao sul da fortaleza ― Jeridermon completou ― Essa é minha área.

― Conto com seus soldados para acabar com eles, Jeridermon.

― Sim, senhor, mestre Royalmon.

― Vocês agora estão dispensados ― Royalmon declarou ― Se caso precisar de vocês mais uma vez, Katmon os trará a mim.

Sem mais delongas, Blinkmon e Jeridermon saíram da sala, mas WhiteBisonmon continuou ali, parado encarando Royalmon. O grande digimon contraiu os olhos enquanto olhava para o bisão branco.

― Você pode ter escapado da pergunta agora, mestre ― WhiteBisonmon começou a falar ― Mas mais cedo ou mais tarde terá que tomar uma decisão sobre a criança humana. E sobre aqueles que chama de aliados.

Royalmon queria rebater, mas antes que pudesse, WhiteBisonmon se virou e foi embora, deixando que as palavras morressem na boca de seu mestre.

“Aqueles que chama de aliados”. Royalmon sabia do que ele estava falando. Katmon e Cornmon. Os outros digimons que faziam parte da profecia, os escolhidos de Halomon. Os parceiros dos salvadores daquele mundo.

Pedro, Cornmon e Katmon. Enquanto esses nomes martelavam em sua mente, as palavras de WhiteBisonmon acompanhavam. E, a cada martelada, uma pancada no seu estômago e uma preocupação em seus pensamentos.

+ + +

A carta parou sobre uma residência distante de onde Pedro e Cornmon tinham aparecido. Uma rua afastada e bem calma, uma casa simples e bonita. Depois de Pedro e seu parceiro terem chegado, a carta de Jokermon caiu, inútil, no chão.

Cornmon desceu ao lado de seu parceiro enquanto Pedro recuperava o próprio fôlego e encarava o pequeno portão em sua frente. Era ali onde estava seu objetivo. Lá estava o último dos escolhidos de Halomon. A pessoa que Pedro tinha vindo para destruir.

― Tem certeza do que vai fazer, Pedro? ― Cornmon perguntou.

Pedro não desviou o olhar para responder.

― Já cheguei até aqui, não posso desistir agora.

Respirando fundo, Pedro foi até a porta e bateu contra a estrutura de madeira. Imediatamente o nervosismo tomou conta dele. Seria agora. A pessoa iria abrir a porta e ele e Cornmon atacariam. Pedro provaria o incrível guerreiro digimon que era e acabaria com a ameaça contra Royalmon.

O coração dele acelerava no ritmo que as asas de Cornmon batiam atrás de si. Tudo acabava ali, no momento em que aquelas portas abrissem.