Digimon Champloo
7 Capítulo 6 - Corvo, raposa e águia! Uma batalha furiosa!
Em algum lugar do nosso planeta Terra; Acontecia uma pequena apresentação de teatro nó em uma praça pública. Havia pessoas de todas as idades observando o narrador dar início á trama. As crianças eram a maioria e pareciam ser as mais curiosas para entender o motivo dos tantos "personagens" fantasiados de animais. A narração parecia ser uma canção — uma espécie de musical — que prolongava algumas vogais, tendo o acompanhamento de alguns instrumentos que ditavam o ritmo:
– Uma raposa e um corvo cruzam seus caminhos. Ambos estão famintos para alcançar seus objetivos. O corvo sente que a raposa tem algo que lhe interessa, a raposa nota que o corvo sabe de algo que pode ajudá-la em sua vingança. O corvo em busca de conhecimento, e a raposa que busca vingança; Se confrontam tentando obter aquilo que almejam. Mas a luta termina sem resultado, pois uma águia oportunista descia em um rasante e usava suas garras afiadas como espadas para tentar transformar os dois animais em sua refeição. Qual será o fim desta história? Será contado agora!
Assim que terminava sua introdução, o narrador deixava o palco e os atores surgiam, como se saíssem das sombras. Um homem vestido de corvo, e uma mulher vestida de raposa, onde apenas o ator que iria representar a águia ainda não tinha sido revelado.
*****
Um viajante vestindo um chapéu de palha com formato de prato andava por uma estrada parcialmente coberta por árvores. O chapéu ocultava parcialmente seu rosto, e junto com a capa — que possuía listras verdes, laranjas e pretas distribuídas na vertical — tornava-se difícil de identificar que espécie de "criatura digital" era aquela. O sol estava ardente, era meio-dia; E haviam poucos digimons andando por aquela rota, onde alguns eram pescadores de uma vila próxima, e outros digimons de hábitos menos civilizados — porém pacíficos — que estavam viajando no sentindo contrário ao do viajante.
Enquanto isso um Karatenmon observava o movimento de uma ponte de madeira que separava a estrada da vila que se encontrava logo à frente; Havia um rio de correnteza forte passando debaixo desta. O digimon corvo fazia a guarda do local, fitando quem saia e quem entrava na vila com seus olhos vigilantes, usando sua técnica “os olhos do coração” para observar a intenção de cada um dos que passavam por lá. Tinha sido contratado pelo povo da vila para se livrar de um bandido que não apenas lhes roubava comida e pertences diversos, como também os atacava quando tinha a oportunidade... Era um padrão de ação estranha, mas era justamente por isso que Karatenmon estava o buscando.
Desde que seu antigo mestre tinha se tornado um ser tomado pela ganância, chegando ao ponto de abandonar seus samurais para trás apenas para fugir levando seu precioso dinheiro; O corvo notou que havia algo acontecendo em seu mundo... E durante sua busca para encontrar um novo motivo para viver, ouviu boatos sobre um Deputymon que havia deixado de ser um justiceiro e se tornado um ladrão de trens; Uma manada de Monochromon que estavam devorando tudo que encontravam em seu caminho — digimons que normalmente teriam conduta entre boa e neutra — agindo de forma totalmente adversa ao normal. Karatenmon retirava de uma bolsa avulsa um pequeno caderno do qual anotava algumas informações que havia juntado lendo livros e ouvindo relatos em seu tempo livre:
– No passado ocorreram eventos onde digimons começaram a agir de forma caótica, geralmente em momentos em que este mundo se encontrava em perigo. Sempre que isso acontecia, forças misteriosas invocam a ajuda de crianças humanas; Que junto de seus parceiros digimons, combatiam o mal que colocava nosso mundo na ponta da espada. ... A aparição daquele garoto e seu Wargreymon X no antigo feudo de Zanza pode ser o sinal de que mais uma calamidade se aproxima deste mundo...
Era o que divagava em voz alta, cessando a linha de raciocínio ao notar que haviam alguns digimons o olhando, tentando entender seu monólogo. O corvo colocava a mão em frente à boca e fingia estar tossindo, para então cruzar os braços e ficar em silêncio absoluto, enquanto observava a movimentação pela ponte. ... Segundo os relatos, o bandido vestia um chapéu de palha que mantinha seu rosto oculto sobre a sombra e sempre iniciava seu ataque a partir daquela ponte. Digimons de nível novato e campeão já haviam tentado o confrontar, não obtendo qualquer sucesso durante a batalha. Karatenmon — por estar no estágio perfeição e possuir habilidades especiais únicas- possivelmente teria mais chances de vencê-lo.
Um viajante cuja descrição assemelhava-se com a que foi dada pelos moradores daquela vila era avistado se aproximando da ponte por Karatenmon. Prontamente, o corvo esticava suas asas e levantava voo, pousando alguns metros á frente do digimon. Os dois permaneciam em silêncio por alguns segundos, deixando a atmosfera mais apreensiva. Os transeuntes se afastavam rapidamente de ambos, deixando a estrada de terra quase livre, sobrando apenas o sol do começo de tarde e alguns curiosos para observar qual seria o desfecho daquela situação curiosa:
– O que pretende fazer na vila hoje, senhor bandido?
– Não sei do que esta falando. É a primeira vez que venho até este lugar. — Manifestava-se uma voz fina e feminina.
O corvo podia “ver” que "o bandido" não mentia ou tinha qualquer intenção de furtar objetos da vila... Mas ainda assim seus “olhos do coração” o faziam sentir que havia algo errado naquela viajante. E sentia a mesma sensação quando estava perto de seu antigo senhor — Zanbamon — apesar de um pouco diferente. ... Não sabia dizer o que era, mas tinha interesse em descobrir. Não podia simplesmente deixar a viajante passar por ele sem fazer mais perguntas:
– A descrição do bandido bate com a forma que está vestida.
– Se o problema é esse...
A viajante jogava sua capa e chapéu para o alto, revelando ser uma Renamon de pelos negros e olhos esverdeados. Karatenmon surpreendia-a com tal visão; Sabia que existia a versão vírus de vários digimons, mas nunca imaginou que iria ver uma Black Renamon... Sequer havia ouvido falar desse tipo de variação do digimon raposa. ... Ela podia não ser o bandido, mas a sensação de que havia algo errado apenas se tornava mais forte á cada minuto. O corvo digital não sabia o que era exatamente aquilo que sentia vir da raposa — um sentimento igual ao que Zanbamon lhe passava -, mas tinha certeza de que aquela Renamon era um risco em potencial, e deixá-la passar era a mesma coisa que permitir que esta acabasse causando danos a outros digimons -; Foi o que Karantenmon pensou enquanto sacava suas espadas. Assumia uma posição de combate e fala em tom pesaroso, sentindo-se culpado por ter de eliminar um digimon de nível novato:
– Desculpe-me, mas não posso deixá-la passar com vida daqui. Meus “olhos do coração” viram outros digimons como você e eles sempre eram perigosos.
– Não queria ter que lutar, mas vejo que não tenho escolha.
Naquele dia, fazia exatamente três anos que havia deixado sua terra natal e começado sua jornada em busca de vingança. Tinha encontrado outros digimons corrompidos como ela durante sua jornada, chegando á combater alguns. Rani sabia que para os olhos do corvo ela era uma ameaça a ser vencida, mas apesar de ainda estar carregando a energia sombria da Dark Area, não pretendia ferir outros digimons por inveja; E era isso que ela iria provar ao Karatenmon. Ambos haviam tomado suas posições de combate. Um lutava com espadas, e a outra desarmada... Alguns diriam que aquele combate era injusto por vários motivos, mas para a raposa estava óbvio que ambos estavam no mesmo nível. Os dois combatentes avançaram um na direção do outro, mas a iniciativa estava ao lado de Karatenmon — graças ao fato de seu alcance de ataque ser maior -; Ele atacava com a espada em sua mão direita com um golpe na vertical de cima para baixo. Rani movia seu tronco evitando o golpe, aproveitando a deixa para aplicar um chute giratório visando o rosto do oponente. O corvo conseguiu se esquivar no último momento, jogando seu corpo para trás, aproveitando para aplicar um golpe cruzado das duas espadas na horizontal. Rani dava um mortal para trás evitando o ataque, e quando parava em pé, cruzava os braços em frente ao corpo, juntando energia necessária para seu próximo ataque:
– Diamond storm!
Quando abria seus braços, várias lâminas de energia dourada do tamanho de kunais surgiam á sua frente, e avançavam na direção de Karatenmon. Este girava suas espadas em frente ao corpo, criando uma barreira que o defendia contra os projéteis de energia. Era no meio de sua defesa que a raposa o surpreendia, surgindo de uma nuvem de folhas na sua retaguarda, o golpeando nas costas com o cotovelo, abrindo espaço para uma rasteira que derrubava o corvo, aplicando sequencialmente um golpe forte com a lateral da mão, visando o pescoço do oponente. O corvo resistia e decidia usar seu Satori — uma maneira aperfeiçoada de usar os “olhos do coração”, o permitindo ler o próximo movimento de seu oponente e agir de acordo. Rolava no chão evitando o golpe que iria acertar sua garganta, dando um impulso com as mãos e joelhos para conseguir levantar voo e sair da superfície. Agora batia suas asas para lançar algumas de suas penas, junto com uma forte rajada de ar para desequilibrar o alvo:
– Receba o meu Shougekiha!
– Touhakken!
Rani não tentava se esquivar, pois sentia seu corpo sendo empurrado contra o chão pela forte rajada de ar, e então decidia se defender, cobrindo com seus braços e pernas com chamas azuis, tentando desviar a maioria das penas. Habilmente golpeava cada uma das plumas negras que vinham em sua direção como adagas, as queimando com suas chamas, porém, seu corpo acabava sendo cortado e perfurado por algumas, ficando com algumas dessas presas em seu tórax. Usava em seguida as chamas em suas mãos para se livrar das penas e saltava na direção de uma árvore, agarrando um galho e girando em torno dele, se lançando em direção ao oponente que estava no ar, finalizando uma voadora com os dois pés. O golpe era defendido pelas espadas de Karatenmon, que serviam como base para Rani recuperar seu equilíbrio em pleno ar e então dar um segundo impulso, ficando acima do corvo e aplicando mais um golpe com as duas mãos juntas sobre a cabeça do oponente; Um forte movimento em martelo que o lançava em direção ao chão, fazendo com que a Renamon girasse no ar habilidosamente, caindo em pé á poucos metros de distância de onde estava Karatenmon. O corvo se levantava com certa dificuldade, estando agora ciente da força e habilidade de luta de sua oponente, notando seu erro em lutar sem usar toda sua habilidade desde o começo:
– Não sei quem está mais subestimando seu oponente aqui... – Apontava uma de suas espadas na direção da Rani. – Digievolua para seu estágio mais elevado e vamos lutar á sério! Posso não ser o guerreiro que mais respeita o bushido, mas ainda tenho meu orgulho!
– Foi você quem começou a luta, e agora quer fazer exigências? Eu tenho meus motivos para não digievoluir para minha forma extrema. Vamos acabar com isso... Pode vir com tudo que você tem!
– Você irá se arrepender de não ter liberado todo seu poder! Aí vou eu!
O corvo sumia da vista de Rani, surgindo em uma velocidade impressionante na sua frente dela, dando um mortal para trás em conjunto com um chute que acertava o queixo da raposa, a lançando para o alto, onde novamente o espadachim usava sua velocidade assustadora para alcançar ela com seu voo, aplicando apenas mais dois golpes contra ela — era capaz de enxergar a armadilha de Rani e sabia que aquela que estava no ar era apenas uma técnica de troca, sendo que a verdadeira estava na copa de uma árvore se preparando para disparar seu Diamon Storm. A Renamon disparava o ataque, mas um rastro de penas negras caia sobre ela e o corvo aparecia novamente em suas costas, aplicando um golpe em X, a derrubando de cima da árvore. Karatenmon não estava mais se segurando naquela luta, e os poucos digimons que estavam observando, pareciam atônitos com tamanha diferença de força que havia se formado no momento em que o corvo parou de se segurar. Rani permanecia caída com a face sobre o chão de terra, onde o corvo pousou logo atrás, observando-a:
– Perdoe-me, mas não posso deixar que uma ameaça como você continue viva.
Rani já havia lutado contra digimons de nível perfeição durante sua jornada, mas era a primeira vez que confrontava um com tamanha habilidade de combate. Era como se ele tivesse treinado para ser capaz de ter o poder equivalente ao de um Digimon no estágio extremo...; Sabia que ainda era capaz de digievoluir e se tornar Kuzuhamon, melhorando suas chances de vencer, mas havia prometido a si mesma que nunca mais iria usar aquele poder ou a força de qualquer uma de suas evoluções. Iria lutar apenas como uma Renamon de pelos negros, a marca de seu maior pecado e o lembrete que a fez buscar por vingança.
Ainda caída no chão, Rena recitava palavras para pedir ajuda para uma das quatro feras sagradas, embora não tivesse certeza que algum deles iria lhe emprestar energia para se defender:
– Dragão azul do trovão, escute meu pedido e deixe que eu manipule seus raios! Mesmo com o céu nublado, faça com que o raio rasgue os céus e caia sobre meu inimigo; Soukai!
Um grande raio azul descia do céu e por pouco não atingia Karatenmon, que pôde sentir a energia divina fluindo pelo corpo da raposa quando esta pedia o auxílio de Azulongmon, o dragão azura do leste. Embora não tivesse sido atingido, o forte estrondo, a força do impacto e o clarão do raio; Faziam com que o corvo digital perdesse momentaneamente a audição, visão e o equilíbrio, mesmo que Rani não tenha escapado de uma condição muito melhor de seu próprio ataque, com a vantagem de estar com a visão boa o bastante para conseguir acertar a mira de seu Diamond Storm e disparar uma rajada de lâminas de energia contra Karatenmon, deixando-o tão ferido quanto ela mesma. O corvo ia ao chão. Rani sentia as pernas fraquejarem, caindo sobre um dos joelhos, se apoiando com o braço para conseguir manter-se abaixada ao invés de ficar estirada no chão. Respirava aliviada por ter acabado com aquela luta, feliz por Azulongmon ter mandado sua ajuda pra ela; Teve muito tempo para praticar suas magias divinas durante os três anos que vagou pelo mundo digital, e finalmente havia conseguido entender os ensinamentos de Baromon... Mas sua paz durava pouco, pois Karatenmon se levantava mais uma vez, ajeitando-se na mesma postura que a oponente, mas usando uma das espadas como apoio:
– Eu não posso perder...
– Nem eu pretendo ser derrotada, espadachim.
– Vamos resolver esse impasse agora, Renamon.
Os dois ficavam em pé novamente. Estavam prontos para continuar a luta, contudo, uma sombra surgia acima de ambos e descia implacavelmente em direção ao corvo digital; O vulto passava pelo espadachim e deixava um rastro de penas amarelas — quase douradas — pelo chão. Quando o digimon que desceu dos céus em um rasante pairava no chão, estava abaixado, com as pernas bem separadas e uma espada em punho, com a guarda na altura de seu rosto de águia e a lâmina apontada na direção de Rani. Karatenmon mal tinha tempo de entender o que aconteceu, e três cortes surgiam em suas costas, dilacerando parte das penas de suas asas através de sua armadura, caindo no chão derrotado. O invasor da peleja declarava o nome de sua técnica:
– Tsubame Gaeshi.
– Que-Quem é você?! – Perguntou Rani, confusa.
– Sou o bandido que este yojimbou devia ter derrotado. Obrigado por ter enfraquecido ele pra mim, Renamon Black. – O bandido dizia aquilo embainhando sua espada. – Agora se me der licença, estou com fome e vi que os moradores da vila andaram pescando peixes que parecem incrivelmente saborosos.
Rani abriu os braços para impedir a passagem do digimon, que não apenas tirou vantagem do fato de Karatenmon estar enfraquecido por causa da luta, como de sua força para se apoderar da comida de outros digimons. Não estava comprando aquela briga por achar que era o certo a se fazer, mas por sentir que aquela situação era sua culpa. ... Se tivesse fugido de lá ao invés de ter lutado, o corvo poderia confrontar a águia digital em um duelo onde os dois estivessem com toda sua força... Karatenmon teria vencido sem problemas. A Renamon de pelos negros simplesmente não o deixaria agir da forma que bem entendesse. Iria o derrotar no lugar do digimon que possui “os olhos do coração”, nem que tivesse que colocar toda a sua alma naquilo. O criminoso arrumou o chapéu de palha em sua cabeça, compreendendo a intenção da raposa ao tomar aquela postura:
– Você tem certeza disso? Nesse seu estado você não tem nenhuma chance. — Alertou com escárnio.
– Não preciso nem de 10% da minha força para derrotar você.
– Então que assim seja. Eu, Buraimon, irei colocar um fim a sua miséria.
Buraimon sacava novamente uma de suas katanas e tomava sua posição de combate, deixando a tsuka — cabo — de sua espada na altura do rosto e a lâmina apontada na direção do chão. Segurava a espada com ambas as mãos enquanto mantinha aquela postura defensiva, o que deixava Rani um pouco intrigada, já que á pouco seu oponente havia aplicado um ataque poderoso e estava em uma posição semelhante quando havia o terminado. Rani não tinha tempo para pensar, e assumia energicamente sua pose de combate, se preparando para mais um duelo entre punhos e espadas. A Renamon era quem começava atacando; Uma vez que seu oponente estava na defensiva, seu ataque inicial era um chute alto na altura de seu peito, que era bloqueado pelo digimon águia, usando ambos os braços para tal. A raposa iniciava um novo contra-ataque, impulsionando com a outra perna um salto na tentativa de chutar a nuca de Buraimon. Este curvava o corpo ligeiramente para o lado, transparecendo o golpe com extrema perícia. A águia avançava; Primeiro tentava diminuir o espaço entre ambos, dando um rápido passo para frente, acertando o peito da raposa negra com o ombro, tentando aplicar um golpe na diagonal — de baixo para cima, da esquerda para direita no tronco da oponente -, mas era desviado por Rani, que conseguia saltar para trás á tempo de evitar o ataque da espada.
Mal havia evitado a primeira investida de Buraimon e ele já retomava sua investida, sucedendo uma sequência de golpes em posição baixa que se completavam no alto; Fazendo uso também de golpes na horizontal e sequências rápidas de estocadas, dificultando as esquivas de Renamon o máximo que podia. Rani conseguia evitar a maioria dos ataques, mas acabava sendo acertada de raspão por alguns dele, carregando alguns cortes superficiais pelo corpo. ... Sabia que não teria chances se continuasse lutando desarmada. Podia tentar pegar uma das espadas de Karatenmon, mas teria de passar por Buraimon primeiro, o que era pouco provável a chance de sucesso... Sua única opção era improvisar uma arma com a qual pudesse ter ao seu redor. Rani olhava para as árvores perto de si e saltava em direção á uma em específica; Aquela era a chance que Buraimon estava buscando. ... Deixando a espada na vertical — ainda com a guarda próxima do rosto -, aplicava um forte golpe no ar, criando uma lâmina de vento na direção da raposa, que se antecipou; Usava um galho para se lançar acima do corte de ar, mas não conseguia o que queria. Quando retornava ao chão, pegava o galho mais longo e com menos folhas, o girava com as mãos, ao lado do corpo, passando pelas costas e acima da cabeça, pronta para continuar a batalha. Buraimon voltava á sua posição usual de combatente:
– Vejo que decidiu usar uma arma para lutar.
– Se tornou necessário.
Rani avançava na direção de seu oponente, usando seu bastão improvisado para atacá-lo. Arquitetava golpes rápidos de estocadas e pelas laterais, tentando manter seu oponente na defensiva e bloqueando os golpes de espada que julgava não serem capazes de cortar sua arma ao meio. Buraimon atacava com um avanço agressivo, tentando abrir espaço para uma sequência de golpes. Renamon batia a ponta de seu bastão na parte sem lâmina da espada, desviando o golpe inimigo para cima, girando em seguida o bastão rápido o bastante para acertar seu queixo, o fazendo tirar os pés do chão por um breve segundo; Prosseguia com o golpe, batendo na lateral do pescoço de Buraimon com o cajado, finalizando um ataque forte direto contra o estômago da águia digital; Completava a sequência com um forte golpe na vertical contra sua cabeça. A águia conseguia com esforço recuperar seu equilíbrio e liberar no último instante sua técnica — Tsubame Gaeshi; São aplicados três cortes rápidos sem aumentar sua velocidade, e, ao invés disso, cria uma pequena distorção no tempo e consegue direcionar o ataque simultaneamente contra o alvo, se tornando uma poderosa técnica de contra-ataque.
Burai aplicava os três golpes diretamente contra a área do peitoral exposta da oponente, distribuindo um na região do pulmão e os outros dois no tronco, formando um triângulo. Seu contra golpe era um sucesso, fazendo com que Renamon recuasse, caindo de costas no chão.
A águia não guardava sua espada; Apenas abaixava sua lâmina e abandonava sua posição de combate. Ambos digimons tinham chance de serem ameaças para ele, e tinham sido derrotados. Independente da maneira que ele tenha escolhido os vencer, se iriam morrer, isso não era seu problema... Talvez fosse melhor que aqueles dois voltassem a ser digitamas, afinal.
O ladrão de comida estava certo de que sua oponente permanecia consciente, podendo ouvir sua respiração fraca e pesada. Já que havia a vencido e tinha confiança de sobra em sua técnica mortal; Tomou a atitude de contar-lhe um segredo de último momento:
– Tsubame Gaeshi é uma técnica de contra-ataque. Ela distorce o tempo de forma que eu consigo agir mais rápido e aplicar até três golpes ao mesmo tempo.
Calou-se após os dizeres, aguardando alguma reação de Renamon... Mas nada foi dito por ela. Buraimon dava de ombros, se despedindo; Andando calmamente na direção da vila:
– Eu poderia dar o golpe final e me absorver em seus dados, mas isso não faz meu estilo. Fique feliz por ter encontrado um oponente tão generoso quanto eu, Renamon.
A raposa negra não tinha mais forças para ficar em pé ou continuar lutando... Sequer tinha condições de canalizar energia divina através de seu corpo. Ainda se culpava por ter insistido em seguir por aquele caminho ao invés de recuar e evitar o confronto com Karatenmon... Se a luta tivesse sido evitada, não estaria estirada no chão com o corpo ferido daquela maneira. Renamon desejava mais força para lutar...
Rani sentiu uma lágrima cair de seu rosto e seus ferimentos se aquecerem. Levantou-se com certa dificuldade, observando de rabo de olho a águia digital já alguns passos de distância de si, ficando um de costas para o outro. Seu corpo brilhava como se fosse evoluir, mas não havia nenhum sinal de que iria o fazer. A Renamon negra se virou na direção do espadachim capaz de distorcer o tempo e cobriu seus braços e pernas com chamas azuis:
– Buraimon! Eu, Rani, não permitirei que você continue roubando a comida desta vila!
Buraimon se virou, pronto para retrucar as palavras do digimon fêmea, mas ficou surpreso ao ver as feridas da raposa se fechando como se fossem a benção de algum deus, deixando escapar sua surpresa de seu bico:
– Não é possível! Su-Suas feridas...!
– Esse é o segundo round da nossa luta, Buraimon... E eu serei sua juíza!
– Venha, raposa! Eu irei ter certeza de dar um fim á você agora!
Buraimon rapidamente retomou sua postura de combate enquanto Rani vinha em sua direção. O atacava com socos e chutes — golpes estavam visualmente mais rápidos que antes — forçando a águia a se esquivar e recuar alguns passos, tendo de usar a própria espada para se proteger de alguns solavancos de força.
Ainda não havia usado seu Tsubame Gaeshi, pois esperava o momento certo em que Renamon estivesse com a guarda baixa para aplicar-lhe um golpe mais forte, assim como fez durante o primeiro round da luta.
A raposa continuava com sua sequência de socos e chutes flamejantes. Tentava atravessar a defesa de Buraimon e aplicar um golpe direto, mas conseguia somente lhe queimar algumas penas e a pele superficialmente — nada que fosse decidir a luta ou impedir que o oponente usasse suas táticas de ataque -; E foi quando decidiu passar direto pela defesa da águia, lançando as chamas de seu corpo de uma única vez contra o oponente:
– Homuradama!
– Tsubame Gaeshi!
Os dois liberavam ataques especiais ao mesmo tempo. Buraimon pretendia se livrar das chamas e acertar sua oponente ao mesmo tempo, mas quando sua lâmina tocou a primeira bola de fogo, esta detonou o que repercutiu da mesma maneira nas demais; Isso forçava o espadachim recuar, criando uma à brecha certeira para Rani acertar a águia. Dava uma voadora no peito do oponente, e antes que ambos tocassem o chão, a raposa fêmea recuava a perna e impulsionava o corpo para frente com o peso de um de seus punhos, acertando seu inimigo com o punho, prosseguindo com outro; Dando início a uma torrente de golpes implacáveis.
Buraimon foi ao chão instantaneamente, mas a ofensiva de Rani ainda não tinha chegado ao fim. Pousou com ambos os pés no peito da ave e tomou impulso, dando um grande pulo, deixando os braços cruzados em frente ao corpo:
– Buraimon, você foi julgado... Culpado! Diamond Storm!
– Ainda não acabou... TSUBAME NIMAI GAESHI!
Mais uma vez os golpes mortais se colidiam.
Agora Buraimon aplicava sua técnica secreta usando as duas espadas que carregava. Conseguia aplicar um total de seis golpes daquela forma, o suficiente para proteger-se da maioria das bolas de energia que eram lançadas de Rani. A águia aplicava os golpes no momento em que faltava pouco para seu corpo ser acertado pelo ataque inimigo, conseguindo defender os pontos vitais de seu corpo com precisão e habilidade, contudo; Esqueceu-se de levar em conta a aproximação da raposa.
O punho direito de Rani ficou coberto de chamas vermelhas ardentes. Prevendo que sua diamond storm seria defendida, preparou mais um ataque no ar. As chamas se expandiam até tomar a forma da cabeça de um dragão chinês; E quando sua usuária aplicava o soco em meio ao ar, às chamas avançavam na direção da águia como um dragão em cólera. Buraimon-que tinha acabado de aplicar seu golpe mais poderoso para se defender — observou as presas flamejantes de seu algoz vindo em sua direção, sem reação:
– Vou acabar com sua fome! Coma isto, Jaenryū!
Os dois pés da raposa tocavam a superfície estando de costas para seu oponente, e a marca dos dentes do dragão no chão. Buraimon permanecia em silêncio enquanto sua consciência se apagava:
– Buraimon, depois me conte qual é o gosto da derrota.
*****
Horas se passavam desde o final da batalha. Karatenmon despertava no interior de uma das casas da vila sobrepostas por suportes, a fim de evitar o alagamento do rio.
Era uma vila de Gabumons, e estes não eram experientes o bastante para confrontar Bureimon de igual para igual. Havia um Psychemon — um digimon semelhante aos gabumon, com a diferença de sua coloração ser arroxeada e suas garras verdes — que trocava os curativos nas costas do corvo digital. Karatenmon levou a mão até o rosto, sua máscara estava lá:
– Não se preocupe, Gabumons e Psychemons tem vergonha de serem vistos sem seus casacos de pele, ninguém aqui iria tirar sua máscara, mestre espadachim. – Comentou o digimon que cuidava de seus ferimentos.
– Me chame apenas de Karatenmon, não sou nenhum mestre do caminho da espada para ser considerado um “espadachim”. –Respirou fundo. – Como está a vila depois do meu fracasso?
– Fracasso? A Renamon que carregou você até aqui disse que o senhor foi imprescindível na luta contra o Buraimon. Segundo ela, o senhor recebeu estas feridas nas costas tentando a proteger do golpe mortal do oponente, e restou á ela terminar a lutar.
– ... O que ela tem na cabeça? – Resmungou o corvo para si.
– Disse algo, senhor?
– Nada. Apenas peça para Renamon vir aqui... Se ela estiver em condições de andar, claro.
– Sim, senhor. – Se levantava do local onde estava pousado.
– Mais uma coisa; Que fim teve Buraimon?
– A Renamon o trouxe para cá também. Ela carregou você em um ombro e ele no outro. Foi uma visão incrível. – Comentou, animado.
– O Buraimon ainda está vivo?! – Questionava surpreso.
– Todos ficaram assustados, mas ela disse que tinha perguntas á fazer para ele... E depois disso a vila poderia decidir o que fazer com o ladrão de comida.
Enquanto Karatenmon procurava entender o que se passava na mente de Rani; A mesma se encontrava na sala de reuniões da casa do líder da vila. Pediu-lhe para ficar sozinha com Buraimon, em conjunto com dois Garurumons, que ficaram em frente à porta para evitar uma tentativa de fuga por parte do bandido. O ladrão de comida havia sido deixado deitado em uma esteira de bamboo... Não era confortável, mas estava mais limpa que o chão.
A Renamon de pelos negros desejava fazer algumas perguntas para Buraimon. Se ele fosse um ladrão tão cruel, teria matado ela e o corvo quando teve a chance, mas pareceu preferir poupar a vida de ambos... E foi exatamente isso que despertou o interesse de Rani pelo ladrão. Talvez ele pudesse a ajudar. A águia digital estava acordada e um pouco ansioso para saber o que Rani iria perguntar-lhe:
– Ainda está com fome, Buraimon?
– Depois que fui derrotado, minha fome sumiu. O que você fez?
– É isso que eu gostaria de entender. Há quanto tempo você está faminto?
–Já faz alguns meses. Quando a fome começou a crescer, eu tentava pescar, coletar frutos, ervas comestíveis, me esforçava ao máximo para conseguir comida.
– E aí você começou a roubar comida?
– Eu me esforçava menos e conseguia mais, assim o incomodo acabava mais rápido. Foi quando eu encontrei essa vila e comecei a saqueá-la todos os dias.
– Você se lembra de alguma coisa antes de ficar com muita fome?
–Eu estava atravessando o trash desert e fui atacado por um digimon furioso. Ele usava machados em combate, eu tentei lutar, mas fui vencido... Depois disso... ARGH! – A águia sentia uma dor dilacerante na cabeça, que o fazia curvar o torso.
– O que foi, Buraimon?!
– É como se algo tentasse me impedir de lembrar... Minha cabeça... Ela dói... – Prosseguia com a respiração pesada. – Eu posso ver... Era uma caverna... Dois digimons... Sinto uma... Muita energia das trevas... Eles falam algo sobre “mestres”... E me usar... E-Eles fizeram algo comigo!
O ladrão sentava bruscamente — independente de suas feridas. Rani se abaixava rapidamente e procurava o acalmar, o deitando lentamente sobre a esteira:
– Está tudo bem agora... Você não precisa lembrar-se de mais nada. Eu vou falar com algum viajante que esteja na vila e ver se ele conhece boatos sobre um digimon usuário de machado.
– Desculpe por só dar trabalho. No final, nem pude ajudar e compensar você por ter poupado a minha vida.
Rani se levantava e dava as costas para Buraimon. A águia estava curiosa quanto às técnicas que a Renamon usou para vencê-lo:
– Antes que você siga seu caminho, que ataques foram aqueles que você usou? Eu tinha certeza que você estava fora de condição para continuar a batalha...
– Foram ataques da minha forma campeã, Youkomon. – Ela não dava maiores explicações, tentando trocar de assunto. – E não se preocupe. Talvez você consiga encontrar outra forma de pagar por seus crimes.
– O que quer dizer com isso?
– Talvez possa ajudar a vila de alguma forma, trabalhando sem pedir nada em troca. Pense nisso. Traria bons frutos para todos.
– Obrigado, Renamon. Pensarei com calma.
– Não desperdice a segunda chance que está ganhando, Buraimon.
A Renamon deixava a sala sem olhar para trás; Enquanto que Buraimon estava feliz por ter sido salvo. Agora ele só tinha de encontrar uma forma de convencer os digimons daquela vila de que suas habilidades podiam ser úteis e que não iria nunca mais roubar comida.
Assim que pisava fora da sala de reuniões, Rani era abordada pelo líder da vila, um BlackGabumon ancião – a versão vírus do gabumon. Sua pele é albina e seu casaco de pele é negro com listras brancas. Este usava um cajado um pouco maior que ele como apoio:
– Então, ele falou o que você queria?
– Não exatamente... Mas me apontou a direção do próximo local para investigar.
– Entendo. Já podemos o punir por ferir nosso orgulho?
– Não acho que seria justo o punir severamente. Buraimon me parece estar disposto a pagar por seus erros servindo como guarda da vila. Ele não espera receber nada pelo serviço.
– E por que eu deveria pensar nesta possibilidade?
– Ele pode ter usado suas habilidades para a causa errada, mas além de poder enfrentar digimons poderosos, vai servir de incentivo para que os digimons da vila continuem treinando.
– Pensando dessa maneira, vale a pena. Obrigado pelo conselho, Renamon.
O Gabumon negro agradecia e entrava na sala de reuniões acompanhado pelos dois Garurumons que estavam de guarda em frente à porta. Rani dava mais alguns passos e agora era abordada por outra variação do Gabumon, o Psychemon que estava cuidando das feridas do corvo digital:
– Senhora Renamon... – Era interrompido pela raposa.
– Não é necessária tanta formalidade. Apenas Renamon já é bom o bastante. – Sorriu.
– Certo, se... Ops... Renamon. O senhor Karatenmon quer falar com você antes que siga seu caminho.
– Então ele já acordou... Pode me guiar até a casa na qual ele está?
Renamon observava o olhar de Psychemon atentamente, notando que este ainda queria falar algo antes de levá-la até o corvo:
– Se quiser perguntar algo, o faça agora. – Disse em tom sério, sem perder a calma.
– É... Bem... E quanto ao Buraimon? Ele ainda vai roubar comida?
– Essas perguntas ele mesmo pode responder. – Andava como se soubesse em que direção seguir.
– Hã?! Como assim? – Psychemon acelerava o passo pra alcançar Renamon. – E-Eu não entendi o que você quis dizer!
Renamon seguia sem saber em qual casa Karatenmon estava hospedado até Psychemon a ultrapassar e indicar as direções. Rani não demonstrava nenhuma reação ao ser avisada que estava indo na direção errada.
Psychemon deixava que Renamon entrasse sozinha na casa — preferiu deixar que conversassem a sós, pois poderiam ficar á vontade. A raposa digital pegou um banquinho e o levou até perto da cama, ficando um pouco desconfortável ao sentar nele, já que este era pra ser usado por digimons menores que ela:
– Como estão suas feridas?
– Estão doendo menos, mas ainda não posso me mover. – Suspirava, prosseguindo. – Peço desculpas por ter atacado você mais cedo, Renamon.
– Tudo bem, eu podia ter evitado a luta se tivesse fugido.
– Você não parece ser do tipo que foge de uma luta. – Karatenmon movia seus olhos na direção aos da raposa, retomando a conversa em tom sério. – Agora, se importa de me responder algumas perguntas?
Renamon cruzou os braços em frente ao corpo e fechou os olhos:
– Eu me importo.
– Pois bem... Como?
– Eu disse que me importo de responder suas perguntas. Tenho algumas condições.
– Certo... – O corvo demonstrava aborrecimento com aquilo.
– Começando por você. Cada um de nós dois pode fazer algumas pergunta para o outro, até chegar um total de três perguntas cada.
– Entendo... Então você não quer acabar falando muito sobre seu passado.
– Sim... E nada de usar técnicas que o deixe ler meus pensamentos e sentimentos.
– Certo. Nada de “olhos do coração”. Mais alguma coisa?
– Apenas isso. Vou deixar que você comece.
Após escutar todas as condições de Renamon, o corvo ponderava sobre quais seriam suas três perguntas. Teria de ser esperto em seus questionamentos para chegar o mais próximo possível da resposta que procurava. Repensou por alguns segundos e deu início:
– Como e por que suas feridas se fecharam?
– Eu estava perdendo a luta para Buraimon, mas quando pensei em desistir, eu senti uma energia enorme crescer dentro de mim, como se fosse evoluir. Mas ela serviu para fechar minhas feridas e usar os ataques da minha evolução, Youkomon.
– Entendo, foi assim que você venceu o Buraimon. Agora é sua vez.
– Por que exatamente você me atacou? – Rani perguntou.
– Eu conheci um digimon que passava a mesma sensação estranha que senti em você. Ele era bom e generoso com seus amigos, mas com o tempo foi se tornando ganancioso, á ponto de abandonar seus companheiros lutando para fugir com todo dinheiro que conseguia carregar. Essa ganância excessiva o fez ferir outros digimons. Achei que você iria fazer o mesmo, mas no final você salvou a vila.
Renamon se lembrava do que havia feito antes de ser expulsa de sua casa e começar sua jornada em busca do verdadeiro responsável, apenas não esperava que houvesse outros digimons que estavam sendo afetados por uma força que ela assumia ser maligna. Karatenmon não precisava usar sua habilidade para notar que a raposa estava incomodada com algo:
– Renamon, algo a incomoda?
– Hã?... Não, estava apenas pensando sobre o que poderia ter feito você sentir essa “sensação estranha” vindo de mim. Agora é sua vez de perguntar.
– Certo, certo. – Karatenmon deitava de lado, olhando-a nos olhos. – Por que deixou o Buraimon vivo?
– Ele teve a chance de acabar com nós dois e não o fez. No final, o Buraimon era apenas um digimon possuído pela fome e eu não vi necessidade de o matar. Segundo o próprio, ele não está mais faminto.
– Então decidiu dar uma segunda chance á ele. Você não tem cara de ser tão piedosa assim, Renamon.
– Nã-Não é como se eu tivesse escolhido o poupar, eu queria tirar informações dele.
O corvo ria ao ver que havia deixado Rani sem graça, mas parava logo, pois acabava deitando de costas na cama e a dor das feridas o lembrava de que devia ficar deitado com elas pra cima, se virando rapidamente. Quem ria agora era Renamon, mas de forma discreta. Os dois ficavam em silêncio e simplesmente voltavam a rir por alguns segundos, então prosseguiam com suas perguntas:
– Você sabe algum boato sobre outros digimons agindo de forma estranha?
– Não diretamente, mas ouvi falar que ao norte está havendo uma escavação. Estão em busca de uma arma lendária, Claiomh solais.
– A lança de Craniunmon?!
– Exatamente. Eu não ficaria surpreso se algum digimon tentasse roubá-la. A escavação está sendo feita no deserto de rock’n’sand, próximo ao trash desert.
– Interessante...
– Tem algo em mente?
– Talvez eu faça algumas paradas antes de ir até a escavação.
– Por-! – O corvo era interrompido antes de perguntar.
– Cuidado com o que vai perguntar. Vou descontar como sendo sua última pergunta.
Karatenmon voltou a ficar em silêncio. Cada um tinha apenas uma pergunta, possivelmente a raposa tinha guardado sua melhor pergunta para o final. Na verdade, ele já tinha tirado todas suas dúvidas, e iria aproveitar aquela última pergunta para tentar entender mais aquela estranha Renamon de pelos negros:
– Você está buscando o que em sua viagem?
– Quero encontrar um digimon.
– Por quê?
– Já está fazendo perguntas demais, Karatenmon. – Rani respondia se levantando.
O corvo a via indo na direção da porta da casa, deixando o local sem fazer sua última pergunta:
– Não quer fazer mais perguntas? Ainda lhe devo uma.
– Vou guardar essa para a próxima vez que nos encontrarmos, Karatenmon.
– Certo. Você se importaria de me dizer seu nome, Black Renamon?
Rani parou em frente à porta, colocou a mão no estrado dela e virou o rosto, olhando o corvo digital por cima do ombro:
– Me chame de Rani. Até mais, Karatenmon. – Respondeu em tom sério.
– Heh... Até mais, Rani.
A raposa digital deixava a casa na qual estava, seguindo em direção à saída da vila, vestindo novamente seu chapéu e capa listrada, ainda com curativos por todo o corpo. Acenava para o Psychemon em sinal de despedida, enquanto este tentava a alcançar correndo com suas pernas curtas; Não queria simplesmente deixar alguém que protegeu a vila ir embora com as mãos abanando, mas não conseguia, vendo o vulto de Renamon sumir no horizonte, solitária, sem laços com lugar algum... Apenas sentia que ainda iria se encontrar novamente com aqueles dos espadachins digitais se continuasse seguindo os boatos sobre digimons agindo de forma estranha.
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