Digimon Champloo

4 Capítulo 3 - É a vez de MetalMamemon!


Trailmon, um dos métodos mais rápidos de se viajar por grandes distâncias no mundo digital; Sendo considerado por muitos uma das formas mais seguras de viagem — pois a maioria dos digimons que usam este método são de baixo nível -; disponível geralmente nas áreas mais perigosas e densas do Digimundo, evitando paradoxalmente furtos grandiosos por parte de “monstros digitais” mais fortes e de extinto menor.

Esta história inicia-se em uma estação de trem localizada no meio de um deserto escaldante, que por ser a única parada de trem em meio àquela vastidão de areia; Se encontrava lotada, com todos os tipos de criaturas tentando abrigar-se do calor infernal daquela paisagem desolada.

Uma dupla de Geremons — digimons moluscos similares á melecas de cor amarelada, com uma grande boca e olhos presos á antenas -, composta por um pai — que possuía um bigode desenhado em seu rosto — e um filho — que era pequeno o suficiente para ser carregado por de cima da cabeça de seu pai -; Encontravam-se sendo empurrados e esmagados no meio da multidão que tentava — á qualquer custo — entrar desesperadamente no vagão. Em meio á todo o caos que decorria, o filhote de Geremon acabava por cair da cabeça de sua figura paterna, sendo este – o pai — sequencialmente levado pela multidão para dentro do vagão com afobação. E não importava a quantidade de esforços que fazia para voltar atrás e reaver seu filho; Mais se tornava claro que tinha falhado:

– Rereré! Não saia de onde está! O papai irá voltar para te buscar!

– Papai!

O pequeno chorava incessantemente por medo de ser deixado para trás, mas ninguém no meio da multidão que sobrava na plataforma parecia se sensibilizar o suficiente para ajudá-lo.

Não demorou para que todos os Digimons estivessem já abarrotados dentro do trem. Trailmon apitava e gritava, anunciando que estava pronto para partir, enquanto que Rereré, desolado, chorava cada vez mais. E seu pai, por outro lado – observando-o de dentro do vagão -, sentiu não somente seu coração ser apertado com rudeza, como sua própria consciência se esmigalhar á cada segundo longe de sua cria... Porém, um Digimon do mesmo tamanho que o Geremon mais velho se aproximava da criança — era difícil dizer que espécime de Digimon era aquele, pois parte de seu corpo estava coberto por um poncho marrom, enquanto que sobre sua cabeça havia um chapéu de cowboy com um furo na aba esquerda, encobrindo seu rosto -, observava incrédulo o trem preparando-se para partir:

– Não posso perder esse trem! ... E você pare de chorar. – Reclamou.

– Mas meu papai foi embora... BUAAAAAAAAAAAAAA!

– ... Onde esta seu pai, garoto?

– Dentro do Trailmon... – Respondeu com a voz trêmula o pequenino.

– Já entendi. Nesse caso, vou te dar uma ajuda.

O Digimon misterioso estendia uma de suas mãos para fora do poncho, revelando garras de metal presas às costas destas, o que acabava por amedrontar Geremon inicialmente, mas logo sentia o toque da mão e da luva vermelha do Digimon que estava disposto a ajudá-lo, afastando por ocasião o próprio sentimento agoniante. O estranho erguia Rereré até o topo de seu chapéu e começava á correr em direção ao trem. Se conseguisse ser rápido o suficiente para alcançá-lo, iria agarrar-se na sacada presente no fim do último vagão e entraria pela porta dos fundos, mas nessa competição era óbvia a “vitória” por parte da locomotiva; Entretanto...

O estranho tinha algo á mais em mente. Primeiro saltou, e enquanto estava no ar girou o corpo com o seu braço destro estendido para fora do poncho; Com a canhota – que era um canhão laser capaz de disparar rajadas e esferas enérgicas de alta densidade -, rapidamente ajustava o canhão em seu braço para lançar uma rajada de energia, disparando-a contra o chão da estação. Seu plano era que esse ataque impulsionasse-o na direção do último vagão. O pequeno Geremon gritava alegre, aparentemente se divertindo com toda aquela ação, tanto que não sentia medo algum enquanto seu herói e ele transpassavam o ar na direção do Trailmon. Quando o plano era concluído com sucesso; Ambos – literalmente — atravessavam a porta do último vagão, colidindo contra uma pilha de caixas.

O Digimon misterioso passava a mão direita – da qual usou anteriormente para pegar Rereré quando estavam na plataforma — sobre sua grande cabeça metálica, em busca do chapéu:

– Garoto, onde você está?

Sua primeira reação foi á de procurar o menino, encontrando-o sem grandes dificuldades grudado no chapéu, um pouco tonto. Ambos – o chapéu e o filhote – estavam caídos sobre uma caixa que não foi afetada pela batida. O Digimon androide se aproximava do pequeno:

– Você está bem?

– Foi... — Rereré balançava o corpo, já enérgico. – O senhor foi demais! E voar até aqui foi a melhor parte!

– Tsh, é tão bom ser criança. – Resmungou, colocando o chapéu na cabeça.

– Êh! ... Meu nome é Rereré, e o do senhor?

– Abri mão do meu nome há algum tempo...

– Não tem nome? Hm... Então como posso te chamar?

– Crie um apelido para mim.

“Sem nome” começava á explorar o vagão de carga, trombando com a porta que dava acesso ás cabines. Andou por todos os vagões do trem enquanto procurava pelo pai de Rereré... E claro, infelizmente, teria que suportá-lo tentando lhe dar um apelido durante o processo. Algo que chegava até mesmo ser divertido, visto que o androide não era acostumado àquilo. O garoto pensava por alguns segundos e então iniciava uma série de apelidos, aguardando sempre por parte do mais velho sua aprovação:

– Que tal Hagaren?

– Pesado demais.

– Tezuka?

– Parece nome de pai.

– Que tal Tony?

– Nome de riquinho.

– Então... Astro?

– Me faz pensar em alguém bonzinho demais.

– Cê vai gostar desse, é bem legal: Tekken!

– Você está gostando desse jogo, né?

– É divertido pensar em um apelido legal pro senhor, mas o senhor rejeita todos...

– Pense em algum simples e que eu não esqueça facilmente.

– O Senhor tem memória curta?

– Se foque no apelido e não nos problemas da minha memória RAM.

– ... Dattebayou!

– E pare de falar coisas estranhas...

Rereré não parava de se divertir ás custas do Digimon que o ajudou. Para ele, aquilo já tinha se tornado uma brincadeira; Como se interpretasse aquelas histórias onde o bravo guerreiro salvava uma criança inocente de um grande perigo! ... Algo bem clichê, mas que sempre acaba por agradar o público infantil. E o mais divertido de tudo aquilo era que ele e o homem misterioso eram os protagonistas!

Enquanto explorava os vagões de passageiros em busca do pai de seu companheiro mirim; O digimon de vários apelidos ia se esquivando de pernas esticadas, malas e o que mais estivesse em seu caminho, não sendo diferente quando um Orgemon — um Digimon humanoide com o corpo verde e musculoso, com tendência natural de ser fanfarrão — tentou o chutar propositalmente. Mas — este ogro digital em especifico — teve uma surpresa ao ver o digimon no qual tentou desferir um golpe maldoso saltar alto o bastante para ficar acima de sua cabeça e pousar sobre ela. Orgemon ficou estático enquanto sentia aqueles pés sobre seus cabelos brancos, exatamente no meio do seu par de chifres. Suava frio só de pensar que mexeu com o oponente errado...

Rereré não percebeu o movimento de tão rápido que este fora, concentrando-se em apenas achar um apelido “bacana” para o Digimon “sem nome”:

– Tetsu! É um apelido bem legal, né?

– Perfeito garoto. Esse apelido combina com meu canhão.

– Yay! Finalmente o senhor aceitou um apelido!

– Como eu sempre digo: “Nunca subestime um Digimon pela altura, ele pode surpreender você”.

– Dattebayou

– Certo. – Concordava o Orgemon que se esforçava para não tremer de medo.

– Rereré, pare de falar essa coisa esquisita. – Retrucou Tetsu.

Tetsu descia da cabeça do ogro e caminhava pretensioso, como se nada tivesse acontecido... Ao contrário de Orgemon, que se viu “obrigado” á correr até o banheiro, com uma urgência pendente. Agora que estava novamente apenas na companhia do pequeno Geremon; O androide empeçava á dar algumas dicas de sobrevivência baseadas em suas experiências anteriores para o menino, pois ele sabia como era difícil ser um digimon de nível avançado e ter o tamanho igual ao de um nível novato. Os digimons maiores com certeza iriam tentar tirar vantagem da diferença de estatura e força para ganharem uma luta:

– Rereré, alguma vez um Digimon tirou vantagem de você ou de seu pai por causa do tamanho?

– ... Acho que sim. Eu ainda era novinho, mas lembro de ter visto um Digimon pedindo dinheiro pro papai e pra mamãe, aí meu pai tentou lutar com ele, mas voltou todo machucado para casa e minha mãe não voltou. Não entendi muito bem...

– Pai corajoso o seu... Garoto, um dia você vai entender o que seu pai fez e vai ter orgulho dele. Nunca se esqueça: “Não abaixe sua cabeça para ninguém que não respeite você, principalmente se ele usar como argumento a altura dele”. ... Não deixe que nenhum Digimon maior que você subestime suas capacidades e diga “o quê” e “como” você deve fazer as coisas. Tenha orgulho de seu tamanho e se destaque nesse mundo de gigantes.

– Hum... O senhor já teve problemas com os grandões, né?

– Digamos que só estou aqui porque perdi uma briga com alguém maior que eu, e agora estou tentando ficar mais forte.

– ... Então o senhor quer se vingar?

– Não, apenas quero me fortalecer para poder proteger os indefesos e ajudar quem precisa.

– Oh, o senhor quer ser um herói! Que legal! Dattebayou!

– Tsh... Digamos que seja isso, basicamente.

Tetsu havia encontrado uma criança bem interessante, no final das contas. Era mais esperto que muitos Digimons e conseguia perceber o que ficava subentendido nas frases dos outros... Iria ter um futuro brilhante, caso continuasse com aquele jeito de encarar as coisas.

Finalmente chegavam ao vagão no qual Rereré estava tentando embarcar com seu pai. Não seria difícil de encontrar o Geremon mais velho naquele local. Tetsu acreditava que ele estaria sentado no banco chorando a perda do filho e imaginando mil formas de voltar para estação da qual partiu o mais rápido possível.

Tetsu andava pelo vagão com cautela, e como esperado por si; Escutava o choro de algum Digimon macho aos arredores. Aproximou-se do dono dos prantos com calma — queria ter certeza de que era quem estavam buscando –, e felizmente dava de cara com um Geremon. Rereré pulava de sua cabeça na direção do pai:

– Papaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! – Exclamou o pequenino com lágrimas nos olhos.

– Essa voz... – o Geremon mais velho levantava suas antenas há tempo de ver o filho vindo em sua direção – Rereré!

Ambos se abraçavam com força, como esperado de pai e filho. Tetsu observava o que acontecia em silêncio absoluto, imaginando o que tinha se passado na mente do pai de Rereré. Já havia perdido a esposa – aparentemente –, não era á toa tamanho desespero por ver-se separado de seu rebento... Fora uma espera agonizante até o filho chegar sendo carregado por um estranho, sem dúvidas:

– Filho, nunca mais o papai vai deixar você para trás...

– Tudo bem, papai. A culpa não é sua. Eu devia ter me segurado com mais força.

– Mas foi ótimo você ter conseguido entrar no trem há tempo...

– Não, eu só cheguei aqui graças a ajuda do Senhor Tetsu.

Rereré apontava na direção da figura misteriosa que parecia um pistoleiro solitário com o tamanho de uma criança. O pai fitava o estranho de cima á baixo, e então colocava o filho sobre a o topo da cabeça e estendia sua mão para o Digimon:

– Muito obrigado, senhor. Serei eternamente grato e farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo.

– Não foi nada. Apenas quis ajudar uma criança a encontrar seu pai.

– Meu nome é Geburp. E o seu? – Perguntou sorridente.

– Tetsu! – Respondeu Rereré.

– É o que o filho do senhor disse. Agora se me derem licença...

Tetsu levanta o chapéu em um cumprimento e caminhava para o vagão anterior; Agora teria de procurar pelo seu assento. Não queria ficar em pé até chegar em seu ponto de parada.

Geburp, o pai de Rereré; Reconheceu imediatamente o tipo de Digimon que Tetsu era. O capacete de metal e o tamanho eram o suficiente para ele descobrir isso: Tetsu era um MetalMamemon — um digimon de porte minímo como Geremons, mas seus corpos são redondos como bolas de futebol, os braços quase arrastam no chão e suas pernas são curtas.Um digimon pequeno, mas um grande héroi.

Quando Tetsu finalmente encontrava seu assento, via que ele estava ocupado por um digimon de idade avançada, então preferiu ir sentado no chão pelo resto da viagem – não se incomodava, contando que tivesse onde repousar. Agora que estava sozinho, ponderava no que poderia ter acontecido com a mãe de Rereré. Ela pode ter sido levada como escrava ou fora morta durante o combate contra o ladrão... ; Aquilo acabava fazendo com que Tetsu se lembrasse dos acontecimentos que o forçaram a deixar sua vida pacata em uma vila que sobrevivia graças à agricultura e o trabalho em equipe de seus habitantes, para se tornar um aventureiro solitário em busca de se tornar poderoso...

(...)

Era um dia importante para Ervilla — um vilarejo habitado apenas por Mamemons em uma rota de viajantes; A festividade mais importante lá era o dia do “comprimento da promessa”. Reza a lenda que foi nesse dia que o fundador da vila, Ichima; Cumpriu sua parte da promessa que havia feito com o deus dragão – Azulongmon — e em troca foi o recompensado com a fertilização das terras próximas de sua casa, que futuramente iria vir a se tornar Ervilla.

Devido o significado desse dia, é comum que contratos importantes e casamentos ocorram durante ele, pois segundo a lenda acordos assinados nesse dia não podem ser quebrados e os casais ficam unidos mesmo após o fim de suas vidas. Tetsu ainda era um Mamemon nessa época e havia pedido a mão de sua amada, Mina — uma digimon fêmea da mesma raça — em casamento uma semana antes do feriado de Ervilla. Fora combinado que iriam se casar durante a noite, após a festa que seria dada na tenda do líder da vila.

Tetsu — que na época respondia pelo nome de Vlado — estava dentro de sua casa esperando o horário de termino da festa. Estava ansioso, logo iria se casar com sua amada e viveria ao lado dela para sempre como em seus sonhos. Enquanto esperava, se perdia em meio á um monólogo:

– Que festa mais demorada... Eu devia ter ido com Mina, mas não, “Pode deixar que eu preparo as coisas. Vai no casamento da sua amiga que vai ser durante a festa do BigMamemon”. ... Tsh, não devia ter dito isso, tinha que ter ido com ela... Já sei! Vou buscá-la!

Vlad deixava seu lar e ia na direção da tenda do líder de sua vila, BigMamemon — uma versão gigantesca dos Mamemons, redondo como todos os digimons desta espécie, mas do tamanho de um elefante e com os braços e pernas curtas -; Enquanto seguia na direção da festa — que já devia estar terminando -, Vlad notava que a maioria das casas ao redor estavam com as luzes apagadas. Talvez estivessem todos prestando homenagens ao fundador da vila, mas, com o tempo, começou a achar tudo àquilo estranho demais...

Quando estava perto do local onde devia estar ocorrendo a festa e não escutava nenhum som que indicasse que havia alguém lá comemorando, repensou que talvez tivessem ido para outro lugar fazer as comemorações... Talvez em uma área mais espaçosa onde pudessem dançar, comer e realizar os casamentos sem problemas... E mesmo com essa hipótese em mente, decidiu ir checar a grande barraca, afinal, não custava nada ver se tinha alguém lá dentro que pudesse o informar de onde todos estavam...

O silêncio estava o deixando preocupado. Tudo estava quieto demais para um dia que deveria estar tão agitado que seria difícil de dormir. Aproximou-se com cautela da entrada da tenda, atraído por um cheiro forte vindo de lá. Não conseguia reconhecer o que era, mas suas pernas queriam sair de lá, se desgrudar de seu corpo e o deixar lá para enfrentar o destino que o esperava, sozinho. Entrou apenas para se deparar com um panorama do inferno: conseguia ver sangue espalhado á sua frente até onde à luz que era refletida pela lua podia iluminar; Havia pedaços de carne do que um dia fora seus companheiros... Digimons caídos por todo interior da tenda. A primeira reação que Vlad teve foi á de colocar tudo que havia comido de janta para fora de seu corpo, e então gritou com todas suas forças, começando a negar para si mesmo o que estava vendo:

– Não... Não... Não! Isso não é real! Eu devo estar tendo um pesadelo! Mina? Você está ai?! BigMamemon?! Alguém?!...

Não recebia nenhuma resposta, e a falta de iluminação dificultava que conseguisse visualizar o que havia restado na sala. Foram longos segundos de silêncio onde a mente de Vlad dava voltas e voltas, imaginando a cena horrível que havia acontecido lá. ... Apenas não conseguia conceber que força sombria teria feito aquele massacre.

Uma chama se acendia próxima ao centro da sala. Era possível ver os olhos de BigMamemon brilhando entre o fogo... Ele bocejava e o cheiro de carne escapava por sua enorme boca. Logo mais tochas eram acesas dentro da tenda, revelando um círculo de Mamemons lá dentro. Era parte da guarda da vila, estavam mudos e pálidos como fantasmas. BigMamemon estava com a boca suja de sangue e parecia estar dormindo até aquele momento. Ele observava Vlad por alguns segundos:

– Boa noite, plantador.

– Lí-Líder! ... O-O que aconteceu aqui?!

– Não escutei o que disse...

Antes de repetir a pergunta, Vlad via o laço que havia dado de presente para sua amada caído sobre uma posa de sangue, e fora tomado de imediato pela raiva, cerando os dentes e punhos:

– Lider, o que aconteceu aqui?! – Rugiu com descontrole.

– Eu... Eu apenas fiz um banquete COM os meus súditos... Agora todos fazem parte de mim...

– Você os comeu! ... Co-Como pode fazer tal atrocidade?! Eles eram seus amigos, sua família segundo as tradições!

– Estava com fome e a comida da festa havia acabado...

– Maldito! Happy bomb!

Vlad saltava em direção ao BigMamemon — um oponente de tamanho colossal que normalmente tinha o tamanho de um animal grande, mas agora era pelo menos duas vezes maior -; O pequeno Mamemon tentava aplicar o ataque principal de sua raça, mas falhava miseravelmente, pois seu braço era engolido pela boca do monstro e arrancado com apenas uma mordida. Vlad gritava de dor ainda em pleno ar, mas logo ia ao chão ao ser acertado por um soco de seu oponente. Era como uma enorme rocha caindo sobre um coco, rachando-o em mil pedaços miseravelmente estilhaçados, que fora o mesmo resultado com o crânio do Digimon, que caiu inconsciente no chão. Seu corpo redondo estava mole, pois sua caixa craniana compunha a maior parte de seu esqueleto digital. Quase perdendo a consciência, Vlad podia escutar seu líder:

– A carne deste tem gosto ruim, joguem-no fora. Ele vai morrer de qualquer jeito.

Vlad apenas recuperava a consciência dias depois, acordando dentro de um cilindro cheio de água, já com os implantes metálicos em seu corpo. Mas não foi do dia para noite que ele decidiu largar seu antigo nome e abraçar a vida como nômade em busca de se aperfeiçoar física e mentalmente; Foi um longo período de meditação até chegar à conclusão de que deveria se tornar mais forte caso fosse tentar entender o que realmente havia acontecido naquela noite.

O Digimon humanoide — do qual agora atendia por Tetsu -; Acabava tendo seu doloroso devaneio com o passado interrompido por uma freada brusca do trem, que o fazia cair de lado no chão do vagão. Levantou-se para olhar pela janela, avistando apenas a área até onde sua visão conseguia alcançar e o que vira não parecia um bom sinal.

Os passageiros ficavam surpresos quando Dogmons — digimons que se assemelham á cães de pelúcia de cor laranja com um sorriso maluco, semelhante aos de personagens de cartoons americanos; Estavam todos – sem exceção — usando um cinto com dois coldres e bolsos para carregar munição, um par de revolveres e máscaras que encobriam a parte inferior de suas faces.
No vagão em que o MetalMamemon estava havia quatro desses bandidos — provavelmente tinham outros pelo restante do trem. Dos alto falantes do trem era possível ouvir uma voz, não a do Trailmon, mas a de outro Digimon com um forte sotaque caipira:

– Fiquem calmos minha gente! Eu, Deputymon, e meus camaradas; Estamos aqui para levar apenas o dinheiro e pertences de ocês. Se forem bonzinhos, ninguém se machuca!

Fácil de falar e mais fácil ainda de fazer quando a maioria dos Digimon no interior do trem é fraca ou não tem coragem o suficiente para enfrentar um pequeno grupo fora-da-lei. Claro que eles – os bandidos — não contavam com um pequeno inconveniente, um oponente da mesma altura dos Dogmon, no sentido literal da sentença. Tetsu foi o primeiro e único á mover-se quando obviamente deveria manter-se parado.

Rapidamente, MetalMamemon golpeava um dos bandidos com seu braço esquerdo, o deixando inconsciente com apenas um golpe, e então saltava sobre o outro e o jogava sobre um terceiro. O quarto disparava dois tiros, mas os projéteis eram amassados contra o capacete metálico de Tetsu, e este – com um solavanco bruto — deixava a marca da sola de seu tênis no rosto do oponente. Assim que derrotava os inimigos do vagão no qual estava, caminhava até o próximo. Novamente não tinha dificuldades em derrubar os obstáculos que estavam entre ele e a passagem para o próximo carro do trem... Era óbvio que não conseguiria manter aquele ritmo por muito tempo, e á cada vagão sua velocidade total ia diminuindo... Mas ainda não era o suficiente para causá-lo problemas reais até chegar ao segundo vagão do trem — contando a locomotiva como o primeiro vagão.

Neste vagão estavam quatro Dogmons como nos anteriores, um deles estava coletando o dinheiro e pertences dos passageiros, enquanto que os outros os ameaçavam. Havia um quinto Digimon neste vagão, e era ele quem estava comandando o sequestro do Trailmon.

O Deputymon — um Digimon do tipo mutante, com o tamanho de humanos adultos, mas seu tronco é um revolver enorme – apercebia-se da presença do intruso e disparava primeiro antes de fazer qualquer pergunta á Tetsu. Um tiro certeiro que não tocava o corpo do digimon, mas ainda assim retirava o chapéu deste como se fosse uma mão habilidosa. Ao ver o brilho metálico da cabeça do MetalMamemon, Deputymon dizia:

– Isso explica porque ocê chegou vivo aqui com esse chapér chei di furo.

– Deputymon! Digimons do seu tipo são justiceiros por natureza. Por que está tentando roubar este trem?

– Os tempos mudaram. Não dá mais para sobreviver apenas fazendo boas ações.

– Roubar continua sendo errado. Você tinha outras opções.

– Não importa o caminho que ocê percorra; O dinheiro sempre há de ser a coisa mais importante na nossa vida. – A voz do bandido ia se tornando forte e pesada. – Ocê pode ter de tudo cum dinheiro, tudo mesmo! E caso não queira mais alguma coisa, ocê podi vender!

O MetalMamemon ficava em silêncio observando aquele justiceiro proferindo palavras que apenas os mais gananciosos dos vilões diriam. Podia sentir algo estranho fluindo para fora deste enquanto balbuciava... Como se fosse uma doença ou um vírus que estivesse tentando se espalhar para os passageiros do vagão. Tetsu dava um passo para frente e os Dogmons engatilhavam suas armas:

– Dinheiro? Desde quando começamos á dar tanto valor para simples cédulas de papel que podem ser rasgadas, queimadas, cortadas e destruídas de várias formas diferentes? – Colocava a mão direita para fora do poncho e a pousava sobre o coração. – O que realmente importa está aqui dentro.

Fazia uma breve pausa e então gritava avançando em direção a Deputymon:

– Isso não pode ser vendido!

Os capangas ficavam parados enquanto o pequeno Digimon de metal avançava por entre eles. Tinham certeza de que o cowboy digital iria acabar aquilo com seu golpe principal, o Justice Bullet — um ataque disparado do seu próprio corpo. MetalMamemon tinha apenas duas opções: esquivar e deixar que alguém fosse afetado pela explosão do ataque, ou receber o tiro diretamente. A segunda opção o forçaria á depender totalmente de sua armadura metálica ou provavelmente seria seu fim.

O tiro era disparado sem nenhuma hesitação enquanto Tetsu mantinha seu avanço sobre o cowboy, e antes de ser atingido pelo tiro do oponente; Retirava o poncho que estava vestindo, fazendo com que este se posicionasse entre ele e a bala, e o que procedeu em seguida com o metalmamemon ficava oculto pela fumaça da explosão. Deputymon arrumava o chapéu sobre a cabeça, seguro de seu golpe:

– Esse era dos brabo... Mas deu a vida de graça. Ele podia ter vendido ela por um valor bão.

– Senhor Tetsu! – gritava Rereré que se encontrava no mesmo vagão, com lamento.

Antes da fumaça se dissipar, era possível ver um vulto saltar, indo em direção ao pistoleiro:

– Quem você pensa que eu sou?!

Tirando proveito do elemento surpresa, o Digimon metálico rapidamente usava suas garras para cortar o cano do revólver principal de Deputymon em três anéis, o impedindo de usar uma segunda vez o golpe. Sem perda de tempo por parte do pistoleiro; Este sacava prontamente seu outro par de revolveres do bolso e disparava contra a parte inferior do corpo de seu oponente, pois lá não havia proteções metálicas:

– Não sei como ocê escapou da morte, mas agora acabô com ocê!

– Não vai ser assim tão fácil!

Tetsu usava o braço esquerdo onde compunha o seu canhão como porrete, golpeando uma das pernas do cowboy, o fazendo perder o equilíbrio, finalizando a sequência com uma rasteira rápida para derrubá-lo no chão. Deputymon não desistia do combate mesmo estando caído, e mirava com o revolver da mão direita na direção do MetalMamemon, descarregando um tiro que acabava por acertar o capacete do alvo. Em resposta, Tetsu apontava seu canhão na direção do rosto do inimigo, iniciando o carregamento de um eminente disparo:

– Não me mate! Eu te pago o quanto for preciso em troca da minha vida! – Gritava Deputymon receoso por sua vida, trêmulo.

– Ouvi falar que vocês, Deputymons, gostam de apostar e possuem um golpe chamado Russian roulette... Que tal apostarmos quem vai sobreviver à explosão do meu Energy bomb? ... Quem vencer fica com todo o dinheiro do perdedor. Soa bem, não é?

– Você está maluco! Minha vida não pode ser...

– Trocada por nada neste mundo! – Complementava MetalMamemon junto ao fora da lei, ao mesmo tempo.

Deputymon ficava em silencio. Parecia confuso com o que havia acabado de falar e ouvir... Há alguns minutos atrás só conseguia pensar em dinheiro, mas agora que estava com a vida em jogo, lembrava-se do quanto uma vida era preciosa e insubstituível... E em sua mente começavam á surgir imagens de todas as injustiças que fez em nome do dinheiro. Havia sido possuído pela ganância e só agora, que fora derrotado por um justiceiro metálico — como ele foi um dia — que percebia o quanto errado estava seu conceito.

Tetsu abaixava o canhão e deixava a energia acumulada se dispersar na forma de uma pequena nuvem de esferas luminosas, inofensivas ao toque:

– Deputymon, eu espero que isto tenha aberto seus olhos. – Dizia o Digimon metálico, dando as costas para o oponente indefeso. – Estou te dando à chance de se redimir e voltar a viver pelo que é certo, não por bens materiais. ... Mas se eu descobrir que você voltou a roubar... Vou vir atrás de você pessoalmente e terminar o que começamos.

O ladrão digital assentia e se levantava. Usava o autofalante, agora, para chamar seus companheiros de roubou e escaparem do Trailmon:

– Meus camaradas, mudança de planos. Deixem o que roubaram no vagão em que estão e vamô fugir. ... Temos que rever a forma que vivemos.

Sem trocarem nenhum olhar, os dois digimons despediam-se sem o uso palavra alguma... Exatamente como pistoleiros do velho Oeste.

Os Dogmons deixavam o trem e os passageiros, enquanto que Tetsu andava pelo vagão bonançoso. Encontrava um pedaço de seu poncho caído no chão, se lembrando de como usou sua roupa como escudo durante a batalha: Primeiro jogou o poncho na frente do corpo e colocou seu braço direito no caminho da bala. Com o impacto, o projétil explodiu, mas a maior parte da explosão afetou o tecido, sendo que apenas uma pequena parte chegou até o alvo.

Mais á frente enquanto caminhava, viu Rereré e Geburp, ambos o observavam como se tivessem orgulho... Afinal, conheciam um Digimon que ainda tinha coragem o bastante para se arriscar em defesa dos mais fracos:

– Obrigado, Senhor Tetsu. – Agradecia o pai Geremon.

– Não precisa me agradecer, o senhor teria feito o mesmo se não tivesse alguém do qual precisa do senhor.

– Você sabe sobre... – Era interrompido pelo MetalMamemoon.

– Enquanto lutava contra Deputymon, pude sentir mais uma forte vontade guerreira dentro do vagão, e ela vinha do senhor. ... Não pense que sei algo sobre seu passado de guerreiro.

– Entendo...

– Senhor Tetsu! – Manifestava-se Rereré animado – O senhor foi incrível, é realmente muito forte para alguém do seu tamanho!

– Ei, não fale como se isso fosse algo impressionante!

Os três começavam á rir. O Trailmon voltava a se locomover, indo em direção à próxima estação. A viagem seria tranquila a partir deste ponto, sem nenhuma interrupção no caminho ou novos problemas, quer dizer, nem todos iriam desfrutar da calmaria. Tetsu e seu chapéu, que agora parecia uma peneira; Eram incomodados constantemente pelos outros passageiros agradecidos ou admirados pela coragem do MetalMamemon:

– Deixem-me em paz! Qualquer um aqui poderia ter feito o mesmo se tivesse tentado!