Digimon Beta - E o Hexágono do Mal

26 A Grande Selva Chamada Mundo Digital


Patins deslocavam-se a toda velocidade em meio às árvores de uma floresta. Em sua cola, pequenas patas amarelas seguiam correndo.

– Você é muito lenta, Renamon. Precisa melhorar sua velocidade – diz o garoto magro, de estatura média e pele negra, que seguia patinando. Carregava uma mochila nas costas.

Renamon é uma digimon de forma humanoide que possui a mesma altura que seu domador. Pelagem amarela com exceção da barriga, mãos e canelas que são brancas. Calda longa e cheia. Volumosa pelugem branca que desce pelo pescoço, luvas roxas que seguem além do cotovelo e olhos apertados na face que lembra uma raposa.

Ambos seguiam disputando corrida. O garoto fazia várias manobras em pequenas elevações, troncos caídos e árvores, até que para de correr.

– O que houve, Levi? Parece pensativo.

– Nada de importante. É que, desde que aquele portal me absorveu, eu perdi a noção de tempo.

– Não se preocupe. Logo vamos descobrir como voltar pro seu mundo.

Levi sorri e volta a patinar em alta velocidade. Renamon o seguia. O garoto ia saltando sobre troncos e pedras. Girando e fazendo manobras radicais com seus patins. Levi havia desenvolvido uma grande velocidade e, ao olhar para trás para ver onde estava sua digimon, esbarra-se nela, que já estava em sua frente próximo a uma descida.

– Renamon por que... – a digimon tapa sua boca e indica no céu uma enorme ave de penas vermelhas e dentes incrustados na ponta do bico, que voava em círculos.

– O que essa Birdramon quer? – sussurra o garoto.

A digimon raposa indica a planície à frente, levando o garoto a ver seis humanos e seis digimons desacordados. De onde estavam, conseguiam ver que estavam a menos de um quilômetro do mar.

Birdramon preparava-se para mergulhar quando é surpreendida por uma nuvem de cacos de vidro vindas do interior da floresta. A digimon foge do local.

– Muito bem, Renamon! – diz Levi olhando para Renamon que descia de uma árvore — Vamos ajudá-los!

O garoto toma impulso e desce o morro a toda velocidade. Suas pernas tremiam por conta da irregularidade do terreno. Ao chegar próximo, consegue reduzir a velocidade e parar.

Levi e Renamon se aproximam dos humanos e digimons desacordados, observando suas fisionomias.

– Devem ter chegado há poucas horas!

– Com certeza – diz a grande raposa — Nunca os vi por aqui.

Domador e digimon seguem se aproximando de um por um dos que estavam desacordados, quando Levi se assusta ao parar em frente ao garoto ruivo.

– Davi?

– Você o conhece, Levi? – pergunta a digimon logo em seguida.

– Claro! Ele é meu amigo. Somo vizinhos.

Levi agacha próximo do garoto e começa a sacudi-lo.

Davi acorda.

– Levi? – pergunta o garoto assustado.

Levi o ajuda a levantar. Os dois se abraçam.

Com os gritos, os demais domadores começam a acordar e ficam radiantes ao encontrarem seus parceiros próximos de si. Ao notarem um desconhecido conversando animadamente com Davi, ficam observando-os.

– Quem é esse? – pergunta João se aproximando.

– Deixa-me fazer as apresentações – Davi segura Levi pelo ombro – Pessoal, esse daqui é Levi. Levi, esses são: João e Betamon, Verônica e Plotmon, Carlos e Terriermon, Lúcia e Gotsumon.

– E aquele loiro – pergunta Levi vendo Rafael se afastar com Gabumon, na direção do morro pelo qual desceu.

– Vai pra onde Rafael? – pergunta Carlos.

– Não é da sua conta!

– Idiota! É melhor ficarmos juntos. Não sabemos o que vamos encontrar aqui!

– Não preciso da tua ajuda e nem da ajuda de ninguém! Vamos Gabumon.

O garoto segue caminhando com Gabumon morro acima.

– Quer dizer que acabaram de chegar? – pergunta Levi sorrindo.

– Fomos absorvidos pela luz do Farol da Barra – responde Davi.

– Nem bem cheguei e to doida para voltar pra casa! – diz Verônica olhando apreensiva ao redor.

– Já disse que não deixarei que nada de mal te aconteça!

João a beija na boca.

– Gente olha aquilo! – diz Lúcia indicando o local.

Havia uma réplica idêntica do Farol da Barra na clareira onde eles estavam.

– Aqui no Mundo Digital existem cidades, vilarejos, indústrias, e muitas outras coisas que existem no nosso mundo – explica Levi.

– Você é domador desde quando? – prossegue Davi. Palmon estava ao seu lado.

– Assim que te encontrei dizendo que iria pra Salvador. Faz tanto tempo que eu nem sei há quantas semanas estou aqui! Você tem notícias do meu pai, minha mãe e minha irmã?

Davi e os demais se olham de maneira estranha e confusa.

– O que foi? Por que essas caras?

– É que eu cheguei a Salvador ontem, Levi! Quer dizer, anteontem, na quinta!

Os olhos de Levi saltam.

– Estou aqui há muito tempo, não sei dizer ao certo. Mas deve ter por volta de um mês.

– Tem certeza? – pergunta Carlos. Terriermon estava sobre seu ombro.

– Tenho! – diz Levi aparentemente nervoso.

Renamon se aproxima.

– Calma, Levi! Vai dar tudo certo.

– Que cabeça a minha... Nem apresentei minha parceira. Essa é Renamon.

Impressionado com sua elegância e delicadeza, Davi saca o digivice.

Renamon, um digimon no nível Novato. Essa digimon raposa, além de elegante e inteligente é uma excelente lutadora. Sua técnica é a “Morte Gélida”.

– Então deve haver alguma diferença no tempo dos dois mundos. Eu havia percebido que minhas unhas e cabelo nunca cresceram desde que estou aqui. Não só eu. Os outros domadores também perceberam isso!

Os garotos se olham surpresos e radiantes.

– Existem outros domadores? – pergunta Lúcia ansiosa.

– Tem uma quantidade boa. Digimons de todos os tipos.

– Que legal! – brada Lúcia sorrindo a toa – Levi. Você não faz ideia do quanto eu procurei por outros domadores. Há doze dias eu jurava ser a única.

– Seus digimons estavam lá com vocês?

– Eu encontrei Gotsumon a três.

– Estavam! Fazem mais de dois meses que conheço Plotmon – acrescenta Verônica.

– Tenho Palmon há seis meses — responde Davi.

– E você manteve segredo a todo esse tempo? – pergunta Levi ao seu amigo.

– Tive que manter!

– Acho que só Carlos, Rafael e eu temos digimons há pouco tempo! – completa João.

– Se realmente existir essa diferença no tempo entre os dois mundos, os mais velhos são vocês mesmos! Por que eu só conheci Renamon quando cheguei aqui. Porém, somos mais experientes por conta da diferença temporal de cada mundo! – sorri o garoto moreno.

Carlos olhava preocupado para a direção que Rafael havia tomado.

– Carlos! – chama João – Rafael precisa quebrar a cara para aprender que nem tudo é do jeito que ele quer!

– Apesar dos pesares, Rafael é legal. To com medo dele se meter em alguma confusão, ainda mais sozinho.

– E a coisa mais fácil de achar por aqui é confusão – interfere Levi — Ainda mais que muitos digimons, por medo da ditadura do Hexágono do Mal, aderiram a eles e se tornaram soldados.

– O que você sabe sobre essa ditadura e esse tal de hexágono? – pergunta Carlos curioso.

– Tudo o que sei é que o Hexágono do Mal é um grupo de seis digimons malignos que instauraram uma ditadura aqui. A todo o momento temos que batalhar. Esse mundo é uma grande selva. Ou você é a caça, ou é o caçador!

– To toda trabalhada no arrepio! – Lúcia estica o braço.

– Está explicado – conclui Carlos – Os digimons que apareciam em Salvador e no Rio de Janeiro, eram soldados do Hexágono.

– Espero que nossa estadia aqui não deixe nenhum digimon aparecer no Mundo Real – diz Verônica – Tem um trecho do enigma que fala sobre esse hexágono, não é Carlos?

– “O hexágono de doze pernas induzirá uma grande contenda, em que, somente os puros de espírito chegarão ao topo da montanha” – lê o garoto de óculos.

– Então, essas doze pernas nada mais são do que os seis digimons ditadores? – pergunta o ruivo com sardas no rosto — Levi, você os conhece?

– Somente Vamdemon!

– Desgraçado! – brada João de punho cerrado.

– Já o conheceram?

– Ele resolveu dar um pulinho um Salvador.

– Ele é muito poderoso! Já tive o desprazer de lutar com ele. Por pouco eu e Renamon não éramos destruídos.

– Como você se livrou dele?

– Bruno Soares me ajudou. O digimon dele é muito forte, parece um anjo. Quer dizer, é um anjo.

– Um anjo?

– Sim, pode acreditar João!

– Senhores. Lamento lhes informar, mas um portal absorveu os seis Domadores Betas.

Vamdemon convocara uma reunião extraordinária com os demais ditadores.

O ditador sentado no trono em frente ao Vamdemon estava com os braços esqueléticos apoiados sobre a mesa. Usa luvas de metal.

– Droga! Daqui a pouco cada digimon existente em nosso mundo terá um domador.

– Não podemos permitir que isso aconteça! – prossegue o ditador que sempre observava os domadores no Mundo Real. Ele estava sentado ao lado direito do digimon de braços esqueléticos.

Alguém, que estava de pé logo atrás dele, acariciava seus ombros com uma mão desproporcional e dedos vermelhos.

– Agora teremos que reparar seu erro, Vamdemon – diz o ditador sentado do lado esquerdo de Vamdemon. Possui armaduras negras sobre o antebraço. Armadura essa que possui poderosas garras.

– Companheiros, eu irei destruí-los... Não só eles, como a todos os outros domadores espalhados pelo nosso mundo.

– Espero que não nos decepcione dessa vez – sorri o ditador sentado em uma das extremidades da mesa. Estava próximo do ditador que sempre acompanhava os domadores, e do ditador de poderosas armaduras com garras. Usava luvas brancas e um blazer vermelho.

– Não irei! Eles cometeram um erro gravíssimo em vir para o nosso mundo. Em entrar em território inimigo.

– Então façamos um brinde! – convoca o último domador, sentado na outra extremidade. Usa luvas e jaqueta de couro que lembram as roupas de motoqueiros — Um brinde pelo fim dos domadores de digimon.

Os ditadores brindam erguendo suas taças.

– Senhores. Se me permitem, quero cuidar pessoalmente de um dos garotos. Creio que os senhores já sabem de quem se trata. Foi por causa dele que passei a observá-los constantemente.

Uma estridente gargalhada é escutada atrás desse ditador das trevas.

– Se depender de mim, terá o caminho livre – diz Vamdemon tomando outro trago do seu vinho.

Em uma praia próxima do local onde João e os demais acordaram, estavam os mais recentes domadores que acabaram absorvidos sem saber absolutamente nada sobre os digimons. Permaneciam desacordados na areia da praia. Fazia um sol escaldante e a água estava convidativa.

Uma marola esbarra-se no rosto de Igor, que acorda assustado. Ao se dar conta de que havia amanhecido e de que estava em uma praia na companhia de mais três pessoas desconhecidas, desespera-se.

– SOCORRO! SOCORRO!

As pessoas próximas dele acordam com a gritaria.

– Onde é que eu estou? – balbucia o garoto de físico avantajado pegando sua sacola esportiva ao lado e retirando o excesso de areia dela. Ele veste uma regata branca e calça preta.

A garota de vestido vermelho fica de pé e caminha alguns metros na direção da sua bolsa e sandálias.

– SOCORRO! SOCORRO!

– Acho que gritar não vai resolver nada! – diz o garoto que muito se parece fisicamente com Igor, a não ser pela cor dos olhos. Os de Igor são azuis.

– Rapaziada. Alguém pode me explicar o que ta acontecendo? Antes de qualquer coisa, me chamo Antônio. Antônio Morais – diz o garoto branco de braços e pernas fortes.

– Me chamo Igor Almeida e to muito assustado com isso tudo! – responde o garoto magro de olhos azuis.

– Sou Leandro Airosa. Mas podem me chamar de Leo. Carioca da gema. Deu pra perceber que vocês não são daqui do Rio de Janeiro.

– E quem te garante que estamos no Rio de Janeiro? – pergunta Antônio – Já que perguntou, sou de João Pessoa, na Paraíba.

– Eu sou de Pedrinópolis, interior de Minas. Só lembro que vi uma luz estranha brilhando, em frente à janela do meu quarto.

– Eu me lembro de algo me puxando pra cima, dentro do elevador.

– Lembro-me de ter fechado a porta da sacada e nada mais! – responde Leandro.

– Vamos falar com a menina do vestido vermelho — propõe Antônio – Ela deve ta mais assustada do que a gente.

– Mais do que eu, duvido!

– Cala a boca, Igor! – Antônio sorri.

Leandro toma a frente de Antônio e Igor, e se aproxima da garota que estava sentada de frente para o mar, abraçada às pernas e com as sandálias ao lado.

– Quer ajuda? – pergunta o carioca tocando-lhe no ombro.

– Você não pode me ajudar! — esbraveja a garota colocando-se de pé — Minha chapinha foi pro espaço, meu vestido favorito ta rasgado, fui sequestrada por algum louco que quer brincar de “jogos mortais” e você, que ta na mesma condição que a minha ou até pior, quer me ajudar?

– Sua ignorante! Tua mãe não te deu educação não, garota?

– Ah, vai catar siri no asfalto!

Leandro retornava para próximo de Antônio e Igor, quando vê uma estranha movimentação na floresta mais atrás.

– Galera! Tem algo sinistro ali! – diz o garoto quase em pânico.

Antônio e Igor viram-se de costas e veem que algo se mexia dentro da vegetação.

Continua...