— Você não sabe o que Piccolomon fez contigo, Culumon? – Pergunta João.

— Não se recorda de absolutamente nada? Talvez isso possa nos ajudar contra Calamon – Insiste Verônica.

— Não. Depois desse dia, culú, tivemos que pensar em como proteger essas cartas. Calamon havia ficado com algumas técnicas também: Manipulação; Transfiguração e metade da Telecinese. Por causa da Transfiguração estávamos vulneráveis, culú, já que ele poderia assumir a forma de qualquer ser vivo. Achamos por bem colocarmos as cartas em uma caixa de madeira revestida de magia do Piccolomon e guardá-las no Mausoléu. Nos dois enfeitiçamos o local para que nenhum digimon, principalmente Calamon, notasse a presença delas.

“Quando soubemos que Calamon havia sido visto pela última vez na superfície, acompanhado de Beelzebumon que mais tarde se tornaria um dos ditadores, resolvemos lacrar as duas passagens para o Continente Perdido. Na primeira construímos um labirinto subterrâneo e colocamos um farol, também enfeitiçado, sobre a entrada, culú. Piccolomon achou melhor colocarmos um digimon para proteger o lugar.”

— É aí que entra Vadermon? – Pergunta Bárbara.

— Isso mesmo, culú. Já o segundo acesso, o da cidade Iluminata, era mais seguro. Para chegar ao subterrâneo por esse acesso, culú, era preciso passar por um labirinto com várias armadilhas, que começava nos porões da prefeitura e terminava na estação de trem do Continente Perdido.

— A estação de trem do Angler – Recorda Flávia. — Que cidade é essa? Iluminata?

— Essa cidade, culú, vocês conhecem por outro nome. Etemonlândia.

— Etemon ficou responsável por proteger a entrada dessa cidade, mas acabou desmemoriado quando batalhava contra Vamdemon — Explica João para os demais. — Continuava protegendo a cidade e não sabia o porquê. Entenderam?

— Como que você sabe disso, culú?

— Você já havia dito.

— Eu preciso encontrar Gotsumon e Gabumon – Diz Lúcia. – Faz muito tempo que eu e Rafael não vamos ao Mundo Digital. Acreditam que de lá da Austrália não dá para abrir portais? É como se o digivice estivesse fora da área de cobertura.

— Então Leon deve estar passando por esse mesmo problema – Completa Júnior. — Faz muito tempo que não conseguimos manter contato com ele. Preciso avisar que não tenho notícias de Veemon há alguns meses. Com Calamon a solta, estamos restringindo e reduzindo nossas visitas.

— Eu queria fazer uma pergunta, pessoal.

Bruno Soares se sente intimidado pelos olhares de expectativa. Patamon estava em seu colo.

— Não é nada de muito importante, mas é que eu to preocupado com Patamon.

— Pode perguntar, Bruninho. Ninguém vai te repreender por nenhuma pergunta feita – Explica Verônica.

— É que eu notei que Patamon está com uma cicatriz próxima ao olho – Bruno indicava o sinal no rosto do digimon enquanto falava — Ela é fininha e desce até perto da boca. Ele não tinha essa cicatriz antes. Isso é algo grave? Ele corre algum risco?

Culumon sorri com a observação feita pelo pequeno domador.

— Pode ficar tranquilo, Bruninho. Essa cicatriz, culú, foi deixada pela unha da Ladydevimon. Ataques diretos de digimons demônios são os únicos meios de se deixar cicatriz em um digimon. Ela não vai interferir em nada no Patamon, culú.

— O que você quer dizer com ataques diretos? – Questiona Fernanda.

— São ataques corpo a corpo, onde haja contato com garras, presas ou qualquer objeto cortante que o digimon possua, culú.

— Culumon.

Todos olham na direção de João.

— Precisamos providenciar novos digivices, inclusive para Bento, antes que Calamon comece a agir pra valer. Você consegue?

— Tenho que utilizar da energia de uma das cartas, culú. Não tenho força suficiente para confeccionar tantos digivices.

— Qual carta você prefere? – Intervém Bárbara. – Tenho várias comigo. Pegue aqui, João.

João caminha até a domadora e recolhe as cartas que estavam em suas mãos.

— Não posso utilizar essas. Elas ainda podem ser úteis a vocês, culú. Quero a Carta das Chamas.

Cláudia chega horas depois preocupada com a possível bagunça que encontraria em sua casa. Mesmo com as recomendações feitas ao seu filho, era praticamente impossível manter uma casa organizada com um número grande de adolescentes reunidos.

Ao chegar ao terraço, Cláudia percebe que o local estava exatamente do jeito que ela havia deixado no dia anterior. Os demais cômodos estavam intocados, com exceção da despensa que havia sido desfalcada em grandes quantidades de pães, tortas, refrigerantes e salgados. João dormia quando Cláudia o vê através da porta entreaberta. Betamon e Culumon ressonavam no colchão ao lado.

A reunião que durou toda a manhã foi cansativa e muito esclarecedora. Agora todos estavam cientes dos problemas que enfrentariam e quem era seu real inimigo desde o princípio. Calamon havia conseguido o apoio de digimons mais fortes que eram contra Culumon. O pequeno digimon negro conseguiu convencê-los de que Culumon queria impor uma ditadura pacifista, na qual seriam totalmente proibidas quaisquer modalidades de batalhas. Exigiu que seus ditadores divulgassem que eles o haviam destruído. Desse modo ficaria mais fácil investigar o local onde estariam as Cartas Acessórias, enquanto os seis ditadores tentavam dominar o Mundo Digital até seu glorioso retorno.

João olha no relógio em seu pulso.

— Cadê Lúcia que não chega?

— Não vá ficar andando de um lado para o outro! – Recomenda Betamon

Um clarão surge à frente de João e do seu digimon.

— Desculpa. Acabei demorando no banho – Diz Lúcia intimidada pela expressão estampada no rosto do líder dos domadores. O portal se fecha após sua saída.

— Novamente outro atraso. Vocês ainda me matam de tanto esperar.

— Ontem a culpa não foi minha, e sim da mãe do Bruninho.

— Chega de tanta ladainha. Murilo, Flávia e Verônica nos esperam na cidade Iluminata.

João, Lúcia e Betamon caminham pela avenida principal que cruza a cidade. O lugar possui um agradável clima de cidade costeira e, aos poucos, digimons retornavam a fim de habitá-la.

O Jovem de barba cerrada seguia explicando para Lúcia as difíceis batalhas que tiveram naquela cidade quando Etemon era um digimon selvagem. Apesar de ter criado um forte vínculo com um humano, o digimon não se recorda de nada que tenha acontecido antes de ser acordado pelo Evilmon, quando estava caído nessa mesma avenida em frente à prefeitura.

Depois de andar por alguns minutos e pedir informações aos digimons que transitavam pela avenida, finalmente encontram os três domadores que haviam ido na frente.

Flávia batia o pé com força no chão, num claro sinal de impaciência.

— Demoraram, por quê?

— Quer dizer que a senhorita não gosta de esperar? Bom saber disso – João sorri.

— A culpa foi minha, acabei demorando no banho. Desculpa – Lúcia se certificava de que seu cabelo estava devidamente preso.

— Ah, amiga, você pode! – Diz Flávia mudando de humor repentinamente.

— Quer dizer que se a culpa fosse minha, você estaria nervosa?

— Claro! Você não gosta de atrasos e quer atrasar? Exija somente aquilo que possa cumprir, querido.

Flávia pisca o olho para João, que retribui com um sorriso debochado.

— Conseguiram rastrear o digimon de Lúcia no caminho? – Pergunta o garoto magro.

— Não, Murilo. Quero dizer, acabamos de chegar. Não faz dez minutos.

— É tão legal ver uma cidade voltar a ser habitada. Dava pena de ver isso tudo abandonado — Betamon estava radiante.

Todos começam a caminhar na mesma direção.

— Por que Bárbara não veio conosco? – Pergunta Verônica olhando para o chão.

João se aproxima.

— Ela me disse que teria reabilitação hoje à tarde.

Verônica nota a aproximação de João e continua com o olhar baixo. Murilo, Flávia e Lúcia seguiam mais ao lado, conversando. Finalmente a garota ergue a cabeça e olha para frente. Seus olhos tornaram a ter o brilho que causa fascinação.

— Deve ser difícil não poder ver quem amamos.

— Mais difícil ainda, é ver o que te magoa – Completa o garoto.

— Se você ainda ta falando daquele lance entre eu e Murilo...

— Esquece isso, Verônica. Pela enésima vez eu torno a repetir que não tenho nada a ver com sua vida.

— E por que você martela nesse assunto? Isso machuca, sabia? Eu amo você, seu idiota, como nunca amei ninguém na vida. Aquele foi só um momento de fraqueza. Eu não queria que fosse assim. Sei como se sente e pode ter certeza que me sinto muito pior.

João não esperava ouvir de Verônica que o amava. “Eu amo você, seu idiota, como nunca amei ninguém na vida.” Aquela frase se tornou um mantra em meio aos seus pensamentos. Verônica conseguia levá-lo, como ninguém, aos extremos dos sentimentos em questão de segundos. “Eu amo você...”. “Eu amo você, seu idiota”.

— Olhem, Etemon! – Grita Murilo.

João retorna a realidade e nota que todos apressaram os passos, inclusive Verônica.

Betamon o observava.

— O que houve João?

— Nada, Beta. Só estava distraído.

Um digimon gorila de pelagem laranja e peito branco os observava da esquina em frente. Etemon é mais baixo que Angemon, usa óculos escuros e carrega um urso de pelúcia amarelo preso a cintura.

— Etemon, como é que você está? – Adianta-se Patamon.

— Eu estou bem, pequenino. E vocês, humanos, como estão? Soube do que aconteceu dias depois da nossa fuga. Eu sinto muito pelo companheiro de vocês.

— É muito triste perder um amigo, mas temos que superar – Diz a garota loira.

— E Bento? Tem notícias dele?

— Seu domador está bem. Inclusive estamos aqui por causa dele – João coça sua barba. – Ele pediu que mandássemos lembranças para você.

— O que são lembranças?

— Lembranças são sentimentos bons que massageiam nosso peito sempre que lembramos do que nos faz bem – Explica Plotmon.

— Todos os dias me recordo daquele humano. Ele quem pediu para que eu deixasse essa cidade ser novamente habitada. E, para começo de conversa. ele não é meu domador!

— Culumon disse que se vocês dois aceitarem, ele irá transformar Bento em domador. Isso não é legal? – Vibra Lunamon.

— Não sei dizer. Acho que não saberia aceitar ordens de um humano.

— Você não viu um Gotsumon e um Gabumon por aqui? – Pergunta Lúcia.

— Eu me recordo de dois Gotsumons e um Gabumon que chegaram por aqui certa vez.

— Faz muito tempo isso? – Lúcia estava muito eufórica.

— Faz. Foi bem antes de conhecer esses humanos. Eu acabei prendendo-os na cadeia que fica aqui próxima. Um dos Gotsumons acabou sendo destruído pelo Evilmon.

Lúcia sente um frio percorrer suas costas. Seu tão querido digimon pode ter virado dados por causa da sua ausência. Gotsumon havia arriscado sua vida por diversas vezes para protegê-la. Uma lágrima rola pela face da Lúcia.

— Me leve até lá! Quero ver se esse Gotsumon é o meu parceiro ou o parceiro do Leo.

— Lúcia você precisa ser forte – Verônica acariciava-lhe o ombro. – Sabe que existe uma grande possibilidade dele ter virado dados.

— Sei, amiga. Mas não posso mais ser negligente com Gotsumon. Eu e Rafael não poderíamos ter ficado tanto tempo longe. Eu nunca irei me perdoar se Gotsumon tiver sido destruído. Vamos Etemon, quero ver Gotsumon e Gabumon que estão presos.

— Eu os libertei faz dois meses. Achei que Bento ficaria feliz com minha atitude.

— Pode ter absoluta certeza de que ele ficará – Diz Flávia.

— Sabe me dizer qual direção ele tomou? – Pergunta a garota negra.

— Infelizmente não me lembro.

Uma enorme sombra rapidamente passa pelos domadores, assustando-os. Um cavaleiro medieval, do tamanho de Angemon, com sua suntuosa armadura prateada possuindo detalhes em vermelho no ombro, joelhos e abdômen, trajado de uma longa capa da mesma cor, espada e escudo, pousa na frente dos humanos.

Um digimon humanoide surge correndo pela avenida como um quadrúpede. Ele usa uma roupa preta com armadura de metal no peito, ombro, pernas, pés e mãos. Possui cabelo loiro e volumoso, preso por uma espécie de bandana. Rosto felino com enormes presas que saem pela boca. Sobre suas costas estava Alex, que após o digimon parar ao lado do cavaleiro medieval, desce sorrindo de maneira fria.

Etemon, sem titubear, se posiciona a frente dos humanos de punhos cerrados e joelhos curvados.

Outro ser pousa ao lado do cavaleiro medieval. Dessa vez um lobo negro alado.

— Olá, Domadores! Estava com saudades.

Continua...