Flávia se esforçava para entender como havia chegado ali, porém nada lhe vem à mente. A única coisa que consegue lembrar é de estar presa dentro em um quarto escuro. Estava sedenta, faminta e muito fraca. Depois se recorda de ouvir uma explosão e de ver Carlos e Meramon próximos de si. Após, se lembra de ouvir Verônica, preocupada, perguntar sobre o que havia acontecido a ela, e de Ranamon a pegar nos braços. Algumas explosões, uma batalha entre Etemon e Dukemon, gritos, uma forte ventania e uma pancada na cabeça que a fez desmaiar por completo.

— Que bom que você já acordou! – Pergunta o garoto de óculos de grau e cabelo bagunçado sobre a testa, sorrindo. — Sente-se bem?

— Onde é que eu tô? Cadê Lunamon? Ela gritou por mim há pouco.

Carlos esboça um sorriso tímido para Flávia.

— Há pouco? Não mesmo!

— Lunamon chamou pelo meu nome! Eu ouvi perfeitamente.

— Flávia. – Prossegue o garoto. — Faz dez dias que você está internada.

Os olhos da garota saltam das órbitas. Carlos abre a boca na intenção de falar, mas é impedido pelo desespero da garota.

— O que aconteceu comigo? O que eu to fazendo aqui? Eu estava em coma?

— Calma, Fafá. Você precisa ficar calma!

Carlos acariciava o braço da moça, que nesse exato momento estava em prantos.

— Cadê Lunamon?

— Ela está com Bárbara.

— Onde é que nós estamos? Cadê João, Murilo, Verônica... Etemon! Eu lembro que vi Dukemon lutando contra Etemon.

— Eu vou te contar tudo o que aconteceu. — Carlos senta-se na borda da cama. — Depois que você foi sequestrada pelo Etemon, nós voltamos pra casa e fomos te procurar no dia seguinte. Fomos atacados novamente por ele e, depois, Dukemon apareceu e atacou Etemon. Os amigos de Blaze apareceram logo em seguida. Queriam a toda custa os nossos digivices. Lutamos contra eles também. Foi uma batalha muito difícil, a digimon de Lucas conseguiu atingir a Perfeição enquanto lutava conosco. Só estávamos resistindo por conta das cartas. Verônica conseguiu localizar mais duas enquanto estávamos batalhando.

— E Etemon? Onde estava?

— Continuava desacordado. Ele recebeu o ataque de Dukemon em cheio e você sabe que a técnica de um Extremo é muito difícil de ser impedida por um digimon de nível inferior. Como eu estava dizendo, a luta estava muito difícil e eu acabei conseguindo localizar o sinal do seu digivice. Enquanto fui te procurar com Meramon e Lunamon, eles ficaram lutando contra Blaze. Graças a Deus consegui te encontrar. Demorei um pouco, mas consegui.

— Onde eu estava?

— Etemon te levou para prefeitura. Apesar de ser uma pequena construção, o prédio tem um subterrâneo enorme que mais parece um labirinto cheio de armadilhas. Armas que saíam do teto e disparavam em todas as direções; paredes que iam se comprimindo até nos esmagar; enormes pedras que rolavam pelo corredor; alçapões que se abriam no chão. Coisas que só um louco como Etemon poderia pensar. Apesar de estarmos somente com a carta das Asas Híbridas, Meramon conseguiu nos livrar das armadilhas. Lunamon também ajudou bastante.

— Vocês explodiram a porta do quarto e eu estava sobre a cama. Disso eu me recordo.

— Você estava muito fraca. Fiquei muito preocupado e saí o mais rápido possível com você daquele lugar. Quando nos reunimos com os demais, eu me deparei com o irmão de Bárbara, Bento. Esse tempo todo ele estava com Blaze. Aquele crápula o havia enganado dizendo que o ajudaria a encontrar Bárbara, e nunca contou a verdade ao rapaz. Blaze já sabia que os dois eram irmãos.

— Lembro de você conversando com Bárbara e Murilo. Ele se tornou domador de Etemon?

Carlos assentiu.

— Você me contou um monte de coisas e não disse o que de fato aconteceu comigo.

— Bem... Você estava fraca.

— Eu não estava comendo!

— Ranamon ficou cuidando de você. Depois que cheguei contigo, iríamos voltar pro Mundo Real o mais rápido que pudesse.

— Eu estava me sentindo muito mal. Estava prestes a desmaiar. Não lembro de quase nada depois que encontramos os demais.

— Etemon é um digimon muito forte e Megalogrowmon não fazia frente a ele. Dukemon surgiu, massacrou Etemon e iria nos destruir. Ele disparou aquele ataque contra nós, e Etemon se lançou na frente para nos proteger.

— Nossa, como ele mudou!

— Quer queira, quer não, agora ele deve obediência ao Bento. Então, como eu ia dizendo, com o impacto da explosão, uma massa de ar nos derrubou e você acabou caindo dos braços da Ranamon e bateu a cabeça no chão. Todo mundo se desesperou ao ver aquilo. Você sangrava muito. Nos fez lembrar do Blaze acidentado. Ele também ficou em coma só que por mais tempo, e no seu caso, você estava induzida ao coma. Bento se revoltou com a atitude de Blaze. Ele conseguiu se fundir ao Etemon.

— Bento conseguiu evoluir Etemon assim como Blaze? Os dois conseguiram atingir a Extremidade?

— Conseguiram. Dukemon e Metaletemon lutaram feito loucos. Aproveitamos esse momento para fugir. Bárbara não queria sair de jeito nenhum, só deixou o Mundo Digital conosco por sua causa. Ela estava muito preocupada contigo.

— Bárbara é um amor.

Alguém entra no quarto onde Flávia estava. Havia mais cinco pacientes, além da domadora, que dormiam. Alta, pele branca e cabelos negros na altura do ombro preso em um coque, a enfermeira segue observando todos os pacientes que dormiam.

— Ei, você se chama se chama Laura. — Diz Carlos sussurrando, apreensivo.

Flávia não entende nada e, antes que pudesse questionar algo, a enfermeira se aproxima e observa seu prontuário, que estava preso ao pé da cama.

— Senhor, não é permitido se sentar no leito. — Carlos se levanta sem mais pesares. – Laura, como está se sentindo?

Flávia estava assustada. Não conseguia falar absolutamente nada.

— Ela acabou de acordar. Ainda está assustada. Não é, Laura?

Carlos olhava para Flávia de modo que a enfermeira não pudesse ver. Seu olhar continuava apreensivo.

— É!

— Apesar da forte pancada na cabeça, está evoluindo bem. Apenas uma fratura na tíbia direita e algumas escoriações. Ficou em coma só por segurança, até que constatássemos que não tinha nenhuma lesão grave do cérebro. Esporte radical tem que ser feito com o máximo de segurança.

— Esporte radical? — Balbucia tentando entender.

— Não se lembra? Estávamos fazendo escalada quando você escorregou e bateu com a cabeça.

— Ah, ta! — Carlos solta um longo bocejo.

— O senhor deve ir dormir, — prossegue a enfermeira — já está tarde.

— Daqui a pouco eu to indo. Não se preocupe.

— Façam silêncio e boa noite.

A enfermeira se retira do quarto.

— Que papo é esse de Lúcia, de escalada... A gente não está em Salvador?

— Trouxemos você para Cuiabá. Dissemos a sua mãe que você viajou com Verônica. Um tio dela morreu e você foi acompanhá-la.

— Que velório demorado, não. Dez dias...

— Vocês foram de ônibus porque ele mora no interior do Amazonas. Agora eu tenho que ir, Laura. — Carlos sorri. — Amanhã volto pra te sequestrar. Eles querem seus documentos pra te registrar. Você está, de certa forma, como indigente. Só foi registrada como Laura Macedo da Silva porque eu disse que sou seu namorado.

— Temos duas cartas. – Brada Blaze erguendo as cartas na altura dos olhos.

Havia se passado pouco mais de nove horas, desde que Flávia recuperou a consciência. Já era dia e o domador estava no Mundo Digital acompanhado de Alex e Fernanda. Em uma das cartas havia um braço de metal gravado, essa é a carta “Braço Tridente”. Na outra havia uma silhueta totalmente revestida de metal, essa é a carta “Revestimento Digizóide”.

— O que pretende fazer com elas?

— De novo? Eu já disse que cada carta que encontrarmos é uma a menos que eles terão. Já tenho duas. E vocês? Conseguiram encontrar alguma?

— Não.

— Muito menos. – Diz Fernanda, indiferente.

— Santa paciência! Vocês não conseguem fazer nada se eu não estiver por perto?

O bater de asas, característico de digimons insetos, faz com que os três fiquem em silêncio. Stingmon surge voando com Kau e ao seu lado, seguia Exveemon com Leon. Logo atrás, Sunflowmon carregando Lucas, Júnior e Kudamon.

O grupo não nota a presença dos três domadores.

— Olha... Nossos amiguinhos! Leomon, avise que estamos aqui.

O leão humanoide de corpo musculoso dispara um “Punho do Rei das Feras” na direção dos digimons. A técnica rasga o céu metros à frente dos digimons. Ao perceberem que se tratava da técnica do digimon de Alex, o grupo voa na direção deles.

Fernanda permanecia séria.

Os digimons pousam e Júnior rapidamente desce das costas da digimon que possui a cabeça em forma de girassol e avança aos berros na direção do garoto alto e corpulento.

— Idiota! Já dissemos que não temos mais nenhum acordo!

Lucas, o domador da Sunflowmon, o segura.

— E tão pensando que é só assim: Nos faz de besta e, quando quer, pula fora?

— Você é detestável, cara.

O garoto de braço tatuado e cabelo verde percebe as cartas na mão de Blaze.

— Entregue-as.

Blaze sorri.

— Vem pegar, Kau. Só por que os digimons de vocês atingiram a fase Perfeita das últimas vezes que lutamos não quer dizer que podem nos derrotar.

Fernanda evitava olhar nos olhos dos garotos, principalmente nos olhos de Júnior.

— Fernanda, — pontua o garoto alto e magro — sinceramente eu não consigo te entender.

— Melhor assim, Júnior. Eles são meus amigos.

— Esses que você chama com tanto orgulho de “amigos” não estão nem um pouco se importando contigo.

— Chica, eu também no entender. — Leon tentava usar o pouco do português que aprendeu.

— Você esqueceu do tapa que ele te deu? – Prossegue, demonstrando revolta. — Pode dizer, Fernanda, eles estão te ameaçando?

— Não enche, moleque! Já disse que eles são meus amigos e vou ficar com eles. Também temos uma missão.

— Não sei como pude acreditar em vocês.

— Será bom para ambas as partes, guri. Larga de drama. — Blaze se aproxima. — Vamos voltar às boas.

Carlos corria por uma movimentada avenida de Cuiabá empurrando a cadeira de rodas na qual Flávia estava sentada.

— Rápido, Carlos! Eles estão nos alcançando.

Dois seguranças, trajando terno e gravata, óculos escuros e rádios comunicadores, os perseguiam acompanhados pela enfermeira e por um homem mais velho, cabelo grisalho, olhos claros, um pouco acima do peso. Era o médico que acompanhara o caso de Flávia durante os onze dias. Todos abriam espaço para que o garoto passasse correndo com a garota loira, que estava com a perna direita engessada. Carlos entra por uma estreita ruela, com pouca movimentação. Os dois seguranças, a enfermeira e o médico, chegam à entrada da ruela e se espantam, já que Carlos e Flávia haviam desaparecido. Apenas a cadeira de rodas que eles usaram durante a fuga estava lá. Sobre ela, havia um bilhete: “Obrigado por tudo. Carlos e Laura”. Os seguranças, a enfermeira e o médico retornam ao hospital. Carlos e Flávia observavam tudo do alto de um prédio, com Meramon e Lunamon. O guerreiro do fogo utilizara o acessório “Asas Híbridas” para resgatar os dois domadores. Lunamon estava no colo de Flávia.

— Amiga, você precisava ver!

Flávia e Carlos riam descontroladamente. Estavam no quarto de Bárbara, sentados em um pequeno e confortável sofá que estava em frente à varanda. Terriermon olha para os dois, sério, e logo começa a rir querendo entrar na conversa. O digimon estava sobre o ombro do seu domador e dava tapas na cabeça dele durante a gargalhada. Isso irrita Carlos, que dá um empurrão no Terriermon e o joga no chão.

— Eu sou cega Fafá, esqueceu?

— Esqueci. Mas você é poderosa. Consegue ver melhor que muita gente com a visão perfeita. Experimenta tirar esses óculos da cara de Carlos pra ver o que acontece.

O garoto magro de olhos verdes para de rir e olha Flávia, sério.

Terriermon volta a rir.

— Cadê o pessoal? – Diz o garoto. — Pensei que estariam todos aqui.

— Devem estar chegando. Falei para abrirem um portal aqui no meu quarto. Gente, eu to muito preocupada.

— Por que, amiga? – Indaga Flávia. — O que houve?

— Ainda não conseguiram notícias de Bento?

— Não, Carlos.

— O que ta acontecendo? Alguém pode me explicar?

— Bento está desaparecido há exatamente onze dias. Ele conseguiu se fundir ao Etemon para lutar com Blaze, e nós aproveitamos para te salvar.

— Desde então, enquanto você estava internada, nos dividimos. Eu e Bárbara nos encarregamos de cuidar de você. João, Murilo e Verônica passaram a procurá-lo.

— E, até agora, nada! Estava tão feliz por tê-lo encontrado e acabei o perdendo novamente.

— Pelo menos sabemos que ele é um domador.

— Tentamos um contato pelo digivice e nada. Até agora ninguém conseguiu achar nenhuma pista. Até Blaze e os paus mandados dele desapareceram.

— Uma notícia boa, enfim.

Um pequeno feixe de luz, na vertical, surge no centro do enorme quarto. A garota nunca havia comentado, mas ela possuía uma excelente condição financeira. Tanto seu pai, como sua mãe, são Juízes. O feixe de luz se expande até que por ele passam João, Murilo e seus digimons. O portal desaparece. Os garotos, ao verem Flávia, correm para abraçá-la e beija-la.

— Cadê Véu?

— Pensei que ela estivesse aqui com vocês. – Responde Murilo.

Os domadores se olham, preocupados.

Verônica estava com Plotmon. Caminhavam por um vilarejo em uma zona muito distante de Etemonlândia e do local onde estava a Arena Quadrática. Possivelmente estavam em outro continente.

— Infelizmente não vi nenhum Etemon acompanhado de um humano com essas características. — Responde o simpático digimon cogumelo após ser questionado.

— Muito obrigada. – Agradece a pequena digimon de bochechas rosadas.

Verônica olha para seu digivice.

— Plotmon, estamos atrasadas. Já são 10:30h. O pessoal deve estar todo reunido.

A garota de cabelos volumosos se prepara para abrir o portal, quando Plotmon grita:

— Verônica, olhe!

— O que?

— Uma carta!

Plotmon corre até a carta, que estava parcialmente enterrada. Verônica se aproxima e a recolhe do chão. Na carta havia a gravura de um despertador antigo, de ponteiro e sineta, e estava escrito: Cronômetro.

Continua...