Digimon Beta - E as Cartas Acessórias
33 Batalha na Cidade do Princípio
Na sala de aula, um senhor de barriga avantajada, cabelos grisalhos já ralo no topo da cabeça e barba comprida igualmente grisalha seguia escrevendo em uma lousa branca quase que completamente utilizada por números e cálculos que eram incompreensíveis à primeira vista. A grande turma de alunos seguia fragmentada entre os que copiavam todo o conteúdo em seus cadernos e os que simplesmente conversavam baixo, sem citar aqueles que não sabiam o que fazer tamanha a dificuldade do assunto dado e a preguiça por ter que copiar aquele imenso cálculo.
João seguia debruçado sobre uma carteira ao fundo da sala.
— Ah João, releva... – Sussurra Flávia, que estava sentada ao seu lado. — A Verônica está estressada com tudo isso que está acontecendo.
— Ela é quem deve me pedir desculpas. Ela quem começou a discutir.
— Você provocou! – Interfere Carlos, irritado.
— Provoquei todos vocês, não somente ela. Vai dizer agora que eu to errado?
— Está!
— To errado uma droga, ta certo? Se soubesse que seria agradecido dessa maneira teria deixado o Alex fazer a festa. Pelo visto só eu é que tenho coragem de enfrentar o pivete.
O professor, sem que fosse notado pelo trio, interrompe a aula por alguns instantes. Ele, juntamente com a classe, escuta a conversa dos três, que, por sorte, não citaram nada que pudesse comprometê-los.
— Minha aula de eletricidade está atrapalhando a conversa de vocês? – Diz o professor, assustando-os. — Porque, se estiver, eu paro!
Carlos, João e Flávia param de conversar e olham assustados para o professor e para os colegas, que seguravam o riso.
— Carlos, — prossegue — você começou o ano letivo tão bem. Não conversava durante minhas aulas, sempre participava e nunca havia faltado. Agora, ta de papo com João e com Flávia, e para completar faltou à aula ontem. Eu já avisei que esse conteúdo é o diferencial nos vestibulares da vida.
— Desculpa professor! To indo lá pra frente.
Carlos se levanta e sai, sob o olhar de todos os demais.
— Flávia Spadeto. – Prossegue o senhor de barba farta. – Muito bonito o seu sobrenome, moça. Agora, o seu boletim, que nunca foi bonito, pelo andar da carruagem ficará ainda mais feio.
— Desculpa, Teixeira. Não converso mais. Prometo! – Completa a garota de voz rouca fazendo um gesto como se passasse um zíper na boca, tirando gargalhadas de alguns colegas.
— João... Esse daí não tem jeito! O Rafael saiu do colégio e ele logo tratou de arrumar outras companhias para bater papo durante as minhas aulas.
— É.. Pelo visto resolveram me nomear o culpado do ano! — Sussurra.
— O que você disse?
— Não, não, nada! Desculpa! Não irei mais atrapalhar sua aula.
Em Itabuna, Murilo corria desesperado até o ponto de ônibus mais próximo da sua casa e embarca no primeiro veículo que para no local sem ao menos observar seu itinerário. Por sorte, o ônibus passaria onde o domador queria chegar.
Durante o trajeto, o garoto a todo o instante retirava o digivice do bolso da sua inseparável mochila, e o observava.
— A gente vai onde? — Sussurra o pequeno digimon de dentro da mochila.
O garoto magro olha espantado, para ambos os lados, com receio de que alguém pudesse ter escutado. O ônibus estava quase que vazio, com exceção do motorista, do trocador e de uns três passageiros. Murilo abra uma pequena fresta puxando o zíper.
— Tentarei encontrar Davi.
— Quem é esse?
— Um domador!
— E já sabe por onde começar?
— Creio que sim!
Após saltar do ônibus, o garoto caminha até a casa de Levi e lá consegue o endereço do Davi, que morava bem próximo à casa do seu amigo, até então tido como desaparecido por todos os demais. Murilo caminha alguns metros e toca a campainha da casa indicada. “Não está? E você poderia me passar o número do celular dele?” Após uma breve comunicação e apresentação, o mais novo domador consegue marcar de encontra-lo na praça de alimentação de um shopping, pontualmente ao meio-dia.
— Claro que me lembro desse dia. – Afirma o garoto alto, magro e de sardas no rosto sentado à sua frente. — Você derrubou meu trabalho no chão e ainda rasurou algumas páginas.
— Sério? Me desculpa!
— Relaxa. – Sorri.
— O que eu quero conversar contigo é algo muito importante.
— Novidades sobre o caso do desaparecimento de Levi?
Murilo toma um gole do suco.
— Infelizmente não! É que no sábado à tarde eu encontrei seu digivice.
Davi engole a seco.
— Digi o quê? – Diz o garoto corando quase que instantaneamente, enquanto abria a lata de refrigerante e tomava o primeiro gole.
Murilo sorri com a tentativa do domador em se fazer de desentendido.
— Seu digivice. Eu o achei perdido e tentei te entregar, só que ele abriu um portal e me levou pro Mundo Digital!
Davi engasga e passa a tossir de maneira insistente. O garoto a sua frente se assusta e se levanta, dando-lhe tapas nas costas.
— Para com isso! – Pede o domador ruivo, tentando respirar de maneira tranquila.
Murilo torna a se sentar onde estava.
— Relaxa, Davi. O único problema disso tudo é que Culumon quer te matar por causa da sua imprudência. Mas não precisa se preocupar com o fato de eu saber sobre os digimons e tudo o mais. Agora, eu também faço parte do seu grupo. Me tornei um domador!
— COMO É QUE É?
— Não grita! Você quer que mais pessoas saibam? Ah, olha meu digimon.
Murilo entrega sua mochila para Davi, que a abre cuidadosamente.
— Olá! Você que é Davi?
— Você tem um Patamon?
— Exatamente!
— Culumon te deu um digivice?
— Só pode ter sido ele. É porque uma das cartas, a Carta da Madeira, agora me pertence.
— Que história é essa de cartas?
— Você não sabe sobre as cartas? Lógico, né, Murilo! Isso tudo aconteceu ontem durante o torneio. Calma Davi, eu vou te explicar tudo o que está acontecendo.
Murilo conta para Davi tudo o que aconteceu: Desde sua chegada; a briga com Blaze e companhia; as novas domadoras, as cartas evolutivas e as tais cartas acessórias que precisariam encontrar.
Blaze, Alex, Fernanda e Bento haviam dormido no Mundo Digital. Blimpmon havia aterrissado na Ilha Arquivo e os domadores passaram à noite numa clareira às margens de um grande lago de águas turvas que sempre refletia o luar mesmo sem a presença da lua.
Leormon, após uma noite de sono e de descanso, voltou a sua fase Adulta e chegava com várias frutas, refrigerantes e pães para os humanos e os digimons.
— Refrigerante e pão? – Pontua Bento, surpreso. – Nossa, eu nunquinha iria fazer ideia de que encontraríamos essas coisas por aqui!
— Agora, como é que eles aparecem é que eu não sei dizer! – Completa Blaze.
— O refrigerante, assim com as frutas, dá nas árvores. E os bolos, pães, chocolates e outras comidas industrializadas são lixos industriais, por isso são descartados.
— Sério isso, Leomon? – Pergunta Fernanda, assustada. — Pra que produzir algo e depois descarta-lo?
— Por que é a função desses digimons! Os digimons máquinas, os que trabalham nas indústrias, eles se alimentam preferencialmente de óleo queimado, lubrificantes e peças enferrujadas ou defeituosas. E para isso acontecer, eles precisam produzir algo, precisam utilizar esse material, transformá-lo em seu alimento.
— Ah, agora entendi. Eles trabalham nas indústrias produzindo comida e as descartam por que eles querem o resto de óleo que foi utilizado nas máquinas, as peças que quebram durante o processo de produção...
— Exatamente, mestre!
— Solarmon, você também gosta de comer essas coisas que o Leomon disse?
— Gosto, Fernanda!
— E por que não me avisou?
— Eu pensei que soubesse.
Algumas horas se passam, e o grupo formado por quatro humanos e três digimons seguem caminhando por entre as árvores
— Tem certeza que estamos em uma ilha? – Indaga o garoto de olhos orientalizados.
— Tenho! – Responde a digimon engrenagem de maneira taxativa.
— Já que você diz... Acredito!
Mais à frente, o grupo avista uma estrada e resolvem seguir por ela.
— Eu acho que sei onde vamos chegar.
— Onde, Solarmon? – Questiona sua domadora.
Solarmon segue levitando à frente do grupo.
Após uma ladeira não muito íngreme, o restante do grupo avista uma cidade.
— Sejam bem-vindos à Cidade do Princípio! – Diz a digimon redonda, sorrindo.
— Por que esse nome?
— É aqui que todos os digimons nascem, Alex. – Interfere o leão humanoide.
— Deve estar cheio de digitamas. Vamos ver?
Guilmon e Solarmon partem na frente. Estavam radiantes.
— Digitamas?
— São ovos de digimons, Blaze. –Torna a responde o digimon de Alex.
Ao entrarem na cidade e chegarem ao enorme centro, os humanos veem vários ovos de cascas coloridas e com formatos geométricos pela sua superfície.
Guilmon e Solarmon seguiam se divertindo entre os digitamas.
— Guilmon, cuidado para não quebrar nenhum.
— Ta certo!
O pequeno tiranossauro vermelho cheirava todos os ovos e observou de perto o nascimento de um novo digimon. Ao ver o Guilmon muito próximo de si e o farejando, o bebê digimon desata a chorar desesperadamente.
— Guilmon! O que foi que você fez?
— Nada, Blaze. Ele acabou de nascer. Deve estar com fome!
Solarmon se aproxima de Guilmon para ver o recém-nascido, mas rapidamente os dois são lançados longe por um vulto, que os empurram.
— GUILMON!
— SOLARMON!
Os digimons rapidamente se colocam de pé. Guilmon fica com os olhos vermelho de raiva e o instinto de predador o domina. Solarmon se prepara para atacar.
— Aquele é Elecmon, guardião dessa cidade. – Diz Leomon, tranquilamente.
— Por que ele atacou Guilmon e Solarmon? – Questiona a garota de cabelos ondulados.
— Elecmon deve pensar que somos inimigos!
Logo após, outros quatro digimons se juntam ao Elecmon.
— Por que você nos atacou? – Questiona o digimon de Blaze.
— Porque vocês estão fazendo mal aos meus bebês.
— Ele desatou a chorar sozinho, só estamos de passagem. – Explica a digimon engrenagem. — Quem são esses?
— São parceiros de humanos.
— Digimons de humanos...
A voz assusta Elecmon, que nota a aproximação de quatro humanos e um Leomon.
— Deve ser os digimons dos calouros. – Prossegue Blaze. — Alguns deles eu reconheço do torneio, já esse digimon azul...
— Vamos acabar com eles agora! – Propõe o garoto mais baixo, estampando o sorriso cínico que lhe é característico. — Serão quatro domadores a menos para nos preocuparmos.
O digimon leão humanoide, de corpo musculoso e profundas cicatrizes, caminha na direção dos digimons do nível Novato.
— Ordeno que pare, Leomon! – Brada o pequeno digimon que é guardião daquela cidade. – Não quero batalhas aqui. Tem muitos digitamas e bebês por perto.
— Nós não queremos lutar! – Avisa Veemon.
— E desde quando você tem de querer? – Responde Alex.
Leomon saca seu sabre e tenta atingir os digimons, que saltam para trás e se esquivam.
— Não tornarei a pedir. Trovão Cintilante.
Elecmon dispara uma rajada elétrica na direção de Leomon, que também desvia.
— Guilmon, evolua! – Ordena Blaze, já empunhando seu digivice.
Rapidamente o casulo de luz da evolução envolve o pequeno tiranossauro vermelho, que logo adquire seu nível Adulto de evolução.
— Chama Extrema. – Brada o tiranossauro vermelho de crina branca, disparando uma imensa rajada de fogo na direção dos digimons, que se esquivam.
A técnica de Growmon atinge um prédio, que desmorona. Seus escombros atingem alguns digitamas e bebês, que se convertem em dados.
— Eu preciso de Júnior! – Balbucia o pequeno digimon furão.
— Por favor, parem com isso!
Leomon e Growmon continuavam atacando os digimons dos calouros sem se importar com os digitamas e os bebês, que choravam desesperadamente.
— CHEGA! – Grita Elecmon.
Para a surpresa de todos, um casulo de luz passa a envolver o pequeno digimon de pelagem vermelha e calda aberta em leque, o guardião daquela cidade.
João e Carlos chegam ao Mundo Digital acompanhados de Betamon e Terriermon.
— Chegamos! – Vibra o digimon de grandes orelhas assim que o portal se fecha atrás de si.
— Lógico que chegamos, Terriermon. – Diz o garoto de óculos de armação negra.
— E a gente veio fazer o que, afinal?
— Procurar as Cartas Acessórias! – Responde o garoto de barba cerrada.
— Hum...
— Murilo vem?
— A gente conversou ontem, João, e ficou combinado de todos virem. – Diz Carlos.
— Odeio atrasos! – Brada o digimon de grandes orelhas cruzando os braços.
— Você não odeia nada! Quem tem que gostar ou não, aqui, sou eu!
— Eu também sou dono do meu nariz!
Carlos e Terriermon começam a discutir.
— Estava demorando...
Betamon rir com a observação do seu domador.
Outro portal se abre e dele saem Verônica, Bárbara, Flávia e suas digimons.
— Cadê Murilo? – Indaga Flávia.
Verônica ignora a presença de João e vai até Carlos.
— Deve ta chegando por aí.
— Por que estão discutindo? – Pergunta Lunamon.
Antes que João pudesse responder, Carlos grita.
— Porque ele é um chato!
— Chato é você!
A garota de cabelos volumosos se aproxima e abraça o garoto de óculos, forçando-o a parar a discussão.
Murilo chega correndo até onde os domadores estavam.
— Você estava onde, seu louco? – Pergunta João ao vê-lo se aproximar.
— Trouxe uma surpresinha para vocês.
— O que é?
— Pode vir! – Diz Murilo.
Davi surge detrás de uma árvore acompanhado pela sua digimon vegetal.
Continua...
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