Digimon Ancient Power
3 Capítulo II : Além de seu mundo limitado
Notas iniciais
Esse capítulo está maior que o outro e os demais devem ter esse tamanho. Ia colocar mais dois eventos no capítulo mas ia ficar muito grande e decidi passar para o próximo capítulo. Espero que gostem o/
Se tiver algum erro de formatação, me avisem.
Se tiver algum erro de formatação, me avisem.
Virou-se rapidamente, mas não havia nada o vigiando por trás, apenas os limpíssimos azulejos brancos. Mas eu vi algo me observando... Primeiro aquele sonho e agora isso. Será que estou doente?Afastou esses pensamentos, rotulando-os como alguma sequela do incomum sonho e girou novamente, para o espelho, e passou a mão no macio cabelo castanho. Terminou de lavar-se e voltou ao quarto. Ao entrar reparou uma mancha negra de mofo bem no meio do teto, ao redor da lâmpada fosforescente. Mais uma... Tenho certeza que é por minha mãe nunca abrir as janelas.Como os pensamentos que teve no banheiro, não deu atenção ao mofo, indo até o armário de madeira para trocar a camisa branca e a calça larga de moletom cinza por uma bermuda marrom e uma camisa verde, estampada com a imagem de um fone de ouvido preto, espécie de coisa que Jacob, em seus 14 anos, nunca havia visto e ao menos sabia o nome.Já de roupa mudada, Jacob apanhou dois dos livros na prateleira e sentou-se à escrivaninha de carvalho e abrindo uma gaveta da mesma, pegando um caderno de capa negra. Abriu o caderno e um dos livros, de Geografia, para fazer os exercícios que sua mãe havia lhe instruído.Sim, Jacob tinha aulas em casa com sua mãe, todos os dias, com exceção de domingo. Aquilo, apesar do garoto nunca ter pensado nisso, era uma estratégia de sua mãe para que Jacob não saísse de casa, tudo por causa daquilo há 11 anos atrás... O que aconteceu naquela data o garoto não sabia, lembrava-se apenas de seus pais gritando e puxando-o pela mão, atravessando uma estrada deserta com algo em seu encalço...Apesar de ser proibido de sair de sua casa, Jacob, que alimentava imensa curiosidade sobre o mundo exterior, nunca se revoltara ou tentara deixar sua casa escondido.Jacob ouviu uma batida na janela e, girando, pôde ver um corvo – de bico longo e penas brilhantes de tão negras – passar voando, após bicar o vidro. O garoto Merwind voltou-se para o livro e procurou a página com os exercícios a serem feitos por um breve momento. Quando a achou, não pôde deixar sua curiosidade sobre o exterior de lado ante a imagem de uma imensa cordilheira de branco níveo, ponteada aqui e ali de rochas negras, envolta por nuvens. Ao centro, se sobressaía um pico maior, de cume pontudo. O garoto leu abaixo da fotografia a legenda: “O Monte Everest, o mais alto do mundo com cerca de oito quilômetros de altura”.Encarou aquela imagem por um longo instante. O tal monte, na visão do menino de olhos castanho, parecia subjugar os que o cercavam com toda sua altura e imponência, e a beleza simplória que a neve lhe conferia.Ficou emerso em suas ponderações até que, do andar de baixo, ouviu a voz rouca de sua mãe chamar seu nome.Jacob saiu de seu quarto, foi até o fim do corredor e desceu a escada segurando no corrimão, observando algumas outras manchas de mofo aqui e ali. Andou até sua mãe, na cozinha de armários brancos e pia, mesa e bancada com tampo de granito cinzento. A Sra. Merwind, Sharon, acabou de cortar um pedaço de carne e colocar no forno, virou-se para seu único filho e o abraçou, desejando bom-dia.– Bom-dia para você também, mamãe. – desejou com sua voz límpida – Me chamou?– Sim, sim – contrapondo com o filho, a voz de Sharon era acometida pela rouquidão da velhice. Já poderia ser considerada uma anciã com seus 60 e poucos anos. Havia tido Jacob já bem velha, contrariando suas expectativas. Era baixa, pouco menor que seu filho, sua face já evidenciava os sinais da ação implacável do tempo e seus cabelos, outrora lindamente brilhantes e levemente ondulados, do mesmo castanho claro dos do filho, escondia os resquícios da beleza sobre uma camada cinzenta – Você já tomou seu café da manhã? Jacob sacudiu a cabeça negativamente. Nem se lembrara de sua refeição matinal. Estava ocupado demais com seus livros e totalmente envolto em pensamentos sobre seu incomum devaneio noturno e o vulto negro no espelho. – O pão acabou e não há biscoitos – Jacob notou um tom que nunca havia ouvido em meio à rouquidão de sua mãe – e você precisa comer algo, deve ter fome. Então... – Sharon pegou uma pequenina bolsa de couro negro e fechos duplos de metal do canto da bancada de granito – Você poderia comprar pães?
Comprar pães? Ela nunca me deixou sair de casa e agora me pede para fazer algo tão banal fora de casa! Isso é estranho. Meu pai sempre pediu que trouxessem pães por aquela maquininha dele. Jacob coçou a cabeça, confuso. E essa coisa estranha na voz dela... Parece que o leão estava certo sobre minha saída, talvez em breve eu acabe viajando mesmo para aquele lugar...– Jacob? Você ouviu minha pergunta?– Sim, sim, ouvi. Eu vou comprar os pães para a senhora. – disse, interrompendo rapidamente suas reflexões. Sharon lhe entregou a bolsa – Mas... aonde eu vou comprar pães, mamãe? Eu não se...Foi interrompido então pela voz rouca, ainda com o tom estranho: – Como não sabe onde se compra pães? – e colocou as duas mãos na cintura – Por acaso estou criando um burro aqui em minha casa!?Jacob Merwind recuou um passo, assustado. Nunca, em toda sua vida, viu sua mãe gritando com alguém, ainda mais disparando uma ofensa.– Mamãe? O que aconteceu com a senhora? Está tão estranha...– Eu, estranha? É você que não sabe onde fica a padaria!– Claro que não sei! Você nunca me levou lá fora! Estou preso aqui há 11 anos! – vociferou Jacob, espantando-se posteriormente com sua própria reação, entretanto, sem nada dizer.A mãe pareceu encolher sobre si mesma e levou as mãos à cabeça. Cerrou os dentes, parecendo perturbada. Jacob notou tudo isso com estranhamento, mas mais uma vez, nada disse. Então Sharon deu um soluço alto e olhou novamente para seu filho, a face de antes, já sem traços de perturbação. Suspirou e continuou:– Desculpe-me, acho que estou ficando velha, não é? – a pergunta era retórica. Sharon ainda tinha um tom de voz estranho – Acho que minha memória está começando a apagar-se, me causando confusões. – E olhou para o teto, avulsa.Que momento estranho! Parecia até que outra pessoa agia por meu corpo... Será que estou assim por causa daquela voz que ouvi logo cedo? Ponderou Sharon. Talvez não devesse ter feito o que ela pediu-me... Bobagem... Uma voz estranha soou na mente da Sra. Merwind. Eu te disse que isso é para protegê-lo. Ou você não espera que ele fique bem? A mulher assentiu com a cabeça, causando estranhamento ao filho. Então, faça o que mandei, mande-o para a padaria agora, não o deixe ficar mais nem um minuto. Nós dois sabemos que ele chegará ao portal por curiosidade própria.Mas se...“Se” o quê?Mas se Jacob não for diretamente ao portal? Se ele usar outra das máquinas?Não se preocupe com isso, Sharon. A moça que cuida das máquinas também está tomada... Errr, quer dizer eu a convenci que isso será bom, como lhe disse mais cedo. Agora o faça sair, o portal não se manterá aberto por muito tempo, e se ele não passar por ele não ficará tão protegido como lhe contei. E lembre-se de escrever sobe o pequeno demônio e para que ele vá direto à padaria.Sharon assentiu mais uma vez e instruiu Jacob, sem dar qualquer satisfação sobre seus acenos de cabeça para o nada: – Olhe, eu vou desenhar um mapa, para você achar o lugar com mais facilidade. – A mulher pegou um pedaço de papel numa gaveta e pediu para que o garoto pegasse uma caneta em seu quarto.O garoto galgou os degraus, dois a dois, e apressou-se para seu quarto. Mesmo com a perturbação repentina que sua mãe apresentava – pois no dia anterior Sharon se encontrava em ótimo estado – Jacob ainda estava excitado com a possibilidade de conhecer o mundo exterior, e enquanto subia, imaginando várias possibilidades acerca do que encontraria, chegou a ficar extasiado.Quando chegou ao quarto, correndo com as mãos estendidas para a escrivaninha, teve um sobressalto: o corvo que batera em sua janela mais cedo se encontrava postado sobre seu travesseiro. Jacob sufocou um grito e apertou-se contra a parede, assustado. O animal crocitou e abriu as asas negras. Ajeitou os pés de dedos longos e com uma batida seca de asas voou até a borda da escrivaninha, equilibrando-se habilmente sobre um pequeno pote com lápis e canetas, há um metro de Jacob.Então, para a surpresa do menino de cabelos castanhos claro, palavras saíram do longo bico cor de ébano. – Não há muito tempo, o portal logo se fechará, e você precisa fazer essa viagem. – a ave estendeu uma de suas asas e coçou-a com o bico. Continuou – Apesar dos meios que foram usados para te levar até o por...– Espere, espere aí – cortou Jacob, confuso com a aparição do animal – Para começar, como... você entrou aqui? As janelas não abrem.O corvo crocitou de modo diferente, agora num riso de escárnio: – Você acha mesmo que um pouco de vidro e outro pouco de madeira deteriam alguém como eu? – e riu-se novamente – O concreto e os tijolos não me parariam, nem mesmo os portões de sua consciência seriam capazes, pois eu sou um Espectro, e entro ande quiser.Minha mãe não aprova coisas fantásticas e fantasiosas, muito menos Espectros negros... – Aliás, outro do meu tipo já invadiu seus sonhos, ainda que não seja de minha Ordem, mas isso não vem ao caso. O fato é que você fará a viagem de que lhe falaram. Não direi quando, mas pela sucessão de fatos você já deve ter descoberto se não for tolo ou extremamente ingênuo, é claro. – Pelo que sei desse garoto, a segunda opção poderia ser a mais certa. Ele pode ser ingênuo, mas mesmo neste claustro não se tornou tolo. – Repudio os meios que o tirarão de sua casa, mas nada farei a esse respeito, afinal, vão te levar ao mesmo lugar que eu poderia te levar, peço-lhe apenas, para que lembre sempre de seu sonho.“No lugar aonde você irá, haverá lobos e leões, como em seu sonho, e eles terão o mesmo papel que tiveram, embora alguns possam tentar confundir-lhe durante sua jornada. E também... Não, não lhe direi mais que isso... É perigoso e não tenho permissão para revelar-lhe tanto sobre seu futuro. Vá agora, o portal fechará logo...”– Mas sobre es...– Não, não se detenha mais em sua casa, pegue as instruções com sua mãe e vá, depressa. – Jacob acatou as ordens meio a contragosto e desceu com uma caneta.Sharon pegou-a assim que Jacob chegou à cozinha, e logo, com dois rabiscos, algumas letras e dois pontos, fez o mapa. Depois dobrou o papel ao meio, deixando o desenho do lado de fora, e na porção interior escreveu algo rapidamente. Vincou bem com as unhas e entregou ao filho.Os dois dirigiram-se juntos até a porta de madeira. Jacob inquiriu: – Não quer ir junto mamãe? Hoje você parece um pouco... – procurou palavras, mas nenhuma que conhecia podia dizer “perturbada” com delicadeza.– Não, eu estou bem... aquilo na cozinha foi... – a mulher parou por um momento, tentando conceber uma explicação plausível – um pouco de... – parou de novo, mas desta vez foi auxiliada pela voz em sua mente, que soou: Fome – Fome, Jacob, era só isso. Compre quantos pães for possível com o dinheiro.Pode ir, eu esperarei os pães. E vá direto, não pare em nenhum lugar.Sharon abriu a porta, e antes que Jacob pudesse dizer adeus, fechou-a, trancando em seguida.Finalmente estava fora de casa! Deu um pequeno pulo sem sair do lugar e assobiou um jingle qualquer que seu pai costumava cantar.O ar era puro e limpo, diferente do de sua casa, sempre preso entre as paredes e janelas, tomado pelo odor do mofo que arrastava-se lentamente pelo teto de todos os cômodos. Havia também, ele percebeu, o movimento do ar... Como se chama mesmo?... Hum... Brisa, acho que é brisa. Observou, embevecido, três grandes pinheiros que se erguiam numa casa ao lado. Tão altos... Tão altos...Olhou para baixo e encontrou-se no degrau mais alto de uma pequena escada de pedra. Desceu-a, com um largo sorriso no rosto e uma brisa nos cabelos.Viu que, seguindo a linha da escadinha havia um caminho de pedras coloridas, o que contrastava com os jardins mortos de ambos os lados, que seguiam até uma cerca de madeira branca.Jacob saiu da entrada de sua casa, e chegando ao meio-fio, virou-se, para se deparar com uma fachada feia, de um cinza apagado e lúgubre. Sharon e Daley, seu marido e pai de Jacob, não se preocupavam com o exterior de sua casa, afinal, há onze anos não saíam dela para poder vê-la de fora.
O garoto, contendo um pouco sua excitação, analisou o mapa em sua mão. Havia um ponto que representava sua casa, e, bem a frente deste, passando por dois rabiscos que Jacob julgou serem as calçadas, havia outro, com a grande inscrição “PADARIA”. Jacob olhou para frente viu uma pequena lojinha vermelha, de onde vinha o cheiro de pão assando.Jacob animou-se. Viu um pequeno pássaro amarronzado passar voando e encantou-se com sua agilidade, desejando poder voar um dia. Uma garota passou a seu lado, trajando um micro-short e uma micro-blusa. Ela cumprimentou-o com um sorriso largo e ele retribuiu, sentindo uma inquietação nova em seu corpo.Suspirou, e preparou-se para atravessar a faixa cinzenta de asfalto. Deu o primeiro passo, o segundo, chegando ao sexto despreocupadamente, quando um carro amarelo, que vinha em alta velocidade parou a centímetros de sua perna, cantando pneus. Jacob arregalou os olhos e tropeçou em seus pés quando tentou afastar-se. Levantou-se e disse ao motorista irado: – Desculpe-me, desculpe-me – mas as desculpas não aplacaram sua ira. O condutor vociferou um punhado de xingamentos e contornou o garoto, que logo após isso correu para o outro lado da rua.Máquinas amarelas são ruins. Devo me lembrar disso da próxima vez. Pensou enquanto, atordoado, recuperava-se do susto. Será que haverá outra vez? Ou precisarei esperar o pão acabar de novo?Jacob afastou o pensamento e observou a padaria à sua frente, mas algo de repente chamou-lhe a atenção. Há alguns metros um letreiro de neon laranja piscava incansavelmente, convidando-o. O adolescente aproximou-se, postando-se bem à frente de uma loja com estranhas máquinas quadradas. Leu o letreiro: “LAN HOUSE”. Essas coisas quadradas parecem tão... legais! Acho melhor experimentar, afinal não sei quando terei outra chance. Pensou, mas depois de alguns passos, lembrou de sua mãe, dizendo-lhe para ir direto à padaria. Não seria certo desrespeitá-la, ela foi bem clara.Ficou parado ponderando por longos momentos, até que sua curiosidade aguda sobressaiu a razão. Mas não sei quando voltarei, se eu voltar. É melhor experimentar isso agora. E foi entrando.Havia ao todo 20 máquinas daquela, 10 de cada lado do estabelecimento comprido, todas apoiadas sobre mesas de madeira e encostadas em paredes alaranjadas, com números vermelhos pintados atrás de cada uma. Eram separadas entre si por tábuas finas, que evitavam apenas a curiosidade alheia, mas facilmente quebráveisChegando ao meio da loja ouviu, de um diminuto balcão, uma mulher — que a princípio não havia sido notada – chamando-o. – Ei, garoto, se quiser usar um computador você precisa pagar antes – Em seu êxtase o garoto não percebeu que a mulher, que terminava de lixar as unhas, tinha o mesmo tom estranho que sua mãe adquirira naquela manhã.Jacob aproximou-se, tirou a bolsinha de couro do bolso e deixou no balcão, sem ao menos se importar com o preço.A mulher mexeu no cabelo ruivo: – Máquina... – 18, alguém disse em sua mente – 18, no fundo! – Quando o garoto chegou ao fundo da loja, já bem afastado, a mulher abriu a bolsinha, depositou numa caixa registradora o devido pelo uso do computador e guardou o restante em seu sutiã.Jacob avançou examinando os números vermelhos atrás de cada monitor. 15. 16. 17. 18! Olhou para a tela, espantado.– Uh! – exclamou baixinho, sentando-se numa cadeira acolchoada. Olhou bem para o monitor apagado, emoldurado em branco, sem saber seu uso. Abaixo do monitor quadrangular havia um teclado de mesma cor. Jacob coçou a cabeça, confuso, e mudou de posição, apoiando o cotovelo na mesa de madeira.Por acidente, encostou num mouse também branco, e a tela acendeu-se, para sua surpresa, revelando devagar a imagem de uma bela praia ao pôr-do-sol, coisa que Jacob conhecia apenas por seus livros e pelas pinturas que seu pai fazia para sustentá-los.Jacob suspirou novamente, e fitou o teclado, o coração palpitante. Viu todas aquelas letras e símbolos desenhados sobre as pequeninas teclas e apertou uma delas. Nada aconteceu. Experimentou outra, mas a reação foi a mesma: nada. Então, insatisfeito, iniciou um frenético movimento com os dedos, pressionando teclas a esmo, até que algo aconteceu. Uma janela vazia, com fundo negro e um desenho – de linhas simples e sem detalhamento – púrpura de um corvo voando com um longo osso nas garras, como que se atravessasse diagonalmente o fundo escuro. O garoto Merwind assustou-se quando isso aconteceu, mas logo recomeçou a apertar as teclas, esperando alguma outra ação do computador, que logo veio, acompanhada por um uivo alto da máquina. Jacob mais uma vez teve um sobressalto e mexeu-se bruscamente na cadeira. Olhou para a moça no balcão, mas esta pareceu não ter ouvido uivo algum.Jacob voltou sua atenção para a tela, mas agora esta estava totalmente negra, e um fio de fumaça saía de um dos inúmeros fios saídos do monitor. O garoto não percebeu, preocupado demais com o que fizera, pensando ter estragado a máquina, mas a fumaça acumulava-se sobre sua cabeça numa nuvem cinzenta cada vez mais densa e maior.Depois de cinco minutos Jacob preparava-se para comunicar à atendente o que fizera quando a nuvem, já duas vezes maior do que a cabeça de Jacob e densa o suficiente para que não fosse possível ver através dela, espiralou para o teto e mergulhou sobre a mesa, assustando o humano. Formava uma informe massa cinza-escura. O monitor acendeu-se novamente, exibindo o corvo púrpura.– O que quer agora, elfo idiota? – perguntou numa voz forte. O som parecia sair de todo seu “corpo”.– Errr... Desculpe-me, mas eu não sou isso. – informou Jacob, recuando levemente sua cadeira. A fumaça cinzenta estremeceu e moldou-se no formato de um pequeno homem, de cerca de 20 centímetros, vestido numa longa túnica. Jacob assustou-se e piscou várias vezes os olhos castanhos.O pequeno ser aproximou-se de Jacob, a túnica arrastando na mesa, e uma fagulha azulada irrompeu de repente de um fio do computador, atingindo o ser mutante no braço. A pequena corrente elétrica percorreu seu braço até sua cabeça, fazendo com que os olhos da criatura brilhassem em azul.– Ah, agora posso ver... Um humano e não um elfo. Você é de que mundo humano? De Arda?– Não, não. – informou, a voz tremendo – Eu sou da Terra, da Austrália.– Ah, a Terra... Lugarzinho deplorável esse. Sem ofensas é claro! – explicou-se./b]– Com certeza não fiquei ofendido, eu mal conheço a Terra.[/b] – e deu um pequeno sorriso, lembrando mais uma vez que aquela era a primeira vez que saía de casa – Desculpe-me a pergunta, mas quem é você? – e antes que o ser respondesse Jacob inquiriu novamente – E por que você me confundiu com um... um...– Um elfo. Esse é o nome. – o ser fitou os olhos de Jacob – Eu só fiz essa confusão porque antes de aparecer aqui estava num mundo muito próximo, e um elfo tentava escapar para outro mundo, mas eu não deixei. Tive de usar a força para mandá-lo embora – disse, orgulhoso – Ah, e meu nome é Apiakun, o Portador das Chaves, Guardião dos Portais.– Chaves? Que tipo de chaves?Apiakun bufou, como se a pergunta do garoto fosse a mais obvia possível. Entretanto, respondeu: – As Chaves para outros mundos. Apenas eu posso abrir os Portais para outras dimensões, é praticamente impossível atravessar sem meu consentimento. – falou mais uma vez gabando-se – È praticamente impossível viajar pelos mundos de outra forma que não seja pelos meus Portais.– Portais... Me disseram algo sobre um Portal hoje mais cedo... – Jacob disse para si mesmo. – Quem? Quem lhe disse algo sobre os Portais?– Um Espectro com a forma de um corvo. Eu não devia falar com ele, pois minha mãe não aprova coisas do tipo, mas... – o humano foi interrompido pelo Guardião, que subitamente aumentou de tamanho, tornando a névoa cinzenta de seu corpo menos densa.– Ah, o Corvo... Um velho amigo. Acho que ele me informou algo sobre um humano hoje... E também os outros Espectros de sua ordem... – Apiakun apanhou um pedaço gasto de pergaminho dentro da túnica comprida. Jacob percebeu que havia algo escrito no pergaminho amarelado, mas o serzinho cinzento estudava seu conteúdo segurando-o de modo que Jacob não pudesse ler.Apiakun parou por um instante e fitou o monitor do computador, encontrando o corvo com o osso. Deu um sorriso fraco, e Jacob percebeu que devido a névoa suas expressões não eram muito visíveis. Guardou o pergaminho e falou:– Sim, sim. O Corvo falava de você hoje quando me encontrou no alvorecer. Você é Jacob Merwind, das Trevas! – e exclamou tão alto que o garoto virou-se para a atendente, esperando que esta se assustasse, mas a moça estava agora parada, olhando para um ponto fixo da rua, como que petrificada. [/i]Das Trevas? Como eu posso ser das Trevas? Aquele lobo do meu sonho e até mesmo o Corvo poderiam ser considerados seres de sombras, mas eu?[/i]Apiakun continuou, exultante – Você será um herói no Digital World, com certeza será se obter sucesso em sua missão! – Jacob iria fazer uma indagação, mas percebendo isso, o Guardião continuou – Não deve deter-se mais em seu mundinho miserável, precisa partir agora. “Habitualmente o Portal não se abre nessa região, e tenho certeza que é muito fatigante para os Espectros manterem-no aberto aqui, então deve ir logo, antes que a passagem se feche e que você precise atravessar seu país para fazer sua viagem. E não me pergunte nada sobre sua missão. Eu apenas abro e fecho Portais. Não tenho permissão de revelar Destinos, apesar de conhecer alguns...”Apesar do ímpeto de sua curiosidade, Jacob nada disse ou perguntou, e ficou observando o Guardião enquanto este metia a mão entre a túnica em busca de algo, que logo encontrou. Apiakun ergueu a mão da túnica, revelando um molho de chaves. Enquanto este examinava cuidadosamente cada uma, Jacob indagou: – Apiakun, você disse que os Espectros estão mantendo um Portal aberto aqui não é? – o ser de fumaça assentiu, e Jacob continuou – E... essas chaves servem para abrir portais? – Apiakun assentiu novamente – Então, por que você vai abrir um Portal que já está aberto?Apiakun continuou a estudar cada chave do molho: – Porque eles não são capazes de abrir totalmente um Portal, apenas eu tenho essa capacidade. – mais uma vez pareceu gabar-se – O que eles estão fazendo é manter um rasgo na fronteira entre este mundo e o Digital World, criando... – pensou por um longo momento, enquanto observava com mais atenção uma das chaves, descartando-a em seguida e continuando a busca – Um túnel, acho que podemos dizer assim. Mas imagine que no fim do túnel, há uma porta, que nenhum dos Espectros pode abrir. Eles podem transpô-la se quiserem, mas não poderiam levar nada vivo consigo, apenas objetos talvez. Por isso eles precisam de mim, porque só eu posso abrir essa porta, e aí você poderá atravessar – Mas... Eu não sei se quero atravessar... – Apiakun o fitou de repente, fuzilando-o com os olhos, com uma chave prateada, talhada de jades – Não sei se estou preparado para fazer uma viagem tão grandiosa como todos disseram que é.Apiakun não respondeu, apenas observou o humano por um instante, olhar inescrutável. Ignorando Jacob de repente, fez um arco com o braço esquerdo, e de sua túnica ergue-se uma pequena nuvem de fumaça amarelada, que se uniu rapidamente num ponto colorido, imóvel no ar. O ser cinzento aproximou-se com a chave prateada, e lentamente inseriu-a no ponto amarelo. As pequenas pedras verdes de jade desapareciam à medida que a chave aprofundava-se, até que Apiakun parou sua ação e girou a chave.De imediato, uma rachadura foi surgindo acima do ponto: a borda amarela abrindo-se como uma grande boca retorcida sobre um fundo negro, inerte. – Você vai atravessar Jacob Merwind? Se sente preparado? – indagou girando vagarosamente para o humano.– Eu acho que... – e lembrou-se de tudo que sua mãe dizia sobre como o mundo era perigoso, e pensou um momento em suas lembranças do acontecido há 11 anos. – Não, não posso ir.
– Não? Então me faça um favor. Apenas olhe o que está dentro do Portal – disse, apontando para a rachadura no ar com um floreio.Jacob o fez. Foi chegando devagar com a cabeça para frente, sentindo um ar abafado em sua fronte. Olhou para Apiakun nesse momento, que fez um sinal para que continuasse. Aos poucos Jacob passou sua cabeça pelas bordas amarelas, mas nada via a não ser o negrume profundo. Sem que o garoto visse, Apiakun saltou, levitando sobre suas costas curvadas sobre a mesa, e o chutou fortemente. Jacob sentiu uma dor subir por seu dorso, e percebeu que entrava mais fundo no negrume. Olhou para trás e viu o Guardião empurrando-o. Impressionantemente, Apiakun, que media não mais que 40 centímetros, conseguia empurrar o humano, que não pôde fazer nada, apenas tentar virar-se para voltar, o que não conseguiu.O Portal fechou-se diante de Jacob assim que seus pés atravessaram, tornando-se novamente um ponto amarelo. O garoto percebeu estar flutuando no manto escuro do breu, e assim ficou por um longo momento, até que o ponto desapareceu, e Jacob caiu num chão irregular de pedra fria. Sentiu a dor da pequena queda em seus quadris e levantou-se com dificuldade. Estava atordoado e confuso e o ar era abafado.Ele abriu os olhos. Não via nada, nem depois de alguns minutos, quando seus olhos já estariam acostumados à escuridão.Sabia, de alguma forma que não podia explicar, que aquele lugar ficava em outro mundo, naquele citado em seu sonho pela estranha criatura dourada. Tinha consciência também, de que estava numa caverna, e que a tal guerra desenrolava-se lá fora, naquelas terras contrastantes, como havia dito o leão.Tateou à sua volta e encontrou em ambos os lados paredes da mesma pedra fria que formava o chão. Levantou os braços e deparou-se com um teto baixo, coberto por estalactites de ponta arredondada, de onde escorriam filetes de líquido que formavam pequenas poças no chão.O garoto posicionou as mãos em concha debaixo das pedras que pendiam do teto, recolheu e provou o líquido, e conclui que era água. Bebeu mais um pouco e olhou ao seu redor. Apenas a escuridão uniforme, sempre negra, e sentiu-se sufocado, como se o peso esmagador do breu abatesse sobre suas costas.Decidiu chamar por alguém e clamou por todos que conhecia:– Mãe!!! Mamãe!!! Papai!!! – exclamou, cada frase pontuada pelo silêncio daquele lugar, que era entrecortado apenas pelo tamborilar ocasional dos pingos água e a respiração pesada de Jacob naquele nicho abafado.Evocou até o Corvo e Apiakun em seu desespero, mas como resposta recebia apenas o silêncio frio. Pensou então em tentar encontrar uma saída daquele lugar que parecia ser uma caverna, e iniciou uma marcha lenta pelo piso irregular, tropeçando ocasionalmente numa pedra solta ou em algum sulco cheio de água.Em dado momento, após quase uma hora de caminhada, começou a chorar e praguejar baixinho, amaldiçoando-se por não ter seguido à risca as ordens de Sharon Merwind. Se eu tivesse ido diretamente à padaria, já estaria em casa, terminando meu café da manhã... Isso deve ser uma punição por meu desrespeito, talvez fique preso nessa escuridão eternamente... E o calor aqui dentro dessa... caverna! Agora não voltarei para casa, e provavelmente ficarei perdido neste lugar, que deve ser o que tanto me disseram que eu iria viajar.Após quase duas horas, o garoto, não acostumado a atividades tão extenuantes sentia câimbras em ambas as pernas e dores musculares estendiam-se até a altura de sua barriga. Sentia também sono e fome, estando apenas isento da sede.Deitou-se na pedra, e tomou um grande gole de água de uma poça no chão, entregando-se então ao torpor do sono, lamentando baixinho, sem se importar com água que pingava em seu corpo.Nunca mais irei desobedecer minha mãe... Nunca mais...Mas quando pensou nisso, já havia substituído o negrume da caverna pela luz etérea de seus sonhos, onde ouvia agora o crocitar de um corvo...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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