Digimon Adventure Zero Three
6 Capítulo 5 - Coração Negro
Notas iniciais
Capítulo 5 — Coração Negro
O Anjo Caído sentia-se realizado.
O inimaginável poder das Trevas pulsava forte em seu gélido coração negro. Sua mente ardia em ódio, mas também em entusiasmo. E seus olhos infantis refletiam a crueldade de sua alma condenada.
Observou a esfera laranja que carregava consigo desde os primórdios de sua existência. Era seu brasão. O lar de todo o orgulho depositado em sua alma. A força da Escuridão que o dominava a cada vida inocente que destruía.
Finalmente capturara as fontes de sua maior inimiga; a Luz.
O ódio que sentia por aquela existência que um dia foi capaz de destruí-lo era muito grande. Mas não seria pego por seu pior pesadelo novamente. Capturara os Digiescolhidos, e jamais deixaria que vencessem. Jamais se permitiria ser derrotado
Imaginava os futuros dias de glória. Dias em que não precisaria se esconder no escuro; todo o Mundo Digital seria sua propriedade particular, e arrancaria a alma de todos aqueles que não aceitassem essa nova realidade.
Sentia sua vitória se aproximando. Em breve a Luz cairia junto com todos aqueles que a seguem.
“Luz”. Não suportava a palavra nem em pensamento. Foi Ela quem o deixou nessas condições deploráveis. Aprisionado como uma... Uma criança, para toda a eternidade. Sem poder dominar do jeito que um dia pudera. Sem poder dominar do jeito que merecia.
“Coragem, Amizade, Amor, Sabedoria, Sinceridade, Confiança, Esperança e Luz devem ser destruídos.”
Rosnou furiosamente ao pensar no dia em que fora derrotado, junto de seus irmãos. Os poderes das quatro Bestas Sagradas, combinado aos dos onze brasões lendários, levaram para longe qualquer resquício de maldade existente no Digimundo.
Se ao menos Ele estivesse lá para ajuda-los, talvez essa história tomasse um rumo diferente. Talvez se tivessem sido fortes o suficiente, maus o suficiente, poderosos o suficiente... Talvez.
As asas rígidas carregavam a angústia do Demônio e o pesar de muitos guerreiros mortos pelas pequenas mãos de Lucemon. De todos os sete, era de longe o mais cruel. Seus poderes representam o nível mais baixo e sujo do purgatório, lugar para onde só os mais perversos Digimons eram enviados.
Gostava de torturar seus inimigos com suas próprias trevas, escondidas nos cantos mais sórdidos de seus corações — onde os maiores medos e frustrações permanecem guardados.
E era exatamente o que faria com os Escolhidos. Até que sucumbissem no eterno abismo da morte.
***
– Kaiser Phoenix!
O ataque cruzou todo o extenso corredor, iluminando as grossas paredes de pedra que o formavam. Em poucos segundos, estariam mortos. Claro, como não?! Como poderiam sobreviver?! Certo?
Wallace perdera suas esperanças no momento em que avistou o grande raio de luz branca vindo em sua direção. Nem mesmo teria tempo para pegar seu Digivice e lutar. Teria tempo para nada.
Fechou os olhos, na esperança de abri-los novamente após alguns instantes, e estar em seu quarto ou em qualquer lugar longe do maldito castelo. Mas não aconteceu. Ainda estava lá, pouco mais um metro distante da provável causa de sua morte.
Lopmon lançou um Blazing Fire contra o feixe, na tentativa de para-lo, mas não surtiu efeito algum. Como... Como se o raio de energia lançado pelo coelho atravessasse o golpe do outro, e se dissipasse logo depois.
Estava cada vez mais perto, e em questão de segundos, ou talvez milésimos, seriam atingidos. E mortos.
Após isso, tudo que o loiro se lembra é de um Digimon robô com os braços abertos, os protegendo, e, logo depois, evaporando como dados de computador em pleno ar. Era como poeira, incrivelmente verde e brilhante, porém.
Foi isso.
O ‘amigo’ do mais velho acabara de morrer por ele. Por ele e por seus Digimons.
Ainda estático, com medo e atordoado, desviou o olhar para seu lado esquerdo, onde encontrou um Gennai segurando a haste de uma espada que, por algum motivo, não havia notado estar com o senhor que o acompanhava.
O mesmo senhor balbuciou algumas palavras ao garoto, mas não obteve muita atenção. Até que em um impulso, sorriu de canto, de um modo bastante sarcástico, e começou a correr em direção à besta, ao mesmo tempo em que dizia:
– Ache os digiescolhidos, nos encontramos depois! Corra!
E isso foi feito pelo herdeiro do Destino. Correu para a direção oposta à Crossmon, segurando ambos os parceiros em seus braços.
Correu o mais rápido que podia correr. Correu para conseguir — o mais rápido que podia –, sair daquele lugar.
***
– O que foi isso?
– Isso o que, Gabumon? – perguntou o parceiro do pequeno lobo. Os Digimons haviam acabado de se recuperar da batalha anterior, mas continuavam fracos e despreparados para um combate. Tinham força nenhuma. Nem mesmo para um simples ataque.
– Eu também ouvi! – Agumon se levantou do chão com um olhar preocupado, e andou para o lado de seu parceiro, que ainda sentia-se envergonhado pela conversa que tivera com seus amigos algumas horas atrás.
– O quê? O que vocês ouviram? – Sora sempre mantinha a calma em momentos difíceis, mas seu coração amoroso já não suportava mais tantas batalhas. Tantos inimigos.
– Foi u-um som de batalha – o dinossauro amarelo respondeu cauteloso. continuava fraco e confuso. Não queria alarmar a todos sem um motivo.
– Mas quem estaria batalhando nesse lugar? – indagou o mais velho do grupo. – Não acho que esses Soldados do Pesadelo lutem entre si.
– Eu não me surpreenderia – Miyako concluiu em um suspiro. – Esses monstros não têm sentimentos. Não seria estranho ver um destruindo o outro.
– Ela tem razão, não viram o que Crossmon fez com aqueles dois Cannonbeemons? – Mimi Tachikawa odiava mortes. Não importava se eram de pessoas, Digibons ou Digimaus. Sentia-se destruída por saber que uma vida havia sido perdida. – E nós... Nós somos os inimigos. Eles nos matariam em um piscar de olhos.
– Se pudessem... – todos olharam curiosos para o guardião da Sabedoria.
– Como assim “se pudessem”, Koushiro? – Daisuke se apressou a perguntar, segurando Chibimon em seu braço esquerdo. O pequeno dragão retornou à sua forma de treinamento após a batalha, por causa do duro golpe que recebeu.
– Eu acho que se não houvesse um motivo maior, nós já estaríamos mortos agora – desviou seu olhar para baixo e digitou algumas coisas em seu laptop, como se não houvesse mais ninguém naquela masmorra – talvez eles precisem de nós, e por isso não possam nos destruir.
Todos ficaram em silêncio, e puseram-se a pensar. Até que a teoria do ruivo fazia sentido, mas... Para que os Lordes Demônios precisariam deles?
***
A grande tartaruga do Norte despertou-se de seu sono com o barulho de algo sendo quebrado.
Uma Digimon, caída no meio do salão, chamou a atenção de Xuanwumon, que se levantou e andou — lentamente — em direção à mesma.
Harpymon desceu em queda livre após bater em um dos enormes cristais que cercam o Palácio da Luz, e acabou derrubando um dos vasos que enfeitavam o lugar. Era bem diferente do castelo onde os Digiescolhidos estavam.
Este era bonito. E iluminado.
Levantou-se com dificuldade, empurrando os pedaços de porcelana para longe e se recompondo logo em seguida. Após olhar em volta, admirada, começou a falar:
– S-senhores, os Digiescolhidos – desviou o olhar para a grande estatueta de um dragão que residia bem no centro do salão. – Estão em perigo!
– O que houve com as crianças? – Baihumon sempre fora incrivelmente sarcástico e insensível, assim como sempre fora extremamente poderoso.
– Bem, nós estávamos sobrevoando os limites; cuidando para que nenhum deles consiga sair do lado das Trevas... – suspirou antes de continuar. – Foi quando vimos Crossmon chegando, carregando doze crianças consigo.
– E não fizeram nada? – Zhuqiaomon parecia indignado. O guardião do Sul era o oposto de seu irmão do Norte. Prezava a guerra e a violência contra todos aqueles que desafiavam o precioso equilíbrio entre Luz e Escuridão.
– N-nós tentamos, senhor! – encolheu as asas e se afastou da ave de fogo, amedrontada. Apesar de defenderem o Digimundo, as Bestas não eram, em seu todo, boas. Seu dever não era esse. Era nada além de manter os dois mundos estabilizados. – Algumas de nós foram até lá e tentaram salva-los, mas... Ao atravessar as barreiras... Simplesmente desapareceram. Tornaram-se dados!
– Isso não é um bom sinal – o mais velho e sábio dos quatro pôs-se a falar. Qinglongmon, o guardião do Leste mostrava-se preocupado. – Eles estão mais fortes do que pensávamos, irmãos.
– Talvez nós superestimamos os Escolhidos – novamente o grande tigre se pronunciara, dirigindo-se, logo em seguida, para o lado dos outros três, que já se encontravam lado a lado, em frente à Harpia. – Eles não terão forças, todos nós sabemos disso.
– Não sozinhos – a tartaruga parecia irritada com o outro. – E não neste instante. Mas podemos ajuda-los. Se você nos ajudar primeiro.
A Digimon ave, ainda um pouco tonta pela queda, sentiu-se assustada, mas, ao mesmo tempo, lisonjeada com o “pedido” de Xuanwumon. Tratou de assentir assim que recobrou a consciência de que estava frente a frente com quatro dos mais poderosos monstros digitais existentes.
– Ótima ideia, irmão – o dragão olhou sugestivamente para a fênix, que voou graciosamente até um dos mais altos e brilhantes cristais existentes em toda a estrutura do salão. Após uma rajada de fogo lançada pela mesma, um pedaço de pedra branca se soltou, e lentamente caiu, até parar alguns centímetros distante do chão.
– Atravesse o Limite das Trevas, e entregue isto aos Digiescolhidos – após aterrissar, Zhuqiaomon entregou a pedra à Digimon, que se mostrou completamente aterrorizada. – Não se preocupe. Com a pedra em mãos, nada de mal poderá acontecer.
(...)
Olhou para cima, pensando no quão importante era sua missão.
E no quão importante era para seu mundo, que ela fosse cumprida.
***
– Não é justo!
– O-o que não é justo, Mimi? – a Confiança se assustou com o repentino grito da morena. Todos estavam em silêncio desde que conversaram sobre a teoria de Koushiro. Não era um silêncio perturbador ou desconfortável. Era só silêncio.
– Nada! Nada, Jou, nada! – estava gritando e sacudindo os braços como uma criança. Como a criança que era em sua primeira viagem ao Mundo Digital. – Eu não deveria estar aqui agora! Só isso! Eu deveria estar em casa, assistindo televisão e tomando um refrigerante fresquinho, mas estou aqui. Presa.
Era verdade.
Não era justo que todos eles, os treze, tivessem que pagar pelos erros de Digimons maus. Tivessem que deixar de lado suas próprias vidas. Pensavam no que estariam fazendo se estivessem no Japão, cuidando de seus próprios problemas (mesmo que fosse um pensamento egoísta; era impossível não pensar), e... Vivendo suas vidas! Como jovens normais. Pelo menos uma vez.
Entretanto, sabiam que seu dever era proteger os dois mundos. E o cumpririam.
– Mas não adianta reclamar agora – suspirou e sentou-se novamente, ao lado de Sora. A companhia de sua amiga de infância a reconfortava em momentos difíceis como este.
Hikari parecia estar em outro planeta. Mal ouvira as constantes reclamações do goggleboy ao seu lado, e, dificilmente, prestara atenção alguma ao pequeno surto da guardiã da Sinceridade. Aquele, definitivamente não era seu melhor dia. E agora, pensando bem, quanto tempo se passou desde que estavam naquele lugar? Talvez um, dois, três dias, ou talvez minutos apenas.
O Digimundo continuava sendo um grande mistério para a Luz. Já o visitara tantas e tantas vezes, mas... O lugar ainda era como uma grande bola de neve. Quando uma coisa é descoberta, outras dúvidas aparecem. É sempre assim. Sempre foi assim.
Após poucos segundos de indagação, voltou a pensar em seus problemas. Talvez fosse um pouco de infantilidade; colocar-se à frente dos problemas mais graves que estavam enfrentando. Mas toda vez que olhava para um casal de loiros, sentados bem à sua frente, conseguia pensar em mais nada. Nada.
Sentia-se mal por enganar Daisuke; sentia-se mal por enganar Takeru; sentia-se mal por enganar a si mesma.
Talvez decepções amorosas fossem algo que, de algum modo, perseguissem os Yagami. Taichi tentou parecer forte, — era o dono do Brasão da Coragem, afinal — mas ficou destruído quando Yamato e Sora começaram a namorar no início de 2003.
Entretanto, era totalmente diferente agora. Não sofria por ver Takeru nos braços de outra. Sofria por se afastar de seu melhor amigo, justamente por ter se jogado nos braços de alguém.
Era inegável: amava-os. Os dois. Daisuke era como um irmão; uma versão mais nova e energética de seu onii-chan. E Takeru era o dono de seu coração.
Mas agora, o estava perdendo.
E sem a Esperança, não há Luz para iluminar o mundo.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Iori-kun levantou-se bruscamente e gritou algo como: “Quem está aí?”.
***
E o Destino avançava rapidamente contra a escuridão do castelo.
Não saberia dizer por quando tempo estava correndo; imaginava que por muito, porém. A imagem daquele monstro logo à sua frente o apavorou completamente.
Wallace percebera que não estava pronto para uma Aventura Digital. Não agora. Não como pensara estar.
Prosseguia por cada centímetro dos extensos corredores com passos largos e rápidos, para, assim, não ser pego novamente. Sentia-se mal por fugir e deixar Gennai para trás. Ele poderia estar morto agora, e cabia ao loiro salvar os outros Escolhidos. Tanta responsabilidade...
Virou em uma passagem mais estreita e escura, por concluir ser um bom local para fugir de tão grande besta.
E pensou estar alucinando quando ouviu uma voz estranhamente familiar.
***
– Quem está aí? – o parceiro de Armadimon foi o primeiro a notar um barulho estranho vindo da parte de fora da prisão em que estavam. – Apareça!
Do meio da escuridão, brotavam fios dourados, — mais claros que os de Takeru e Yamato — que foram se aproximando cada vez mais, até revelar a silhueta de um menino de mais ou menos quatorze anos.
Miyako não conteve um berro de felicidade ao ver o garoto. O mesmo garoto de dois anos atrás. Wallace não mudara nada desde que o vira pela última vez, mas, neste momento, ela não estava preocupada com sua aparência.
– W-Wallace?! – perguntou, entusiasmada. A presença de dois Digimons envolvidos pela jaqueta verde usada pelo garoto a animava ainda mais. – Eu não acredito! Vai nos tirar daqui, não é...?!
– E-eu... – não imaginava que eram tantos assim. Deviam ter uns dez, onze, no mínimo, escolhidos naquela fria e escura sala. Pela pequena janela por onde conversava com a garota de cabelos lilás, observou pela primeira vez o time que fazia parte. É. Time! Eram os salvadores do mundo, os Escolhidos! – Pretendo.
– Como podemos confiar que você está aqui para nos salvar? – Yamato encarou os olhos azuis com frieza. – Para começar, é bem suspeito que você apareça logo aqui, agora, dizendo que irá nos ajudar.
– Gennai...! – instantaneamente deu ao loiro mais velho uma resposta, recebendo vários olhares curiosos através da janelinha. – E-ele me guiou até aqui. Está no castelo também! Mas uma ave enorme, de metal, chegou e...
– Crossmon...
– Vocês já o encontraram, então, é... – não conhecia quase nenhuma daquelas pessoas. Vacilou ao pensar se deveria, ou não, começar com uma apresentação. Provavelmente não. Não naquela situação.
– Sim. Ele nos trouxe para cá – o líder mais velho respondeu, olhando para baixo, como se estivesse pensando em algo. Ou talvez estivesse apenas preocupado.
Silêncio. E, desta vez, um silêncio perturbador.
– Vai nos tirar daqui, ou não? – inocentemente, a Tachikawa desviou seu olhar para Wallace, que assentiu praticamente no mesmo segundo.
– Seria perigoso quebrar essa parede toda. O teto pode desmoronar em nossas cabeças – alguns instantes depois, Koushiro deu as coordenadas exatas para que o coelho-digital branco os libertasse, causando nenhum dano desnecessário.
Segurou seu Digivice com força, até que o mesmo começou a liberar uma forte luz;
Terriermon shinka... Galgomon!
– Gatling Arm!
E um buraco fora aberto bem no centro da espessa parede de pedra.
Estavam... Livres!
***
Lilithmon não conseguia acreditar que foram tão idiotas a ponto de fugir.
Aquele era seu território. Território da impiedosa rainha das Trevas.
Como ousaram desafiar seus poderes? Como ousaram andar por seu castelo? Como ousaram pensar que sairiam impunes se conseguissem escapar...?
Havia chegado a hora dos Escolhidos conhecerem o verdadeiro poder das Trevas. A hora de saberem como é o verdadeiro inferno. E quem melhor para guiá-los que um verdadeiro demônio?
(...)
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