O HALL ESTAVA VAZIO, cacos de vidro e alguns cartuchos de munição jaziam por todo o lado, indicando a qualquer leigo que houvera violência não fazia muito tempo.

— Vamos entrar! — disse o primeiro homem, num terno de corte moderno e tom escuro, era o capitão do distrito. Tinha não mais do que um metro e oitenta, um corpo robusto e 52 anos. Ele espiou o corredor largo e fantasmagoricamente branco, com a arma em punho, preparada, e hesitou. A luz fluorescente piscava logo adiante, bem sobre parte do corpo de uma mulher. — Um civil no chão! — Ergueu a mão e murmurou para o policial atrás dele, que de imediato repassou a informação pelo walkie-talkie. Fez sinal para que dois homens o seguissem e o restante aguardasse segunda ordem. Caminharam lentos até a nova intersecção de corredores, as armas ainda empunhadas, aguçadas, e o capitão se abaixou, apoiando um dos joelhos no chão perto da mulher. Fitou-a, sem se expor ao corredor adiante: ela estava de bruços, os dois braços para cima, deveria ter se arrastado até ali, e viu sangue, muito sangue no ombro direito. Levou lentamente sua mão ao pulso dela, na intenção de sentir os batimentos cardíacos, sem muita esperança. Nada sentiu. — Vamos entrar! — murmurou novamente, e quando apoiou a mão no chão para poder espiar para dentro do corredor, sentiu sua mão ser tocada com suavidade. Dedos gelados envolveram-na e fizeram com que seus olhos pousassem em castanhos, quase chocolate, piscando vagarosamente, tristes e marejados.

A mulher estava viva ainda, pálida o bastante para parecer uma assombração, mas ela conseguiu levar o dedo sobre os lábios e pedir por silêncio. Depois, mostrou um dedo e soprou palavras numa lentidão agonizante:

— Um... homem... atrás... mim.

O capitão assentiu com a cabeça e antes que ele pudesse agir, ela continuou:

— Mais... — e mostrou quatro dedos agora — debaixo... clarab...

O capitão franziu a testa sem entender.

— Clarab...

Tentou lembrar-se de palavras com aquelas sílabas, mas tudo o que lhe vinha à mente era que precisava entrar no saguão do hotel e render os desgraçados que haviam atingido um segurança na perna. A mulher pareceu engasgar, e sangue correu pelo canto de sua boca. Era preciso ser rápido, o mais rápido possível.

— Clarabóia — ela finalmente disse, fazendo o capitão sorrir e repetir o que ela havia dito.

— Mais quatro homens debaixo da clarabóia. Certo!

Ela assentiu com um piscar de olhos e mais sangue correu-lhe pela boca.

— Cria... anças... — e abriu a mão — sob o... balcão... — ela respirou profundamente e fechou os olhos.

O capitão se voltou para seus homens e pediu que avisassem aos atiradores. Fitou por mais alguns instantes o rosto da mulher e esperou que o comando desse a ordem para entrarem, todos juntos, no local, o que não demorou um piscar de olhos. Foi um rápido assalto. O capitão e seus homens renderam dois homens logo na entrada, enquanto os atiradores desarmaram o resto dos bandidos no saguão, sem sequer se ouvir um tiro. O efeito surpresa tinha sido realmente uma grande vantagem para aqueles desgraçados.

O local foi evacuado e os feridos, dois outros seguranças, tratados pelos paramédicos no local. O capitão ainda pôde ver, antes de entrar em sua viatura, os paramédicos carregarem a mulher ferida gravemente para dentro da ambulância e acondicionarem-na, depois de lhe darem o socorro necessário.

— Foi uma boa dica — disse Catherine para Brass, já na sala de interrogações do departamento.

— Foi, foi mesmo. Não tivemos baixas e pegamos todos eles — disse Brass apontando com a cabeça para a sala adiante. — Resta descobrir o que queriam de tão valioso no saguão daquele hotel. Pronta? — perguntou quando viu um homem baixo e obeso sentar-se à frente deles. Era o dono do hotel.

Catherine sentou e Brass esperou que o homem também o fizesse, para somente então dar início às perguntas. Queriam saber dele o que havia de importante para que seis homens perigosamente armados entrassem num hotel de segunda categoria. O interrogatório se estendeu tarde adentro, com poucas palavras do dono, porque seu advogado não o deixava respirar. Mas finalmente cansado e a contragosto do advogado, o homem desabafou: tinha conseguido comprar um Picasso original.

— O senhor não sabe o quão difícil, para não dizer impossível, é conseguir um quadro desses? — Brass foi irônico a ponto de fazer o advogado pigarrear e Catherine rir baixo.

— Claro que sei, mas acontece...

— E não se importando com a procedência dele, foi logo comprando — interrompeu Brass.

— Sim — murmurou o homem.

— É melhor o senhor tomar um café, vai demorar a voltar a ver o saguão do seu hotel — Brass disse ao se levantar e saiu da sala com o celular em mãos. — Preciso saber que é o dono do Picasso — continuou ele ao telefone.

— Vou ver por quem ele passou — falou Catherine indicando o laboratório, onde o quadro já tinha sido posto e estava sendo examinado para ver se continha impressões digitais.

— Quero ver a lista de hospedagem do hotel. Talvez outro ladrão tenha se hospedado com o quadro e pode ter sido roubado dele também.

— Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão — Gil Grissom disse sorrindo ao parar em frente aos dois. Brass riu e saiu.

Na manhã do dia seguinte, antes de ir para o departamento, o capitão Brass fez uma breve parada na ala leste do University Medical Center, quarto 503. Uma enfermeira pediu que ele fosse breve, a paciente não deveria se esforçar: Ainda não é hora de interrogá-la, foi o que ela murmurou ao dar as costas Brass, que assentiu, dizendo somente querer vê-la. Entrou no quarto, aproximando-se da cama em silêncio, fitando-a compenetrado. Era uma jovem mulher; o rosto rosado mostrava que a cirurgia tinha sido um sucesso. Instintivamente colocou sua mão sobre a dela, tentando confortá-la por tudo o que passara, naquele momento ela abriu os olhos, que se encontraram com os de Brass. Ela sorriu um breve sorriso e o maxilar de Brass respondeu comprimindo-se, seguido de um sorriso.

— Obrigado — disse Brass, afastando sua mão da dela.

— Sou eu quem deve agradecer — ela piscou tão lentamente quanto falava.

— Não se esforce, por favor — ele pediu, olhando para a porta. — É melhor descansar.

— O senhor é um anjo — murmurou sorrindo.

— Ora, o que é isso... não sou nada. Cumpri apenas com meu dever... e graças a você.

Ela sorriu e a enfermeira apareceu na porta com uma cara zangada. A jovem mulher no leito adormeceu e o capitão deixou o quarto de hospital, aliviado, certamente era uma grande dádiva salvar uma vida entre tantas que se perdiam todos os dias.