Diga-me O Seu Desejo
1 Diga-me o seu desejo. (Capitulo Único)
O céu noturno era para ela seu maior aliado. A penumbra a mantinha discreta, possibilitando satisfazer suas ambições curiosas. Ela o visitava todas as noites. Silenciosa e encantada o observava. Não poderia tê-lo. Não poderia mais. E como ela sentia. Todos os dias que ali estivera ao seu lado sem dizer-lhe o que deveria ter dito.
Recordava das manhãs no campo, de correr com a irmã adorada. A guerreira exuberante e justa a quem tanto admirou e agora repugnava. Seria assim para a eternidade? Ela desejava poder voltar. No fundo nunca quisera sair, mas as consequências chegam para os imprudentes e ela havia buscado seu inferno particular.
Agora ela estava sozinha. Uma alma afogada em grilhões.
“Diga-me o seu desejo!”
A voz suave ecoava em sua mente todo o tempo. A mansidão que a tomou pela inocência e a amaldiçoou em uma prisão de abandono. Fora exilada.
Ouvia a voz de Kayle. Outra noite que assistia a irmã sorrindo ao lado de seu amado. Ela sempre fora um desastre em tudo. Até mesmo em se apaixonar. Estava conformada, mas ainda assim não conseguia esquecer o toque das mãos, o sabor do beijo. O único que provara e que ainda desejava com toda a força de sua essência feminina. Ele se quer sabia o quanto era amado por aquela que lhe ensinou a odiar.
“Eu quero poder sentir.”
Aquele havia sido o pedido mais incomum que Aizen já ouvira. O mago esperava algo menos egoísta ou destrutivo vindo de um anjo. Mas pedir a capacidade de sentir era o apelo mais desesperado que alguém poderia fazer. Ela não pedia emoções. Isso eles conheciam bem. Ela pedia um coração.
“Coisas terríveis acontecem a quem pode sentir, pequena Morgana. Não acho prudente lhe conceder tal desejo.”
“Mestre Aizen, eu já sinto, mas não sei o que sinto.”
Ele sabia. Morgana não era como os outros anjos. Havia nascido com uma peculiaridade encantadora e pavorosa em mesmo grau. Era curiosa e inocente como um pequeno Yordle, destemida e mortal como um dragão. Ela desejava o poder. Queria ser notada, admirada, cobiçada. Nunca se adaptou naquele meio. Odiava seguir ordens. Odiava sentir-se acorrentada. Um anjo com as asas podadas.
E era exatamente assim que se encontrava. Sentia falta de voar. A crueldade de Kayle ao bani-la a atormentava diariamente. Quem mais poderia saber que tudo o que mais temia era não poder voar?
Novamente roubada pelas memórias, viu a lamina da espada de fogo queimando suas asas, rasgando a pele. O urro de dor que quebrou o silêncio dos olhos acusadores. A gargalhada debochada que sua própria irmã, agora sorrindo satisfeita, expelia deserdando-a.
“E o que fará quando souber?”
Aizen a submetia um teste. Ela era a mais bela pureza em uma forma devastadora. O elo quebrável entre a tão perfeita e inabalável casta arcaica dos anjos.
“Acho que irei entender a que lugar eu pertenço. Sinto que não é aqui.”
E com isso o mago entregou-lhe uma chama violeta. A chama que poderia transformar a mais pura luz em trevas, o mais belo amor em ódio. Um coração apaixonado em uma caixa de gelo.
Morgana invejara ainda mais fortemente o amor que Kayle recebia de Lucius e desprezava. Era invisível, enquanto sua irmã tinha a tudo e a todos. Enquanto Kayle tinha a única coisa a qual ela já havia querido em toda sua existência.
A moça ignorou todos os avisos que recebera, pois a magia que lhe fora oferecida também possuía regras. Sabia que quebra-las traria grandes consequências, mas acreditou que qualquer consequência valia a pena se o pudesse ter por uma única noite.
Esperou o momento descontraído no salão e então envenenou a bebida de sua irmã. As ervas que usara não eram ofensivas para causar sua morte, mas a manteria fora de seu caminho pelo tempo que precisava.
Para Lucius, Morgana havia preparado uma armadilha maior. Uma poção com propriedades afrodisíacas. Carregava em sua tiara um amuleto que a faria obter a forma de Kayle para impressioná-lo. E foi assim que conseguiu se aproximar do coração que cobiçara.
Deitados na grama sob a luz prateada da lua, Morgana enlaçara seu anjo em uma ligação das trevas. O corpo exuberante e curvilíneo que tinha o fizera perder a cabeça, entregando-se a um delírio de prazer que ambos jamais imaginaram existir. Ela sentia cada toque, ali e para sempre, sabendo que quando acordasse ele se quer saberia que estivera com ela, e então seria o fim. Mas ela saberia.
“Diga-me Morg, como é poder sentir?”
Aizen questionava.
Agora tudo o que via no reflexo da janela era o fantasma de quem um dia havia sido. Coisas terríveis aconteciam com quem podia sentir, era verdade, mas para ela, sentir foi o melhor que lhe aconteceu em milhares de anos. Agora ela andava com a escuridão em caminhos incertos, sentindo que morria a cada passo. Poder sentir era tudo o que a fazia permanecer ali observando Lucius noite após noite na esperança de um dia vê-lo sentir por ela o ódio transformado em amor.
“Dói. Machuca. Corrói... Mas é a única coisa que eu sei.” Respondeu, entrando floresta a dentro, pois o sol começara a nascer.
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