Diga Adeus à Inocência
36 4.
Abaixo a mão e espero ele seguir seu caminho, ao contrário do esperado, ele começa a atravessar a rua em minha direção. Meu coração dispara e tenho que me apoiar mais no poste para não cair pela moleza nas pernas. O que?! Volte para lá, Malic, volte já!
– Matt. – chamo-o – Socorro.
Ele desliga o celular e olha para trás.
– Quem chamou ele aqui? – questiona ficando ao meu lado.
– Ninguém.
Antes que ele possa responder, Malic já está aqui. Helen vem logo em seguida.
– Como você está, querida? – ela me puxa para um abraço. Não tenho reação e não sou nem capaz de abraçá-la de volta.
– Estou bem. – murmuro. Bem, quando acho que estou me recuperando, o vírus aparece de novo – E vocês?
– Estamos ótimos! – ela exclama me afastando e se aproximando de Malic – Já conhece o Cesar?
– Cesar. – testo o nome – Forte. Quem escolheu?
– É uma homenagem para o avô do Malic. – ela sorri – Não foi, amor?
Posso vomitar agora? Bem em cima dela?
– Gostaria de colocar Heitor, mas ela insistiu em Cesar. – ele fala finalmente.
– Os dois são bonitos. – sorrio, ou pelo menos tento.
– Quem diria – Matthew passa o braço por meus ombros –, o grande Malic preso a uma família? Nossa, é algo sobrenatural. Por isso que falam: “ um dia somos o caçador e no outro a caça”.
Mordo a lateral do meu lábio inferior e desvio o olhar.
– Ele irá criar jeito agora. – Helen garante.
Assim espero.
– Temos que ir. – coloco um ponto final na conversa, interrompendo qualquer assunto que poderia ter surgido em seguida.
– Para onde vão? – ela questiona, um tanto curiosa.
– Para o motel. – Matthew responde com um sorriso de lado.
Engasgo com minha própria saliva e me desvencilho de seu braço.
– Para o parque. – o corrijo em meio a tosse- Apenas para o parque.
– Que ótimo. – ela sorri – Também estamos indo para lá.
– Então vamos juntos. – Matt sugere.
Ele está ficando demente?!
Helen ajeita o carrinho e pega Cesar do colo de Malic, o depositando com todo o cuidado no interior do carrinho e o aconchegando com uma manta verde, entrega a bolsa branca e azul para Malic e segue na direção do parque. Matthew fica ao seu lado e os dois parecem estar em uma boa conversa, não faço questão de saber sobre o que, ficando para trás.
– Trilhas fajutas. – Malic comenta ao meu lado.
– Pensei a mesma coisa. – sorrio.
Abaixo o olhar para os meus pés e suspiro. Não sei mais como puxar assunto com ele.
– Por que vai mudar? – ele coloca as mãos no bolso.
– Villa Lobos está me sufocando. – encaro-o rapidamente – Sabe, já estourei minha cota desse lugar, principalmente depois de tudo o que aconteceu.
– Que pena.
– Por que?
– Porque aqui é uma boa cidade, ela só tinha um morador ruim que acabou criando um estereótipo.
– De qualquer forma, já tenho a transferência em mãos. – dou de ombros – Não dá pra desistir.
– Você não quer desistir. – ele me corrige – É diferente.
Não é bem assim, o negócio é bem mais embaixo. Essa cidade tem mais problema que seus moradores e não estou afim de fazer parte do grupo.
– Não há motivos que me prendam aqui. – falo, indiferente – Não vejo motivo para ficar aqui.
O resto da caminhada foi silenciosa e até perturbadora, Helen olhava para trás a cada minuto, como se quisesse certificar que Malic estava ali – até parece que eu iria sequestrá-lo se ela se descuidasse de não olhar para trás. Matthew mal se importou, havia um brilho em seus olhos; sádico e realizador, havia algo diferente nele.
Vamos direto para a parte reservada para lanches no parque e não demoramos para encontrar o pessoal. A mesa estava feita com alguns pães, frios, refrigerante, frutas, umas garrafas de vinho, revistas e salgadinhos.
– Não dava para demorar mais? – Coraline resmunga.
– Encontramos amigos no caminho. – Matthew senta ao lado dela.
Todos param de conversar para nos encarar. Limpo a garganta.
– Essa é a Helen, noiva do Malic. – apresento-a.
– E mãe do filho dele. – ela complementa. Reviro os olhos.
Ela tem tanto orgulho de ter tido um filho do Malic, até parece que era algo que almejada desde criança, chega até a esquecer o quão ridículo isso é pelo fato dela ter tido um filho dele na flor da idade.
Ninguém a encara, todos mantêm olhares entre Malic, eu e Cesar.
– Tem comida pra todo mundo. – Monique quebra o silêncio – Abre alas pessoal.
Sento ao lado de Juliana e Malic ao meu lado, fazendo Helen sentar de frente para ele. Mordo minhas bochechas e respiro fundo. Ótimo.
Aos poucos a conversa é retomada e a comida é servida.
– Passa o pão! – Monique grita para Michaela.
– Ainda não terminei meu lanche. – ela responde, apressada – Juliana, pega o presunto.
– Onde está a coca? – Matthew levanta e olha a mesa, a procura da garrafa.
– Aqui. – entrego a garrafa a ele e pego uma fatia de queijo.
Malic levanta para entregar o guardanapo para Helen e raspa a coxa em meu quadril. Paraliso e sinto meu pescoço engrossa. O que ele pensa que está fazendo?
Sento novamente, de forma lenta, ainda processando o que ele acabou de fazer. Ele senta logo em seguida e se aproxima.
– Desculpa. – sussurra em meu ouvido.
Um arrepio frio percorre minha espinha até o dedão do pé. Engulo seco e abaixo o olhar para minhas mãos, posso sentir seu sorriso.
– Vocês viram a palestra que vai ter lá na facul? – Juliana pergunta e parece que a pergunta foi direcionada a qualquer um que a escutasse.
– Não. – afasto-me de Malic e fico mais perto dela – Sobre o que?
– Não sei. – ela ri – Por isso estou perguntando.
Solto o ar dissonante.
– Matthew, enche para mim. – entrego meu copo para ele.
– Coca? – ele pega a garrafa.
– Por favor.
Pego o copo de volta quase até a boca e dou um gole. Juliana volta a falar sobre a palestra com o Matthew e eu tento prestar a atenção quando algo quente envolve meu joelho. Olho para baixo e me deparo com a mão de Malic. Engasgo e acabo tossindo no copo. Todos param para me encarar.
Tento buscar fôlego, mas acabo tossindo novamente.
– Gente, a menina vai morrer. – Amiony diz – Acode ela aí.
– Ela engasgou. – Juliana bate nas minhas costas.
Malic ri contidamente.
– Meu Deus. – digo entre uma tosse e outra – Não consigo respirar.
– Aqui. – Malic pega um pratinho de plástico e começa a me abanar, o que acaba melhorando a minha situação.
Cesar começa a chorar.
– Licença. – Helen levanta e estreita os olhos para mim, me fuzilando.
Puxo o ar com força e suprimo a tosse.
– O que você estava dizendo? – Monique encara Rafael e todos retomam seus assuntos.
A mão de Malic ainda está em meu joelho. Agarro seu pulso e o empurro para o lado.
– O que pensa que está fazendo? – sussurro, entre dentes.
– Não estou fazendo nada. – ele sussurra de volta.
– Não tem vergonha na cara? – estreito os olhos – Sua mulher está aqui.
– Ela não é minha mulher e outra, por que a presença dela impediria?
Fecho os olhos por um momento. Então ele está me desafiando a chegar no meu limite? Acha mesmo que não posso resistir? Rá, também seu brincar de provocar.
– Hm. – ergo uma sobrancelha.
– Malic. – Rafael o chama – Você joga basquete lá na facul, né?
– Sim.
– Quanto foi o jogo semana passada? – ele pergunta.
Jogo? Desde quando há jogos competitivos lá?
– Não joguei semana passada. – Malic responde e esbarra o braço no meu.
Sorrio contidamente. Que os jogos comecem, meu bem.
– Quando vamos abrir o vinho? – Juliana corta o assunto do jogo.
– Pode ser agora. – Rafael puxa a garrafa do balde de gelo.
Amiony distribui algumas taças de plástico e reserva uma para Helen.
– A nossa revista e sucesso. – Rafael anuncia e empurra a rolha da garrafa, o barulho faz todos comemoram e erguerem as taças.
Helen volta com Cesar e o coloca no carrinho.
– O que eu perdi? – questiona para Malic.
– Nada. – ele dá de ombros.
Três taças: a quantidade suficiente para me deixar alegre e despreocupada. Rio de idiotices e até do nada, a conversa ficou mais animada e alta, há mais risos que palavras e na maioria das vezes nem sei do que estou rindo.
– Aí você lembra – Monique tenta continuar sua história, mas sempre acaba rindo.
– Lembro. – Coraline confirma rindo.
Acabo rindo da risada delas.
– Coloca uma música aí! – Michaela pede a Matthew.
– Opa! – ele levanta e caminha até o rádio.
– Tenho cerveja! – Amiony abre uma caixa de isopor.
– Meu Deus. – Monique só falta pular lá dentro – Quero uma bem gelada!
– Malic. – Helen o chama – Precisamos ir embora, essa falação vai fazer mal para o Cesar.
– É, Malic, você precisa ir embora. – falo e mordo a boca de minha taça, erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
Ele estreita os olhos instantaneamente.
– Não podemos ficar mais um pouco? – pede.
– Tudo bem. – ela sorri.
Pego minha taça novamente e dou o último gole, completando minha quarta taça. Malic bate o braço em meu cotovelo e me faz derrubar vinho na calça.
– Ê cacete. – sussurro esfregando o tecido – Vai manchar.
Ele parece nem notar.
Levanto e pulo sua perna, ficando no meio delas, quando vou pular a segunda, esbarro o quadril em seu ombro propositalmente.
– Desculpa. – encaro-o por cima do ombro e sorrio – Ui. – tropeço em meus pés e cambaleio.
– Onde você vai? – Matthew pergunta – Precisa de ajuda?
– Não. – ergo a mão – Estou ótima, só vou ao banheiro.
O banheiro é logo na frente da área para o churrasco ou piquenique, só é necessário seguir uma trilha de pedrinhas e subir umas escadas. Tento ir o mais rápido possível para evitar que a mancha seque e fique permanente em minha calça. Entro no banheiro me jogando contra a porta e debruço na pia.
Hm... como vou limpar? Acho que vou enfiar embaixo da água mesmo. Retiro minha calça e aperto o registro da torneira, molhando o local da mancha e esfregando. Adiciono um pouco de sabão líquido e esfrego mais forte.
– Merda. – sussurro quando reparo que meu esforço foi em vão. Minha vó vai me matar quando descobrir que manchei minha calça com vinho, não por ser vinho, mas por eu ter manchado.
Passo a mão no cabelo e respiro fundo. Vou continuar tentando, sei que ela não vai sair por inteiro, no entanto posso tentar diminuir sua coloração ou tamanho. Suspiro. O tecido vai acabar rasgando ou desgastando o jeans. Pego a calça novamente e espano; a mancha continua aqui e parece maior por causa do tecido molhado.
A porta abre e uma senhora entra, observa minha calça e depois passa os olhos em mim.
– Vomitou?
– O que? – rio – Não.
– O que aconteceu? – ela questiona – Precisa que eu ligue para alguém?
– Derrubei vinho, só isso. – sorrio – Não preciso que ligue pra ninguém.
Ela não diz nada, apenas entra na cabine do toalet. Volto a analisar minha calça e a mancha e tento achar uma solução para o meu pequeno problema. Se eu demorar muito para voltar, vão achar que eu morri.
Quando me conformo com a mancha, a porta é aberta novamente. Começo a vestir a calça e olho por impulso para o lado.
– Meu Deus do céu. – ofego ao notar que é Malic – O que você está fazendo aqui?
– Vim fumar um cigarro e passei na porta do banheiro. – ele dá de ombros – Resolvi entrar para ver como você estava.
– A Helen vai desconfiar! As pessoas vão desconfiar! Não quero me passar como a piranha da vez. – tento puxar minha calça pelas coxas, mas ela está travada – Porra, Malic, tínhamos um trato.
– Não posso cumprir esse trato, não consigo. – ele se aproxima.
– Não! – repreendo-o – Fique aí onde está.
– Bianca...
– É sério. – insisto – Por que você não pode tentar gostar da Helen? Hein?
– É simples. – ele se aproxima mais uma vez – Ela não é você.
Agora, ele está a centímetros de mim. Posso sentir sua respiração, seu cheiro e gostaria tanto de poder tocá-lo.
– Isso é errado. – digo tanto para ele quanto para a minha vontade de tocá-lo – Não podemos fazer isso.
– Por que não? – ele estica a mão e roça as pontas dos dedos em minha coxa – Não estou casado, não considero Helen como nada minha e nem acho que temos uma relação.
– Malic. – advirto-o.
– Toda vez que toco nela, imagino que estou tocando você e sabe como isso é torturante?
Recuo e bato na pia.
Se eu sei? Acredito que sei mais que ele como isso é horrível.
Ficamos em silêncio e ele se aproxima mais uma vez, não digo nenhuma objeção contra a sua aproximação. Na verdade, não me importo se ele já está casado ou solteiro, se tem um filho ou três, se é rico ou pobre, se é drogado ou limpo, se é bêbado ou sóbrio, se tem fixa limpa ou suja. A única coisa importante é: eu quero ele, sempre.
Suas mãos agarram minha cintura e me erguem, suas mãos ágeis arrancam minha calça e a jogam no chão. Me ajeito na pia e enlaço suas pernas com as minhas, mas ele não me beija. Continuamos nos encarando, ofegantes e eufóricos, mais de mil hipóteses de ser pega com ele passam pela minha cabeça como bombas. Seus lábios estão entreabertos e suas mãos raspam em minhas coxas novamente. Prendo minha respiração.
Passo minha mão por seu braço e subo até seu pescoço, acaricio seu rosto e depois subo para seus cabelos.
– Você ainda está longe de mim. – sussurro.
Ele sorri de lado.
– Quer que eu fique mais perto? – ele passa a mão para minhas costas e me puxa para mais perto.
– Continua longe. – sussurro ficando ereta.
Ele espalma minhas costas e me aproxima, tocando nos corpos. Mordo o lábio inferior em puro prazer de tê-lo próximo de meu corpo e o encaro de baixo para cima.
– Eu posso acabar com você. – ele inclina o corpo e beija meu pescoço.
Arfo.
– Está esperando o que?
Antes que ele possa, finalmente, me beijar, a senhora abre a porta do toalet assustada e nos encara. Abaixo o rosto e seguro o riso. Ai que vergonha. Ela sai rapidamente, sem dizer nada.
– Acho que ela estragou meu clima. – ele sorri.
Sorrio.
– Que pena. – finjo um lamento.
Ele aproxima o rosto do meu, aproximo mais meu corpo do dele e encosto, timidamente, meus lábios contra os seus. Sua mão sobe para minha nuca e segura meus cabelos, controlando meus movimentos, passo os dedos pelo cós de sua calça e o puxo. Ele suspira em meus lábios e isso me faz ter um arrepio, que passa por todo o meu corpo e faz o meu couro cabeludo formigar.
Finco os dedos em seu cabelo e passo a outra mão por debaixo de sua camisa, arranhando suas costas.
– Bianca. – ele me adverte, afastando-se.
– Eu quero você. – falo e mordo seu lábio inferior.
Um sorriso lascivo se forma em seus lábios.
– Eu comeria você agora, em cima dessa pia mesmo. – ele aperta minha coxa.
– E por que não faz jus as suas palavras? – provoco.
– Porque tem pessoas nos esperando lá fora.
Puta merda, tinha esquecido deles.
Malic se afasta de mim e me ajuda a descer, pego minha calça do chão e o encaro.
– Preciso de ajudar para colocá-la. – sorrio.
Ele se aproxima vagarosamente e agacha à minha frente, passa a calça por meus pés e sobe vagarosamente. Quando chega na altura de minhas coxas, deposita um beijo no interior delas e termina de subir a peça de roupa, ficando de frente comigo novamente. Dou um rápido selinho em seus lábios vermelhos e inchados. Me afasto e abotoou a calça.
– Vamos. – chamo-o após certificar que não há ninguém do lado de fora.
– Vou ascender meu cigarro. – ele pega o maço.
Arrumo meu cabelo e minha blusa.
– Ainda não acabei com você. – ele sussurra em meu ouvido. Sorrio.
– Se você conseguir, não irei perder por esperar. – sussurro de volta.
– Isso é um desafio? – ele ergue uma sobrancelha.
– Se você interpretou assim. – dou de ombros.
Ele para e traga o cigarro.
– Estarei te esperando no caminho para a cachoeira da ponte depois que você fizer o social com eles.
Rio debochada.
– Acha mesmo que irei te encontrar? Por favor, menos.
– Tenho certeza. – ele me encara, desafiando.
Continuo andando.
– Estarei te esperando. – ele avisa.
– Pode esperar sentado. – encaro-o por cima dos ombros.
– Só se você estiver por cima.

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