Diga Adeus à Inocência
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Notas iniciais
“ Você quer saber como vim parar aqui? Simples, fui inocente demais em acreditar em todas as pessoas, em acreditar em palavras, acreditar em sentimentos. Eu sorria para a vida e esperava, de todo o coração, que ela sorrisse de volta, mas ela não fez isso.
Cheguei à conclusão que ninguém no mundo é bom, apenas conveniente. Você servirá para aquela determinada pessoa até o necessário e depois não existirá mais. Sei que para muitas pessoas o que aconteceu comigo foi o esperado e elas gostaram disso, por que só aquelas moças morreram e eu, a grande vilã, fiquei impune? Por que eu não deveria sofrer também? Pagar pelo o que provoquei. Foi a realização de um desejo sádico. Para elas, acabou.
O engano é a cegueira humana. Acham mesmo que acabou? Por que acabaria? Tudo o que ele queria era isso. Ele conseguiu, ah, com certeza. Tudo isso faz parte do jogo dele, somos peças programadas para temê-lo e se submeter as suas regras. É como um Deus, decidindo quem morre e quem fica para continuar a história – fui uma escolhida. E quer saber mais? Isso nunca acabará, porque nunca perdemos em nosso próprio jogo.
Sou uma maldição, não Bianca. Sou aquela maldita Helena, desgraçada. Uma vez falaram que éramos pessoas diferentes com destinos diferentes... ISSO PARECE DIFERENTE PARA VOCÊ?! Hein?! Parece que tivemos destinos diferentes?! A única coisa é que aquela vadia conseguiu morrer enquanto eu estou fadada a viver com isso. Por que ele não me matou?! Sabe por que?! Eu seria o final de sua maldição e com a minha morte não haveria história para contar. Sou apenas a extensão de seu jogo.
Perdi as contas de quantas vezes já tentei me matar; com um caco do espelho, remédios, queda da escada, tentei me tacar da janela do meu quarto, me joguei na frente de um carro, com uma tesoura, corte nos pulsos. Tudo parece conspirar para me deixar nesse inferno. Os únicos momentos em que tenho uma vida de verdade é quando fecho os olhos para dormir e relaxo – estou vivendo -, logo morro. Meu sonho nem tem chance de crescer e então já estou no porão de novo, vendo minha vó e ele. Minha memória é apenas uma reprise de uma vida morta.
Isso é torturante para a minha mãe. Que culpa ela tem? Só quer me ajudar a melhorar e voltar a ser a filha dela. Infelizmente, a filha dela não existe mais. Foi morta naquela noite e condenada a vagar pela vida agora. Já tentei levantar da cama e enfrentar, parar de ser covarde e quer saber? É muito difícil levantar depois de uma queda dessa, talvez, impossível.
Meu pai mudou de casa depois que tentei matá-lo. Todos são suspeitos agora; o policial, o estranho da rua, os caras que chamava de ‘amigos’, meu pai, primos, parentes. Todos podem ser ele na minha cabeça, sem exceções. Talvez tenha sido ótimo para o meu pai mudar, de certa forma, ele nunca foi muito chegado comigo. Não sei. Era eu e ele, não nós. Não sinto falta dele, nem um pingo – não sei se me sinto culpada por isso ou não sinto nada.
O bebê? Nunca existiu bebê para mim. Logo depois da confirmação da gravidez fiz aborto. Não daria a chance para aquele monstro se desenvolver em mim, claro que não. Se eu pudesse, teria matado com minhas próprias mãos, mas ele ainda não era nada. Como se mata o nada?
Por que fui internada? Porque minha mãe achou que eu me mataria se não tivesse cuidados médicos rigorosos. Tinha que ser vigiada. Medicada. Enlouquecida. Não culpo minha mãe por ter me jogado aqui, deve ser difícil para ela ver a filha definhar. Talvez, bem no fundo, ela também queria que eu morra. Acabe com tudo isso.
Ainda quero morrer, lógico. Mas como se mata o nada?
Meu namorado? Namorado? Eu achei que tivesse tido um namorado, mas era só mais um louco. Todos são loucos naquela cidade. Meu pai informou que ele pegou o carro e nem se dignou a perguntar como eu estava. Não sei quando voltou, nada. Já não nos falávamos mais, então tanto faz. Me arrependo de não ter matado a mulher dele. E meus amigos? Ah, amigos... Ninguém veio me visitar aqui até agora.
Conveniência....
Minha vó. Nunca mais consegui comer carne depois do que aconteceu. Aquela mulher era fantástica, maravilhosa e olha o fim que teve. A tática é ser cruel na vida, os maus sempre se dão bem e os bons, se fodem. Sinto tanto pelo o que aconteceu com ela, gostaria de ter tido a chance de ajudá-la, de estar lá. Às vezes escuto sua voz em meus devaneios; doce e humorada. Ela gostava de sorrir, sim, amava. Mas é isso que acontece com as pessoas boas, elas morrem.
Várias pessoas procuraram a minha mãe para pedir a permissão de transformar a minha história em livro ou de noticiar. Entende a gravidade? Ninguém se preocupou com a verdadeira essência da história, com a crueldade estampada em cada detalhe. Agindo assim, transformamos o Lobo Mau em herói, ensinamos nossas crianças a achar graça na morte e no assassino. Não adianta orientar a não falar com estranhos; o estranho pode estar dentro da sua casa. Temos que mostrar do que pessoas reais são capazes de fazer e não as mascarar em personagens de ficção. Não acho que espalhar minha história no mundo irá mudar alguma coisa, muito menos conscientizar as pessoas e a segurança nacional.
A crueldade existe, não é algo inventado para colocar medo.
O Lobo não foi o assassino daquelas meninas, nós fomos, porque não acreditamos do que ele era capaz e assim, ignoramos. A mídia precisa mostrar a verdade, as pessoas precisam ver onde a capacidade doentia de outra pessoa pode chegar, nem que para isso percam a inocência entre a vida e a morte. ”
– Você é uma menina sincera. – Doutora Estela se ajeita na cadeira – Sabe que não terá alta se continuar tentando se matar, não sabe?
Reviro os olhos.
– A vida é minha, faço com ela o que eu quiser. – rebato, levantando.
– A questão não é essa, Bianca. – ela coloca o caderno de lado e levanta também, acionando as enfermeiras.
Ergo uma sobrancelha. Bianca?
– Prazer – estendo a mão em sua direção -, sou a Chapeuzinho Vermelho que não foi engolida.
Gentilmente, ela aperta a minha mão e não perde o contato visual.
– O Lobo Mau virá, Estela. – sorrio.
– Continue administrando as mesmas doses dos remédios e adicionem Clonazepam. – ela coordena para as enfermeiras.
– Mais remédios? – encaro-as – Quanto poder. Querem me deixar drogada o suficiente para ser incapaz de pensar? – rio – Claro, vocês não querem que eu pense. Ser esperto aqui é pedir para morrer. Quem sabe pensando eu descubra quem é o Lobo... Vocês estão o ajudando a se esconder, todos estão.
– Levem-na para o quarto. – Estela pede.
– Não estou com sono! – protesto – Cansei de me fazerem dormir. Não estou com sono!
Minha palavra não expressa mais minha vontade, sou levada para o quarto.
– Todos têm medo do lobo. – sussurro e abraço meu corpo – Escutaram isso?
Elas me ignoram.
– Os lobos irão uivar hoje. – rio – Essa é a ascensão dos assassinos.
Imito um uivo e rio.
– Escutaram? – encaro-as – São os lobos chegando para devorar suas carnes enquanto vocês gritam por piedade.
Mais uma vez, sou ignorada.
– Lobos não têm piedade. – sussurro – Somos ovelhas sem pastor para ele.
Dobramos o corredor. Paraliso.
Ele está de costas para mim, parece analisar algo que tem em mãos. Sua roupa preta parece manchada de sangue; de todas as vítimas, escorrendo pelo chão até alcançar meus pés. A máscara de lobo marrom esconde seu rosto e ele parece não me notar.
Uma enfermeira passa ao seu lado e nem parece sentir sua presença. Está carregando uma pequena bandeja de alumínio com duas seringas.
Meu coração dispara. Ele veio...
– Bianca. – uma das enfermeiras toca em meu ombros – Vamos.
Corro na direção da enfermeira com as bandejas e agarro uma das seringas, as minhas enfermeiras gritam logo atrás de mim. Não vou permitir que ele acaba com tudo de novo, estrague minha vida de novo. Quem pensa que é para voltar assim?
– Vou acabar com você! – grito e pulo em seu pescoço no momento em que ele vira, acertando a agulha em suas costas na altura do pescoço.
Inúmeras; é a quantidade de vezes que consigo acertá-lo até muitas mãos me tirarem de cima de seu corpo e me afastarem. Estou com as mãos um pouco sujas de sangue e o homem grita de dor. Sorrio.
Há tantas pessoas de branco aqui que chega a dar ilusão de ótica. Por que estão socorrendo ele?! Precisam deixar ele morrer! O que estão fazendo? Não é para salvá-lo! Parem com isso agora!
Com uma piscada de olhos, o Lobo se transforma em um enfermeiro com a roupa ensanguentada. Arregalo os olhos enquanto sou afastada a força. Como ele consegue fazer isso? Está se camuflando nas pessoas.
– Não! – grito – Vocês não podem ajudá-lo!
Os enfermeiros agarram meus braços enquanto uma enfermeira se aproxima com uma injeção.
– Vocês não podem fazer isso comigo! – debato-me – Ele está enganando vocês, acreditem em mim, por favor! É o mestre dos disfarces. Vocês não podem deixar ele se aproximar para o bote. Precisam matá-lo agora!
Eles não me escutam. Por que ninguém me escuta? Qual a dificuldade de acabar com ele? Por que não querem acabar com ele?
– Por favor! – suplico e me debato – Ele matou minha vó...
As lágrimas brotam em meus olhos.
– Ele me matou. – balbucio entre as lágrimas – Precisam matar ele também! Me deixe matá-lo, só isso que peço.
Uma picada aguda atinge meu braço, tento afastar meu corpo do objeto, mas estou imobilizada.
Lentamente, paro para observar a cena. Não há sanidade, raciocínio, inteligência, pessoas, racionalidade, ajuda – tudo aqui não passa de máquinas programadas para nos fazer acreditar que estamos cada vez piores.
Como matar o Lobo se não dá para matar o que não existe. Como?
Não sou uma das melhores e nem uma das piores que está aqui. Já fui uma menina normal com uma vida em mãos, com escolhas e sonhos. Tive objetivos a cumprir e metas a seguir, fui uma boa garota. Inocente.
Mas eu disse adeus, Inocência.
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