– Por que você não vai tomar um banho? – mamãe esfrega minhas costas.

Passo a mão no rosto e respiro fundo. Do que adianta chorar? Nada vai mudar mesmo. Levanto e subo as escadas devagar. Vou direto para o banheiro e tomo uma ducha rápida. É como se meu corpo tivesse se tornado algo mecânico, sem precisar do auxílio de meu cérebro, que está entorpecido por tudo.

Ah, Helena, me diga, por que nós? Não poderia ter sido outra garota a morrer e outra garota a parecer com a morta? Você poderia estar viva e o Malic psicologicamente saudável.

Termino o banho e vou direto para o quarto, coloco uma roupa e deito da cama. No meio de minha muda de roupa usada meu celular vibra três vezes seguidas com o toque que coloquei para minhas mensagens. Pendo o braço para fora da cama e pego-o do meio das vestimentas. São mensagens do Malic.

Fecho os olhos por um tempo e largo o celular no chão. Não, chega. Viro para o outro lado e coloco o travesseiro na minha cabeça.

Deixa. Não posso mais alimentar essa obsessão dele, não posso ser quem ele quer que eu seja, não posso fingir ser a Helena; não aceito esse papel. Ele sempre foi uma sensação, nada mais. Respiro bem devagar, para aliviar a dor em meu peito. Deixa assim. Um dia ele irá esquecer de mim e assim será melhor.

O celular vibra mais uma vez.

Por favor, vá embora. Aperto o travesseiro na minha cabeça e fecho os olhos. É assim que terei paz.

Relaxo o corpo e posso dormir.

Sonho com Malic e um com um lobo que uiva o sonho todo. Sei que não sou eu de verdade, posso sentir que sou outra pessoa, não fisicamente, mas psicologicamente. Malic me olha diferente e me trata diferente. Estamos em seu apartamento e sua mascará de lobo está em cima do balcão da cozinha. Quero tocá-lo, porém nunca consigo. Apenas no final do meu sonho consigo sentir sua pele contra a minha e tudo parece se acalmar em meu corpo, então ele diz as palavras mortais:

– Eu te amo, Helena.

Acordo.

**

Faz uma semana que eu acordei da sensação. Minha mãe teve que voltar para trabalhar e eu mal saio de casa – não tenho mais carro e a preguiça é maior que a vontade -, as meninas falaram sobre o acidente e acabei criando assunto para o resto das férias com isso. Malic me envia mensagem todos os dias e faço questão de ignorá-las.

– Estou indo no mercado com o Israel, quer ir? – vovó me encara da porta.

Deito no sofá.

– Não, obrigada.

Escuto-a fechar a porta e descer as escadas da varanda. Sozinha, finalmente.

Ligo a tv e continuo conversando no grupo quando a ação é interrompida por uma chamada do Malic. Meu coração dispara.

Sento e encaro a tela do celular. Não posso atender, preciso me manter firme. Se eu escutar a voz dele irei perder toda a resistência que tenho criado esses dias. Não posso. O celular continua vibrando e meu coração acelerando, querendo atender, indo contra a minha razão. Aperto o celular.

O que estou fazendo? Não posso sumir assim, sem dar explicações. Ele irá perceber e isso é tudo que menos quero.

– Oi. – murmuro.

– Nossa, achei que estivesse morta. – posso sentir seu alívio – Não viu que te mandei mensagem?

– Não.

– Por que não?

– Hm... Porque eu... É que... Semana que vem é aniversário da minha vó e eu tenho que ajudar aqui em casa.

Será que ele sabe sobre Helen?

– Fala que mandei parabéns adiantado. – ele está sorrindo, sei que está.

– Tudo bem.

Faz- se silencio e sou capaz de escutar a sua televisão.

– Você está bem?

– Estou. – minto – E como está aí?

– Está normal. Acabei de descobrir que meu irmão tem uma namorada.

Sorrio.

– Hm.

– Você está fazendo alguma coisa?

– Não, por quê?

– Não quer conversar comigo? É esse seu problema?

Permaneço em silêncio.

– Não... – sopro as palavras para fora – Só estou cansada. Pode continuar falando, gosto de escutar sua voz.

– Não gosto de falar com as paredes.

Mordo o lábio inferior.

– Está falando comigo e não com as paredes.

– Não é isso que estou sentindo. O que aconteceu?

– Nada.

Ele suspira.

– Tudo bem, vou desligar.

– Não! – a urgência em minha voz me assusta – Gosto de escutar sua voz. – repito.

– Também gosto de escutar a sua.

Seria tão mais fácil se você estivesse aqui para se defender da sua mãe e me dizer que tudo isso é mentira, que é invenção dela para nos afastar. Gostaria tanto de estar abraçando você e apreciando suas tatuagens, sentindo seu calor. Por que os Estados Unidos não é aqui do lado? Por que você não está aqui ao meu lado?

Uma dor aguda no fundo de minha garganta denuncia meu choro.

– Quando vai voltar?

– Talvez no final do ano.

– Gostaria que você voltasse amanhã pra gente conversar.

– Podemos fazer isso agora, estamos conversando.

Não sobre o que quero falar.

Às vezes meus sentimentos brincam com minha razão e me fazem acreditar que se ele falasse que me ama como a Bianca – nem que isso fosse uma mentira -, eu me sentira melhor e seria capaz de acreditar.

A campainha me assusta.

– Tem alguém batendo na porta. – aviso.

– Vai desligar?

– Acho que sim. – digo com hesitação e sento.

– Beleza. – ele respira fundo – Amo você.

Fecho os olhos e suspiro. Incapaz de devolver a declaração.

– Se cuida. – desligo e encaro meu celular.

Isso tudo é uma maravilha. Jogo o celular para o lado e vou até a porta, destranco-a e dou de cara com o Matthew.

– Desculpa vir só agora falar com você. – ele dá um sorriso tímido – Estava só dando um tempo.

– Está tudo bem. – abro mais a porta – Entra.

– Na verdade, queria saber se quer dar uma caminhada. – ele endireita o corpo.

– Caminhar aonde? – franzo o cenho.

– Na trilha. – ele diz óbvio.

– Já vai escurecer. – hesito.

– Faltam três horas para escurecer. – ele olha no celular – Dá pra dar uma boa caminhada.

– Por que quer dar uma caminhada?

– Não me encha de perguntas. – ele resmunga.

Reviro os olhos e sorrio.

– Só vou calçar um sapato decente.

Após calçar um tênis e desligar tudo dentro de casa, saímos. Está um vento gelado aqui fora e na trilha parece estar mais frio ainda.

– Vai voltar a morar aqui? – ele coloca a mão no bolso.

Chuto um graveto.

– Não sei. – sussurro – Ainda tenho medo.

Posso senti-lo revirar os olhos.

– Se esse Lobo cumprisse suas palavras, você já estava morta.

– Como assim? – franzo o cenho.

– Se fosse para te matar, você já estava morta. – ele me encara com os olhos verdes, frios.

Coloco as mãos nos bolsos e respiro fundo. Em parte, ele está certo.

– Fiquei sabendo que atropelou a Helen. – um sorriso se forma em seus lábios e ele parece até se divertir em falar sobre isso– Sabe como ela está?

– Não me lembre disso e acho que ela está passando bem.

– Achei que ela estivesse morta.

– Deus me livre.

Ficamos em silêncio, escutando apenas nossos passos pesados e os poucos pássaros que ainda cantam.

– Vamos falar de alguma coisa. – ele abaixa para pegar um graveto.

– Que tal falarmos sobre a Helena? – ergo uma sobrancelha. Talvez tenha sido um pouco invasiva.

Ele olha para o chão por um momento e depois sorri.

– Olhar pra você é como olhar para o fantasma dela. – ele diz com certo humor.

– Disso eu sei.

– O que quer saber sobre ela? – ele joga o graveto em uma árvore.

– Quando namorou com ela?

– Bom, quando eu tinha uns 12 para 13 anos meus pais brigaram e minha mãe acabou saindo de casa e me levou junto. Fomos morar com minha vó na cidade e quando estava no primeiro ano do colegial conheci a Camila e começamos a namorar.

Não pedi para ele me contar a história toda, mas tudo bem.

– Terminei com ela no final do segundo colegial porque minha mãe resolveu voltar pra casa e perdoar o meu pai. Sei lá, namorar a distância seria bem estranho e eu já não era ótimo ficando perto, imagina longe. Enfim, conheci a Helena no terceiro colegial, mas não na escola.

– Onde a conheceu então?

– Aqui na trilha mesmo. – ele dá um sorriso sem jeito – Ela estava fazendo uma de suas corridas diárias e eu só estava caminhando pra ficar um pouco sozinho. Ainda sentia alguma coisa estranha pela Camila, mas Helena me fez esquecê-la. Foi como um remédio pra um dependente, me curei do vício me drogando com remédio.

– Você gostou mais dela do que de Camila?

– Não gosto de admitir, mas o amor dela era diferente comigo, sabe, ela era uma menina diferente e tão bonita. Seria impossível não se apaixonar. Só que ela parecia não se apaixonar por ninguém, não era grudenta e nem carinhosa. Camila era a água e ela o vinho. Oito e 80. Amei as duas de formas diferentes.

Mordisco a unha do meu dedão.

– Ela foi uma peça fundamental do passado para me transformar no futuro. – ele suspira – Eu não queria... Não queria tê-la perdido. Pelo menos não desse jeito.

– Você teria perdoado a traição então?

Ele para de caminhar e cutuca a terra com a ponta do tênis.

– Acho que sim. Eu a amei demais e conseguiria engolir uma traição para tê-la só pra mim, mas não foi isso que ela fez. Helena preferia ser de vários a se prender apenas em um. Talvez ela tivesse medo do amor ou de depender de outra pessoa.

– Nossa, nunca achei que você seria capaz disso. – confesso. Tenho uma impressão muito errada do Matt.

– Amor não é cego, Bianca, ele é louco. – ele passa as mãos no cabelo e volta a colocá-las nos bolsos da calça jeans.

Completamente insano.

Passo o braço pelo seu e encosto a cabeça em seu ombro.

– Sinto muito pelo o que aconteceu com ela. – murmuro.

Ele permanece em silêncio.

– Também sinto por ser tão parecida com ela. – concluo.

– Você é a Bianca e não, Helena. – ele diz, sério – Nunca se compare a ela.

Encaro-o.

– Obrigada. – sorrio.

– Nunca se esqueça disso.

– Então você consegue gostar de mim como Bianca? – questiono.

– Mais é claro que sim. – ele sorri – Por que não conseguiria?

Dou de ombros. Seria bom você perguntar isso para o Malic, talvez ele saiba responder. Contraio os lábios com o pensamento e abaixo o olhar.

– É o Malic? – posso sentir seu olhar em mim – Esqueça ele, é melhor.

– Não dá para esquecê-lo.

Matthew para de andar e me faz virar para encará-lo.

– Claro que dá. – ele apoia as mãos em meus ombros – Posso te ajudar.

Estreito os olhos. Me ajudar? Rá. Dispenso esse tipo de ajuda.

– Matthew eu... Sabe... – me afasto alguns passos.

Na escuridão, seu rosto fica mais angular e sombrio – só consigo ver o verde de seus olhos e ainda assim estão um pouco opacos.

Talvez um movimento em falso dos meus pés ou um desequilíbrio por pisar em uma pedra solta. Não sei o que acarretou meu tombo, só pude saber que estava caindo. Bato a cabeça em algo duro e áspero, tudo fica branco e silencioso.

Meu corpo está mole.

Algo quente envolve meus ombros e pernas, parece que sou erguida do chão. Consigo abrir os olhos e minha visão está turva. Vejo o rosto de Matthew.

– Está tudo bem. – ele sussurra – Estou aqui.

Quero falar alguma coisa, mas não tenho voz e nem força. Estou tonta.

– Vou cuidar de você.

Minha cabeça pende para trás, minhas pálpebras ficam pesadas demais e a visão desfoca, escurecendo.

Notas finais
Well... Sinto informar que irei ficar uma ou duas semanas sem atualizar aqui devido a uma viagem. Sorry.